From Hate to Love
1 From Hate to Love
“Você sabe quando ama realmente, quando coloca a felicidade da outra pessoa antes da própria. O verdadeiro amor é livre e incondicional. Não procura satisfazer as necessidades da própria pessoa, mas se concentra no bem-estar alheio.”
–O Retorno do Jovem Príncipe
Ele estava determinado a não jogar mais basquete. Essa fora sua resolução, alguns meses atrás, quando seu time perdera mais uma vez.
Hyuuga ficou irritado. Ele não queria mais aquilo. Sua vida estava fadada a derrotas e decepções e não havia nada que ele pudesse fazer para mudar aquilo. Então sua única escolha era se adaptar.
O ex-jogador de basquete deixou os cabelos crescerem, tingindo-os de loiro. Seu quarto estava cheio de figure actions e sua vida não girava mais em torno do basquete. Ele deixou a academia de lado, já que não havia mais motivo para fortalecer seu corpo.
E eu não queria ouvir a Riko reclamando todos os dias sobre a minha mudança, era o que ele usava como desculpa.
Entretanto, em seu primeiro dia de aula, Hyuuga teve um encontro nada agradável. Pelo menos foi o que eu pensei na primeira vez.
Kiyoshi Teppei insistiu, durante semanas, para que o moreno o ajudasse a criar um clube de basquete. No entanto, se Kiyoshi conseguia ser teimoso, Hyuuga conseguia ser pior.
Depois de muito tempo tentando convencê-lo a voltar a jogar basquete, o animado rapaz obteve êxito. Kiyoshi me fez perceber o quanto eu ainda amava basquete. Desde então meus dias se tornaram mais animados.
Com a ajuda de Riko o time começou a ficar mais forte. Os jogos eram mais divertidos e as vitórias sempre eram comemoradas de uma maneira especial. Assim, durante esses jogos, Hyuuga via-se obrigado a agradecer pela segunda chance que obteve.
Mas a vida não era tão fácil assim.
Seu orgulho e sua vergonha eram mais fortes, então o momento certo nunca chegou. Eu me lembro de ter declarado em alto e bom som que eu o odiava, mas isso deixou de ser verdade há muito tempo.
Hyuuga percebeu que seu “ódio” havia dado lugar a uma forte amizade, um respeito mútuo e uma sinceridade silenciosa. O rapaz mais alto o acompanhava todos os dias até em casa e se despedia com um largo sorriso e um “até amanhã” animado.
De manhã, Kiyoshi estava parado ao portão do apartamento, com o mesmo sorriso bobo, esperando para ir ao colégio acompanhado de Hyuuga. No entanto, por mais que o moreno fizesse o possível para fingir que não gostava daquela companhia excessiva, a verdade era outra.
A presença de Kiyoshi se tornou indispensável em seu dia-a-dia e, em determinado momento, a realização de que seus sentimentos eram mais do que amizade o atingiu em cheio. Mas eu não queria aceitar. Eu jamais levaria isso adiante. Minha vida estava fadada ao fracasso. Eu já havia perdido sem nem começar.
Com isso em mente, Hyuuga continuou fingindo que tudo era o mesmo. Entretanto, os treinos se tornaram mais difíceis. Sempre que o pivô se aproximava pra marcá-lo, o moreno tinha certas dificuldades em se concentrar ao sentir o corpo de Kiyoshi tão próximo ao seu.
Hyuuga aprendeu a conviver com essas casualidades, mas seus sentimentos pareciam aumentar todas as vezes que Kiyoshi lançava-lhe um sorriso ou ficava todo cuidadoso quando o moreno se machucava no treino.
Essa preocupação, no entanto, foi direcionada totalmente ao pivô, quando este machucou, gravemente, o joelho no jogo contra a Kirisaki Daiichi.
O moreno se surpreendeu pela raiva que sentiu ao ver Hanamiya Makoto fazer um sinal para que machucassem Kiyoshi. Sua fúria só passou quando o jogo acabou – com a vitória de Seirin. Mas esse era só o começo de toda a sua preocupação.
Saber que o joelho de Kiyoshi estava em más condições e que ele precisaria ficar um ano afastado o deixou extremamente abalado. Hyuuga não sabia o que fazer então sua única opção foi ser sincero com seus sentimentos. Pelo menos daquela vez.
“Se você não acredita que podemos ser os melhores... Então tudo bem. Eu acreditarei por você, apenas me siga.” A pequena pausa que seguiu aquilo foi extremamente necessária. As palavras que seriam ditas em seguida continham todos os seus sentimentos escondidos. “Então volte logo, idiota.”
Ouvir Kiyoshi chorar foi uma das coisas que mais o fizeram triste em toda sua vida. Hyuuga estava acostumado a ver aquele rapaz alto com um grande sorriso no rosto, então era fácil esquecer que ele também podia ter problemas.
“Desculpe. Então... Espere por mim. Eu voltarei em breve.” A voz estava tremula então o moreno se limitou a continuar olhando pela janela. Não precisa me dizer isso, idiota. É obvio que eu o esperarei. Nem que sejam necessários mil anos. Suas mãos permaneceram firmemente fechadas em seus bolsos, caso contrário ele teria feito algo extremamente imprudente.
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Durante todos os dias em que o pivô passou no hospital, não houve uma única vez em que o moreno deixou de visitá-lo. Nem mesmo em dias de chuva ou tempestade de neve.
E todas as vezes que Hyuuga entrava no quarto do hospital, sua recepção era feita com um sincero sorriso e olhos brilhantes dizendo que ele não precisava se preocupar e que não havia necessidade das visitas diárias.
“É claro que as visitas são necessárias, idiota.” Era sua única resposta, seguida por um leve corar nas bochechas e uma alta gargalhada do homem ao seu lado.
Assim, um ano se passou até que Kiyoshi pudesse retornar ao time de basquete. Os alunos do segundo ano se animaram com o prospecto de ter o antigo amigo de volta, e os do primeiro ano perceberam que era uma ótima oportunidade de conseguir mais vitórias.
Aos poucos Kuroko e Kagami se acostumaram a ter um bom conselho em momentos importante e os treinos, lentamente, tornaram-se mais animados.
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A copa de inverno começou com vários jogos importantes, sendo o primeiro deles contra o Shuutoku.
O jogo não foi fácil e a preocupação de Hyuuga se tornou ainda maior quando Kiyoshi teve que fazer os lances livres. Ele já havia percebido há algum tempo que as pernas do pivô tremiam, mas não havia nada que ele pudesse fazer além de dar suporte.
Ao final do jogo, no vestiário, ouvir que o joelho de Kiyoshi estava piorando não foi nada agradável, e só fez com que a vitória deixasse de ser um motivo para sorrisos.
Na volta para casa, Hyuuga sentiu-se na obrigação de compartilhar aquela história com Kagami e Kuroko, omitindo – é claro – a parte em que seus sentimentos eram tão fortes que chegavam a sufocá-lo.
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Alguns minutos depois, Hyuuga se despediu de Kagami e Kuroko e seguiu sozinho para casa. Suas mãos estavam bem protegidas do frio, no bolso do casaco, mas seu rosto e nariz pareciam prestes a congelar.
No entanto, tudo isso foi esquecido ao chegar perto da porta de seu apartamento. Assim que saiu do elevador, os passos de Hyuuga se tornaram mais rápidos e sua respiração ficou alterada.
“O que você pensa que está fazendo aqui Kiyoshi?!” seus óculos escorregaram com o rápido movimento do rosto, mas ele não parou para arrumá-los. “Você deveria estar em casa, descansando e cuidando desse joelho!”
O pivô soltou uma risada baixa e se levantou do chão, batendo nas calças rapidamente, para retirar o pó. Seu rosto estava vermelho por conta do frio, mas ele não parecia se importar.
“Yo Hyuuga.” Kiyoshi levou a mão para os cabelos negros e espetados a sua frente. “Eu estou congelando!”
“É claro que está!” o moreno corou ao ter o topo da cabeça acariciado e se desvencilhou do toque, ainda reclamando. “O que você está fazendo? Por que está parado na minha porta? Há quanto tempo você está aqui?”
“Hum... Faz quase uma hora. Saí do jogo e vim direto para cá.”
Foi quando Hyuuga percebeu que o pivô ainda estava com o uniforme do Seirin. O agasalho do colégio estava fechado até o final, protegendo uma parte do pescoço. O joelho ainda estava enfaixado, mas nada disso parecia impedir aquele homem de sorrir.
“Idiota...” o moreno retirou as chaves do bolso e abriu a porta o mais rápido que pode. “Entre logo. Você trouxe alguma roupa limpa?”
“Trouxe.” Kiyoshi se inclinou para o lado, pegando sua pequena bolsa de esportes e entrando no apartamento do amigo. Seus tênis ficaram à porta – fazendo companhia aos de Hyuuga – e ele recebeu um par de pantufas que ficavam um pouco pequenos em seus pés.
“Ótimo. Vá tomar um banho enquanto eu ligo o aquecedor e faço algo quente para comer.” As luzes do local foram acesas, deixando o ambiente mais agradável. Em seu âmago, Hyuuga estava extremamente preocupado com a saúde daquele que tomava conta de seus pensamentos, mas ele não gostaria de deixar isso transparecer. “Amanhã nós temos um jogo importante contra a Kirisaki Daiichi. O que você vai fazer se pegar uma gripe e seu joelho não estiver melhor?”
“Obrigado por se preocupar comigo, Hyuuga.” O sorriso se tornou maior ao mesmo tempo em que sua mão tocava. Novamente, os cabelos negros e espetados.
“E-eu não estou preocupado com você! Eu estou preocupado com o time!” O moreno se desvencilhou do toque novamente e andou até a sala, ligando o aquecedor e o pequeno kotatsu¹ no centro do ambiente.
Seus ouvidos captaram um baixo suspiro ele se virou, ajeitando os óculos e vendo que sua companhia estava encostada no balcão da cozinha, braços cruzados e expressão séria.
“Você estava com a Riko não é?” a pergunta foi direta e os olhos castanhos não se desviaram de Hyuuga em momento algum. “Por isso você demorou para chegar... Estou certo?”
“Não.” assim como a pergunta, a resposta foi rápida e sem rodeios. Hyuuga uniu as sobrancelhas e começou a caminhar na direção de Kiyoshi, cuja expressão havia mudado para surpresa. “Eu voltei para casa com o Kuroko e o Kagami. Por isso demorei, já que nós paramos para conversar... Além do mais, se você tivesse me ligado, ou mandado uma mensagem, eu teria voltado mais cedo.”
O pivô abaixou o rosto e ficou em silêncio. Os braços foram descruzados e ele se virou lentamente na direção de Hyuuga. Sua expressão mostrava completo arrependimento pela pergunta, fazendo com que o dono do apartamento precisasse respirar fundo.
“Vá tomar um banho!” sua voz chamou a atenção de Kiyoshi, que ergueu o rosto rapidamente, atordoado com o que ouvira. “Se você ficar gripado, eu farei questão de contar a Riko!”
Kiyoshi piscou algumas vezes, mas não demorou a sorrir. Ele parecia estar aliviado e, por algum motivo, aquilo aliviou Hyuuga da mesma maneira. O pivô pegou a bolsa de esportes novamente e começou a andar.
“Eu voltarei logo.”
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O apartamento de Hyuuga não era grande. Era um pequeno espaço de quatro ambientes. O quarto era pequeno, comportando apenas o guarda-roupa, a cama e um criado-mudo.
A sala era o maior espaço do lugar, sendo composta por dois sofás grandes, uma cômoda com TV e som e uma mesinha de centro, que fora substituída pelo kotatsu, por conta do inverno.
O banheiro era de um tamanho apropriado e ficava ao lado do quarto, sendo que do outro lado da sala era a cozinha, onde Hyuuga estava fazendo a janta.
Já havia passado das nove horas da noite. Assim que Kiyoshi entrou no banheiro, o dono do apartamento se colocou a trabalhar. Suas mangas foram puxadas para cima, assim ele teria melhor liberdade de movimentos.
As carnes e os vegetais estavam sendo cortados lentamente quando Hyuuga percebeu estar imerso em pensamentos. Por que ele me perguntou se eu estava com a Riko...? Kiyoshi parecia estar extremamente sério sobre o assunto. Será que tem algo a ver com seu joelho?
O moreno ajeitou os óculos com as costas da mão e voltou sua atenção ao seu trabalho. Um breve suspiro deixou seus lábios e ele balançou a cabeça negativamente, tentando afastar certos pensamentos otimistas. Não. Não é ciúme. Já perdi a conta de quantas garotas se declararam para ele e quantas delas tiveram a sorte de ser a namorada mais feliz do mundo. Não existe chance alguma de ele se interessar por homens. A faca foi colocada dentro da pia, enquanto os ingredientes eram acrescentados à panela.
Na realidade, até conhecer Kiyoshi, o lançador havia se interessado por uma garota ou duas. Mas em nenhum dos casos ele chegou a se declarar e ter um relacionamento bonito e cheio de amor. Era apenas uma atração.
No entanto, seus sentimentos por Kiyoshi eram extremamente diferentes. O pivô estava sempre em seus pensamentos. Toda sua atenção era direcionada a ele e todas as vezes que o rapaz sorria era como se seu coração fosse explodir.
A porta do banheiro foi aberta e Kiyoshi saiu de lá com uma calça esportiva, sem camiseta e cabelos molhados. A toalha estava em volta de seu pescoço e ele a usava para secar algumas gotas que insistiam em escorrer pelo seu rosto.
Hyuuga agradeceu mentalmente por ter deixado a faca dentro da pia, caso contrário ela estaria no chão naquele exato momento. O moreno já havia visto o amigo sem camisa depois dos jogos, no vestiário. Entretanto, ali, na sala de sua casa, o rapaz parecia muito mais belo. Os músculos estavam nos lugares certos, deixando o tórax perfeitamente definido. E ver aquelas insistentes gotas d’água escorrendo pelo corpo do pivô não ajudava em nada.
“Woa, como está quente aqui na sala!” Kiyoshi soltou uma risada baixa, olhando para o aquecedor do ambiente. “Isso é bom, porque eu não gosto muito de sair do banho e ter que colocar uma camiseta. Elas ficam colando por causa do vapor.”
Hyuuga não respondeu. Ele tinha certeza de que seu rosto estava corado e de que o molho do curry² precisava ser mexido, mas seus olhos simplesmente não saiam da figura a sua frente. P-por quê...?
“Que cheiro bom. O que você está fazendo Hyuuga?” ouvir aquela voz lhe chamando foi mais do que suficiente para tirá-lo do transe. “Oh! Curry, meu preferido!”
Ele ajeitou os óculos e mexeu o molho rapidamente, percebendo que a janta quase havia queimado. O pivô estava ao seu lado, inclinado para a panela e encostando uma parte de seu tórax no braço de Hyuuga. Perto! Ele está muito perto!
“E-eu vou tomar banho agora!” o moreno soltou a colher e começou a se afastar. “A panela apitará quando a arroz ficar pronto e você deve saber cuidar do curry. Eu já volto!”
Kiyoshi assentiu com a cabeça, a expressão confusa.
O lançador pegou as coisas necessárias no quarto e se trancou no banheiro. O que eu estou fazendo?
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O banho levou pouco mais de vinte minutos e, ao sair do banheiro, Hyuuga se sentia uma nova pessoa. Os músculos de seu corpo estavam relaxados e prontos para um bom descanso. Pelo menos até o dia seguinte.
O moreno usava um conjunto esportivo azul e seus cabelos estavam úmidos, mas não pingavam água. O ar quente da sala foi muito bem vindo e ele sorriu ao ver que a comida já estava pronta. Kiyoshi estava sentado em baixo do kotatsu, com uma camiseta cinza, trocando os canais da TV.
“Eu te esperei para comer.” O pivô sorriu e fez menção de se levantar, mas foi impedido por um sinal negativo de Hyuuga.
“Eu vou servir a comida. Pode ficar aí.”
Seus passos o levaram até a cozinha e ele serviu dois pratos com uma boa quantia de arroz e curry. Nós precisamos recuperar as energias por causa do jogo de hoje. Os olhos verdes fixaram-se rapidamente em sua companhia e ele voltou para a sala carregando os pratos. O que será que ele está fazendo aqui? Eu perguntei duas vezes, mas não tive resposta em momento algum... Será que aconteceu alguma coisa na casa dele?
“Aconteceu alguma coisa na sua casa?” o lançador perguntou, assim que os dois agradeceram pela comida.
“Não... Não aconteceu nada. Por que a pergunta?” Kiyoshi assoprava a comida e respondia ao mesmo tempo, precisando fazer algumas pausas durante o processo.
“O que você está fazendo aqui então? É alguma coisa séria? É o seu joelho?” A colher ainda estava em seu prato e em momento algum Hyuuga fez menção de tocar na comida. Ele estava mais focado em resolver aquele mistério.
“Não, não é nada sério Hyuuga.” O pivô sorriu e colocou uma colher cheia na boca, ao mesmo tempo em que fechava os olhos por ter queimado a língua. “Está quente!”
“Então você precisa dizer algo mesmo?”
“Não é nada sério Hyuuga.” Ele repetiu, em um tom menos brincalhão. “Coma sua comida e depois nós conversaremos. Aliás, está muito bom.”
O moreno soltou um suspiro e pegou sua colher.
Ele não conseguiria conversar com Kiyoshi enquanto ele estivesse tão determinado a não falar nada. O jeito era comer e esperar até que sua companhia começasse o assunto.
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Os pratos ficaram vazios, duas vezes, e na hora de levá-los até a cozinha Kiyoshi disse que faria o serviço, já que a janta havia ficado por conta do lançador.
Os olhos verdes acompanharam o rapaz até a cozinha, observando-o depositar os pratos na pia. Kiyoshi estava voltando para a sala quando Hyuuga captou algo muito errado.
“Kiyoshi... Seu joelho está roxo.”
“Uhm?” O jogar central abaixou o rosto para ver do que se tratava e percebeu que o amigo tinha razão. Seu joelho estava roxo e inchado.
“Não está doendo?” O moreno se levantou do chão e andou até sua companhia. “Aqui, sente-se no sofá. Deixe-me dar uma olhada nisso.”
“Não precisa Hyuuga. É só eu tomar um remédio.” Kiyoshi sorriu e fez menção de pegar sua bolsa, mas foi impedido pela mão da pessoa a sua frente.
“Você não vai tomar só um remédio. Eu vou pegar um kit de primeiros socorros e você vai ficar sentado nesse sofá até eu voltar.”
O pivô não teve chance de argumentar, contentando-se em sentar no sofá e soltar uma risada baixa enquanto esperava o dono do apartamento retornar com a pequena maleta.
Hyuuga não demorou muito para achá-la, já que, em dias de jogos, ela sempre ficava em cima de sua cama. Assim, se algo acontecesse, ele apenas tomaria um banho e faria o curativo necessário.
De volta a sala, o dono do apartamento se sentou no tapete, de frente para o joelho de Kiyoshi, e abriu a maleta.
Sua primeira escolha foi uma pomada que ajudava a aliviar a dor. O creme foi espalhado com movimentos circulares no joelho do pivô, até que não houvesse mais nenhum resquício do remédio.
Logo em seguida, o moreno pegou uma bandagem e começou a passá-la em volta, fazendo com que o joelho ficasse firme, mas se assegurando de que não haveriam problemas na circulação do sangue.
Um último remédio, anti-inflamatório foi retirado da maleta e entregue nas mãos de Kiyoshi.
“Espere aqui. Eu vou pegar um copo de água.”
Durante todo o tempo, Hyuuga sentiu os olhos castanhos pesando em si. O jogar central prestava a atenção em todos os movimentos do moreno e isso o deixava extremamente envergonhado. Eu tive que me controlar para que minhas mãos não tremessem.
O copo de água foi entregue e o jogador agradeceu com um breve sorriso.
“Não vai me dizer mesmo por que veio aqui?” Hyuuga suspirou e se sentou em baixo do kotatsu novamente. “Tem que ter um motivo e ele deve ser importante.”
Kiyoshi depositou o copo sobre a mesa, mas permaneceu sentado no sofá. Seus lábios se tornaram uma fina linha e ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para algo complicado.
O moreno estava preparado para ouvir, seja lá o que fosse. Ele deve ter percebido. Ele deve ter percebido que eu estou evitando contato e que quando estamos juntos eu perco a maior parte do tempo o encarando.
Kiyoshi tomou fôlego, mas sua fala foi interrompida pelo barulho de um telefone. O dono da casa demorou algum tempo para perceber que era seu celular. A expressão do homem a sua frente era de alivio e frustração, mas, mesmo assim, ele fez menção para que o telefonema fosse atendido.
Hyuuga murmurou um baixo “me desculpe” e ficou em pé, de costas para sua companhia e atendeu ao telefone.
“Sim?”
“Hyuuga!” a voz veio alta até seus ouvidos.
“Oh. Riko.” Um pequeno sorriso deixou seus lábios. Ela parece irritada e desesperada. O que será que eu fiz dessa vez? “O que aconteceu?”
“Eu estou tentando ligar para o Tep-” o celular foi tomado de suas mãos antes que ele pudesse terminar de ouvir a frase.
“O que você está fazendo Kiyoshi?!” O moreno tentou pegar o celular de volta, mas foi em vão.
“Riko, me desculpe, mas o Hyuuga está ocupado agora. Amanhã conversamos!” o celular foi desligado e a bateria retirada.
“O que você está fazendo?” o moreno olhou incrédulo para a bateria jogada no sofá. “Eu não estou ocup-”
Os olhos verdes se arregalaram e ele sentiu um arrepio na espinha ao ter seus lábios tomados pelos de Kiyoshi.
O pivô segurara o rosto de Hyuuga e depositara um beijo – aparentemente- desesperado em seus lábios. Quando sua língua tentou pedir passagem, o moreno saiu do transe e afastou levemente aquele homem, que ainda segurava seu rosto.
“K-Kiyoshi!” seu rosto estava corado e sua respiração alterada. “O que-”
“É isso que eu vim fazer aqui Hyuuga!” O tom de voz estava desesperado e Kiyoshi deu um passo a frente enquanto falava. “Eu estou apaixonado por você. Há muito tempo! Eu decidi que iria te contar se ganhássemos do Shuutoku porque nós não temos muitas oportunidades de ficar sozinhos. Eu percebi que estava apaixonado por você desde o dia em que nos conhecemos. Você era diferente de qualquer pessoa que eu pudesse ter conhecido e, mesmo tendo namorado com tantas garotas, você ainda ocupava meus pensamentos durante a maior parte do dia. Por isso eu não desisti de você. Não era apenas porque você aparentava gostar de basquete tanto quanto eu. Era porque eu gostava de você. Quando suas visitas, no hospital, se tornaram a melhor parte do meu dia, eu percebi que tinha que te contar. Mas não ali. Não enquanto eu estivesse no hospital. O problema é que, quando eu saí de lá, nossos treinos ficaram mais pesados e você sempre voltava para casa mais rápido. E então eu fiquei desesperado ao ver que você e a Riko estavam mais próximos, enquanto eu era evitado. Cheguei a conclusão de que você gostava da Riko e isso estava me sufocando de ciúmes. Por isso... Eu te amo Hyuuga!”
O moreno piscou algumas vezes enquanto processava toda a informação que fora despejada em sua direção. É o mesmo. Ele sente o mesmo por mim!
“E-eu sei que você não gosta de mim. Ver que você me evita e o modo como você me trata apenas pelo bem estar do time são bem claros, mas eu não podia mais ficar sem falar nada.” O rosto do pivô estava absurdamente vermelho. Ele não se parece em nada com o Kiyoshi que todos estão acostumados a ver. “Eu vou embora agora... Você deve estar com a cabeça cheia, então...”
Kiyoshi pegou a bolsa esportiva que estava ao chão, mas teve o pulso segurado antes que pudesse se mover. Os olhos castanhos abaixaram-se rapidamente, encontrando um Hyuuga completamente envergonhado. Os olhos verdes estavam fixos no chão e não saíram de lá em momento algum.
“Você é um idiota...” Os óculos escorregaram pela segunda vez naquele dia. “Por que eu estaria interessado na Riko? Eu sei que nós estávamos bem próximos ultimamente, mas fazia parte da preparação para a copa de inverno. E-eu estava te evitando sim, mas é porque... Você é um idiota. Você acredita mesmo que eu me preocupa contigo só por causa do time?”
“Eu pensei que sim... Você estava falando do jogo de amanhã e que eu deveria me cuidar, senão não poderia jogar.”
“Em parte isso é verdade, mas eu jamais faria isso de propósito. Eu me preocupo sinceramente com você.” As palavras começaram a sair com mais facilidade e, quando percebeu, o moreno não estava mais corado e mantinha contato visual com Kiyoshi. “Ou você acha que aquelas visitas diárias eram pelo time também?”
“Hyuuga...”
“Eu gosto de você Kiyoshi. Já faz muito tempo. Mas eu nunca disse nada porque me lembrava de todas as garotas com quem você já namorou. E eu nunca me achei a melhor opção.” Quando sua fala foi terminada, Hyuuga voltou a corar lentamente. Eu realmente me declarei para esse idiota...
A bolsa de esportes foi jogada ao chão e o lançador se surpreendeu ao sentir os braços do amado em volta de si. Lentamente o abraço foi retribuído e ele respirou fundo. Ele está com o cheiro do meu shampoo.
“Por favor, diga para mim que quando eu te beijar, de novo, eu não vou acordar.”
“Você não vai acordar, Kiyoshi.”
“Promete?”
“Prometo.”
O beijo que aconteceu em seguida foi calmo e nada parecido com o primeiro. A língua de Kiyoshi pediu passagem e Hyuuga não demorou em concedê-la. Lentamente o beijo se tornou mais intenso, com gosto de tempo perdido e amor realizado. Os dois só se separaram quando o ar foi necessário.
“Eu estou tão feliz!” O pivô se sentou no chão, puxando Hyuuga consigo e fazendo-o sentar em eu colo. “Eu não sei quanto tempo eu esperei por isso.”
“Me solta Kiyoshi!” O moreno tentava se desvencilhar do abraço, mas isso parecia impossível. No entanto, o que o fez corar realmente foi um longo beijo depositado em sua nuca. “O que você está fazendo?!”
“Recuperando o tempo perdido.” Kiyoshi sorriu mais ao ver o rosto corado da pessoa sentada em seu colo. “Obrigado Hyuuga... Por ser você. Eu estou muito feliz.”
“... Idiota.”
O terceiro beijo que ocorreu foi mais lento do que o segundo. Nós ainda temos muito tempo para aproveitar.
Notas:
¹ — Kotatsu é um móvel muito comum no Japão, especialmente nos meses de Inverno ou em regiões de clima frio. Consiste em um tipo de mesa baixa com um pequeno aquecedor elétrico embutido no centro, voltado para baixo, e um cobertor grosso "lacrando" a mesa pelos quatro lados para impedir que o ar quente escape.
² — Curry é uma comida feita com o pó de Caril, que deixa um sabor apimentado. É um prato típico da Índia, mas que foi adotado em vários outros países, tais como o Japão.
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