Notas iniciais
E chegamos ao final de mais um ardo sobre os Andares do Brasil de 2089. Em breve um último arco será escrito, envolvendo os absurdamente ricos moradores da Cobertura, literalmente o topo da piramide social do futuro.

O urro gutural ecoou novamente dentro da galeria, destruindo algumas paredes holográficas que traziam obras de arte contemporâneas, cada uma valendo milhões, esperando para ser baixadas.

Um verdadeiro tesouro que fora reduzido a pixels flutuantes, que iam desaparecendo lentamente, conforme uma luta demoníaca tinha início.

Touro estava cercado por vários Legiões, que se lançavam ao combate sem hesitar, alguns sendo eviscerados pelos imensos chifres negros do monstro que em nada lembrava o homem que ele havia sido.

Canina se arrastou até onde jazia Alek, constatando com alívio crescente que o antigo companheiro e amante ainda estava vivo, por pouco, mas ainda havia esperança para ele.

Ela o levou até o local que parecia mais seguro, em meio àquela balbúrdia do combate, conseguindo escapar, com muita sorte, de vários corpos que eram jogados longe.

— Você não pode vencer o Legião... — um dos demônios permanecia afastado, conforme seus pares continuavam naquele frenesi suicida. — Somos muitos e...

A frase foi interrompida de repente, quando ele recebeu na cabeça a parte de cima de um dos demônios, cujas pernas acabavam de ser descartadas como lixo.

— Cale-se... Lixo...

— O quê? Você está falando? Mas isso é impossível! — a surpresa se refletia em vários rostos. — Afinal de contas, o que você fez?

Um sorriso medonho se desenhou no rosto daquele que era uma representação demônica do Touro zodiacal para, logo em seguida, se lançar ao ataque, derrubando todos os inimigos que tentavam lhe barrar o caminho.

A mente de Lenin, aprisionada no corpo monstruoso, sem outra escolha, deixou a fúria tomar conta e se recordou de como ele chegara até ali.

XXX

— Vou me preparar também, mas de outro jeito...

Lenin se dirigiu à saída mais próxima, mas antes de ganhar as calçadas elevadas do Vigésimo Quinto Andar, deu uma última olhada para o amigo que aprendera a amar como um irmão.

Ele também viu, através das paredes transparentes de plexiglass da sala de reuniões, a mulher que o havia conquistado apenas para destruir seu coração logo em seguida.

Quando o familiar clic que indicava o fechamento da porta soou atrás de si, com sua decisão irrevogavelmente tomada, ele cerrou os punhos, as unhas chegando a ferir levemente a carne, quando lembrou da imagem do melhor amigo, praticamente desmaiado de cansaço, nu, em meios aos lençóis de sua cama.

Abraçada a Alek, estava Melina.

Ela havia mexido com Lenin como ninguém antes e ele, normalmente sempre fechado e sisudo, aprendeu a amar, mas logo ficou claro que a caçadora de assassinos tinha noções diferentes sobre relacionamentos.

Foi numa noite em que ele pretendia convidá-la para morarem juntos que seu mundo caiu e agradecendo a um deus quase esquecido, saiu de lá sem ser percebido, respondendo a um chamado.

Lenin, ainda atordoado, foi o primeiro a chegar até o local, acabando por se envolver numa luta entre um caçador de demônios e um monstro, um pobre coitado que havia sido possuído.

O oficial terminou extremamente ferido, mas ajudou o caçador, mais servindo de distração do que aliado, o que lhe garantiu um favor, que poderia ser pedido a qualquer momento.

Ele nunca contara a ninguém sobre o que enfrentara naquela noite, mas Lenin acabou mudado para sempre, se aprofundando secretamente no estudo de anjos, demônios e outras criaturas que, mesmo já tendo suas existências reveladas, ainda caminhavam pelos campos do mito.

Foi exatamente por isso que ele, já sabendo o que provavelmente iriam enfrentar, foi atrás o caçador e, em meio a uma escuridão incomum, aceitou uma proposta que o transformaria para sempre.

Mas se for para mantê-los vivos, vai valer a pena afinal.

Quando o momento chegou, com quase toda a equipe de assalto caída pelo chão do estúdio, mortos ou moribundos, incluindo seu melhor amigo e com Legião ameaçando a mulher que um dia lhe foi tão importante, uma decisão foi tomada.

Vai me aceitar totalmente humano? Sabe das consequências?

Ele sabia.

Ele aceitou.

XXX

— Chega!

Uma das versões do Legião se colocou diante de seu inimigo e firmando bem os pés, agarrou os imensos chifres negros, detendo assim o avanço do Touro.

Ambos ficaram momentaneamente como que congelados, cada um fazendo um esforço hercúleo para vencer o outro, o esforço era tamanho que, pouco a pouco, pequenas gotículas de suor começaram a brotar na cabeça do assassino.

Os corpos possuídos pelo Legião haviam se transformado, a altura chegava a mais de dois metros e meio, a pele apresentava um tom avermelhado, repleto de hematomas, resultantes da violenta mudança corporal.

Seus olhos estavam totalmente negros, os narizes iam se deformando, abrindo-se em duas fendas como as de um morcego, os dentes se transformaram em presas extremamente afiadas, os músculos se estendiam até o máximo que o corpo possuído aguentava.

Já seu oponente exibia uma metamorfose completa em nada lembrando o antigo hospedeiro, a musculatura era extremamente exagerada, impossível em alguns pontos do corpanzil que, se ficasse completamente ereto atingiria facilmente os três metros de altura.

Parte do rosto adquirira a cor negra dos chifres, ornados com desenhos demoníacos que pareciam pulsar com uma cor amarelada e doentia. Os dentes de cima e de baixo pareciam fundidos numa massa óssea que parecia impossibilitar a aberturada boca.

Era impossível saber, portanto, se quando ele urrava ao atacar era apenas por ódio ou pela dor também.

Naquele momento Touro já estava encharcado pelo sangue dos corpos de seu inimigo que ele massacrara, todos voltando a ser humanos assim que caíam, muitos aos pedaços, no chão.

Algo em comum a todos os mortos era uma cicatriz em forma de pentagrama, sinal do pacto que haviam feito com Legião que os usava ao bel prazer, muitas vezes sem nem mesmo realizar os desejos que lhe eram feitos.

Desse modo, poucos instantes antes de morrer a mente dos possuídos era libertada, para que eles pudessem perceber seu erro, aumentando assim sua agonia final.

O que parecia ter durado uma eternidade para os olhos petrificados da Canina, mal passou de minutos de um combate feroz e monstruoso, quando finalmente havia sobrado apenas duas criaturas em pé.

— Final... Mente... — os esgares dolorosos de Touro o faziam economizar o que era dito. — Vou... Des... Trui... Vo... Cê...

— É a primeira vez em séculos que vejo um avatar zodiacal emitindo algo parecido com uma frase... O macaquinho aí deve ser bem especial... Quanto eu te destruir, vou fazer questão de inclui-lo no meu próximo exército.

Dito isso Legião atacou, demonstrando uma velocidade impossível, cruzou o espaço que o separava de seu inimigo e encaixou um potente soco no meio do rosto do Touro que, sem conseguir oferecer resistência, literalmente voou até o outro lado do estúdio, não atravessando a parede por pouco.

Ele ficou com o corpo estendido em meio aos detritos resultantes do impacto, que iam caindo sobre ele, levantando uma leve nuvem de poeira.

De repente foi como se uma lufada de vento espalhasse a sujeira e só tarde demais a mente do monstro caído registrou que era o ar sendo deslocado conforme o Legião voltava a atacar.

O demônio assassino desferiu centenas de golpes, os braços se movendo mais rápido do que os olhos aprimorados da Canina conseguiam acompanhar, tingindo as paredes próximas com sangue, carne e pedaços de ossos do gigante caído.

Uma pausa.

O corpo possuído por Legião estava se esgotando, em breve o demônio teria de saltar sua consciência para outro corpo e o mais próximo era o da única pessoa ainda consciente no local.

— O.. Quê? — de forma surpreendente, Touro agarrou o braço de seu oponente e foi se erguendo lentamente, conforme seus ferimentos iam se fechando, até que ele se recuperasse e endireitasse o corpo. — É... Só... Isso?

Sem esperar uma resposta, um punho gigantesco desenhou um arco perfeito no ar, terminando por explodir a mandíbula do demônio, fazendo com que ele fosse jogado contra uma das poucas paredes que ainda não tinha sido destruída.

Legião mal teve tempo de recuperar o fôlego e logo seu peito recebia uma perfuração mortal, conforme um dos chifres do inimigo se afundava no peito, deixando à mostra sua ponta pelas costas do outro.

O Touro ergueu a cabeça e junto dela o corpo de seu inimigo, urrando em comemoração, visto que Legião parecia ter desistido, ou aceito seu destino, parando assim até de se debater.

Uma mão imensa agarrou o demônio assassino e o puxou lentamente para cima, aumentando assim a agonia conforme o chifre ia saindo de seu corpo, soltando-o no chão como quem acaba de largar uma trouxa de roupas sujas.

— Acha que isso vai me deter? — entre uma golfada de sangue e tosse catarrenta, o demônio ainda provocava seu inimigo. — Só me venceu porque esse corpo é uma merda... Se estivéssemos no inferno...

Sem aviso algum, Touro agarrou o outro pelo ombro esquerdo, esmigalhando os poucos ossos ainda inteiros, arrancando um sofrível gemido de dor para, logo em seguida, fazer algo que nem mesmo Legião esperava.

Para horror da pobre expectadora, Canina ouviu o som gutural de algo sendo sorvido, como alguém que toma algum líquido através de um canudo, preenchendo o ambiente.

Logo em seguida o Touro largou o que restara do corpo do pobre homem que havia sido possuído, agora nada mais que uma múmia, já em avançado processo de decomposição que explodiu numa nuvem de pó mal cheirosa assim que atingiu o chão.

Estava acabado.

Melina sentia-se dividida entre aliviada e assustada, se o monstro diante dela resolvesse por um fim ao seu sofrimento não havia nada que ela pudesse fazer.

Foi quando aconteceu a última surpresada noite.

Touro se voltou para aquela que um dia seu hospedeiro amara, acenou um adeus e se lançou contra a parede do estúdio que dava para as costas do prédio, sumindo rapidamente, atravessando as calçadas elevadas, descendo pelos Andares inferiores.

Naquele instante os comunicadores voltaram a funcionar e Canina conseguiu chamar ajuda para Alek, mal conseguindo explicar o ocorrido para seus superiores que, mais uma vez, tiraram seu status de membro ativo do Globo Ocular.

Semanas se passaram desde o ocorrido e Melina voltara a sua antiga casa, tentando em vão esquecer daquela noite, entregando-se a toda sorte de entorpecentes em que conseguia colocar as mãos.

Recebeu apenas uma vez um recado de Alek, dizendo que ele continuava a procurar Lenin, mas que não tivera sorte.

Ela sabia que provavelmente nunca voltariam a encontrá-lo e por isso seu espanto ficou evidente quando bateram à sua porta, certo dia ao pôr do sol.

— Olá... — o homem diante dela estava mudado, barba por fazer, cabelo comprido e levemente desgrenhado, nos olhos um misto de determinação e tristeza, mas ainda assim muito bonito. — Estou numa caçada e precisava de um Perdigueiro... Você sabe de algum que eu possa contratar?

Ela sorriu. Ele entrou. Permaneceram trancados no quarto durante uma semana e logo depois uma dupla de caçadores de demônios ganhou o mundo, que nunca mais seria o mesmo.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura! Se chegou até aqui não se acanhe, faça comentários, críticas, tudo o que você quiser, assim me ajuda a crescer como escritor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!