Frio e outros contos
5 Um prólogo da infância e adolescência escolar
Notas iniciais
O que é verdadeiramente estar na frente de uma folha em branco? É um mundo, é uma possibilidade, é um desespero, são tantas coisas, para tantas pessoas diferentes. É um infinito.
Eu, como exemplo, amo escrever, então a folha de papel, quase sempre se destaca como sendo meu parque de diversões, meu quarto, meu castelo, meu amor, minha alegria, meu sonho e minha realidade, mas hoje, como um daqueles estranhos dias em que nada parece verdadeiramente correto, o papel em branco se tornou meu desespero, minha angústia, minha soturnidade, minha vontade de desfalecer.
Se eu parar para pensar, sobre a culpa perante tal observação no dia de hoje, só vou notar a coisa mais óbvia. O papel, sou eu, e como sempre, a raiva que sinto, não é pela minha falta de criatividade, ou pelo meu desespero no não conseguir escrever, mas sim, a ira por mim mesma, por minhas idiotices, por meus pensamentos que são mais um turbilhão de coisas que não deveriam estar comigo, mas que estão. Este é o problema, são tantas coisas, que nem ao menos me encontro em possibilidade hábil de organizar tais ideias e escrevê-las, daí, a raiva.
Parece que estou a fazer um sermão contra você, querido leitor, como se estivesse a reclamar para contigo de meus problemas – pode até ser... – mas, não era minha intenção.
Eu queria mesmo era ter um lugar para expor, mesmo que de forma desordenada, o que planejo, tento e quero fazer. No final das contas, você, leitor, é o melhor amigo pelo qual eu podia pedir agora.
Eu vou contar a história do começo, o que acha? Assim, quem sabe, a coisa fica menos confusa. Ou não... Não sei ao certo o que esperar. Preparado?
Cada ano que passa convenço-me com maior certeza de que a vida só piora, só se dificulta, só se enrola, e o pior, começamos a tomar consciência desses problemas cada vez mais. Por isso, talvez os problemas já estivessem lá, mas nós não somos habilidosos o suficiente para reconhece-los, e isso, é bom. É a inocência, é a infância.
Tudo começa quando alguém nasce, no meu caso, fora tudo muito nada normal, nasci de seis meses, meu pai já poderia ser meu avô e minha mãe não era muito jovem também. Com três irmãos mais velhos, adivinha, só podia dar merda (lê-se: Eu).
Apesar de tudo, pneumonia, ser prematura, mononucleose, suportar meus irmãos e tudo mais, sobrevivi aos meus quatro primeiros anos de vida. Nessa idade, já se falava em escolinha, e eu, como sempre, não estava muito empolgada pela mesma.
Com alguns dias de ‘adaptação’ que eu mesma me obrigava a ter, desatei a falar, e acabei adorando meus primeiros anos de escola, assim como meus primeiros amiguinhos, alguns que perduram até hoje, e outros, que busco apagar de minha mente sempre que o vulto da memória força-se em mim.
Neste tempo, vale parar em alguns dias de meu pré.
Minha professora, uma pessoa péssima que eu odeio até hoje, dizia que eu não sabia apagar, reclamou disso até mesmo para minha mãe. Querida, tenho um recado para você: ‘POR QUE VOCÊ NÃO ME ENSINOU?! Como professora achava que essa era sua função!!’.
Apesar da vontade dela em me reprovar, ela não o fez e eu passei pelo primário, é claro que todos os dias voltava com roxos, mordidas, marcas, arranhões e dentes caídos para casa, não, eu não era uma dama, apesar de minha mala da Pucca ou da Barbie tentar contestar o contrário.
O fundamental, por incrível que pareça, não foi tão ruim... Minha baixeza, a gordurinha localizada na barriga ainda sem cintura, e os dentes tortos não foram problemas.
Lembro-me bem de meu primeiro dia na primeira série – sim, na época, ainda era série... Porra, como sou idosa...
Eu cheguei atrasada na aula, e minha mãe, bom, ela foi me deixar na sala e eu só consegui lugar longe de minhas amigas. Eu estava com tanto medo que comecei a chorar... Sim, essa situação rendeu que até a quarta série eu fosse a pessoa mais ‘mimimi’ e chorona do fundamental. O que fez com que agora, que sou mais velha, não, eu não choro, e dificilmente consigo... Ser fofa e cristalizada...
Nestes anos, conheci mais pessoinhas que seriam minhas amiguinhas, e mais pessoinhas que seriam pessoas que gostaria de apagar de minha memória. Como sempre, o primeiro namoradinho é uma dessas coisas...
Indo logo em seguida para o fundamental II, eu percebi que ser nerd não era algo tão ruim. Eu aprendi, que usar sutiã poderia ser algo irritante e apertado, mas que eu teria que conviver. Eu aprendi, a cima de tudo, que sorrir, fazer-se animada e conversar com as pessoas, era uma habilidade que eu gostava de cultivar.
Sempre há memórias que marcam mais, e neste caso, eu não me lembro se fora no nono ou no oitavo ano — agora sim, ano... — que, naquela época, já se começava com a ideia de namorar, de há porque meninas e meninos tem sexo diferentes, de como nascem as crianças, de ser BV não ser BV, de ser BVL ou não e whatever... No final das contas, essas besteiras que depois aprendemos que não são nada de tão grandiosas assim, mas que naquela época importavam demais.
Foi em um desses anos, que um moleque da sala, que se achava a última bolacha do pacote — sim, gíria da minha avó, mas funciona — vivia para tatear as meninas, não me pergunte porque ele tinha tanto fetiche por toque... Eu não sei... Mas digamos que ele tem até hoje.
Era hora da saída, e ele deu um 'António Nunes' na perna de uma amiga (para quem tem menos de 13 anos e não deve se lembrar do que é 'António Nunes' é um tapão). E ela como vingança deu-lhe de volta. Mas foi tão forte que marcou a perna do menino... Ok... Não sei porque contei isso, mas fora hilário...
Agora podemos pular todo o resto porque é enfadonho. Eu engordei, fiquei baixinha, finalmente consegui emagrecer, mas nunca o quanto eu desejava. Tenho que emagrecer de novo.
Coloquei aparelho, o que deixou meio sorriso uma coisa horrível, usei óculos e foi só no segundo colegial que consegui escolher um que não me deixasse com a cara pior ainda, meu cabelo nunca mais fora cortado curtinho, e apesar de velha, usei franja algumas vezes.
Chegamos rapidamente, não é verdade? Eu realmente pensava em escrever um prefácio enorme sobre toda minha infância e adolescência escolar mas nunca foram nada demais. Acho que este ano está mais fresco, e mais interessante de ser contado! Sim, o terceiro colegial.
Obrigada... Amanhã tem mais.
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