Fuga
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Corliss observou seu reflexo no espelho da penteadeira. O cabelo loiro e longo muito bem escovado, solto por cima dos ombros. Os olhos azuis turquesa, a boca naturalmente avermelhada, a pele alva e as feições delicadas em harmonia com a camisola creme adornada com fios de ouro. Sua aparência era celebrada em toda redondeza. A moça mais bela que todos já haviam visto.
Corliss revirou os olhos. A beleza era superestimada, e até agora só lhe trouxera problemas. Já fora prometida em casamento a um desconhecido e sequestrada por piratas, sem contar um atentado a sua vida, obra de uma mulher invejosa. Tudo graças a sua beleza somada ao seu gordo dote, claro, consequência do fato de seu pai ser um marquês.
Ela não tinha para onde fugir ou já teria o feito a muito tempo. Não era estúpida, sabia o que aconteceria se saísse por aí sozinha. A possibilidade de fugir tinha aparecido uma vez, mas a única pessoa que poderia tirá- la disso e evitar, principalmente, o casamento indesejado, sua última esperança tinha enfiado na cabeça que era melhor para ela que ficasse na fortaleza do pai. Reprimiu a vontade de chutar a penteadeira. E pensar que ela tinha chegado a implorar para que ele não a trouxesse de volta.
Um barulho na janela a sobressaltou. Agarrou a adaga que mantinha sobre a cabeceira desde que voltara do seu eventual sequestro mas não desviou os olhos do espelho. Pelo reflexo, podia observar todo movimento na janela. Viu quando a mão no parapeito deu lugar à um homem musculoso, loiro e armado até os dentes. Na penumbra, ela não conseguia ver seu rosto direito, mas não precisava, ela o reconheceria em qualquer lugar.
- William. – ela falou, as palavras saindo em um tom determinado, mas a mão afrouxou em volta da adaga. Ironicamente o nome lembrava um guarda da marinha inglesa, imagem completamente distinta do que ele realmente era. Um pirata. O seu sequestrador, para ser exata.
Ela pode distinguir um gesto de assentimento antes de ele se aproximar e passar a ser iluminado pelas velas, mostrando as feições conhecidas. O coração de Corliss pulou no peito ao ver o leve sorriso que ela tinha admirado e correspondido incontáveis vezes. Ele usava sua calça de couro habitual e uma blusa de malha fina branca.
Ela mordeu o lábio por um momento pra esconder um sorriso, incapaz de esconder a felicidade embora pensasse que devia estar com raiva.
– O que está fazendo aqui? – perguntou, ainda o olhando pelo espelho.
– Eu te amo. – ele respondeu, como se isso mudasse tudo. Não mudava. Eles já tinham discutido isso, mas ela virou para ele mesmo assim, irritada.
Ele andou para ela devagar e ajoelhou na sua frente, segurando suas mãos dentro das dele.
– Quero você comigo.
– Pensei que queria que eu ficasse e me casasse. — ela disse ofegante e o sorriso dele se transformou em uma carranca quase instantaneamente.
– Mudei de idéia. Não posso deixá-la com aquele bastardo.
Era tudo o que ela queria ouvir e ela saiu do banco ornamentado em que estava sentada direto para os braços dele, colando suas bocas. William não hesitou em corresponder o beijo, agarrando sua cintura e puxando-a cada vez mais perto, pedindo passagem com a língua. Cedo demais, ele a afastou.
– Não há tempo. — e então abriu um meio sorriso. — Teremos o resto de nossas vidas para isso depois.
– Tem um plano para sairmos daqui? – ela perguntou, o sorriso que William lhe deu em resposta lhe indicou que sim.
– Vamos dizer que você acaba de ser sequestrada. De novo. — dito isso ele a puxou pela cintura e pulou a janela segurando apenas em uma fina corda. A mesma que tinha usado para subir, ela reparou.
Um cavalo negro como a noite esperava eles no fim do muro de pedra. William a ajudou a subir no cavalo e subiu logo atrás, agindo rápido. Ele apressou o cavalo e o animal disparou para os campos cortando caminho. Corliss não olhou para trás, sabia que ia ser mais feliz agora do que jamais poderia dentro daqueles muros.
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