Futuro

1 Capítulo Único


Notas iniciais
* Créditos da capa ao blog Castle Edits, a Hyourin. Fanart da autoria de BlancaVenus. * Espero sinceramente que possam gostar de Futuro, tentei ao máximo captar a essência dos personagens. Deixo desde já o aviso, que esta é uma oneshot bem simples. Sem um grande enredo ou reflexão, apenas me foquei num momento curto e fofo HitsuKarin que gostei de imaginar. ** Obrigada por ler! **

A forma como o tempo desenrolava-se era mordaz, mais propriamente, estouvado. Uma hora assemelhava-se a uma redução drástica a segundos, enquanto uma manhã ilusoriamente prolongava-se por semanas. Entediado, era o sentimento que caracterizava o capitão do décimo bantai, Hitsugaya Toushirou.

As curtas madeixas brancas arriavam por sua face, num adorno singular dos olhos verde-água. Seu kimono negro e haori superficialmente abertos na região do peito, acentuavam seus traços mais maduros. Da aparência de um jovem, conquistou a fisionomia de um homem. Uma beleza exótica cobiçada, e fatal. O capitão de gelo não era apenas um título. Sua seriedade com o cargo mantinha-se, era extremamente exigente com o respeito, não tolerava desacatos ou insinuações, partissem elas de qualquer origem.

No primeiro esquadrão, os treze capitães estavam reunidos, escutando a capitã Soi Fong pronunciar-se monótona sobre a tranquilidade dentro dos muros da Seireitei. Após a fastidiosa guerra contra os quincys, a paz prolongou-se durante décadas, apesar da ameaça sempre poder ressurgir, o Gotei 13 mantinha sua força e sempre dizimava qualquer indício que pudesse aflorar uma nova calamidade.

Toushirou mantinha sua face indiferente a qualquer emoção, porém, o seu estado de espírito era facilmente compreendido e partilhado pelos outros membros: tédio. Contava mentalmente evitando suspirar aborrecido ou franzir o cenho por cada anotação, estupidamente e minuciosamente analisada. Todas as semanas, existiam encontros na qual debatiam-se os mesmo assuntos.

O Capitão-Comandante Kyoraku com uma expressão sonolenta, num discreto bocejo, optou por dispensar os outros líderes dos esquadrões, encerrando aquela reunião. Quase imperceptível, Hitsugaya suspirou de alívio. Não fez o habitual caminho para o seu bantai, onde uma irresponsável tenente dormia sobre os relatórios inacabados, após beber todo seu saquê. Na verdade, estava evitando lembrar-se da personalidade da irresponsável Matsumoto, não queria irritar-se.

Manuseou o shunpo ágil e veloz, numa inquietante agitação em alcançar seu destino. Quase sorrateiro, adentrou em sua casa, ligeiramente afastada das restantes residência, usufruindo de um maior silêncio e sossego. Limitou-se a empurrar a porta destrancada, deparando-se de imediato com sua esposa, sorrindo ao recebê-lo. Com certeza, detectara-o pela sua reaitsu quando aproximou-se da habitação.

— Toushirou, como correu a reunião? —Arqueou a sobrancelha percebendo a malícia jocosa em seu tom. Não conseguiu evitar um pequeno sorriso pelo facto de estar em casa.

— Igual a todas as outras.

A mulher não disfarçou a sua diversão com os sucessivos encontros dos taichos antes do alvorecer, prolongando-se sempre umas cinco horas. No entanto, era um excelente método para seu marido regressar -sem delongas- a casa, ignorando a papelada ou qualquer outra responsabilidade competente a um capitão. Toushirou trabalhava demais, e isso já tinha sido motivo para brigas entre o casal. E as reuniões longas e inexplicavelmente cedo, obrigavam-no a retornar ao seu descanso impedido. Pelo menos uma vez por semana. Estava gostando daquela medida do Comandante.

— Parece feliz com isso. —A mulher acenou em concordância, fazendo com que este franzisse a testa superficialmente irritado.

— Na verdade, sim. —Alargou seu sorriso, confessando descarada, colocando o dedo em seu queixo falsamente pensativa, e sarcástica. — Estava pensando em dizer “bem-vindo de volta a casa, Toushirou-kun”, o que acha?

— Está de bom humor, Karin.

A morena rodou o pescoço mantendo os braços cruzados sobre os seios médios, seu cabelo longo negro descia pelo ombro, contornando a silhueta até alcançar a cintura, apanhado num coque alto. Seu corpo ganhara traços curvilíneos e firmes, contudo, os olhos ónix mantiveram-se exactamente os mesmos. Pormenor que agradava a Hitsugaya.

Aproximou-se a vagarosos passos de Karin, sentindo o sorriso jocoso ganhar uma expressividade distinta. Observando-a malicioso, pousou a mão em suas costas a empurrando contra seu peito. Os dedos subiram pelo pescoço alvo, mantendo o indicador no queixo desta, o ergueu, beijando-a. Apoiada na ponta dos pés, Karin enrolou os braços envolta do pescoço de Hitsugaya, suspirando quando ele mordeu seu lábio superior o puxando sem delicadeza. O braço envolta da sua cintura, apertou mais o corpo feminino contra si, abaixando a alça da camisa carmesim, deslizando-a pelo ombro.

— Quem diria que o pequeno Shiro-Shiro se converteria num pervertido. —Toushirou estancou quando reconheceu a voz falsamente dramática, escutando Karin resmungar de algo que tinha esquecido, afastando-se.

Na retaguarda de Karin, encostado na parede que interligava a entrada com a sala, estava um homem extremamente semelhante com a sua esposa, com um largo sorriso pendurado na face, trajando um sobretudo de shinigami negro, envolto com um haori na cintura. Do mesmo esquadrão que ele.

— Shiba-Taicho. —Sibilou entre dentes, claramente furioso, finas camadas de gelo subindo pelas paredes. — Posso saber o que está fazendo na minha casa? —Enfatizou o «minha», encarando o sogro fulminante, que não se abalou minimamente com a queda drástica de temperatura.

Apesar de conhecer o novo apelido do patriarca Kurosaki, não conseguiu eliminar os antigos costumes presos em sua memória. Aquele que ele mais respeitou e admirou, seu ex capitão.

— Não é óbvio? —Fez-se de ofendido quase choramingando. Movendo-se fazendo menção de abraçar a morena que apenas esquivou-se friamente do seu afecto.— Vim visitar minha filha ingrata, que abandonou o pai!

Karin revirou os olhos, sem paciência. Pelo que conseguiu perceber, Isshin já deveria ter esgotado toda a serenidade da esposa no tempo em que ele esteve ausente. Suspirou nitidamente cansado, não lhe restava nenhuma tão pouco.

— É assim que trata o seu pai que o veio visitar de tão longe, Shiro-Shiro?

Veias pulsavam notoriamente na testa do albino que contorcia-se raivoso pelos apelidos que ainda o assombravam. A morena, que mantinha-se ausente do diálogo, riu alto perante a carranca de seu marido. Regularmente, Isshin Kurosaki invadia a habitação Hitsugaya disposto a provocar o capitão, visitas que sempre terminavam em temperaturas negativas.

Inutilmente, Toushirou ignorava as provocações do Kurosaki. Sempre que recompunha seu poder espiritual, um novo ataque o conduzia ao descontrole. Observando-os intrigada, Karin tinha um largo sorriso enfeitado entre as maçãs rosadas. Era estranho para ela ainda recordar de como sua vida se transformara. Viver na Soul Society, casada com um capitão, aquele que conheceu quando era criança não fazia parte de seus projectos. Contudo, era fascinante como estava gostando de toda a sua vida. Ou morte.

Seus poderes na adolescência ultrapassaram o comum, não que isso fosse imprevisível vindo de um membro da família Kurosaki. Quiçá, tendo em conta a reaitsu alta que era um chamariz para hollows, atraindo o perigo aos humanos, e todo o historial histórico da sua família, foi permitida a sua entrada e permanência na Seireitei, e num dos treze esquadrões, pela Central 46.

Todavia, a segunda parte da oferta foi prontamente recusada. Karin não queria ser uma shinigami. Pretendia aprender a mestria dos combates, a proteger as almas e seus amigos e familiares. Contudo, não estava disposta reger-se às burocracias e ensinamentos programados pela Sociedade das Almas, que na sua modesta opinião, eram chatos. Optou por pedir ajuda ao seu irmão e a Toushirou, ambos a ajudaram a desenvolver seu poder espiritual, superando o de um tenente. Ela estava orgulhosa de suas conquistas, mesmo que por um meio diferente do que impunham na Seireitei. Sempre ficava enternecida por o capitão do décimo bantai nunca a ter pressionado para mudar sua escolha, sempre a apoiou, sem questionamentos ou interrogatórios.

Ela não era mais a menina fraca que chorava por tudo. No entanto, também não era a mesma adolescente que chutava com uma bola de futebol para intimidar o inimigo, mesmo sabendo que nada mais poderia fazer que isso. Karin sabia que agora poderia fazer muito mais. A maturidade fez com que se tornasse mais confiante, e mais calma quanto à impulsividade característica pelas acções imprudentes usuais em sua família. Ainda assim, seu temperamento mantinha-se feroz nas suas atitudes e feições, com uma peculiar rigidez e frieza em suas palavras sinceras. Afinal, Karin Kurosaki era assim. Corrigindo, Karin Hitsugaya impunha-se com essa apresentação. Igualando e intimidando seu marido.

Isshin cutucava o albino continuava a ignorá-lo, percebendo a momentânea distracção de sua filha, assumiu uma expressão séria, mantendo ainda assim a suavidade.

— Obrigado por fazer minha filha feliz, Toushirou.

O olhar de Hitsugaya desviou-se para o moreno mais velho, o encarando com uma sincera felicidade e orgulho. Suas palavras não o surpreenderam de todo, respondendo com um discreto sorriso. Assistiu o Kurosaki observar Karin longamente, sorrindo fraternalmente, antes de desaparecer no shunpo, sem despedidas. Hitsugaya ergueu as íris verdes de tom aguado para a mesma direcção do seu ex capitão antes deste ir embora. Encaminhando-se para esta que estava voltada de costas para si, não pressentindo sua aproximação. Agarrou sua cintura, abraçando-a, aproximando os lábios do seu ouvido.

— No que está pensando? —Karin estremeceu com a respiração quente, fazendo com que ele risse divertido.

Inspirou, ignorando os calafrios que desciam sua coluna. Não conseguia acostumar-se com o mínimo toque de seu marido.

— Estava pensando que você não cresceu muito nestes anos, aluno do ensino primário. —Respondeu zombeira, sentindo os braços ficarem tensos, claramente incomodado. Toushirou sempre se irritava fácil quando o assunto era sua altura.

Riu alto com essa rápida constatação, tendo sua cintura rapidamente virada contra o peito dele. Fechou os olhos ao sentir um golpe na sua testa, franzindo a testa frustrada perante o sorriso sarcástico. Odiava aquele gesto, parecia que a tratava como uma criança.

— Quem de nós é o anão de jardim agora? —Ela ergueu uma sobrancelha intrigada e divertida, quase respondeu as mesmas palavras guardadas em seu subconsciente “ninguém falou em anão de jardim”.

— Perdoe minha ousadia Hitsugaya-Taicho por mencionar a sua baixa estatura. —Veias sobressaíram-se pulsando na pele bronzeada do albino que mordeu o lábio, murmurando baixo: “continua a mesma”.

Com os dedos entrelaçados nas madeixas brancas em sua nuca, Karin puxou seu pescoço, pressionando sua língua contra os lábios dele. Suspirou quando este entreabriu a boca, numa invasão prazerosa. Prendia os cabelos brancos entre seus dedos, os puxando. Numa ânsia desesperada, Toushirou sugava o lábio inferior, passando com a ponta da língua em seguida sobre a textura macia inchada. Entreabriu os olhos, admirando a face avermelhada, com a respiração entrecortada. Recuperando o fôlego, mantinham as testas juntas, roçando os narizes e encostando superficialmente os lábios.

— Toushirou.

— O quê? —Ela permaneceu algum tempo em silêncio, divagando perdidamente entre suas ideias, enquanto as íris verde-aguadas a encaravam curiosas.— Por quê eu? —Estranhamente, Toushirou compreendeu de imediato a pergunta invulgar.

Simplesmente por observar a dimensão ónix, ele entendeu. Raramente, Karin mencionava aquele assunto, quase sorriu ao relembrar aquele dia… o momento em que quebrou todas as regras, oficializando para si mesmo, que ele -um capitão- tinha-se apaixonado perdidamente por uma humana. Um sentimento que poderia comprometer seu cargo, seu maior feito e ambição.

FLASHBACK ON

Hitsugaya Toushirou estava no Mundo Real. Suas visitas não eram mais um fenómeno surreal, isto, se ele não estivesse de folga. Não tivera nenhuma missão convocada para o mundo dos vivos, apenas sentiu a estranha necessidade de visitar aquele espaço. Não consiga entender.

Distante, riu com a estranha coincidência, de encontrar a irmã de Kurosaki Ichigo, vagueando pela rua deserta, não a via à dezassete meses. A razão o alertava que ele não deveria manter-se em contacto com uma humana, obrigando-o a distanciar-se dela e daquele mundo. Contudo, numa inversão de funções, Hyourinmaru manifestou-se como um guia pela primeira vez naquele dia.

“— Siga-a.”

Ele simplesmente acatou a ordem de sua zanpakutou. Sem sua interferência começou a nevar, e assistiu a morena encarar fascinada os flocos de neve, um leve calor encheu o seu peito, e desconfiava do motivo.

— Toushirou. —Escutou a morena murmurar seu nome, ruborizando.

A Kurosaki pareceu perceber sua presença virando-se na sua direcção, surpresa. Ele não soube o que dizer, limitando-se a desviar o olhar. Curioso percebeu que ela não o enxergava com mágoa ou culpa, apenas sorriu-lhe calorosamente.

— Há quanto tempo, Toushirou.

— Hitsugaya-Taicho. — Rapidamente a corrigiu, mais por teimosia do que propriamente por incômodo. A morena limitou-se a sacudir os ombros, ignorando-o.

— Veio visitar a vovó? —Hitsugaya acenou concordando apesar de essa ser uma mentira, não era isso, mas ele não sabia ao certo o que era de facto.— Está mais calado que o normal, para alguém que ainda é um aluno do primário parece muito preocupado. —Bufou irritado, a encarando severamente.

— Quantas vezes tenho que dizer para entender que eu não estou…—Preparava um de seus estrondosos berros, contudo seu raciocínio foi interrompido quando subitamente esta aproxima-se o beijando no rosto.

Sua raiva dissipou-se entre o frio. Com o rosto vermelho, Karin sorriu sem se pronunciar, retornando ao seu trajecto até o campo de futebol, com sua bola de futebol, na mão direita. Não foi preciso expor um convite em palavras para ele ir treinar com ela.

Observando Karin afastar-se em passadas lentas, com os flocos de neve pousando em seu cabelo negro, criando um intrigante contraste, Hyourinmaru manifestou-se na mente do shinigami.

“— Você a ama, mestre.”

Sem pensar, num estímulo, respondeu sincero à sua zanpakutou.

“— Tem razão.”

Apressou os passos até ficar ao seu lado, e em silêncio, caminharam. Ambos sabiam que as coisas entre eles mudariam. Aquele silêncio não era imposto pela vergonha ou receio, mas por cumplicidade. As palavras não eram necessárias, porque tudo o que sentiam estava descrito na neve que pairava sobre eles. A neve os conectava, mesmo à distância de dois mundos.

FLASHBACK OFF

— Então…—Ele percebeu esta ficar irritada com a sua demora em responder, distraído em seus próprios pensamentos. Abaixou a cabeça até seu pescoço, limitando-se a murmurar.

— Porque…—Hesitou brevemente, reunindo as palavras mais adequadas—… minha alma escolheu você, Karin. Seria sempre você, em qualquer mundo.

A Hitsugaya corou, não era comum ele fazer-lhe declarações amorosas, mesmo estando casados há mais de cinco anos, seu marido continuava a ser um quebra-cabeças por resolver. Sorriu genuína, com as bochechas ligeiramente mais rosadas, afinal a neve daquele dia não era apenas um evento ocasional resultado pela Natureza.

— Toushirou. —Escutou ele murmurar algum som, como um sinal para ela prosseguir, riu travessa.— Diga ao Hyourinmaru que eu lhe agradeço. —Imediatamente, o capitão ruborizou, o calor de seu rosto foi evidente para a morena que gargalhava.

Entre duas almas conectadas, num futuro longínquo e não improvável, não havia abertura para segredos.

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