Fucking Perfect
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Thalia nunca se sentiu incomodada por ser observada pelas pessoas enquanto treinava, o que a fez achar estranho ter ficado nervosa quando sentiu os olhos de Nico a acompanhando durante o resto do treino, ela tentava evitar olhar para ele, o que se tornou muito difícil ao longo do tempo, entretanto quando Thalia quase errou o passo que a professora as mandava realizar, decidiu que focaria mais no que estava fazendo e menos no garoto que a observava.
Felizmente aquele foi um dos dias em que ela ficou satisfeita com o treino, conseguiu realizar todos os passos com precisão e talvez até estivesse prestes a se igualar a algumas de suas colegas, estava confiante – na sua medida do possível – de que fora bem, até a professora Afrodite chama-las após a aula e falar sobre como deveriam melhorar e se empenhar para participarem de um campeonato. Thalia não sabia dizer o que foi, entretanto alguma coisa no modo como a professora deu o recado e olhou na direção dela quando disse “melhorar” a fez sentir-se medíocre e teve a horrível sensação de que não era o suficiente, ela conseguia ignorar o olhar e a risadinha das suas colegas dirigidas a ela durante o recado, mas sentir que a professora realmente dizia aquilo para ela foi a pior sensação que teve desde que começou a treinar.
Conseguiu evitar as lágrimas quando saiu do meio do grupo, sentindo os olhos arderem e a respiração falhar ao passar por elas, conseguiu manter a fachada até fechar a porta do lugar. Mas assim que atravessou a rua sentiu as lágrimas descerem pelos seus olhos, tentava enganar a si mesma dizendo que era devido ao forte vento que batia no seu rosto.
Thalia estava cansada de se sentir mal, cansada de sentir que não fazia nada certo, cansada de tentar tanto e não obter resultado nenhum, Thalia estava simplesmente cansada de tudo. Desejava poder sentir-se bem e não se importar com o que falavam dela no vestiário, sabia que fizeram comentários maldosos sobre ela conversando com Nico durante o intervalo, quase podia ouvir a voz doce de Quione debochando dela e as risadas escandalosas que seguiriam o comentário.
“Diabos, como ela odiava aquelas risadinhas.”
A caminhada até a sua casa não a deixou mais leve como normalmente fazia, na verdade não fora nada agradável desviar os olhos de todos que a encaravam estranho por estar chorando, quando bateu a porta da casa se arrependeu por ter andado tão rápido, se tivesse ido no seu ritmo usual não teria que encontrar a sua mãe assistindo a novela como sempre fazia durante esse horário, se tivesse chego dez minutos mais tarde aquele episódio já teria acabado e sua mãe estaria no banho. Tudo que Thalia fazia dentro de casa era programado para não ter que encontrar os seus pais, infelizmente não funcionara dessa vez, ela tinha sido estúpida e realmente esperava que o seu choro passasse despercebido.
Assim que trancou a porta viu os olhos da sua mãe sendo desviados rapidamente para observa-la e então voltar para a televisão, esperando não perder nada de importante.
— Thalia querida, chegou cedo, o treino terminou mais cedo?
— Não, eu que me apressei um pouco. — Thalia não se importou em ser cordial.
Normalmente sua mãe a repreenderia com o olhar, entretanto estava tão concentrada na novela que Thalia poderia muito bem não ter respondido.
— Tudo bem, sente um pouco com a sua mãe, faz tempo que não passamos um tempo juntas filha.
Thalia estava prestes a subir as escadas quando Eliza falou novamente, sua frase não a teria irritado tanto se a Grace acreditasse que a “mãe” realmente se importava.
“Fala sério, a sua querida ‘mãe’ nem se dava o trabalho de olhar no seu rosto enquanto conversava.”
— Ah claro Eliza, porque você se esforça tanto para passar mais tempo comigo.
Subiu as escadas em direção ao seu quarto assim que a respondeu, não queria ver a reação de sua mãe, já estava mal o suficiente antes de começar a discutir.
***
Thalia acordou com uma estranha dor nos ouvidos e seus fones de ouvido jogados na cama ao lado do celular. Achou estranho, pois não ouvia o som do despertador do seu celular, entendeu o que aconteceu assim que checou o horário no celular e quase pulou da cama ao notar que era uma hora mais tarde do que costumava acordar, seu celular não despertara.
Thalia nunca se trocara tão rápido, nem se dera o trabalho de comer, simplesmente pegou a sua mala e correu na direção da escola, chegando um pouco antes da sua segunda aula começar.
***
Na hora do intervalo se viu obrigada a ir ao refeitório comprar algo para comer, sua barriga roncava desde a terceira aula e sabia que não aguentaria assistir outras aulas se não se alimentasse, estava preparada para ser completamente ignorada por todos durante o caminho, quando ouviu alguém chama-la.
— Thalia.
Assim que se virou Thalia o reconheceu. Nico Di Angelo caminhando em sua direção, sorrindo acanhado e parecendo aliviado por ver um rosto conhecido.
— Oi.
— Hey, você ‘tá indo para o refeitório? — ele perguntou com um tom estranho enquanto a acompanhava.
— Uhum.
Não estava disposta a falar mais, entretanto o garoto parecia curioso e prestes a questioná-la até responder. Decidida a fazer parecer que não era nada demais, Thalia resolveu dizer, dando de ombros para enfatizar a falta de importância.
— Ah, não deu tempo de comer e preparar algo para trazer antes de vir.
— Entendo. — o rosto de Nico não condizia com a sua resposta.
Ele não parecia acreditar nela, Thalia sabia que devia estar pálida pelo esforço de ter corrido até a escola e não ter comido nada antes de dormir e hoje pela manhã, talvez ele achasse que ela ficou sem comer de propósito, o que não estava muito longe da verdade, afinal ela não comera ontem à noite para evitar qualquer contato com os seus pais.
Ele a acompanhou até a fila da cantina, Thalia tentou não ficar nervosa. Será que assim que eles pegassem as suas comidas ele a deixaria para ir até a mesa do seu primo? Thalia não sabia o que esperar ninguém nunca fizera questão de acompanha-la a lugar algum, ela não conseguia parar de pensar no que ele faria.
Decidida a quebrar o clima estranho, resolveu perguntar:
— E ai? Alguém já te informou sobre os horários dos ensaios masculinos?
Ele deu uma risadinha antes de responder.
— Já sim, mas eu percebi que não me dou muito bem com patinação artística, acho que hockey é mais a minha cara.
— Que pena, seria legal ver você tentar fazer alguns passos. — Thalia sentiu suas bochechas queimarem ao dizer aquilo.
Para evitar se sentir tão estúpida, riu no final desviando o olhar do dele e criando uma barreira entre eles com o seu cabelo.
— Acho que faria vocês rirem um pouco, mas você já tentou jogar hockey? Talvez você se de bem.
Thalia tentou evitar, mas não pode deixar de sentir que aquilo era uma crítica a ela, talvez ele também achasse que ela não era boa o suficiente como patinadora artística e estava tentando sugerir que fizesse outra coisa.
— Ah, — Thalia se sentiu estúpida por achar que talvez ele pudesse ser seu amigo. — eu sou tão ruim assim que também te faço rir?
— O que? — Nico parecia realmente confuso. — Não, eu só queria saber se você se interessava por hockey.
Thalia não sabia se acreditava, mas se ele realmente achasse que ela era ruim, por que simplesmente não tinha dito na sua cara, como a maioria fazia?
— Ah, eu adoro assistir, mas não sou uma grande jogadora.
Os dois riram antes de Nico pegar a sua comida e espera-la, Thalia escolheu o que queria e o acompanhou.
— Então, aonde você quer sentar?
Thalia não queria parecer estranha e sabia que estava muito frio lá fora, entretanto não mentiria para agradá-lo, nunca deixara de ser ela mesma para agradar alguém, não era agora que começaria. E afinal ela não o induzira a acompanha-la, Nico estava lá porque queria pelo menos Thalia tentaria ter certeza disso.
— Bem, eu normalmente como no jardim, mas se você quiser ficar aqui dentro com...
— O jardim parece ótimo para mim. — ele a interrompeu e abriu à porta que levava para fora do refeitório. — E a propósito, eu acho que você é muito boa no que faz.
Ela só conseguiu ver o sorriso dele antes de sair e aquela pequena fala a aqueceu tanto que nem sentiu o vento gelado vir na sua direção.
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