Frio e outros contos
7 Aquela presente, estranha dor
Notas iniciais
Aquela dor. Era, angustiante, era nervosa, mas era, acima de muitas coisas, invisível. Quando se conhece alguém por tanto tempo, e não se tem como revelar o que se sente, a dor é tanta, que parece transcender o corpo e a alma.
“Essa história é para você: XY.
Sim, fora um homem na minha vida. Uma pessoa, que se conhece há muito, mas que não se sabe de nada. Que não se diz nada, e com quem não se quer nada. Mas é alguém, que quando triste, parece quebrar fronteiras. Atinge-lhe, e você sabe. Sabe que no fundo, algo ainda existe, ou pior, algo deixa de existir.
Ver alguém rir e chorar junto com você, é uma situação divertida. Tirar fotos, esperando que a pessoa faça uma pose bonita como a sua, e ver que ela ficou mostrando a língua é mais ainda. Rir e sentir-se unido a alguém, como se uma pequena e frágil fita ligasse as duas pessoas, é algo tão chocante, quanto o que vem a seguir.
A perda, a dor de ter que dizer adeus, também não é tão ruim. Não mesmo, não se sente mal ao ver alguém que se ama com alguém, não se sente mal ao saber que fez o seu máximo por ele. Ver quem se gosta, apaixonada e feliz com outra pessoa, é uma das sensações mais gratificantes do mundo. E muitas vezes, suficiente. Ela já te faz feliz, dando-se, em felicidade, a outro.
Os problemas, não surgem nessas situações. Os problemas, são muito mais esquisitos que isso, o problema vem, quando esse amor, da outra pessoa, acaba. O que acontece quando essa pessoa, por quem se tanto deu à alegria, se vê triste, abalada, consternada
O difícil, é quando essa pessoa está triste.
Quando essa pessoa, não consegue, simplesmente, largar o osso roído. (E você tenta fazer ela largar. Faz o máximo, e mais um pouco, tentando fazer com que ela perceba, que tudo isso, pode ter sido para melhor.)
Quando, o puído pano de lavar, não dá mais. E essa pessoa, dizendo adeus. Parece perder mais que o chão. Parece perder o mundo, e nem você, sendo o mais conhecido desta pessoa, consegue ajuda-la.
Por isso, uma pessoa. Que se conhece há muito, mas não se sabe nada. Como ajudar alguém assim? O que fazer? O que entregar? Como moldar?
São perguntas complicadas, mas de soluções simples, como ‘O tempo dirá’, ou ‘Os sorrisos são suficientes’. Mas nada disso é verdade.
Esperar pelo tempo, pode ser a maior condenação de qualquer homem, e fazê-lo sorrir, pode sempre não ser sincero. E isso, não completa a quem se ama, pelo contrário, reprime, e ajuda a piorar as sensações, que antes, poderiam estar guardadas.
O pior de tudo, é pensar que se está sendo egoísta, pensar que talvez, o melhor, não seria ajudar. Deve-se, portanto, ficar inerte. Mas inércia, não move, não muda, não melhora, não se dá a chance. O que fazer? Quando a incerteza é maior do que as possibilidades de acerto? Quando se sabe, que falhar, é muito mais propenso que a verdade?
Você...
Você se arriscaria? Daria tudo, por algo que pode não ser o que parece? Por algo, que, mais cedo, ou mais tarde, pode levar a maior queda para você? Até aquele dia?
O quê?... O que você faria? É isso que quero saber.
Obrigada, com um de muitos amores guardados, XX.”
Lambi a embalagem, fechando o envelope, em cima, com a melhor letra que consegui, uma pequena conotação: ‘XY’. Uma lágrima, marcando a carta logo em seguida. Só uma. É o que me permito dar-lhe.
Larguei a carta em cima da escrivaninha, pensando em abri-la, e mudar o que escrevi. “Está confuso...”. Pensei. Dei de ombros por fim, pegando a caneta preta uma segunda vez, e grafando no papel amarelo, a baixo do nome:
“Ser confusa também faz parte de minhas habilidades. Mas quem ler isso, se for quem deve ser, saberá o que está lendo, e provavelmente, comover-te-á com minha história.”
Meneei a cabeça para a carta, e para as paredes esverdeadas do quarto.
Coloquei a carta na gaveta, e ao fechá-la. Um leve ‘eu te amo’, escapou por meus lábios.
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