Fumaça
1 Um
Notas iniciais
Quando pequeno, não gostava de tomar banho ou chuva, não pisava em poças d’água, e odiava bombeiros de todo o coração. A mãe insistia em banhá-lo, e ele a acusava de tentar apagá-lo. Parque aquático era um inferno, e depois de um tempo a mãe entendeu: seu menino era fogo.
Seu menino não apenas tinha fobias ou medos sem fundamento, sentiu-se tola por não notar com antecedência aquelas faíscas nos olhos, o calor inexplicável que saia de seu corpo, o quarto parcialmente carbonizado. Coisa de criança, dizia, brincadeira de moleque.
Talvez tal ideia a tenha deixado louca, não se pode saber, mas o cheiro de fumaça na boca de seu filho não era algo comum.
Não assistia à TV, mas gostava de queimar objetos na lareira, da qual não parecia ter medo de se aproximar. Várias vezes o impediu de lá colocar as mãos e os pés, e ele agradecia: “Obrigado, mamãe, eles estão me chamando, mas eu ainda não posso ir.” A mãe sorria sem poder entender, e sua mente já não dava lugar à teoria alguma, mas amor, um amor tão forte que ela achava que poderia superar qualquer queimadura nas mãos, qualquer dor ao beijar seu filho, Ah! Como o amava!
Não tinha muitos amigos, e quando algum coleguinha dormia em sua casa, voltava com queimaduras feias, reclamavam: “O que estão fazendo com nossos filhos? Torturando-os com fogo!”.
E a mãe se desculpava, dizendo: “Não posso protegê-los do que meu filho é.”
Tornou-se um jovem violento e depressivo, depois de uma vida inteira sendo apagado e amenizado, tentando tornar-se normal em meio à tantas pessoas que não podiam acender.
Gostava de caminhar de madrugada pelo parque, num horário em que ninguém se incomodaria com o cheiro de gasolina ou com o barulho agudo e exagerado de sua angústia.
Lembrava da morte da mãe e das cicatrizes tão feias em sua face — Não pode deixar de desejar que todos aqueles gritos sofridos da mãe fossem, na verdade, dele. Poderia a culpa corroer mais que o próprio fogo? Seria o amor suficiente pra curar qualquer dor, apagar qualquer remorso? Amanhecia e o garoto logo escondia seus longos fios ruivos e seus olhos amarelos no cobertor, e parecia chorar lava.
Na fase adulta o fogo dentro de si já não era tão presente, parecia uma lembrança tão, tão distante que em alguns momentos ele quase se esqueceu de quem realmente era... Quase. Conheceu Jo e sua presença era provavelmente semelhante à presença do Sol. Era encantadora, assustadora e grande, exageradamente grande e quente. Estava a salvo.
Ele a endeusou, a amou e a odiou com muita intensidade, e tudo o que havia sentido antes, todos os amores interrompidos, livros inacabados e pessoas machucadas: tudo parecia tão ridiculamente pequeno e insignificante perto daquele grande astro queimando, gerando tanta luz. Amaram-se e consumiram-se totalmente e não mais choveu ou nevou, e tudo que existia era fogo, apenas fogo em todo o universo.
Um fogo devora outro fogo, uma dor de angústia cura-se com outra.
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