Os tremores tomam conta de meu corpo. A visão do Monte Lanakila ao meu redor não deveria me assustar, mas o anoitecer faz a temperatura abaixar cada vez mais, incomodando até mesmo a mim.

Nunca pensei que um Pokémon gélido como eu pudesse sentir frio.

Olho para os lados, esperando ver algo além da monotonia da montanha, sem sucesso. Nem mesmo os Pokémon gostam de se aventurar nessa região mais perigosa, raros são os Vanillish que passaram por aqui nessas duas últimas horas; nenhum deles deu atenção ao fato de que uma Sneasel estava sentada em uma das pedras azuladas, brilhantes pela camada de gelo que as cobre.

E considero que as coisas estão muito melhor assim, obrigada. Não estou com ânimo para esse tipo de interação. No máximo, talvez uma batalha me fizesse bem. Iria ao menos me aquecer um pouco, enquanto torno a olhar para cima desejando para que tudo isso acabe.

Não estou longe do topo da montanha. Sinto que estaria melhor se eu o tivesse acompanhado, mas não o questiono. Ele me pediu para ficar de guarda, para impedir que algum Absol se aproxime e tente impedir sua chegada ao cume. Eu aceitei.

Eu tive que aceitar.

Nenhum Pokémon questiona as ordens de seu treinador. Mesmo quando as considere uma bobagem, como eu o faço. Ele estaria muito melhor protegido comigo ao seu lado, minha agilidade nas escaladas seria mais útil que ficar aqui, encarando o vazio, esperando que ele receba as glórias sozinho.

Por um momento, me passa pela cabeça que ele pode querer me abandonar.

Não. Ele não seria capaz.

Começo a tremer mais uma vez. Não de frio, mas de medo. Sinto que o vento frio queima a minha pelagem negra, a montanha me expulsando de lá.

Torno a olhar em volta, encontrando um Pokémon alvo me encarando. Uma miragem da neve; um Pokémon do qual eu sempre tive medo, suas chamas brilhantes me seguindo partindo de cada uma de suas várias caudas. Mas não havia fogo; os flocos de neve que brilhavam ao longe vinham daquele espécime que me observava, os pelos esvoaçando como fitas de seu grande corpo quadrúpede.

Esfrego meus olhos. Seria impossível existir um Ninetales de gelo, e não de fogo, como minha visão me sugeria?

Ele continua lá, imponente. Observando minha expressão de tristeza de longe, a face da desolação. Exatamente o oposto do que deveria ser. Os outros Pokémon deveriam ter medo de mim, e não o contrário.

— Algo errado? — pergunta o Ninetales, dono de uma voz melódica, aproximando-se devagar.

— Não, nada. — viro-me de costas ao responder. O que eu poderia dizer? Que meu treinador não mais me queria? O que ele iria fazer em relação a isso?

— Você não é daqui. O que veio fazer em Alola?

— Como você sabe? — surpresa, decido olhar de volta.

— Sua pelagem é mais escura e sua orelha é mais longa que as das fêmeas daqui. Aposto que você veio de Kanto.

— Johto, na verdade.

— E você não me respondeu o que veio fazer aqui, sabe?

Me pego encarando aqueles olhos azuis que cintilavam em minha direção. Havia certo interesse na fala daquele Pokémon, ou estava eu enganada?

— Eu vim com um treinador. Ele me deixou aqui para subir a montanha e até agora não voltou.

Ele olhou rapidamente para a montanha antes de me responder.

— Eu não vejo ninguém. Pode ter acontecido algo com ele.

Em um salto, me coloco de pé novamente. Exatamente o que eu temia. Eu posso ser fria, mas não a esse ponto.

— Eu vou atrás dele. Não deve ser tão difícil.

— É perigoso! Os Sandslash vivem lá no alto!

— Não tenho medo deles! — começo a correr, deixando o Ninetales para trás.

— Que Tapu lhe acompanhe e lhe proteja!

Não sei a que ele se refere. Sandslash não me dão medo. A menos que nessa região eles sejam do tipo metálico ou algo do tipo, não preciso ter receio de encontrar um. Minha preocupação é encontrar meu treinador, mesmo que seja contrariando uma ordem dele. Afinal, ele já deveria ter voltado, ou eu não precisaria temer que ele tivesse me abandonado.

Logo encontro uma fenda entre as pedras, grande o bastante para que um humano pudesse passar, um local aonde o gelo havia sido quebrado não a muito. Um esconderijo.

Decido entrar, esperando que pudesse encontrar quem eu procurava.

Acabo recebida por uma visão sangrenta. Um Pokémon derrotado, um espécime nativo a mim desconhecido, incapaz de se mover. Um filho bastardo de um Abomasnow com um Crawdaunt, se eu pudesse dizer; possuía um grande corpo artrópode, duas grandes garras em formato de punho saíam de um corpo quase esférico, coberto quase inteiramente por uma pelagem branca, agora manchada de vermelho e cinza. Reconheci as marcas dos golpes que o vitimaram, era certamente obra de meu colega Lairon. Eu e ele viajávamos sempre juntos, os únicos companheiros de viagem de meu treinador. Talvez ele fosse mais capaz do que eu, talvez mais resistente. Mesmo assim, jazia derrotado do lado oposto, em condições piores; seu corpo estava destroçado, pedaços de metal de sua carapaça se desmontavam, agora frágeis.

Ambos os Pokémon estavam mortos.

Desato a correr, temendo o que posso encontrar mais à frente.

Logo encontro o que meu treinador tanto procurava. Um pilar de pedra se escondia naquele abrigo, uma estrutura rústica que indicava a presença de um tesouro. Um cristal azulado, precioso, que era tocado por aquelas mãos.

Vejo meu treinador parado ali, segurando o cristal sem tirá-lo de seu pedestal. Sua pele azulada diz a mim exatamente o que aconteceu. Hipotermia.

Toco sua perna, percebendo a rigidez. Me afasto em seguida. É tarde demais.

E pensar que eu enchia minha boca para dizer: “sou fria”. Agora, eu sofria.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!