Notas iniciais
Uma pequena oneshot no século XVII

Corliss observou seu reflexo no espelho da penteadeira. O cabelo loiro e longo muito bem escovado, solto por cima dos ombros. Os olhos azuis turquesa, a boca naturalmente avermelhada, a pele alva e as feições delicadas em harmonia com a camisola creme adornada com fios de ouro. Sua aparência era celebrada em toda redondeza. A moça mais bela que todos já haviam visto.

Corliss revirou os olhos. A beleza era superestimada, e até agora só lhe trouxera problemas. Já fora prometida em casamento a um desconhecido e sequestrada por piratas, sem contar um atentado a sua vida, obra de uma mulher invejosa. Tudo graças a sua beleza somada ao seu gordo dote, claro, consequência do fato de seu pai ser um marquês.

Ela não tinha para onde fugir ou já teria o feito a muito tempo. Não era estúpida, sabia o que aconteceria se saísse por aí sozinha. A possibilidade de fugir tinha aparecido uma vez, mas a única pessoa que poderia tirá- la disso e evitar, principalmente, o casamento indesejado, sua última esperança tinha enfiado na cabeça que era melhor para ela que ficasse na fortaleza do pai. Reprimiu a vontade de chutar a penteadeira. E pensar que ela tinha chegado a implorar para que ele não a trouxesse de volta.

Um barulho na janela a sobressaltou. Agarrou a adaga que mantinha sobre a cabeceira desde que voltara do seu eventual sequestro mas não desviou os olhos do espelho. Pelo reflexo, podia observar todo movimento na janela. Viu quando a mão no parapeito deu lugar à um homem musculoso, loiro e armado até os dentes. Na penumbra, ela não conseguia ver seu rosto direito, mas não precisava, ela o reconheceria em qualquer lugar.

- William. – ela falou, as palavras saindo em um tom determinado, mas a mão afrouxou em volta da adaga. Ironicamente o nome lembrava um guarda da marinha inglesa, imagem completamente distinta do que ele realmente era. Um pirata. O seu sequestrador, para ser exata.

Ela pode distinguir um gesto de assentimento antes de ele se aproximar e passar a ser iluminado pelas velas, mostrando as feições conhecidas. O coração de Corliss pulou no peito ao ver o leve sorriso que ela tinha admirado e correspondido incontáveis vezes. Ele usava sua calça de couro habitual e uma blusa de malha fina branca.

Ela mordeu o lábio por um momento pra esconder um sorriso, incapaz de esconder a felicidade embora pensasse que devia estar com raiva.

– O que está fazendo aqui? – perguntou, ainda o olhando pelo espelho.

– Eu te amo. – ele respondeu, como se isso mudasse tudo. Não mudava. Eles já tinham discutido isso, mas ela virou para ele mesmo assim, irritada.

Ele andou para ela devagar e ajoelhou na sua frente, segurando suas mãos dentro das dele.

– Quero você comigo.

– Pensei que queria que eu ficasse e me casasse. — ela disse ofegante e o sorriso dele se transformou em uma carranca quase instantaneamente.

– Mudei de idéia. Não posso deixá-la com aquele bastardo.

Era tudo o que ela queria ouvir e ela saiu do banco ornamentado em que estava sentada direto para os braços dele, colando suas bocas. William não hesitou em corresponder o beijo, agarrando sua cintura e puxando-a cada vez mais perto, pedindo passagem com a língua. Cedo demais, ele a afastou.

– Não há tempo. — e então abriu um meio sorriso. — Teremos o resto de nossas vidas para isso depois.

– Tem um plano para sairmos daqui? – ela perguntou, o sorriso que William lhe deu em resposta lhe indicou que sim.

– Vamos dizer que você acaba de ser sequestrada. De novo. — dito isso ele a puxou pela cintura e pulou a janela segurando apenas em uma fina corda. A mesma que tinha usado para subir, ela reparou.

Um cavalo negro como a noite esperava eles no fim do muro de pedra. William a ajudou a subir no cavalo e subiu logo atrás, agindo rápido. Ele apressou o cavalo e o animal disparou para os campos cortando caminho. Corliss não olhou para trás, sabia que ia ser mais feliz agora do que jamais poderia dentro daqueles muros.

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenho gostado. Por favor, sinta-se livre para me dizer o que você achou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!