Friorenta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ela sempre estava com frio. A temperatura lá fora estava na casa dos trinta graus e lá estava ela com seu cachecol.
Era conspícuo o olhar dos outros quando viam sua situação. Era comum eles acharem que ela estava doente ou algo do tipo, certa vez, ousaram dizer que estava sob uma anátema... Ela preferia pensar que o frio se apaixonara por ela.
O carinho gélido que lhe passeava nas bochechas quando o vento batia, o abraço gelado nas manhãs quando acordava sem cobertor, os beijos frescos que lhe causavam arrepios antes de colocar o cachecol. Ela diria que estava em perfeita saúde, como sempre, e que era o frio quem estava doente... Doente de amor por ela.
Ao dançar sozinha, imaginava o frio segurando suas mãos e lhe conduzindo na mais bela valsa. Ao fazer seu rotineiro show debaixo do chuveiro, acreditava cantar alto o suficiente para o frio –onde quer que estivesse entre a água quente da ducha- pudesse ouvir sua serenata.
Com um sorriso arrefecido no rosto ao sentir um arrepio causado pelo ar fresco da noite enquanto vagava por seu caminho, ela imaginava uma figura pálida e gélida lhe seguindo, saltando de telhado em telhado e aquilo tornava sua vida mais fria, sim... Mas, em momento nenhum, menos divertida.
Ter o frio em seu encalço lhe trazia esse sorriso fácil na face, estava acostumada aos olhares reprovadores ao sair por aí de moletom e as conferidas de sua mãe aos seus pulsos quando ela erguia as mangas. Não se importava, tinha frio demais para isso.
Chamaram ela de louca algumas várias vezes enquanto ela dançava com a brisa uma melodia apaixonante ou quando pegaram ela suspirando entre calafrios.
No fim, ela sabia... Que apesar de toda sua fantasia, era ela quem estava perdidamente apaixonada pelo frio.
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