From The First Look - Skinny Love
3 Tempestade
Notas iniciais
Meu corpo despertou antes da minha mente conseguir concluir o processo e colocar meus pensamentos em ordem. Minhas pálpebras tremeram levemente e abri os olhos no exato minuto em que Rosalie Hale entrou em meu campo de visão.
Ela estava sentada em minha cama, me fitando. Um sorriso iluminava seu rosto de anjo e seus olhos brilhavam de felicidade.
– Bom dia. – Ela riu.
– Rose? – Sentei-me num pulo, abraçando-a fortemente.
Rosalie, depois de Nessie, era o membro da família Cullen mais ligado à mim, especialmente pelo fato de que ela fora me buscar no orfanato quando a papelada da adoção finalmente estava pronta e também por ter ficado em casa comigo nos meus primeiros dias na família, ajudando em todo o processo de adaptação. Era a pessoa mais carinhosa e sincera que eu já conhecera na minha vida e saber que agora eu era sua irmã me deixava muito feliz.
– Que saudade! – Ela disse, retribuindo ao abraço.
– Quando vocês chegaram? — Perguntei, surpresa – Achei que íamos buscar vocês no aeroporto.
– Chegamos pela madrugada. – Ela explicou – Carlisle e Esme não estavam nos esperando, mas nosso voo adiantou.
– Entendi. – Assenti. – Quem veio com você?
– Emm e Alice. – Ela respondeu.
– E os outros?
– Bella e Edward chegarão durante a parte da tarde e Jazz só chega amanhã.
– Como está a faculdade? – Ajeitei-me mais ereta.
– Tudo bem, embora eu não seja a maior fã do meu colega de quarto.
– Achei que você estava morando em um apartamento com o Emm. – Disse, confusa.
– E eu estou. – Ela sorriu.
Dei risada.
– Ele sabe que você fala essas coisas nas vésperas do casamento? – Brinquei.
– Ele anda falando as mesmas coisas sobre mim.
– Duvido muito, Rose.
Rosalie e Emmett formavam um casal incrível. Ambos eram muito divertidos e conviver com eles era uma situação inusitada. Apesar de a paixão entre os dois ser visível a qualquer um que os olhasse, eles brigavam o tempo todo. Emm era completamente louco e Rose o travava na frente de quem quer que fosse, beliscando-o vez ou outra. Estar na presença deles era ter a certeza de que pelo menos uma risada você daria.
– Como você está linda... – Ela alisou uma mecha de meu cabelo, olhando para mim quase com adoração.
– Acho que Nova York está te fazendo mal, Rose.
– Por quê? – Ela perguntou, a testa franzida.
– Acabei de acordar e está me dizendo que estou linda. – Sorri.
– Pare de ser boba. – Ela me repreendeu, mas acabou sorrindo.
Meu estômago roncou alto.
Ela olhou para minha barriga, com a sobrancelha arqueada. Senti minhas bochechas esquentarem.
– Por que não fazemos assim? Se vista e desça. Eu te conto tudo enquanto você estiver tomando café.
– Você toma café comigo? – Perguntei.
– Ah, sinto muito querida. Já tomei café. – Ela forçou um sorriso, se remexendo desconfortável.
Avaliei sua reação por um segundo, mas decidi ignorar.
– Tudo bem, eu desço em um minuto.
Ela assentiu e saiu do quarto.
Pus-me de pé, indo até o banheiro. Tirei o pijama e nos míseros três segundos que levei para entrar embaixo do chuveiro, tremi de frio. Acostumar-se com essa temperatura não estava sendo a tarefa mais fácil, especialmente para mim que não era a maior fã de chuvas, inverno, neve e tudo mais.
Depois de um banho rápido, escovei os dentes e penteei o cabelo. Vesti uma calça jeans, uma camiseta branca e uma blusa de mangas compridas por cima. Calcei ankle boots e peguei meu celular, entretanto nenhuma ligação ou sequer mensagem de Austin.
Suspirei, frustrada e desci as escadas.
Emm ria alto, contando alguma coisa para Renesmee. Esme e Carlisle conversavam com Alice, e Rose estava sentada em um dos sofás, foleando o jornal.
– Bom dia. – Sorri.
– E aí, baixinha? – Emm retribuiu o sorriso, vindo me abraçar. – Não tive a oportunidade de lhe desejar as boas-vindas. – Ele apertou minha bochecha – Seja bem-vinda à família Cullen.
– Obrigada. – Corei.
– Oi, Claire. – Alice também veio me abraçar e perguntou o que eu havia achado das roupas.
– São lindas, Alice. Obrigada. – Disse – Embora eu ainda ache que precisarei da sua ajuda para aprender a usá-las.
– Ficarei feliz em ajudar. – Ela sorriu lindamente.
Conversei brevemente com eles e depois pedi licença, indo até a cozinha tomar meu café. Optei por uma tigela de cereal e leite.
Rose se juntou a mim, sentando ao meu lado.
– Como você está?
– Bem, eu acho. – Franzi a testa — Eu sei que é a hora de seguir em frente, mas é que...
– Querida, ninguém espera que você não sinta a falta dela. É completamente normal você estar em luto. – Ela afagou meu braço – Eu diria que é algo saudável. Quando você sentir que está pronta para sorrir de verdade outra vez, sua tia sorrirá junto, pode acreditar.
Meus olhos lacrimejaram e pisquei para eliminar a umidade.
– Nervosa com o casamento? – Mudei de assunto.
– Um pouco. Sinto como se... se...
– O que?
– Como se... – Ela mordeu o lábio inferior, como se estivesse pensando no que dizer. – Saber que o Emm vai estar lá me tranquiliza.
Assenti, sorrindo.
– E os detalhes? Já comprou o vestido? Escolheu as damas? As cores da decoração da recepção? – Despejei uma enxurrada de perguntas, querendo evitar falar sobre a morte da minha tia novamente.
– Devo provar meu vestido em breve, mas quanto ao resto... Bem, você sabe... – Ela deu de ombros – Tentei de verdade escolher algumas coisas ou simplesmente dar uma sugestão ou outra, mas Alice tem tudo sobre controle.
Ri, comendo uma colherada de cereal.
Terminei meu café e voltamos para a sala.
Alice estava nos contando sobre a faculdade quando foi interrompida por batidas insistentes na porta da frente. Todos olharam. Jacob Black trazia um sorriso imenso estampado no rosto.
– Jake! – Nessie praticamente gritou.
Carlisle abriu a porta e Jacob correu até Renesmee, abraçando-a forte. Ele a tirou do chão, girando-a. Os dois sussurravam palavras incompreensíveis um para o outro, enquanto se abraçavam sem dar qualquer indício de que um dia se soltariam.
Por fim, Jacob a afastou um pouco e fitou-a; seus rostos a pouco centímetros. O mundo dos dois pareceu encolher, pois eles aparentemente se esqueceram dos seis pares de olhos que os encaravam.
– Jacob, quanto tempo! – Emm riu, dando um tapa no ombro dele, fazendo-o cambalear para frente.
Renesmee se afastou constrangida e com as bochechas em brasa. Dirigi-lhe um olhar questionador que ela fingiu não ver.
– Oi, Emmett. – Jacob pigarreou, sem jeito.
Ele cumprimentou os Cullen e quando veio falar comigo, parou como se não estivesse me reconhecendo.
– Claire Verona? – Ele franziu a testa.
Corei. Eu estava tão diferente assim? As mudanças que eu percebera eram poucas, não eram tão grandes para que estivesse difícil me reconhecer.
– Sim. – Respondi.
– Como vai? – Ele sorriu, abraçando-me brevemente. – Bem vinda a Forks.
– Obrigada. – Sorri de volta.
Jacob e Renesmee se sentaram na escada, conversando animadamente. Ela parecia ter infinitas coisas para lhe contar e ele ouvia com paciência cada palavra que saía de sua boca. Demonstrava entusiasmo e interesse sobre tudo o que ouvia, como se soubesse que era essa exatamente a reação que ela queria. Os dois tinham uma ligação quase palpável e embora fossem apenas amigos, qualquer um que olhasse de fora veria que o desejo de ser algo mais estava presente nos dois.
Jacob perguntou sobre as experiências de escola de Nessie e os dois riram juntos, lembrando da formatura e do baile que ocorreu há alguns meses atrás, evento no qual ele foi o acompanhante dela. Nessie também falou sobre a decisão de adiar, por ora, a faculdade, embora ainda pretendesse estudar em Nova York na universidade de Julliard.
Carlisle e Esme pediram licença e se retiraram, enquanto Alice subiu com a desculpa de ter que desfazer as malas e organizar o closet de Bella antes que ela chegasse e quisesse impedi-la. Perguntei-me como ela faria isso sem as roupas que estavam na bagagem da própria Bella, mas acabei deixando para lá. Rosalie e Emmett estavam assistindo TV, conversando em voz baixa e rindo de um modo desconfiado.
Uma onda de solidão me invadiu ao olhar a cena ao meu redor. Todos pareciam estar entretidos com alguma coisa e eu me senti perdida novamente. Esse vinha sendo um problema constante no último mês quando entrei na família Cullen. Eles eram ótimos, mas em momentos como esse, quando todos pareciam estar ocupados, eu me sentia sozinha, à deriva.
– Claire? – Esme chamou do alto da escada.
– Sim? – Olhei em sua direção.
– Pode vir até aqui, por favor, querida?
– Tudo bem.
Subi as escadas e a segui, acabando no cômodo que Nessie havia dito ser o escritório de Carlisle.
Ele próprio também estava lá, sentado em uma elegante poltrona de couro preto, atrás de uma mesa de madeira escura. Eu ainda não tinha vindo nesse cômodo, e não fiquei surpresa. Era tão bem decorado e sofisticado quanto o resto da casa. Suas paredes eram claras e a mobília de madeira escura, com sofás e cadeiras de couro. Um computador e dezenas de livros dispostos por prateleiras, além de algumas fotos dos filhos da família enfeitando e dando um toque mais casual ao ambiente que parecia bem sério. Entretanto o que mais me chamou a atenção foram os quadros espalhados por ali. Pinturas detalhadas que pareciam ter sido feitas por antigos pintores famosos.
– Nossa, esse lugar é incrível. – Balbuciei, ainda boquiaberta.
Carlisle se limitou a assentir, sorrindo fracamente.
– Aconteceu alguma coisa? – Fechei a porta atrás de mim, olhando cautelosamente para eles.
Ambos estavam sérios, as expressões neutras, embora Esme tivesse uma ruguinha de preocupação entre as sobrancelhas.
– Desculpe, querida. – Carlisle sorriu mais abertamente, forçando-se a relaxar a postura – Não queríamos lhe assustar.
Não disse nada, ainda não totalmente convencida.
– Não é nada grave, é só que precisamos lhe entregar isto. – Esme completou.
Ela colocou um envelope pardo sobre a mesa e o empurrou em minha direção. Sentei em uma das poltronas e peguei o pacote, rasgando o lacre e o abrindo. Uma carteira de motorista e uma identificação com o número do meu seguro caíram em minhas mãos.
– São seus documentos novos. — Ele explicou.
Levantei o olhar para seu rosto.
– Nós recebemos hoje pela manhã e eu quis entregar pessoalmente a você. – Ele fez uma pausa, avaliando minha reação. – Sei que é tudo muito recente, Claire, mas mudar seu nome era algo necessário por você ainda ser menor de idade.
Olhei os documentos em minhas mãos e minha vista se turvou com as lágrimas.
– E meus antigos documentos?
– Não valem mais, pois você foi adotada. Seu nome não consta mais como Verona, embora eu saiba que você ainda prefere carregar o sobrenome de seus pais biológicos. – Ele se inclinou para frente em sua cadeira e pousou uma mão sobre a minha – Em pouco tempo você completará dezoito anos, mas se não tivesse nosso nome, sua adoção poderia ser considerada ilegal.
– Seu nome a partir de agora é Claire Anna Cullen e você deve usar esses documentos. – Esme veio até mim, enxugando uma lágrima que rolou por minha bochecha. — Precisa assinar como uma de nós daqui para frente.
– Obrigada, Senhores. – Levantei, fungando.
– Sinto muito que isso a deixe triste.
Balancei a cabeça para os lados.
– O fato de ser uma Cullen não me entristece. – Funguei – O que me deixa triste é que tendo um novo nome, agora realmente começo a entender e a perceber que tudo acabou. Ela se foi... Minha tia morreu e eu já não posso mais fingir que isso é apenas um sonho ruim. Essa é a realidade.
– Ah, Claire...
Esme me puxou para um abraço apertado e quando olhei seu rosto, notei como ela parecia mais velha naquele momento. Seus cabelos mel e a pele bem cuidada eram os traços marcantes que a faziam parecer a irmã mais velha de seus sete filhos, mas naquele momento sua expressão era cansada, como a de alguém que já viveu por anos a fio e que sabe e aprendeu muita coisa.
Quando eu caí no serviço social, lembro-me de ter ficado apavorada, mas ao receber a notícia de que seria adotada pela família Cullen, uma esperança inesperada me dominou, fazendo com que eu acreditasse que mesmo depois de tudo que tinha acontecido, talvez ainda houvesse uma centelha, uma coisa a que se agarrar, uma luz no meio de toda aquela escuridão que me cercava. Mas era exatamente o que eu dissera aos dois. A ficha havia caído. Minha tia e meus pais morreram e não me sobrara mais nenhuma família. Meu tempo como uma Verona havia acabado e eu renascia como uma Cullen, em uma casa diferente e nova. Em pouco tempo seria adulta, como o próprio Carlisle dissera e algo naquele futuro tão próximo, que estava chegando tão rápido a mim, me apavorava e eu não sabia dizer se estava pronta para tudo aquilo. Crescer fazia parte da vida, era a lei da existência e desde pequena tudo o que eu quisera fora isso.Crescer e me tornar independente, mas agora que a independência havia me alcançado, eu daria tudo para voltar no tempo, atrasar os ponteiros do relógio e retornar para a minha antiga vida; retornar ao dia em que eu nascera, à época que morei com meus pais, à época em que eu era uma Verona. Claire Anna Verona.
– Obrigada, Senhores. –Repeti, enxugando outra lágrima que teimosamente rolou por meu rosto. – Por tudo.
– Se você quiser dar uma volta para processar tudo isso... – Esme sussurrou, o rosto piedoso transmitindo certa dor – Pegue qualquer carro que quiser, mas tome cuidado.
Saí do escritório e o envelope em minhas mãos parecia pesar toneladas. Com um bolo na garganta, adentrei meu quarto abruptamente, tropeçando. Joguei os documentos sobre a cama e sentei no chão, trazendo os joelhos até o peito. As lágrimas escorriam por meu rosto silenciosamente e embora eu temesse ser ouvida, não soluçava.
Meus olhos foram atraídos para o porta-retratos na minha penteadeira, com uma foto minha e de tia Vall. O fluxo de lágrimas aumentou e senti como se cada pequena coisa que fiz desde o acidente para superar a perda estivessem se desfazendo e a dor vindo à tona, rasgando meu coração e destruindo minhas esperanças. Pensei no que Rose havia me dito há um tempo atrás sobre precisar voltar a viver, precisar seguir com a minha vida, mas cada dia já era um desafio e quando coisas como essa aconteciam, trazendo o sofrimento de volta a mim, eu me questionava se recomeçar seria realmente possível.
Um vazio tomou conta de mim e um sentimento de não saber a qual lugar pertencia me atingiu, jogando fora todas as minhas forças. Não queria ser mal-agradecida aos Cullen, porém, naquele momento desejei, mais do que nunca, não ter sido adotada.
Levantei, decidindo seguir o conselho de Esme.
Saí do quarto, descendo as escadas. Passei rapidamente pela sala, parando apenas para pegar minha bolsa e casaco pendurados no cabide perto da porta, e corri para a garagem, sem saber exatamente para onde eu queria ir. Minha cabeça me dizia que sair sem direção daquela maneira era loucura, especialmente com a chuva que começava a cair, mas com a dor que me preenchia eu não me importava. Só queria me afastar daquela casa e esquecer dos documentos que larguei sobre minha cama.
Na garagem subterrânea, meu queixo caiu. Seis carros enfileirados de babar. Três conversíveis, um porshe, um volvo e um jeep wrangler. Por um momento fiquei com medo de dirigir qualquer um deles, mesmo o jeep, que de longe parecia ser o mais resistente a uma batida.
Hesitante, peguei uma chave pendurada em um painel reluzente e apertei o alarme. Um dos conversíveis piscou os faróis. Sua pintura preta reluzia inacreditavelmente e ele parecia pertencer a um integrante da máfia.
Caminhei até ele, sentando-me em seu banco de couro macio. No teto havia um pequeno controle remoto preso e quando o apertei, a porta da garagem começou a levantar. Colocando a chave na ignição, tirei o carro da vaga e pisei no acelerador.
Fechei a garagem e conduzi o carro sem uma direção certa.
XXXX
A neve cobria a maior parte da floresta, mas as estradas ainda estavam parcialmente livres. Em alguns trechos era preciso fazer curvas fechadas, mas embora eu soubesse que o apropriado era voltar para casa eu ainda não queria retornar para a mansão.
Pegando a estrada principal cheguei até o centro de Forks. Algumas placas indicavam rodovias, o caminho para a escola da cidade e quando pelo espelho retrovisor vi, na direção contrária a que eu seguia, uma placa que dizia: “Bem- Vindo a Forks! População 3178 pessoas”, percebi que eu estava saindo da cidade. Freei, fazendo o retorno. Eu estava na parte comercial do centro, era possível perceber isso pela pouca presença de casas.
Hoje era domingo e a maioria dos comércios estava fechado, com plaquinhas de close penduradas na porta. A chuva de neve havia se tornado mais forte e o limpador de para-brisas não estava dando conta de manter clara a visibilidade que eu tinha da rua. Diminuí a velocidade, dirigindo com cautela.
De repente o carro engasgou e morreu. Girei a chave de novo, mas o motor rugiu, sem conseguir fazer o veículo sair do lugar. Xinguei mentalmente. Eu não podia ter estragado o carro no primeiro dia em que o dirigi! Debrucei-me sobre o volante e então vi a origem do problema. Eu atolara na neve. Como eu podia ser tão estúpida?! Esme me advertira para tomar cuidado e mesmo assim eu consegui me meter em confusão! E o meu dia só melhorava...
Olhei o celular, mas estava sem bateria. Maravilha! Isso está começando a parecer um filme de suspense e nesse tipo de filme sempre alguém morre. Sem alternativa, peguei minha bolsa, calçando as luvas que encontrei ali dentro, e as chaves do carro e desci, correndo pela neve a procura de alguma loja ou casa onde pudesse achar ajuda. A tempestade furiosa dificultava meu progresso, enquanto me cegava vez ou outra. Meu cabelo chicoteava conforme o vento e eu tremia mesmo dentro do meu grosso sobretudo.
Depois de andar mais de um quilômetro, encontrei uma pequena livraria que estava aberta. Um garoto estava atrás do balcão, dedilhando o violão. Não pensando duas vezes, irrompi pela porta da frente. Uma sineta tocou, anunciando minha chegada, enquanto eu encharcava o tapete felpudo com a frase “Bem Vindo” na entrada.
Ele parou de tocar no mesmo instante, levantando o olhar para mim. Sua expressão congelou no minuto em que nossos olhos se encontraram e eu podia apostar que a sua reação era um reflexo da minha. Algo explodiu no meu subconsciente, uma sensação até então desconhecida, como um fio que me puxava em sua direção e meu coração disparou quase explodindo.
Ele pousou o violão sobre o balcão e levantou, caminhando vagarosamente em minha direção. Prendi a respiração. Sua figura alta, musculosa, com uma pele em tom moreno bem claro, cabelos pretos e olhos incrivelmente castanhos me causava um arrepio prazeroso. Parecia ter uns dezenove anos e era indiscutivelmente lindo. Corei, como se ele pudesse escutar meus pensamentos.
Ele deu mais um passo em minha direção e minha respiração saiu entrecortada. Eu estava ficando um pouco assustada, quando ouvi sua linda voz:
– Posso ajudar? – Sua expressão ao me olhar era confusa, os olhos apertados.
– Hã… Eu… eu… Meu carro ficou preso na neve. – Apontei lá para fora, embora o automóvel estivesse a metros de distância. – Eu queria saber se você pode me ajudar ou arrumar um telefone para que eu possa ligar para casa.
Ele continuava a me olhar com aquela expressão abismada, boquiaberta. Comecei a ficar inquieta. Seus olhos percorreram minha figura molhada de cima a baixo e corei sob sua avaliação minuciosa.
– Quer saber? Esqueça. Eu vou esperar dentro do carro. – Comecei a me virar para sair dali.
– Espera. – Ele disse, segurando meu braço. Arquejei ao pensar como ele fora capaz de chegar até mim tão rápido. – Você pode usar o telefone.
Olhei para ele e depois para a mão que me segurava. Ele pareceu sem graça e me soltou.
– O telefone é ali. – Ele apontou para o aparelho preso à parede.
Fui até lá, mas então me lembrei de que não sabia o número da mansão. Parei com o fone na mão.
– Algum problema? – Ele perguntou.
– Não sei o número da minha casa. – Fechei os olhos, não acreditando que aquilo estivesse realmente acontecendo – Me mudei recentemente e agora não tenho como entrar em contato.
– Ninguém tem celular? – Ele perguntou com o cenho franzido.
Quis bater em mim mesma. Disquei o número do celular de Renesmee, mas estava fora de área e a não ser o dela eu não sabia o de mais ninguém.
– Fora de área. – Eu disse, baixinho.
– A tempestade vai demorar a passar... – Ele disse, olhando o tempo lá fora. Pude perceber a satisfação por trás de seu comentário.
– Estou com sorte então. – Murmurei irônica.
Ele sorriu.
Perguntei-me se ele havia sido capaz de escutar e o pior: se havia interpretado de outra forma minhas palavras.
– Você se mudou há pouco tempo?
– É. – Não queria dar muitas informações a ele. Não parecia ser uma escolha inteligente falar sobre sua vida a um desconhecido.
Ele voltou os olhos para mim e ficou lá parado, apenas me observando.
– Você está me deixando constrangida. – Desviei o olhar.
– Desculpe. – Ele abaixou a cabeça, rindo e revelando covinhas. – Eu nem sei o seu nome.
– Claire. Claire Verona.
‘Seu nome não consta mais como Verona, embora eu saiba que você ainda prefere carregar o sobrenome de seus pais biológicos’.
As palavras de Carlisle ecoaram em minha mente e fechei os olhos brevemente.
– Prazer, Claire. – Sua voz me despertou.
Abri os olhos e vi que ele tinha a mão estendida. Apertei-a hesitante. Quando nossos dedos se tocaram, agradeci por estar de luva. Já era bastante constrangedor estar tremendo tanto.
– Meu nome é Quil Ateara.
Uma pontada repentina atingiu minha cabeça, como se alguma coisa estivesse forçando minha memória. Recolhi a mão bruscamente, pressionando os dedos na têmpora com força.
– O que houve? – Ele perguntou, se aproximando.
– Uma dor de cabeça. – Levantei os olhos para os dele.
– Você precisa trocar essa roupa molhada. – Quil disse, seu hálito fazendo cosquinhas em minha pele. – Aqui, vista isso. – Ele arrancou a camisa cinza de mangas cumpridas pela cabeça, revelando uma camiseta preta por baixo.
– Não é necessário...
Ele torceu a bainha do meu casaco, fazendo uma poça de água se formar aos nossos pés. Corei, sabendo que ele tinha razão.
– Tudo bem, eu coloco a sua blusa. – Peguei a roupa de suas mãos e olhei ao redor, procurando um lugar onde eu pudesse vesti-la.
Voltei a encara-lo e me deparei com seus olhos me observando, um sorriso bobo brincando em seus lábios. Arqueei a sobrancelha.
– Tem algum banheiro onde eu possa me trocar ou alguma coisa do tipo? – Perguntei.
– Tem um escritório no fim do corredor.
Assenti, me afastando.
O pequeno escritório tinha paredes em tons pastéis, uma mesa de madeira e um notebook, cadeiras verdes acolchoadas, algumas plantinhas estavam espalhadas e vários arquivos empilhados em um canto. Tranquei a porta extremamente frágil e que parecia prestes a se partir com um chute.
Tirei meu casaco encharcado e gemi baixinho ao ver o estado das minhas roupas. A blusa de mangas compridas que eu vestia estava tão molhada quanto meu casaco, minhas meias e calça pareciam ter sido mergulhadas numa piscina. A que estava em melhores condições, embora também estivesse bem molhada, era minha camiseta branca.
Arranquei a primeira blusa, vestindo o casaco de Quil. Sua camisa chegava até a metade das minhas coxas e as mangas pendiam vários centímetros abaixo de meus dedos. Juntando a pilha molhada que eu despira, voltei para onde ele estava.
Quil olhou para mim, abrindo um sorrisinho descarado.
– O que foi?
– Ficou bem em você.
Franzi a testa.
– Minha blusa.
Assenti e desviei os olhos.
– Você se mudou há quanto tempo?
– Ontem.
– Onde você está morando? – Ele se debruçou sobre o balcão, me avaliando.
– É apropriado te contar?
Ele riu.
– Não sou um psicopata, acredite. – Ele levantou a palma da mão como se estivesse fazendo um juramento.
– Se eu disser corro o risco de receber uma visita inesperada?
– Você gostaria de receber essa visita? – Ele prendeu os olhos nos meus.
Incapaz de desviar o olhar, permiti-me olhá-lo e senti cócegas em meu estômago, uma sensação desconhecida, mas prazerosa. Seus olhos caíram para os meus lábios e isso me trouxe de volta a realidade. Quebrei o contato visual, corando. Por Deus! O que eu estava fazendo? Deixei Austin em Vancouver ontem. Não podia simplesmente sair flertando com o primeiro cara que eu conhecia!
– A minha casa é um pouco afastada do centro de Forks, mas isso é o máximo que eu posso dizer por enquanto. – Disse, séria.
– Você se matriculou na Forks High School? – Ele perguntou.
– Não. Já terminei a escola.
– Quantos anos você tem?
– Dezessete e você?
– Vinte e dois.
Meu queixo quase despencou, mas o mantive no lugar. Tentei disfarçar minha expressão, mas quase podia apostar que Quil havia percebido.
– O que foi? – Ele deu risada – Esperava que eu fosse mais novo?
– Não, não é isso. – Desviei o olhar, mordendo o lábio inferior, tentando reprimir o sorriso — Achei que você tinha uns dezoito, dezenove anos.
– Por que você fica desviando os olhos dos meus? – Ele franziu a testa.
Corei e minha resposta ficou presa na garganta.
Ele me observou por mais alguns segundos e por fim, abaixou o olhar, ainda sorrindo.
Quil começou a rabiscar um papel com uma caneta preta. Passaram-se quase dois minutos e um silêncio constrangedor se apossou daquela pequena livraria.
– Você acredita em lobisomens? – Disparou ele de repente.
Soltei uma gargalhada.
– O que? – Perguntei incrédula — Lobisomens?
– Esqueça. – Sua pele assumiu um tom de vermelho fraco.
– Não, tudo bem. – Pigarreei – Quer dizer... Por que você está me perguntando isso?
– Hã... – Ele se virou de costas, fingindo arrumar algumas prateleiras – é que... aqui na livraria tem muitos livros de lobisomens, vampiros, bruxas, esse tipo de coisa e... geralmente garotas da sua idade gostam... gostam desse tipo de literatura.
– Eu acho que não acredito, quer dizer esse tipo de coisa não existe! São monstros inventados pela imaginação das pessoas. – Ele engasgou quando eu disse a palavra monstros. Franzi a testa, ainda sem entender porque a conversa havia ganhado aquele rumo – Mas eu já li alguns livros de vampiros e lobisomens. Talvez eu leve um.
Ele se voltou para mim com um sorriso torto.
– Então, o que você fazia sozinha no meio da neve? – Ignorei o fato de ele estar mudando de assunto.
– Resolvi dar uma volta, conhecer a cidade, e embora minha... mãe tenha me falado para tomar cuidado, acabei ficando presa na neve.
– Onde o seu carro está?
– A quase dois quilômetros.
– Agora entendo porque você está tão encharcada. – Ele riu.
Olhei para seu rosto, afastando o olhar, constrangida, quando ele me pegou encarando-o.
– Você e a sua família vão ficar na cidade por bastante tempo? – Quil perguntou, voltando a rabiscar o papel sobre o balcão.
– Não. – Admiti, atraindo seu olhar para o meu novamente. Ele pareceu desapontado com essa notícia – Viemos para o casamento da minha irmã e talvez fiquemos até o natal.
– Você tem muitos irmãos?
– Sete no total.
– Uau! – Ele parecia surpreso. – Não é muito comum as famílias americanas terem tantos filhos.
– É.
– Você é a filha mais velha?
– Não. Na verdade, sou a mais nova. – Joguei o cabelo molhado para trás. — E você? Tem irmãos?
– Não. Moro com meu avô e minha prima. – Ele fez uma pausa – Fui para faculdade há três anos, mas alguns problemas aconteceram na minha família e eu precisei trancar a matrícula. Agora trabalho aqui e nos fins de semana conserto carros com um amigo.
Assenti.
– Você gosta de morar aqui?
– Não moro em Forks. Moro em La Push. É uma reserva aqui perto, já ouviu falar?
– Sim.
Nessie havia me falado sobre La Push, dizendo que era lá que Jacob morava. O som que aquelas duas palavras faziam ao serem pronunciadas para mim eram de um familiaridade curiosa e estranha, como se eu já tivesse ouvido aquilo no passado.
– Moro lá desde que eu nasci e embora tenha vontade de sair no futuro, gosto muito de viver aqui. – Ele explicou, um sorriso quase imperceptível nascendo no canto de seus lábios — De onde você é?
– Nasci nos Estados Unidos, mas me mudei para Vancouver ainda bebê. Moro lá desde então.
– Já estive no norte do Canadá, mas já faz muito tempo. Acho que há uns oito anos.
– Esteve visitando?
– Não exatamente. – Ele sorriu maliciosamente – Estava caçando.
– Caçando o que? – Perguntei.
– Uma mulher. – Ele apertou a caneta no papel, rasgando-o.
Um arrepio percorreu minha espinha e quase abri a porta e corri para meu carro.
– Ela era a sua namorada ou algo do tipo?
– Não. – Ele fez um ruído de nojo.
– Realmente estou ficando com medo de você.
Quil riu e fiquei um pouco mais tranquila ao perceber que ele estava brincando.
– O que vamos fazer? Temos que esperar a tempestade passar e isso pode levar horas.
O jeito como Quil disse aquilo deixava claro o duplo sentido das palavras. Resolvi ignorar, embora as minhas bochechas já estivessem começando a esquentar.
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