O mausoléu da Rainha era o único conforto que tinha, sentia o vazio causado pela perda de seu amor, sentia o desejo de estar completa novamente. Queria voltar no tempo para sentir o formigamento na boca do estômago, as mãos suadas e o coração acelerado e feliz como vinha fazendo com o rapaz ao seu lado, mas graças a salvadora de araque perdera aquela oportunidade de ouro que a vida lhe dera.

Olhava seu reflexo em seu espelho, a pele pálida e abatida contrastava com o negro dos fios de cabelo que lhe emolduravam a face bem feita. Os lábios carnudos demonstravam seu descontentamento com a vida nitidamente, mesmo que quisesse fingir estar tudo bem.

Seu semblante se fechou ainda mais ao ver o reflexo da loira invadindo seu espaço que devia ser pessoal, virando-se para pestanejar com um “quê” de revolta infantil.

-O que eu preciso fazer para que você me deixe em paz, Swan? – Seus olhares se cruzaram e enquanto a morena franzia o cenho, carrancuda, a loira o fazia em uma postura defensiva, como um cãozinho abandonado. –Vá embora!

-Eu sou uma idiota.

-Finalmente algo que nós concordamos.

-Idiota porque já cometi o mesmo erro.

Enquanto a xerife erguia um pouco o nariz, como quem não quer se deixar derrotar ainda que a batalha parecesse perdida, a mulher à sua frente cruzava os braços, fechando-se ainda mais à conversa.

-Me tirando do sério? Sim, você já fez isso.

-Não... Quando eu era mais nova... Eu conheci uma garota e nós tínhamos muito em comum, pensei que nós seríamos melhores amigas. –Regina começava a amolecer, tentou não demonstrar demais a forma como se permitiu ouvir aquela história, como a menção de compará-la à uma garota que ela tinha intenção de ser amiga, como se tivesse essa intenção consigo. –Mas ela mentiu pra mim e eu fiz de tudo para nos afastarmos. Ela me pediu perdão e eu não fui capaz de perdoá-la. –Um suspiro e revirar de olhos foram óbvios para a loira antes de fixarem os olhares uma na outra. –Demorou algum tempo, mas eu notei que errei e então já era tarde demais para consertar meu erro. O estrago já estava feito. Eu não quero cometer o mesmo erro com você, Regina. Vivendo aqui eu tenho meu filho, meus pais e eu amo todos eles... mas eles não me entendem. Eles não sabem como é ser rejeitada e incompreendida... Não do jeito que eu sei, do jeito que você sabe. Algo que nos torne únicas... Talvez até mesmo especiais

Por alguns segundos, o silencio reinou entre as duas e suas posturas estavam completamente mudadas. Regina parecia receptiva e embaraçada, as mãos presas uma na outra, os dedos entrelaçados atrás e seu corpo, a cabeça e o olhar vago, buscando qualquer lugar que não fosse o rosto da loira, que se aproximava ameaçadoramente, invadindo seu espaço pessoal na tentativa de provar seu ponto. Gesticulou enquanto continuava.

-Eu não estava te procurando para aliviar minha culpa... Eu só queria que você fosse minha amiga.

-Você pensou que fôssemos amigas?

-Loucura, né? Mas eu pensei que fosse possível e eu não vou desistir de você, mesmo que você ainda queira me matar...

Emma finalmente deixou que a morena voltasse a sua solidão, resolvendo indo embora ao ver que não tinha mais o que dizer ou fazer ali e a outra apenas observou por alguns segundos.

-Emma, espere. –As palavras foram suficientes para que ela parasse e virasse o corpo sobre os próprios pés, voltando a encará-la esperançosa e vê-la revirar os olhos. Regina agia como uma criança teimosa à sua frente. –Eu não quero mata-la.

-Viu? Já é um começo.

Never wanted anyone
Now somebody's here
Never missed anyone’s kisses
Now I need her near

Para Regina, o local onde pode ver uma nova Emma. Talvez nova esteja longe de ser a palavra correta, mas era como ela gostava de pensar. O sorriso no canto dos lábios podia ser notado por qualquer pessoa que a visse, embora buscasse esconder o que sentia, como se não tivesse direito a isso.

Era difícil de aceitar sua rendição à sua antiga arquirrival e no começo fora difícil crer na rendição dela, ainda que não tivesse certeza se compartilhavam a mesma onde de sentimentos, o mais importante era tê-la em sua vida, compartilhar semelhanças, pensamentos e tentar contornar as diferenças.

Never felt this happy
Never felt this strange
Funny how things change
Funny how things change

A mudança brusca em seu estilo de vida, em seus desejos, seus objetivos e sonhos não podia ser notada por ninguém, mesmo que fosse difícil de conseguir esconder, quase impossível de negar para seu filho ainda que estivesse enrolando o garoto com a Operação Mangusto.

Não esperava se apaixonar por ela. Não esperava se encontrar apaixonada por ela desde o começo. Era quase impossível se permitir acreditar em como não enxergou aquilo desde o início, como pode se envolver com a mãe de seu filho sem sequer perceber.

Era deveras estranho estar no mesmo ambiente que Emma, já que não explicitara seus sentimentos relacionados a ela –pelo menos não todos. O coração acelerava e o formigamento na boca do estômago era ainda mais intenso, a forma como a olhava quando se miravam, o brilho no olhar que compartilhavam não passaria despercebido por um observador mais atento.

Lived my life in starlight
Never saw the sun
Thought that I was heartless
Now my heart's been won
Thought that I was happy
Thought that love was strange
Funny how things change
Funny how things change

As visitas ao Granny’s se tornaram cada vez mais iluminadas, como se o sorriso da loira fosse seu sol, seu perfume, seu ar.

Não esperava a mudança interna que aquela bagunça lhe trouxera, mas podia sentir seu coração amaciando a cada dia, como se batesse normalmente, como se estivesse ali de verdade, puro como alguém que ama pela primeira vez sem ter se deixado tomar pelos sentimentos negros que a rondavam.

Walked into the fire
Smiled at the pain
Then when I had healed myself
I ran out in the rain

Regina buscou com todas as forças encontrar seu final feliz, lutou tão insistentemente por aquilo, pela felicidade que sentia no momento que parava para pensar se compensaria ter notado o que viria, notar que seria salva pela salvadora, sua cavaleira numa armadura branca que faria de tudo para ver o seu bem estar.

Valeria mesmo a pena deixar aqueles 3 anos de lado? As brigas, o companheirismo, as batalhas que travaram –independente de lutarem lado a lado ou contra.

O caminho parecera duro, dolorido. Causara-lhe uma porção de sorrisos quebrados e estilhaços ainda mais finos de seu coração já partido

Thought that I was crazy
Thought that I was strange
Now I know I'm normal
Funny how things change

Sempre fora egoísta demais para se permitir um sentimento como aquele, livre de cobrança. Sentira-se bem em conviver com ela no início, em ser sua amiga, sua companheira e partilhar os momentos, pensamentos e problemas que ninguém mais entenderia.

Era quase como se elas fossem uma só. Duas metades quebradas que se encontraram para curarem uma a outra.

Regina não era má. Regina era triste. Regina era uma pessoa carente e orgulhosa demais para aceitar Emma em sua vida, mas assim que viu o relacionamento delas por outra perspectiva, passou a ser paciente e compreensível. Não só com outrem, mas consigo mesma.

Ela não era uma bruxa, ela era um ser humano como qualquer outro naquela cidade, um ser humano que passou a maior parte da vida sendo marginalizada da sociedade, sendo incompreendida à ponto de acreditar no que diziam. Mas ela não era um monstro.

Amar Emma facilitou seu entendimento perante aos outros, perante ao medo que causara com suas ações e tirania passada e isso a tornou uma pessoa melhor, amável, talvez até querida.

Ser amada por Emma foi a prova final de que o julgamento comum estava errado. Ela não era má, nem uma bruxa, nem um monstro. Ela era apenas humana, com defeitos e qualidades dignos de qualquer outro.

Demorou para crer em si própria, sim. Mas ela finalmente se olhou no espelho do Mausoléu e viu a, agora namorada, aproximar-se de si. Limpou a lágrima de felicidade que escorria por seu rosto e sorriu para ela.

-Vão dar uma festa surpresa de aniversário pra mim no Granny’s, você vem?

-Claro, amor...


Now I know I'm human
Funny how things change

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