From The First Look - Skinny Love
4 Acontecimentos não planejados
Notas iniciais
Ao final de quase cinco horas, a neve havia dado uma trégua e nesse tempo eu e Quil falamos sobre as coisas mais banais que duas pessoas poderiam conversar. Os assuntos fluíam facilmente e depois de alguns momentos constrangedores, passei a levar tudo mais na brincadeira e percebi que nunca tinha conversado tanto com alguém depois que minha tia morrera, nem mesmo Austin.
Ele me contou sobre sua infância, colégio, faculdade e demonstrou interesse em saber sobre minha história, assunto do qual eu fugi diversas vezes, apenas desconversando ou perguntando alguma coisa sobre sua vida. O jeito como ele me olhava quando eu estava falando me lembrou imediatamente da expressão no rosto de Jake ao escutar os relatos de Renesmee, mas antes que eu me permitisse envolver ou fantasiar qualquer coisa que fosse, repeti para mim mesma que eu tinha um namorado em Vancouver, e parei com essa linha de pensamento.
– Bom, — Olhei pela janela, fingindo estar distraída — acho que já dá para ir embora.
Quil se mostrou desapontado, mas logo assumiu uma expressão neutra.
– Claro, como quiser. – Ele contornou o balcão, vindo até mim. – Eu te acompanho até o carro.
Assenti e então me lembrei que estava vestindo sua blusa.
Arranquei a camisa dele, ficando apenas com minha camiseta branca. Estendi-lhe a roupa, mas surpreendi-me ao perceber que ele olhava fixamente para mim. Segui seu olhar, corando ao ver o meu estado. A camiseta branca estava molhada e se tornara transparente, colada ao meu corpo. O sutiã preto que eu usava era visível há quilômetros de distância. Cruzei os braços, tentando me esconder.
– Você poderia não olhar? – Arqueei a sobrancelha.
– Hã... é melhor você ficar com isto. — Ele me devolveu sua blusa.
Apanhei-a rapidamente, vestindo-a, meio zangada, meio envergonhada. Juntei minhas coisas, passando a bolsa por cima do ombro.
– Não precisa ficar brava comigo. Eu não estava olhando...
Estreitei os olhos e ele acabou rindo.
– Me desculpe, está bem? – Ele segurou meu pulso.
Queria continuar brava, mas algo no modo como ele me olhou, fez alguma coisa se derreter dentro de mim.
– Tudo bem. Vamos?
Ele sorriu satisfeito, abrindo a porta para que eu pudesse passar.
Lá fora o tempo estava congelante, embora a neve tivesse parado de cair como antes. Levamos cerca de meia hora para chegar ao carro, e quando chegamos Quil assoviou.
– Você se liga em carros ou consertá-los é apenas um passatempo? – Perguntei, olhando para ele.
– Não tem como não se ligar num carro desses. – Ele riu – Sabe, uma família morou em Forks há alguns anos e eles só tinham carretas como essa.
Assenti, lembrando dos carros da minha própria família. Todo modelos caros e belíssimos.
Quil olhou o carro por mais alguns instantes e então parou diante dele, observando a neve que o impedia de andar.
– Eu vou empurrar.
– Tudo bem.
Entrei no carro e girei a chave na ignição. Tirei as luvas a fim de evitar que minhas mãos escorregassem no volante. O motor rugiu sem conseguir avançar. Quil se posicionou atrás do carro e era possível ver apenas o topo de sua cabeça quando olhei pelo espelho retrovisor. Ele fez força e o carro se moveu alguns centímetros.
– Pise fundo no acelerador! – Ele gritou.
Obedeci e o carro acelerou de repente, andando quase dois metros. Freei rapidamente.
Quil veio até minha janela quando abaixei o vidro.
– Obrigada, Quil. – Sorri. – Mas ainda me sinto culpada por estar levando sua camisa.
– Vai ser uma coisa para te fazer voltar à loja para devolver, além do mais, eu trouxe outro casaco. – Ele me sorriu de volta – Como vou saber se você chegou em segurança? Talvez eu devesse te acompanhar.
– Eu vou ficar bem, acredite.
– Tudo bem. – Ele abaixou a cabeça, como se estivesse envergonhado, então simplesmente perguntou: – É muito cedo para pedir seu telefone?
Surpreendi-me. Meu coração acelerou outra vez e minhas bochechas esquentaram. Desviei os olhos, sem graça.
Pisando levemente no acelerador, ponderei, ainda surpresa, sobre sua pergunta. O carro rugiu novamente, se preparando.
– Definitivamente.
Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto esquerdo de sua boca.
Estava prestes a arrancar com o carro, quando Quil passou a mão pela janela aberta, segurando meus dedos. Arquejei diante de seu toque abrasador, mas antes que eu pudesse perguntar se ele estava com febre ou algo do tipo, ele abaixou a cabeça até a minha e me beijou.
Soltei a chave e o carro morreu.
Quil se afastou, sorrindo descaradamente e se divertindo com a situação. Ele segurou entre os dedos uma mecha de cabelo que caía em meu rosto e sua expressão ficou séria quando seus olhos encontraram os meus. Ele abaixou a cabeça de novo, me dando um selinho.
– Vou bom te conhecer, Claire Verona. – Ele sorriu contra meus lábios.
Fixei meu olhar no seu e algo dentro de mim se encaixou, com um pequeno clique em meu coração. O lindo rosto tão próximo ao meu me sorriu outra vez e fui incapaz de mover um único músculo.
– Definitivamente era cedo demais para isso também. – Eu disse, respirando com dificuldade. – Especialmente porque eu...
Ele alargou o sorriso e não me deixou terminar, me beijando novamente, dessa vez mais lenta e profundamente.
– Quil, não... – Empurrei seu peito, afastando-o de mim.
– O que foi? – Ele sorriu, meio confuso.
– Não posso fazer isso. – Respirei fundo tentando me acalmar.
– Por quê?
– Eu... eu... – Gaguejei, ainda abalada – Quil, eu tenho namorado.
Seu sorriso murchou e ele franziu a testa, cerrando o maxilar. O desapontamento era claro em seu rosto e em algum lugar também era possível ver constrangimento. Seus olhos estavam apertados e percorriam meu rosto como se ele estivesse à espera que eu dissesse que era só uma piada, mas aquilo não aconteceria.
– Sinto muito, eu não... – Comecei a dizer, mas interrompi-me no minuto em que seus olhos voltaram aos meus.
Um sentimento de culpa me inundou mesmo que eu soubesse que afastá-lo era a coisa certa a se fazer.
– A gente se vê. – Eu disse, ligando o carro outra vez.
Ele não respondeu.
Pisei no acelerador, observando a imagem de Quil diminuir cada vez mais. Meu coração ainda batia loucamente e por mais que eu tentasse não conseguia estabilizar minha respiração.
Foi só quando entrei na estrada de terra dos Cullen, que percebi como estava tremendo.
XXXX
Rosalie andava de um lado para o outro, numa espécie de dança frenética enquanto falava com alguém ao telefone. Na verdade, eu não ficaria surpresa se ela estivesse falando com a polícia. Além do mais, não era preciso prever o futuro para saber que esse ataque de pânico se devia ao fato de eu ter desaparecido por pouco mais que seis horas.
– Claire, pelo amor de Deus! Onde você estava?! – Ela correu até mim, abraçando-me forte contra o peito – O que aconteceu?
– Fiquei presa na neve, me desculpe. A Sra. Cullen me avisou para tomar cuidado, mas acabei me distraindo e fiquei dirigindo sem rumo e…
– Por que você não telefonou?!– Ela elevou a voz, praticamente gritando.
Encolhi-me.
– Meu telefone arriou a bateria e o único celular que eu sabia o número era o de Renesmee, que por sinal, deu fora de área.
– Por que você está toda molhada? – Ela segurou a blusa de Quil entre os dedos, franzindo o nariz. – Que cheiro horrível de cachorro molhado! Onde conseguiu essa roupa?!
Congelei. Pensei por um minuto no que eu ia dizer. Eu não podia falar sobre Quil.
Ao invés disso, apenas expliquei:
– Eu precisei sair do carro pra pedir a-ajuda. – Gaguejei. Como eu ia explicar o aparecimento daquela blusa? Mudei de assunto, esperando que ela não percebesse – Cadê todo mundo?
Ela suspirou, desligando o telefone e colocando-o na base.
– Nessie saiu com Jacob e os outros foram buscar Edward e Bella no aeroporto.
Assenti.
– Você tem sorte por Esme não estar em casa ou a polícia de Forks teria sido comunicada sobre o seu desaparecimento.
– Achei que você estava falando com a polícia ao telefone.
Ela riu melodicamente, como um tilintar de sinos.
– Isso iria chegar até os ouvidos de Esme e você não iria querer vê-la pensando que tinha perdido uma das filhas, acredite.
– Me desculpe, Rose. Não queria causar problemas.
– Está tudo bem, querida. Apenas fiquei um pouco nervosa. Me desculpe por ter gritado, mas esqueça isso e procure nem pensar sobre o que aconteceu hoje perto de Edward. Ele é muito... perceptivo. – Ela sorriu, jogando os cabelos por cima dos ombros – Vamos manter isso entre nós duas.
– Está bem.
– Agora vá tomar um banho. Você cheira muito mal.
Cheirei meu braço, mas só o que eu sentia era o aroma do perfume de Quil. Franzi a testa confusa. Que diabos de odor era esse ao qual Rose se referia?
– Vá, querida. – Ela tocou meu ombro. – Tome um banho quente e depois desça para comer alguma coisa.
– Obrigado, Rose! – Falei por cima do ombro, enquanto me dirigia às escadas.
Subi as escadas e quando cheguei ao meu quarto, tranquei a porta, escorregando até o chão.
O rosto de Quil não saía de minha cabeça e perguntei-me se o mesmo estava acontecendo com ele. Levei os dedos até meus lábios, desligando-me completamente de qualquer raciocínio lógico enquanto sonhava acordada. Seu perfume, sua voz, seu riso, seu beijo... Tudo era hipnótico demais para que eu conseguisse me concentrar em alguma coisa que não fosse ele. Sorri comigo mesma ao pensar que eu só podia estar louca. Beijei um cara que nem sequer conhecia e embora soubesse que aquilo era errado, eu não podia cogitar a ideia de que conhecê-lo fora errado. Um arrepio passou por minha pele e meu coração disparou. Suas palavras retumbaram em minha mente. “Foi bom te conhecer, Claire Verona.”
Levantei-me do chão, indo tomar um banho.
No chuveiro, perdi-me em pensamentos novamente e só voltei à realidade ao sentir a ardência incessante em minha pele. Manchas vermelhas cobriam meu corpo e o chuveiro soltava fumaça, como se estivesse prestes a pegar fogo.
Desliguei a água, saindo do box e me enrolando numa toalha. Vesti uma roupa quente e seca, embora o frio ainda me torturasse. Juntei minhas roupas molhadas e a blusa de Quil, descendo até a lavanderia. Antes de colocá-la na máquina de lavar, inspirei seu cheiro profundamente e um aroma de amêndoas me inebriou. Arrepiei-me e senti minhas bochechas queimarem, sem motivo aparente.
Dei uma passada na cozinha e preparei um sanduíche de queijo e uma caneca fumegante de chocolate quente. Voltei para a sala, sentando-me perto da lareira e desfrutando do meu lanche.
Rose vinha descendo as escadas, com uma pilha de revistas nas mãos. Ela se sentou ao meu lado no sofá e colocou as revistas diante de nós.
– O que é tudo isso? – Perguntei, mordendo meu sanduíche.
– Modelos de penteados para noivas. – Ela começou a folhear uma das revistas.
– Posso perguntar uma coisa?
– Você já fez uma pergunta. – Ela riu.
Sorri, abaixando a cabeça e bebericando meu chocolate.
– Pergunte, meu anjo. Estou apenas brincando.
– Por que você escolheu Forks, e ainda por cima em dezembro? Está frio e a maioria dos parentes e amigos não poderá vir. – Fiz uma pausa – Me desculpe, Rose. Essa pergunta estava em minha mente desde que Esme me contou sobre a viagem e nunca lhe perguntei isso com medo de ser indelicada, mas acho que acabei de ser.
– Você não foi indelicada. – Ela fechou a revista, olhando para mim. – Forks significa muito para nós. Para todos nós. Foi uma cidade que nos trouxe muitas coisas boas e embora nos mudemos muito, aqui é o lugar que temos como nosso lar. E de um jeito ou de outro sempre voltamos para cá. Sempre.
Franzi a testa, confusa com as palavras de Rose.
– Quantas vezes vocês já moraram aqui?
– Duas.
– Por muito tempo?
– Da primeira vez sim, mas na segunda não nos demoramos muito. – Ela continuou – Você me perguntou por que eu quis casar aqui. Bom, o motivo pelo qual escolhi a cidade de Forks é porque foi aqui que percebi como eu era sortuda e feliz por fazer parte da família de Carlisle e Esme, e agora poder voltar e me casar aqui com Emm é a melhor coisa que podia ter me acontecido.
A voz de Rosalie estava estranha, mas ela não tinha lágrimas nos olhos nem dava qualquer indício de que ia chorar.
Assenti, ficando eu mesma emocionada com a história.
Ela começou a falar sobre casamentos, festas, alianças, vestidos, penteados e no meio de todas aquelas frases e palavras, minha mente foi atraída para um lado secreto, só meu. Quil voltou aos meus pensamentos e eu já não conseguia afastar meu subconsciente de seu rosto majestoso, de modo que passei a sorrir comigo mesma ao recordar o toque macio e cálido de seus lábios sobre os meus e a maneira como nos encaixávamos perfeitamente, como se tivéssemos sido desenhados um para o outro...
– Claire, você ouviu alguma palavra do que eu disse? – Rose sacudiu meu braço, arrancando-me de meus devaneios.
– Hã... o que? – Perguntei, meio abobada, meio atordoada. – Me desculpe, não. O que você disse?
– Claire o que aconteceu com você enquanto esteve fora?
– O que? Como assim? – Desviei os olhos, bebendo meu chocolate. – Nada. Não houve nada.
– Claire... – Ela estreitou os olhos.
– Nada, eu juro! – Senti minhas bochechas esquentarem.
– Então por que está tão distraída?
– Eu...eu estava pensando numa coisa.
– Em que?
Merda.
– Posso te perguntar uma coisa, Rose? – Franzi a testa, a pergunta nascendo em minha mente naquele instante.
Ela assentiu, fitando-me.
– Sempre pensou em se casar com o Emm? – Perguntei em voz baixa – Quer dizer, alguma vez houve outro?
– Quer saber se já estive apaixonada por outra pessoa? – Ela sorriu fracamente
– Sim.
– Já. – Ela voltou a folhear a revista. – Royce King. Nós ficamos até noivos.
– Noivos? – Perguntei, surpresa.
– Sim. Para falar a verdade, não o amava. Eu pensava que sim, mas o que sinto pelo Emmett é… isso sim é amor.
Um arrepio cortou minha espinha.
– Como soube disso? Que Emmett era o cara certo?
– Precisei apenas conhece-lo. – Ela olhou para mim e abaixou o rosto, como se estivesse constrangida.
– Isso é muito lindo, Rose.
– Obrigada. – Ela sorriu – Mas para que todas essas perguntas?
– Nada. Só queria saber mesmo. – Forcei um sorriso.
Rose me avaliou por vários segundos, os olhos cerrados. Corei, sabendo que de um modo ou de outro ela adivinharia que algo havia acontecido, especialmente depois de todas essas perguntas que eu havia despejado em cima dela.
Arrisquei olhar para seu rosto e me arrependi. Um sorriso nascia no canto direito de sua boca.
3…2…1!
– Claire, está mentindo!
Gemi baixinho, jogando a cabeça para trás.
– Claire, não acredito que não confia em mim.
– Não é isso. – Defendi-me — É apenas uma coisa pessoal.
– O que é pessoal? – Renesmee perguntou, chegando de repente pela porta da frente.
– Que bom que chegou, Nessie. – Rose riu – Venha cá. Claire aparentemente tem um segredo e não quer nos contar.
– O que? Como assim um segredo?
Renesmee veio até nós, jogando-se no sofá.
– Cadê o Jacob? – Perguntei, tentando tirar o foco da conversa de mim.
– Foi para casa resolver uma coisa. – Ela respondeu – Mas não fuja do assunto. Que segredo é esse?
– Não é segredo. – Fitei o fogo da lareira, tentando encontrar uma desculpa rápida e que convencesse essas duas fofoqueiras de mão cheia. – Eu... eu...
– Você o que, Claire? – Nessie riu.
– Estou preocupada. Austin não retornou minha ligação. Nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto. – Joguei as mãos para o alto, suspirando teatralmente. — Estou no escuro.
– Só isso? – Renesmee franziu a testa – Tem certeza?
Assenti, avaliando a reação de ambas.
– Está mentindo outra vez! – Rose gargalhou – Esse não é o motivo da sua preocupação.
– Argh! – Resmunguei, corando.
– Claire, nos fale o que aconteceu. – Nessie riu, acompanhando Rose. – O que foi? Por acaso você conheceu um cara na estrada e aí vocês...
Remexi-me inquieta e senti o calor se espalhando rapidamente por minhas bochechas.
– O que? – Ela gritou. – Você conheceu alguém?
Não respondi.
– Fale o que houve, sua mentirosa. – Ela me bateu com a almofada.
– Ai! – Reclamei, batendo nela de volta – Não foi nada de extraordinário. – Fitei o nada, sem jeito de encarar as duas. – Meu carro quebrou e eu precisei de ajuda. Um cara que trabalhava numa livraria me ajudou, só isso.
Rose estreitou os olhos, inclinando a cabeça de lado.
Bufei levantando do sofá, mas Nessie bloqueou minha passagem, forçando-me a sentar outra vez.
– Fale logo.
– Ele me beijou! Satisfeitas?
– Como assim beijou? Fala sério! – Rose riu, me cutucando, enquanto Nessie soltava um gritinho histérico.
– Quem é esse cara? – Renesmee praticamente gritou.
– Eu não quero falar sobre isso, amiga. – Resmunguei, meio melancólica.
– Claire, não posso acreditar que você tem um namorado e não quer me contar quem é! – Ela pirou.
– Meu Deus! Agora você foi longe demais! – Minha voz soou agudamente indignada, embora uma parte de mim tenha se agitado com a possibilidade de Quil um dia se tornar meu namorado. – Ele não é meu namorado! Eu nem o conheço! Austin é o meu namorado. Austin!
– Mas você o beijou! – Rose disparou, me fazendo corar loucamente.
– Hã... – Gaguejei, ficando sem palavras – Ele que me beijou.
– Eu diria que isso é um bom sinal... – Renesmee disse, refletindo – O que você acha, Rose?
– Bom, eu acho que...
– Meninas, eu estou aqui! – Esbravejei, enlouquecendo.
– Claire, qual o nome dele? Custa nos dizer isso?
Não respondi.
– Espere, espere! – Rose levantou um dedo – A pergunta mais importante: Claire, esse beijo afetou de alguma forma o que você sente pelo Austin?
– Eu não sei, eu…- Confessei.
– Ah, meu Deus! – Nessie colocou a mão sobre o coração, dramaticamente.
– Isso é loucura, não é? – Levantei, andando de um lado para o outro – Não posso fazer isso com o Austin. Não é justo.
– Mas e o outro cara? – Rose perguntou – O que sentiu?
Puxei os cabelos com força, tentando reprimir todos os pensamentos.
– Vamos lá, Claire. – Nessie disse – Não iremos te julgar.
– Quando ele me beijou, eu… eu o afastei porque minha cabeça sabia que era o certo, mas por outro lado… Deus! Sinto uma atração esmagadora por ele! – Despejei tudo de uma vez.
– Então você queria beijá-lo. – Rose concluiu.
– Sim. – Suspirei, sentando no chão. – Queria muito, mas, por favor, estou pedindo a vocês para esquecerem isso. Afastei-o porque não é certo trair o Austin. Não sou esse tipo de pessoa e não quero ser.
– Não posso acreditar que não pegou o telefone dele nem nada... – Rose estalou a língua.
– Rose! – Fuzilei-a com os olhos.
Nessie riu.
– Você quer vê-lo outra vez? – Rose perguntou.
Assenti, enterrando o rosto nas mãos.
– Precisamos arranjar uma desculpa para você voltar até a tal livraria. – Nessie disse, pensativa.
– Espere aí! – Rose fixou os olhos num ponto distante – Quando você chegou estava com uma camisa diferente…
Como essa mulher podia ser tão atenta aos detalhes?!
– Era dele, não era?
– Era.
– Perfeito! Amanhã você volta à livraria e devolve.
– Rose, não posso fazer isso.
– Claire, você pretende ficar com a camisa dele para sempre? – Nessie arqueou uma sobrancelha.
– Não, mas…
– Mas nada! Não estamos te pedindo para trair o Austin nem nada, é só ir até lá e devolver a camisa. – Ela disse, eufórica – O que foi? Tem medo de não se controlar?
– Eu não tenho medo, porque sei que vou me controlar. – Bufei, irritada. – Sei o que sinto pelo Austin.
– Tem certeza? – Rose debochou.
Levantei-me do chão, furiosa, e subi para meu quarto.
Sabia que ambas estavam brincando, apenas tentando fazer com que eu me divertisse e relaxasse um pouco, mas algo naquela brincadeira me apavorava. Duas pessoas já sabiam o que havia acontecido e quanto mais eu comentava sobre o ocorrido mais me sentia culpada. Quil era um completo estranho, mas eu não podia me negar aos sentimentos que me dominavam apenas por pensar sobre o que acontecera naquela tarde. Algo nele me puxava em sua direção e me destruía pensar que eu poderia nunca mais vê-lo, tocá-lo, beijá-lo… Argh! O que eu estava pensando?! Eu o conhecia há poucas horas e não podia estar me apaixonando tão rapidamente! Algo estava muito, muito errado, mas por mais que eu soubesse disso não conseguia parar com essas ideias!
Fui até a pequena estante e peguei um livro aleatoriamente para me distrair e acabei escolhendo O morro dos ventos uivantes. Joguei-me na cama e comecei a ler.
A leitura me distraiu por alguns minutos, mas no exato momento em que os sentimentos intensos de Catherine começaram a ser narrados, me descontrolei e o turbilhão de sensações me dominou, fazendo com que qualquer ponto de equilíbrio ou paz me abandonasse. Lutar contra tudo não era possível, então decidi sucumbir ao descontrole, permitindo que Quil entrasse em minha cabeça, sem me preocupar com nada, apenas me deixando levar por sua voz hipnotizante que ainda era tão clara em minha memória.
Em um momento desconhecido, que talvez até tenha passado despercebido, caí na inconsciência, num sono agitado, inquieto e cheio de sentimentos e desejos ocultos em meu coração.
...
Meus sonhos se misturavam uns nos outros, fundindo-se em pensamentos desconexos e frases que eu ouvira outras pessoas falando durante todo o dia.
Eu corria por uma floresta que me era familiar. Um lobo cor de chumbo se mexia cautelosamente em minha direção, marchando numa dança da morte, enquanto avançava sobre mim. Embora eu corresse e ele andasse vagarosamente, praticamente rastejando, lá estava sua figura peluda cada vez que eu olhava para trás, me deixando sem saída.
Num minuto o sonho mudou e agora eu me encontrava em outra floresta, congelada pela neve, enquanto era encurralada pelo lobo contra o enorme abeto no qual eu me apoiava. Ele rangeu os dentes, levantando a pata e ficando as garras em minha barriga. Soltei um grito ensurdecedor, caindo no chão, mas meu desespero e choro foram sufocados por outro corte que o lobo fez em minha perna, desta vez. Seus olhos esverdeados se fixaram nos meus e ele jogou a cabeça para trás, soltando um uivo apavorante. Gritei mais uma vez, mas parei no minuto em que Quil apareceu na beira da floresta.
– Quil? – Chamei, chorando.
– Claire! Venha comigo! – Ele estendeu a mão, dando um passo em minha direção.
Tentei me levantar, mas estava muito machucada e acabei caindo de novo.
Quil pareceu vacilar ao ver o lobo, mas mesmo assim avançou. O animal rangeu os dentes, mas cambaleou para trás, como se temesse o homem parado diante dele.
Quil correu até mim, levantando-me pelos cotovelos e abraçando-me, sustentando meu corpo contra o seu.
– Você está bem? – Ele afagou meu rosto e me beijou.
O toque quente e delicado de seus lábios me fez perder o ar e se não fosse por ele, que sustentava mais que a metade do meu peso, eu teria caído novamente.
– Me tira daqui. – Lhe dei um selinho, enterrando o rosto na curva de seu pescoço.
Ele tocou meu braço e me fez encará-lo de novo.
Seus olhos estavam com um brilho assassino e se prenderam aos meus com uma força tão poderosa que quis correr. Algo em sua fisionomia estava diferente, caracterizando-o como um monstro e vê-lo assim me parecia errado. A gentileza de seus traços havia lhe abandonado, embora ainda fosse possível ver a beleza de seu rosto oculta naquela camada de ironia e maldade que o mascarava.
– Você acredita em lobisomens? – Ele repetiu a pergunta que havia me feito mais cedo.
– O que...?
Não tive tempo de concluir a frase. Sorrindo diabolicamente, Quil aumentou a pressão em meus braços, fazendo com que meus músculos protestassem ao aperto e dando a impressão de que todas as minhas articulações iam se romper. Ele me levantou, fazendo com que meus pés pendessem vários centímetros do chão e beijou meus lábios com uma força exageradamente bruta. A pessoa que até o momento estava me causando tantas sensações inexplicáveis, me jogou na direção do enorme lobo cor de chumbo.
Senti os dentes do lobo se cravarem em meu ombro, mas não gritei. Estava congelada assistindo a cena que diante de mim se desenrolava. Quil tremia, se convulsionando e de repente, seu corpo se metamorfoseou. Agora já não era mais o lindo jovem diante de mim e sim um monstruoso lobo chocolate que rosnava, arreganhando os dentes.
...
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