Fugitiva
4 Capítulo 4 - O fim do início
Após o incidente horrível com o Brad no mercado, fui andando vagarosamente indo para lugar nenhum. Para casa não voltaria, para a escola não estava animada antes, que diria agora depois do ocorrido. Em minha cabeça, as palavras ditas por Megan enquanto eu estava na escola no dia anterior ecoavam em minha mente:
- Se ficar, poderá ser pega, torturada e até...morta.- Principalmente a última palavra, morta, repetia em minha cabeça milhões de vezes e eu via a imagem dos olhos de desespero dela cravados em mim, como se ela estivesse me dizendo naquele momento.
Quando dei por mim, estava chegando a uma praça, a praça da minha infância. Quantos momentos felizes passei ali com meu pai. Os brinquedos do parque, cada um trazia lembranças da menina feliz que eu tinha sido um dia, e que não era mais. A voz dele ecoou em meus pensamentos:
- Nunca mude sua personalidade por nada! Agora sabia por que ele disse aquilo. Pensei em mamãe, e em como ela e Ben corria riscos com a minha presença em casa. E decidi, Megan estava certa! Eu não era, não podia viver como eles, e nem deixá-los em risco. Foi quando lembrei que tinha que dar uma resposta, e pensei nela.
Em um segundo ela apareceu ao meu lado, juntamente com um garoto. Fiquei pasmada quando olhei para ele, e vi que era nada mais, nada menos que... Josh, o garoto do sonho e do meu ônibus! Ela sorriu lentamente para mim e me disse:
- Oi Kate! Vejo que já tem uma resposta. Ah! Deixa eu te apresentar meu amigo. Kate, esse é o Josh. Ele tem o poder de teletransporte.
Depois de alguns instantes ela voltou a falar.
- Não tenha vergonha dele.
Não tenha vergonha dele.
Fiquei um pouco nervosa com a ousadia de Megan.
Ela me olhou com um olhar engraçado como se estivesse pedindo desculpas entre soltar ou não um riso.
Você fez isso de propósito.
Pensei.
Megan me olhou nos olhos e eu pude ler seus lábios mudos dizendo... “Mas ele é bonito!”.
Ridículo. Não poupei meu pensamento crítico sobre isso tudo.
- Não vai cumprimentar Josh, Kate? – disse Megan tremendo os lábios para não rir.
- Ah, desculpa. – segurei a mão dele fazendo um movimento ridículo pra cima e para baixo. Eu realmente estava muito nervosa. Vi como elas, as mãos, eram grossas e secas. Nenhuma gota de suor! Já as minhas...
- Não é nenhuma novidade, Kate é do meu ônibus. – ele comentou. Foi a primeira vez que ouvi a voz dele.
Assenti.
Não imaginava que Josh fosse um especial como eu. Como assim? Fiquei um pouco nervosa ao tentar imaginar que Megan estaria invadindo meus pensamentos neste momento privado.
Poupei-me sobre os pensamentos críticos da aparência rústica e limpa de Josh. De seus tênis sempre perfeitamente limpos, mas com “nós” desajustados e frouxos.
Tem algo que vocês devem saber sobre mim...
- Com licença. – disse e me agachei indo em direção daqueles sapatos perfeitos. Adorava o estilo dele.
Desamarrei e depois amarrei bem forte para que não soltasse.
Não acredito que fiz isso! Não, eu fiz. Tudo bem.
Levantei feito uma retardada. Ele olhou curioso para os nós que fiz e agradeceu.
- Não foi por nada. – falei sem jeito. – Você poderia acabar... Caindo. – falei a última palavra com estranheza.
Foi quando Megan começou a rir, causando risada entre nós três.
Ela parecia menos estranha agora.
A manhã passou correndo, logo á tarde nem tanto.
Eu almocei na casa de Megan, minha mãe é enfermeira e só esta em casa depois das oito da noite, então, por que não fazer uma visitinha para a mãe de Megan? A comida me surpreendeu até. Logo, pensei na ideia de eu e Megan virarmos melhores amigas depois de um tempo. Seria engraçado, mas as coisas rolavam bem até no momento.
Não sei por que, mas... Contei pra Megan sobre o assassinato no mercado que presenciei.
- Bem que eu tinha sentido alguns furos na sua mente... – ela comentou. Não, talvez nós não devêssemos ser amigas. Ter alguém sempre lendo seus pensamentos o tempo inteiro deve ser horripilante.
Mas foi quando comentávamos sobre esse dia estranho, que mais algo terrível aconteceu.
Eu e Megan olhávamos o por do sol. Estávamos em frente de uma lagoa, perto do centro da cidade. Ventava muito, iria chover, óbvio.
- É bom ter alguém pra conversar. – disse Megan olhando diretamente pra mim.
Olhei fixamente também, retribuindo o olhar de curiosidade.
Procurei não pensar em coisas que me comprometiam.
- Deve ser difícil arrumar alguém próximo, não é mesmo?
- É... As pessoas quando descobrem simplesmente se afastam. – disse séria olhando fixamente para seu reflexo escuro na água barrenta da lagoa.
Eu jogava pétalas de uma flor de cor púrpura que achei.
- Desculpa se às vezes pareço muito pra frente... – se desculpava – não leio seus pensamentos todas às vezes... É verdade.
Duvidei.
- É verdade, Kate. – ela disse séria. Pensei ter visto lágrimas nos seus olhos, mas ela se virou rápido demais. Estava atenta nas ondas que se formavam na água por conta do vendo fresco daquele fim de tarde de julho.
Olhei pra trás e fixei meu olhar em uma pedra logo atrás, e, a fiz flutuar sobre nossas cabeças, deixando cair bem na nossa frente, um pouco antes de chegar ao lago.
Ela observou a pedra sem entender.
- É uma ágata. – falei. Estava comovida com Megan, queria ajuda-la, dar apoio.
Sem entender, sua testa se enruga mostrando estranhamento completo.
Levantei a pedra delicadamente com meus pensamentos e depois, causei uma certa pressão no meio dela, dividindo a pedra em dois pedaços desproporcionais.
- Eu sei que parece ridículo, mas... Esse será nossa prova de que ajudaremos uma a outra e seremos leais e, claro, respeitar os pensamentos do outro. – falei com um sorriso largo. Mesmo sendo assustador, Megan me parecia sincera e justa. Iria dar essa chance.
O céu estava mais escuro.
Uma lágrima desceu sem pressa alguma do rosto de Megan e só se derramou quando ela mexeu as bochechas.
Estendendo sua mão, Megan pegou o pedaço maior e apertou contra sua mão. E, sem dizer uma palavra, ela me abraçou.
Senti um aperto no coração e logo depois um calor... Um carinho. A abracei de volta.
Ficamos assim por uns dois minutos... Até Megan levantar a cabeça assustada e ficar em pé em um instante.
- Kate! ASA! Corre! – ela disse e puxou meu pulso.
Naquele momento, senti um medo extraordinário. A imagem de Brad sendo baleado no mercado não saia da minha cabeça, do sangue escorrendo de seu peito, dos gritos infantis... Tudo. Tudo me assustava.
Não sei por que e como, mas uma orquestra seguida por violinos desafinados tocavam uma sinfonia dramática na minha mente, aumentando mais minha ansiedade.
Megan parou, me fazendo bater de frente com ela.
- Eles nos viram! – ela pálida.
Estávamos no meio da mata já escura, com trovoadas e o cheiro de madeira forte em volta.
Ouvi passos apressados.
Então... Cães e tiros.
- Corre! – ela berrou.
Corri o mais rápido que pude, eu e Megan estávamos na mesma velocidade.
Senti meus braços formigarem muito e meu tornozelo dor muito. Algo no meio da correria garrou no meu pé me fazendo cair de cara no chão. Megan não me viu e disparou na frente.
Caí entre as folhas sujas e barrosas, de queixo no chão.
Mas ainda vi ela correndo, seu cabelo voava... Seus cotovelos seguiam um ritmo contínuo e sincronizado.
Megan foi pega por um do ASA, e a atingiram com um tiro na cabeça.
Arregalei os olhos.
- Não! – berrei, identificando minha localidade.
Levantei e corri mesmo com dores insuportáveis nas pernas e nos joelhos.
Senti meu corpo ferver, e minha cabeça esfriar... Esfriar...
Aquilo me dominou e juntei todas as forças dentro de mim e soltei.
Os assassinos que tentavam me cercam, foram arremessados contra troncos e barrancos que parecia não ter fim.
Vi Megan no chão e corri em direção a ela.
O sangue não parava de jorrar, e seu rosto estava mais pálido e vivo. Parecia que dormia.
Senti lágrimas frias invadirem meu rosto, agachei e tirei o cadarço cinza do tênis de Megan, e, o amarrei no pulso correndo pra fora dali. Lamentando ter que a deixar.
Adeus, amiga.
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