Funk-se Telma!
29 Amor
O sábado ia chegando, e Telma sentia-se confortada por saber que ia sair com Ronaldo. Ainda percebia uma coisa estranha naquela certeza de sair sempre com a mesma pessoa, tão diferente de sua rotina de antes, mas estava feliz com a mudança. Era uma sensação boa, de segurança, ela andava mais calma, a tia estava satisfeita, e até as conversas com a mãe no telefone vinham sendo bem tranquilas. Enquanto aguardava o fim de semana, Telma rememorava os momentos que passara com Ronaldo, as conversas, os beijos ardentes, e até suspirava. Eduardo zoava daquela sua cara de apaixonada, mas Telma estava tão feliz que até sentia vontade de dar um beijo no primo moleque.
Ronaldo apareceu pontual como sempre. Conversou com tia Justina, prometeu trazer Telma de volta na hora marcada, e recebeu em troca um sorriso confiante. Saíram de mãos dadas e passaram um tempo batendo perna no shopping enquanto decidiam o que fazer. Nos momentos que estava com Ronaldo, Telma gostava assim, sem pressa. Resolveram fazer uma visita à casa de Suzana, que ficava perto. Tocaram a campainha, e logo que a porta se abriu Telma percebeu, pelos ruídos do fundo, que não haviam aparecido na hora mais apropriada, mas a mãe de Suzana mandou-os entrar.
— Espera só um momentinho que o Beto e a Suzana estão ocupados. O Beto está dando uma coça na Suzana!
Os ruídos que Telma escutara vinham do quarto, e pareciam de uma mistura de luta e discussão. Ronaldo ficou na sala conversando abobrinhas com a mãe de Suzana, mas Telma não resistiu à curiosidade e foi espiar o quarto por uma fresta da porta. Viu Beto segurando a irmã, que se debatia.
— Ai Beto, me larga, me largaaa...
Telma não pôde deixar de sorrir ao notar o ar sério de Beto, jeito de homenzinho que cumpre um dever. Sabia que a mãe criava os dois filhos sozinha, e que Beto ajudava sempre, muito responsável que era. Se tivesse antes a cabeça que tinha agora, teria ficado com Beto, Telma pensou. Também não pôde deixar de concordar que Suzana merecia a sova, pelo muito que aprontava escondido. Ficou observando como Beto segurava a irmã, muito jeitoso, imobilizando-a de bruços sobre o colo dele. Suzana xingava e debatia-se sem parar, mas Beto esperou que ela ficasse ofegante, e com um gesto puxou para cima a barra da saia jeans que ela usava, revelando a calcinha amarela. Suzana debateu-se com mais força, mas Beto segurava-a bem forte com um braço sobre as costas, e a outra mão caiu bem aberta sobre o traseiro dela.
Telma estava quase rindo ao contemplar o garoto batendo sem pressa, uma, duas, três vezes, enquanto Suzana esperneava sem conseguir livrar-se. Após certo instante, Suzana parou de xingar e começou a chorar e a suplicar.
— Mããeee manda ele parar...
A mãe interrompeu um instante a conversa com Ronaldo, e chegou até a porta do quarto.
— Está bom, Beto!
Suzana ficou de castigo no quarto e Beto veio para a sala conversar com eles. Telma sentia-se leve por dentro. Lembrou-se da conversa que tivera com Ronaldo: então, ela não era a única a ser castigada! Quando saíram novamente, resolveram ir dançar, mas Telma queria mais estar sentada em um banco com Ronaldo. Quando acharam um cantinho escuro, Telma agarrou-o como se não quisesse mais solta-lo. O beijo foi o mais longo que já haviam trocado, ao final Telma estava até ofegante. Era nesses instantes que tinha a impressão de que conversavam por telepatia. Após um longo silêncio, Ronaldo perguntou:
— O que você está sentindo?
Telma demorou um pouco a responder, mas quando o fez, a voz saiu em tom resoluto:
— AMOR!
Ele olhou meio embaraçado, talvez até um pouco incrédulo, mas Telma não deixou dúvidas:
— Estou amando, sim! Pela primeira vez em minha vida! Agora eu sei o que é o amor!
Seguiram-se mais beijos apaixonados, e palavras não foram necessárias.
No dia seguinte, na escola, Telma notou como as colegas olhavam-na respeitosas e admiradas. Sim, ela era importante, porque tinha um namorado mesmo de verdade, ao contrário daquelas metidas que pulavam de ficante em ficante. Encontrou Suzana, que desta vez não teve disposição para zoar com ela, mas Telma tampouco zoou da amiga. Não era superior nem inferior. Lembrou de Beto na véspera, e pensou, se a família dela fosse assim, com o irmão dela assumindo o papel que Beto assumia, tudo podia ter sido diferente.
Ao chegar em casa, Telma encontrou tia Justina com um largo sorriso no rosto.
— Vai olhar no seu armário, que tem uma surpresa para você!
Telma até soltou um gritinho de satisfação ao ver que seu armário continha todas as roupas que trouxera de casa, e que agora ela era livre para escolher qual ia vestir.
— Falei com a sua mãe. Você fez por merecer!
Enternecida, Telma sentiu nos dedos as roupas que fazia tempo não usava, enquanto pensava qual ia vestir no próximo sábado com Ronaldo.
F I M
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