Frozen Heart
10 The Rains Of Arendelle
Notas iniciais
Estava frio, muito frio. Kuroko sentia a pele se congelando lentamente e sua visão começando a ficar embaçada. Seus olhos apenas captavam a cor branca em todas as direções. Por que estava ali? Não saberia dizer, mas parecia procurar por algo.
Sua voz tentava formar uma palavra, mas apenas conseguia pronunciar barulhos estranhos. Era como se suas cordas vocais estivessem congeladas. Também encontrava dificuldade para andar, sentindo a terra puxar suas pernas para baixo sempre que as levantava.
Em algum momento essa força que tentava mantê-lo fixo ao chão o fez perder o equilíbrio, indo de encontro a algo macio e gelado. Então ele estava na neve e no meio de uma nevasca; era o que conseguia perceber enquanto sentia todo o corpo se tornar ainda mais gelado sob as roupas finas com aquele contato. Mas ainda não sabia a razão de estar ali ou o que estava procurando.
Talvez se continuasse caminhando poderia encontrar, pensava. Mas seu corpo não encontrava forças para se levantar ou realizar um movimento. Ele parecia estar no fim, já começava a sentir todo o corpo dormente. Parecia horrível morrer daquele jeito...
Kuroko sentiu um toque na bochecha e automaticamente abriu os olhos. Viu-se no escuro, e deitado em algo ainda mais macio que a neve. E não sentia mais frio; na verdade sentia calor por todo o corpo, principalmente no rosto.
Lembrava-se agora de onde estava: no quarto de Akashi. Não estava na neve procurando por algo e prestes a morrer, na verdade nunca saíra dali. Fora apenas um pesadelo.
– Tetsuya? – Akashi o chamou. E ele se sentiu grato por ouvir aquela voz outra vez. – Você estava tremendo. Está tudo bem?
Kuroko sentia uma calidez em sua bochecha e se lembrou que fora acordado por aquilo. Agora podia perceber que a razão disso era a palma da mão de Akashi que repousava no local. Novamente se surpreendia com o toque quente que provinha do outro.
– Foi só um pesadelo.
– Quer falar sobre isso? Você ainda está tremendo.
Era verdade, mesmo acordado seu cérebro ainda não parecia ter se convencido de que se tratava de apenas um sonho, que não era real. Kuroko permaneceu em silêncio por um momento, perguntando-se se deveria contar.
Nem ele mesmo sabia da razão do sonho, como poderia explicar?
Antes que pudesse responder algo, o menor se sentiu ser puxado, pelos braços de Akashi, para seu peito. O ruivo pressionava-o forte contra si, mas ainda com bastante cuidado.
– Conte se estiver com vontade, mas fique assim por um tempo até parar de tremer.
Kuroko parara de tremer assim que entrou em contato com o calor do corpo de Akashi, mas não queria se desvencilhar daquele abraço. Sentia as bochechas ainda mais quentes e o coração começando a palpitar quando afundou o rosto no peito do maior, sentindo o cheiro de suas roupas.
– Não sei bem como foi, eu estava no meio de uma nevasca procurando por algo – começou a contar. – Tinha muita neve e perdi o equilíbrio. Fiquei no chão porque meu corpo não tinha mais forças e senti que iria morrer.
Akashi não respondeu, apenas levou uma das mãos ao cabelo azul claro e passou os dedos pelos fios várias vezes. Kuroko começava a se sentir melhor. Fora tudo muito real, todas as sensações que tivera, todos os sentimentos do momento. Mas agora começava a voltar para a realidade. O toque de Akashi, o calor de seu peito e o som das batidas de seu coração o deixavam tranquilo novamente.
Sentia os olhos se fechando enquanto o sono voltava lentamente. Antes de dormir e se esquecer, lembrou-se de algo que deveria dizer a Akashi.
– Acho que eu estava procurando por você, Akashi-kun.
A última coisa que se recordava antes de cair no sono era o ruivo abaixando um pouco a mais a cabeça para depositar um beijo em sua testa e sussurrar:
– Eu não vou a lugar nenhum, sempre estarei aqui.
Foi cerca de duas horas depois que Akashi ouviu o som vindo do salão principal de seu castelo. Não era um som muito alto, mas também não poderia ser dito como baixo. Kuroko não acordou em razão de seu sono extremamente pesado, mas o rei não dormia da mesma forma que ele.
Era como se o portão de seu castelo houvesse sido arrombado. Akashi queria acreditar que estava enganado, porém seria perigoso não checar. Observando o rosto adormecido de Kuroko com a baixa claridade, o maior achou melhor não acordá-lo. Poderia resolver essa questão rapidamente sem atrapalhar o sono do outro para isso.
Movendo-se lentamente e com extremo cuidado, Akashi retirou os braços que ainda abraçavam o azulado para poder sair da cama. Acendeu uma vela que se encontrava próxima de si, usando a luz proveniente de tal para pegar o casaco do dia anterior que estava próximo e jogar sobre o ombro. Em seguida carregou a vela consigo para fora do quarto.
Enquanto descia as escadas podia perceber uma enorme quantidade de luzes alaranjadas que tomavam conta de seu salão principal. Talvez não fosse uma situação tão simples assim de ser resolvida.
– Akashi Seijuro – uma voz o chamou em alto tom. – Rei de Arendelle.
O ruivo agora se encontrava no meio do salão principal, rodeado por várias pessoas que pareciam de seu próprio reino segurando tochas acessas em suas mãos. A multidão deu espaço para um rapaz de quase dois metros de altura e cabelos ruivos como os seus fazê-lo companhia no centro do círculo.
– Kagami Taiga – o nome foi praticamente cuspido com desprezo.
Akashi o conhecia há um tempo, desde quando era criança e viera com seu pai e avô para um treinamento em Arendelle. Era um soldado assim como todos os homens de sua família. Mas conseguira fazer amizade com Kuroko durante o pouco tempo que estivera no reino e o azulado falava bastante do novo amigo. Desde aquela época não gostava muito de Kagami; admita que sentia ciúmes de Kuroko.
Depois disso, não o vira mais; ouviu que continuou o treinamento até se tornar um soldado. Mas incrivelmente não estava afiliado a nenhum reino, mesmo que tivesse bastante potencial e físico invejável para o cargo. Ele simplesmente viajava entre diversos locais e era conhecido por promover rebeliões populares em reinos que não estavam satisfeitos com seus reis.
Então era por isso que estava ali, Akashi pensava com um sorriso de escárnio nos lábios.
– Parece que se lembra de mim – disse Kagami. – Vai nos poupar tempo com apresentações.
– Fico surpreso por ter voltado depois de mais de dez anos.
– Ouvi falar de um rei incompetente em Arendelle e por isso voltei – o maior esperou o rei rebater sua afirmação, mas nada fez. Então continuou: – É o meu trabalho mesmo.
– É uma pena, mas não há nenhum rei incompetente por aqui – a voz de Akashi tornou-se mais dura e impositora. – Não meta o nariz onde não é chamado, Kagami Taiga.
A postura de Akashi estava rígida e seu olhar fixo no ruivo à sua frente. Seu braço ergueu-se um pouco até estar na altura do peito do outro, com a palma aberta em sua direção. Tinha consciência que Kagami sabia de seus poderes; Kuroko uma vez lhe dissera que havia contado sobre os poderes de ambos para o novo amigo. Na época se sentiu receoso, mas o azulado o tranquilizara e passara confiança sobre o sigilo do outro.
Agora Kagami tinha consciência da ameaça a que estava sujeito.
Mas ele não se mostrou amedrontado e apenas suspirou pesadamente.
– Se eu fosse você me renderia sem reclamar – disse. – Se não quer que nada aconteça com Kuroko.
O semblante de Akashi se fechou ainda mais do que parecia ser possível. Todos os seus sentidos alertavam-o incansavelmente.
– O que você poderia fazer com Tetsuya?
– Bom, creio que você não queira ser separado dele novamente, não é?
– Dessa vez é diferente, ele conseguiria uma forma de voltar.
– Meu plano inicial não era machucá-lo, mas algumas coisas acabam sendo necessárias – Akashi controlava seu impulso se saltar no pescoço do maior naquele momento. – E acredito que as memórias dele ainda não voltaram, não é? Me pergunto como ele reagiria caso soubesse do que já aconteceu quando seus poderes se descontrolaram. Ele ainda gostaria de voltar pra você, Akashi?
As palavras o atingiram como uma pancada. Seus músculos endureceram e seu braço caiu ao lado do corpo no mesmo instante. Kagami Taiga não estava completamente errado.
– Ele é importante para você, não é? – Kagami continuou, agora exibindo um pequeno sorriso vitorioso nos lábios – É bom que não subestime a quantidade de homens que tenho aqui. Podemos te derrotar facilmente.
Akashi não conseguia respondê-lo, mas pensava que seu olhar cheio de ódio era o suficiente para passar suas emoções. A única coisa que sentia vontade de fazer no momento era usar seus poderes para abrir um buraco no peito de Kagami Taiga, ou ao menos congelá-lo vivo. Mas sua mente fazia o trabalho de lembrá-lo de Kuroko que ainda dormia profundamente no quarto. A imagem de seu sereno rosto adormecido estava fixa em sua memória.
Não havia a mínima chance de fugir de Kagami e dos revoltosos de seu reino, acordar Kuroko rapidamente e deixar o castelo sem serem pegos. Principalmente pelo fato de todos naquele salão estarem com tochas acessas, provavelmente para incendiar todo o local. Ele não podia correr o risco.
– Tudo bem – Akashi respondeu. – Mas prometa que não fará nada com ele. Nem contará uma informação sequer.
– Não tenho razões para machucá-lo – Kagami riu.
No momento seguinte, compartimentos de metal parecidos com grandes luvas recobriram as mãos de Akashi. Pela explicação de Kagami, eram especiais para suportar temperaturas muito baixas e não poderiam ser quebradas nem com seus poderes em força máxima. Mas o rei não prestava muita atenção no falatório do maior.
Sua mente estava totalmente voltada para Kuroko. “É uma pena não poder me despedir ou ao menos deixar uma carta”, pensava consigo.
– Ande logo – Kagami grunhiu, puxando as correntes presas aos objetos em suas mãos para fazê-lo andar.
– Cuide-se, Tetsuya – sussurrou para o castelo baixo o suficiente para não ser ouvido antes das portas se fecharem às suas costas.
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