— TELMAAAA VAI LAVAR A LOUÇAAAA!

A voz de dona Nilce soou desagradável pelo corredor, chegando até os ouvidos ainda sonolentos de Telma. Na sala o irmão caladão lia uma revista, e no quarto a irmã chata dedilhava o celular sem serem perturbados pelas ordens de dona Nilce. Telma pensou em dar uma resposta malcriada, mas ainda estava meio tonta de sono. Optou por ficar calada. Ao cabo de alguns segundos o silêncio tornou-se inquietante. A voz de dona Nilce agora soou aveludada:

— Filha, precisamos conversar...

Era só o que faltava! Tudo que Telma não queria naquele momento era escutar mais um sermão da mãe. Preferia até lavar a louça. Fez força para levantar, e respondeu:

— Já vou, mãe...

Silenciosa e mal-humorada, Telma passou uma água nas xícaras do café e pôs-se a empilhar os nos pratos no escorredor. O olhar de dona Nilce indicava que ela não desistira da conversa. Telma enxugou as mãos e saiu da cozinha em passos rápidos, mas a mãe a esperava na sala.

— Você foi no pancadão ontem que eu sei!

Telma suspirou. Disposta a enfrentar, pôs as mãos na cintura e respondeu:

— Fui sim. E daí?

— Daí que você me desobedeceu! Eu não disse que você não podia ir? Que esse lugar de funk é perigoso?

— Ah, mãe...

— Você só tem 16 anos! Eu sou sua mãe e você tem que me obedecer!

Telma limitou-se a cruzar os braços e fazer um olhar provocante. Melhor deixar a mãe falar até cansar.

— E você foi com aquela roupa curtinha, as pernas tudo de fora! Você não sabe que num lugar assim você pode até ser estuprada?

— Ah mãe, todo o mundo lá vai assim para dançar funk...

— Sabe o que você está parecendo? Uma piriguete!

Lá do quarto a irmã chata achou graça e pôs-se a declamar:

— Piriguete! HAHA Piriguete!

— Ihh cala a boca que a conversa ainda não chegou na cozinha!

— Queria saber o que você faz por lá!

— Quer mesmo saber?

— Chega! — Interrompeu a mãe — Chega! Telma, você está de castigo, não me sai mais esse final de semana! Você não está me obedecendo, então eu não te deixo sair!

Pisando firme e fazendo queixo duro, Telma foi para o quarto, desejando que a irmã chata não estivesse ali. Bem gostaria de ter um quarto só para ela, que não tivesse que dividir com ninguém. Detestava quando a irmã fazia ares de mais velha, embora fosse mais nova.

— Telma, Telma, tu tá pisando na bola!

— Ah, não enche!

— Sabe o que vai acabar acontecendo? Você vai parar na casa de uma tia, para ralar bastante na faxina, que nem a Valéria, a Silmara e a Carol!

Telma lembrou-se do costume de sua família de mandar as filhas que aprontavam muito ir morar em outra cidade, de castigo, que nem aquelas três primas do interior. Pensou numa boa resposta para dar.

— Pelo menos assim eu me livro de você!

— E eu fico com o quarto só para mim HAHA!