Fuckin' Perfect
21 A culpa é da falta de cérebro do Logan
Notas iniciais
Nos dias seguintes, a temperatura baixou bruscamente, aos poucos transformando Ophelia em uma paisagem branca e nevoada.
Jenn já havia encontrado um vestido para se casar. Nos casaríamos no alto do penhasco, ao por do sol, uma escolha da própria Winters. Não seria possível uma lua de mel em outra cidade, porque infelizmente Jenn teria que estar sobre a vistoria de médicos e enfermeiras, cada vez mais. No lugar disso, ficaríamos em um chalé alugado, em uma das reservas da cidade. Só faltava eu conversar com meus pais e fazer o pedido formal para Jenn. Fiquei imaginando como meus pais agiriam. Provavelmente a primeira coisa que perguntariam seria se Jenn estava grávida, vendo que eu não havia falado para eles que ela estava doente.
Antes de ir pra escola, eu conversei com eles que mais tarde Jenn jantaria lá, junto com o pai. Meus pais concordaram alegremente.
— Isso aê, filhão! Finalmente uma namorada descente, hein? — falou meu pai, esfregando as mãos.
— Jenn é um amor, você precisa ver, Steven — disse mamãe, sorrindo.
Eu realmente duvidava que eles ficariam felizes assim ao saber o que eu pretendia.
~~~ // ~~~
— Olá — falou Jenn, quando minha mãe abriu a porta.
Eu ia descendo as escadas e já conseguia ver seus cabelos ruivos, e uma parte de seu corpo, mesmo que minha mãe estivesse na frente.
Desci lentamente, me preparando mentalmente.
"Mãe… pai… Jennifer e eu vamos nos casar".
Ou então:
"Papai, mamãe, eu e Jenn estamos noivos".
Parecia tão simples, mas eu sentia um bolo subir na minha garganta, puro nervosismo.
— Oi — falou o Sr. Winters, surgindo ao lado de Jenn. — Muito prazer em conhecê-la.
— Oh! Prazer, sejam bem-vindos! Vamos, venham, venham. Jennifer, está linda como sempre! O frango e o purê já estão na mesa, a torta está saindo do forno! Fiquem à vontade! Qualquer coisa, o banheiro é a terceira porta à…
Eu ri baixinho, chegando ao andar de baixo, parando ao lado de mamãe, fitando Jenn fixamente.
— Mamãe, Jenn sabe onde é o banheiro — interrompi, sorrindo.
Jenn usava shorts jeans, com uma fina meia-calça por baixo, coturnos marrons. Uma jaqueta de couro preto e uma blusa branca estampada por baixo. No cabelo, um lenço estilo anos 60 amarrado no topo. Ela abriu um sorriso ao me ver, um sorriso cansado. Profundas olheiras delineavam suas pálpebras inferiores. Parecia exausta.
— Posso ter esquecido — brincou ela.
— Isso mesmo, filho, ela pode ter esquecido! Entrem logo, está frio aí fora — mamãe puxou os dois para dentro com brutalidade, e eu entrelacei meu braço no de Jenn.
— Preparada para assumir? — sussurrei em seu ouvido, puxando-a para um corredor escuro que levava a lavanderia.
— Você está? — sussurrou, provocativa.
Eu ri e colei nossos lábios, beijando-a com vontade.
— Vou tomar isso como um sim — disse Jenn, quando nos separamos. Peguei na mão dela e fomos até a sala de jantar.
— Oi, Sr. Grey — cumprimentou ela. Papai estava sentado na mesa, coçando o queixo e a fina barba ali.
— Oi, lindinha — falou ele, sorrindo. — Está com fome? Olha o tanto de comida que sua mãe fez, Logan! Vê se pode!
— Ah, mamãe adora impressionar — contei, me sentando em uma cadeira. Jenn sentou-se ao meu lado.
— E eu adoro comer, então tudo bem — falou Jenn.
— Tem comida para todos! — mamãe apareceu da cozinha, sorridente, o Sr. Winters seguia atrás, carregando uma tigela cheia de torta de maçã.
— E eu adoro torta de maçã — sorriu ele.
O Sr. Winters colocou a tigela no centro da mesa e escorregou em uma cadeira ao lado de Jenn.
— Bem, bem… hã… vamos comer — falou mamãe, um pouco sem jeito. Ela começou a colocar comida no prato. — Então, Jennifer, o ano letivo quase acabando, hein? Pretende fazer faculdade do quê?
Jenn estremeceu ao meu lado. Por debaixo da mesa, segurei sua mão, acariciando-a calmamente.
— Penso em fazer Arquitetura. Acho… que seria interessante — falou ela, baixinho.
— Aham, arquitetura é legal. E o salário é maravilhoso — falou meu pai, pegando um pedaço de frango. — E você, Logan? Já pensou em algo? Deveria, agora que até tomou jeito e arrumou Jennifer.
Eu ri, sentindo um gosto amargo na boca. Não faria muito sentido pra mim entrar em uma faculdade. Jenn não estaria comigo.
— Não sei. Antropologia parece legal — blefei.
— Estudar o ser humano e tudo mais… é — comentou o Sr. Winters.
Mamãe enfiou um garfo de comida na boca.
— Mas e aí? O que você faz, Louis? — perguntou.
— Tenho uma empresa de metalúrgica — respondeu.
Minha mãe se empertigou na cadeira. Praticamente consegui ler seus pensamentos: “podre de rico”
— Uau, muito interessante! — respondeu ela.
Quero dizer, meus pais viviam bem, tínhamos o que desejávamos, mas não nadávamos na grana.
— E vocês? — perguntou o Sr. Winters.
— Sou psicóloga — respondeu mamãe.
— Professor de literatura em uma faculdade — respondeu papai.
— Fascinante — o Sr. Winters deu um gole no suco.
Um silêncio se fez presente, onde só se ouvia os talhares batendo e a comida sendo mastigada.
— Onde está Clary? — perguntei de repente.
— Já era para ter descido! Você sabe como sua irmã é fresca, ainda deve estar passando rímel — mamãe revirou os olhos.
Quase como se tivesse nos ouvido, Clary desceu as escadas.
— Oi! — cumprimentou ela, sorrindo. — Jenn, sua sumida! Tudo bem?
— Tudo sim — respondeu Jenn, sorrindo amarelo. Eu sabia muito bem que as duas não iam muito com a cara da outra.
Clary se sentou ao lado de mamãe.
— Clary faz Direito, 2° ano já! — falou mamãe, orgulhosa.
Ela sorriu, feliz.
— Sim, eu sabia que deveria fazer isso desde os meus 5 anos — Clary contou. — É uma área fascinante.
Tá, hm, e quem perguntou?!
— É uma profissão excelente, Clary — falou o Sr. Winters. — Mas eu realmente acredito que Jenn e Logan estejam aqui com um propósito.
Dei um gole no meu suco de laranja, me sentindo tenso. Jenn apertou minha coxa, me dando confiança.
— É, sim. Acho que já é um bom momento para falarmos — comecei.
Todos na mesa fitavam Jenn e eu, sem mais segurar um garfo, ou mastigar algo, apenas esperando.
— Mãe, pai… Jenn e eu… Jenn e eu… — como é mesmo que se terminava a frase?!
— Nós vamos nos casar — completou Jenn, naturalmente.
— Oh — fizeram todos na mesa, tirando Jenn, eu e o Sr. Winters.
— Eu sabia! Eu sabia que você e seu cérebro pequeno iam acabar engravidando a garota! — exclamou Clary, de repente.
Encarei-a, indignado.
— Mas não é um cérebro que faz alguém engravidar, sua tapada, e sim o órgão reprodutor masculino! Mais conhecido como pênis! — bufei. Sério, não resisti essa. Era sempre uma honra corrigir Clary Stanford Grey.
Mamãe soltou o ar com força, como se já esperasse que aquilo acontecesse.
— Logan! Mais respeito, por favor! — ela balançou a cabeça, chocada. — Quantos meses?
Papai estava boquiaberto.
— Já sabem se é menina ou menino? Meu Deus, mas Jennifer está tão magrinha que nem dá pra perceber a barriga!
Jenn arqueou a sobrancelha, assustada.
— O quê? Não! Eu não estou grávida! — exclamou ela.
— Tudo bem, Jennifer, pode falar, a culpa é mesmo de Logan. Esse idiota não sabe diferenciar uma bexiga de uma camisinha — falou meu pai, com um muxoxo.
Ei! Muito obrigado pelo apoio, mesmo.
— Jenn não está grávida, cacete! — bati a mão na mesa, para chamar a atenção. — Não está!
Minha mãe nos olhava com total descrença.
— Então por que vão casar? São duas crianças de 17 anos!
Jenn se ajeitou na cadeira, colocou uma mecha dos fios atrás da orelha e umedeceu os lábios.
— Bem… quando eu era mais nova, fui diagnosticada com um tipo raro de câncer para minha idade e por eu sou uma garota, no estômago. Eu fiz o tratamento e depois de vários meses lutando contra, fui dada como curada. Mas há algumas semanas descobri que ele voltou e que já está em um estágio muito avançado. Não vale mais à pena prosseguir o tratamento, não tem mais solução, apenas adiaria mais o inevitável… portanto… eu só tenho algumas semanas de vida.
— Aí nós vamos nos casar, porque daqui um ano, dois ou três isso será impossível — completei com os olhos vidrados na mesa. Fiquei escutando o silêncio, se é que isso é possível.
Ninguém falou nada durante algum período, que poderia ter sido de 1 minuto, 5, 10, não sei dizer. Era estranho que as outras pessoas soubessem e era estranho pedir a aprovação delas, para algo que eu já tinha certeza que faria.
— Bom… eu… não sei o que dizer — falou mamãe, um tempo depois, em um fio de voz. — Eu… eu… sinto muito.
Papai soltou um arquejo.
— Oh, minha querida, lamento muito. Você é uma guerreira e…
— Não, não sintam. Sério, já aceitei. Apenas… apenas digam que concordam com meu casamento com Logan — interrompeu Jenn, séria.
Outro silêncio se formou. Clary fitava a mesa com os olhos marejados. Papai e mamãe parecia duas estátuas que piscavam muito lentamente.
— Tudo bem, querida, tudo bem — mamãe disse, estática. — Tudo bem.
— P-posso te ajudar a escolher um vestido — falou Clary, já em lágrimas. — Oh, Jenn, me desculpe! Sinto muito mesmo! As coisas são tão injustas e cruéis e… e…
Clary abraçava Jenn, soluçando.
— Clary, tá tudo bem, eu já aceitei. E já escolhi meu vestido. Mas obrigada mesmo.
— Certo. Já arrumou um vestido, hein? — falou me pai, tentando tornar tudo mais confortável e o agradeci mentalmente por isso. — Véu e Grinalda e tudo mais?
Jenn riu, mordendo o lábio. Senti ela relaxar ao meu lado.
— Véu, grinalda, mas em um estilo simples, sabe? Acho que um casamento não precisa de grandes coisas e grandes investimentos, apenas grandes sentimentos.
— Bela filosofia, Jennifer — mamãe tinha a voz embargada. — Mais pessoas deveriam pensar assim.
Eu podia ver o esforço que eles faziam para não fazer cara de piedade ou não se debulharem ali mesmo, pelo menos mamãe e papai, porque Clary era um caso sério. Amei minha família por isso
— Hm… e aí? Me casarei? — levantei a sobrancelha, esperançoso.
Mamãe encarou papai, que encarou-a de volta.
— Sr. Winters? — se dirigiu mamãe.
— É o último pedido da minha filha — declarou ele.
Minha mãe suspirou.
— Tudo bem, já podem fazer isso amanha, se quiserem — ela deu um sorriso compreendedor.
Jenn e eu soltamos o ar com força ao mesmo tempo, rindo. Automaticamente, nos viramos e trocamos um beijo. Era bom, era terno e estávamos felizes e afobados, de modo que batemos nossos dentes, o que só nos fez rir com o rosto colado.
— Tá, sim, está tudo resolvido, mas podem guardar esse fogo para depois do casamento — brigou o Sr. Winters, com um sorriso cúmplice.
Ainda enrolamos um pouco de lábios juntos, até que desgrudamos.
— O.k — falei, corando.
— O.k — disse Jenn e soltou uma risadinha.
O jantar durou mais uma hora, depois disso meus pais sentaram com o Sr. Winters na sala de estar, onde acho que ocorreu um verdadeiro inquérito ali, em que meus pais perguntavam sobre Jenn, sua doença, onde ficaríamos depois do casamento e coisas assim, mas não tenho certeza, porque Jenn me carregou até o meu quarto, onde eu tinha certeza que faríamos algo quente e gostoso, mas o que eu fiz foi observar Jenn dormir, exausta. Daí eu deitei com ela, abraçando sua cintura e dormindo também. Ali era quentinho, nossos corpos próximos, corações batendo no peito, respirações suaves. Era gostoso também, sabe, o cheiro doce de seu cabelo, sua pele macia. Pensando bem, era gostoso só de estar com ela.
~~~ // ~~~
— VOCÊ VAI CASAR? QUE PORRA VOCÊ TEM NESSA MERDA CHAMADA CABEÇA? AH, NÃO, NÃO, VOCÊ SÓ PODE TER EXAGERADO UM POUCO NA MACONHA, PORQUE TÁ ALUCINANDO! — escutei Greg chutar algo a frente dele e depois xingar baixinho quando quem sentiu dor foi ele. — Escuta, cara, eu sei que você é virjão e tudo mais, mas não precisa de tudo isso pra poder comer alguém. Contrata uma, quero dizer, as chances de você contrair uma HIV é grande, mas e daí? Pelo menos você vai poder dizer: “eu sou descabaçado e nem precisei casar para isso”.
Eu ri baixinho, passando o celular para o lado esquerdo. O cara era tão idiota que chegava a ser engraçado.
— Mano, eu não sou virgem, acorda. Só que isso não importa. Só estou te avisando, porque te quero lá, no dia 15 de novembro.
— SEMANA QUE VEM? VOCÊ VAI CASAR SEMANA QUE VEM? MEU DEUS, O MUNDO TÁ PERDIDO. VOU CORTAR MEUS PULSOS, ADEUS!
Me joguei na minha cama e arranquei meu tênis, puxei as meias.
— Menos, cara, menos. Olha, eu poderia te passar os motivos disso agora, mas acontece que eu não tenho muito tempo pra explicar. Ainda tenho que ir ver minha noiva e depois ir numa empresa de decoração. Depois te mando os convites, tá? Falou, cara. Tchau.
— Mas… mas…. que porra?!
Desliguei o telefone e comecei minha rotina matinal, que minha irmã definia como“terríveis hábitos de andar pelado dentro de casa todo dia cedo, caralho!”
Depois do banho, me vesti, liguei meu fones em Arctic Monkeys, pedi a chave do carro para mamãe, levando um belo “não, a casa dela é na outra rua. Toma vergonha e vá andando”. Em poucos minutos cheguei na casa de Jenn. Toquei a campainha e esperei. O pai dela veio atender e pediu para que eu entrasse.
Conversamos um pouco sobre o estado de saúde de Jenn, até que ele parou de falar e eu entendi que podia subir até o quarto dela.
Fui subindo as escadas de dois em dois degraus, rapidamente. Parei na porta do quarto de Jenn, bati, mas ninguém atendeu. Presumi que ela estivesse dormindo e em silêncio total, entrei no quarto.
Jenn estava deitada na cama, o corpo virado em direção oposta ao da porta. A claridade do dia entrava pelas enormes janelas, o sol batendo diretamente nela, jogando raios em seus fios ruivos. Soltei um suspiro, aliviado por ela estar bem. Fiquei durante alguns segundos apenas fitando-a, observando a curva de sua cintura, seus cabelos ruivos que estavam quase louros na luz solar, as suas covinhas nos ombros e uma pequena manchinha de nascença em formato de coração que tinha no braço. Inegavelmente eu amava tudo isso, inegavelmente eu amava ela e algo se partia dentro de mim toda vez que eu lembrava que em poucas semanas apenas restaria lembranças de Jenn.
Rodeei a cama, agora fitando seu rosto. Uma mecha de seus cabelos caiam em seu olho direito fechado. Seu rosto pálido ganhava manchas roxas, além de estar encovado, mostrando o quanto ela havia emagrecido em poucos dias. Parecia estar em sono profundo. Ultimamente, ela dormia mais da metade de um dia.
Enquanto a olhava, meus olhos desceram até a parte vazia da cama, próxima aos seus seios. Ali havia um pequeno papel. Peguei, desenrolei-o e li.
"Toque piano para mim, sabe, sei lá, posso estar dormindo mas ainda posso sonhar com você. Ou não, quem é que sabe?! Afinal, você nem é tão… sonhável assim.
Brincadeira, toque para mim e eu sonharei com você, fazendo “aquilo”, e você sabe o que é “aquilo”…
Jenn
P.S: Papai se for você achar esse papel, “aquilo” é assistir o Bob Esponja.
Jenn”
Fale com o autor