Friends By Fate

26 O último meio-sangue


Notas iniciais
Eu prefiro, dessa vez, nem comentar algo aqui encima.

Elas finalmente chegaram á estação de trens. Não estava muito cheia. Na verdade... Se elas contassem três pessoas lá seria muito. Elas andaram até a plataforma. O horário dos três era mostrado em um painel eletrônico, mas que parecia ser do tempo da avó delas.

Mariana olhou em voltar. Eles tinham parado em uma espécie de vão central, onde na frente tinham os trilhos do trem e uma pequena plataforma para o embarque, e aos lados as paredes com painéis cheios de papeis colados, expondo avisos e anúncios.

- É aqui. – Disse Ares – Nós só temos que esperar o trem das 6:12 chegar.

- Que horas são? – Perguntou Amanda.

- São 5:36. Não tem cérebro, ou é cega? – Perguntou ele apontando para um relógio enorme pendurado do outro lado da estação.

- Na verdade... Eu sou desligada. – Corrigiu ela tentando não se ofender – Mas obrigada mesmo assim.

Os quatro andaram até a pequena plataforma. Ela tinha um tipo de cancela de proteção que se abaixava ás vezes, para que quando os trens passassem os passageiros ficassem atrás dela. Naquele momento a cancela estava aberta, o que indicava que não havia nenhum trem passando.

Havia três trilhos de trem. Cada um com mais ou menos seis metros de largura. O chão onde eles foram construídos era de cascalho. Flávia se lembrou de uma vez em que ela ralou o joelho em um chão desses. Não foi uma experiência boa, por isso ela preferiu ficar atrás da cancela.

Os dois primeiros trilhos estavam vazios, mas no último tinha um trem. Era bem moderno, e tinha janelas grandes que deveriam mostrar até a cintura de quem estivesse em pé lá dentro. Elas não ficaram muito tempo paradas ali olhando para o vagão vazio.

- É lá. – Falou Mariana de repente. Ela se virou para seu pai com os olhos brilhando – É lá que está o objeto.

Ares continuou olhando para o vagão. Ele respirou fundo como se estivesse farejando alguma coisa, e por fim assentiu.

- Tem realmente alguma coisa lá. – Falou ele.

- Sério? – Perguntou Flávia – Então nós achamos?

- Pode ser. – Falou Ares com calma – Mas... Temos que ver o que é primeiro.

- Certo... – Mariana olhou para as amigas – Quem vai até lá?

Elas olharam umas para as outras. Flávia pensou em ir, mas as portas estavam fechadas, e ela não teria força para abri-las. Mariana poderia quebrá-las, mas isso chamaria a atenção das poucas pessoas ali. Amanda tirou do bolso o seu canivete de escoteiro.

- Ei, vocês se lembram de como eu abri a porta do hotel? – Perguntou Amanda e elas assentiram – Talvez se eu for bem discreta...

- Tem razão. – Concordou Mariana – Acho melhor você ir. Nós fazemos que nem no hotel. Vamos ficar aqui e dar cobertura.

- Ok. – Amanda virou-se e desceu da plataforma, que tinha uns um metro de altura – Aqui vou eu.

Ela correu pelos trilhos com cuidado, sempre olhando para os lados para ver se tinha algum trem, e por fim chegou ao vagão vazio. Ela olhou em volta. Ninguém.

- Vamos lá, canivete... Eu acho que vou precisar de um pé de cabra... – Ela murmurou. Um pé de cabra surgiu, mas não foi nem necessário. As portas se abriram sozinhas bem na sua frente. – Wow!

Ela recuou um passo por puro reflexo. A porta se abrir com tanta facilidade daquele jeito... Só faltava um bilhete escrito: “Entre, por favor.” o que não parecia ser um bom sinal. Coisas boas não tinham acontecido ultimamente. “Sorte” era uma palavra que elas estavam quase riscando de seus vocabulários.

- O que foi isso? – Perguntou Amanda olhando para as suas amigas. Elas estavam á uns 18 metros de distância no mínimo.

- A Flávia. – Respondeu Mariana – Ela conseguiu mexer nos controles.

Legal, pensou ela. Amanda fez um sinal de “Ok” para Mariana e Ares que estavam na plataforma e entrou no trem. Tinham algumas coisas lá. Provavelmente pertences esquecidos pelos passageiros, mas nada que parecesse realmente poderoso para ser o tal objeto perdido.

- E agora? O que eu pego? – Murmurou ela pensativa.

Amanda pegou um guarda chuva, mas teve medo de abri-lo. Ela não tinha idéia do que o objeto perdido poderia fazer. E também... Se ele era tão importante assim, e se ameaçava tanto o Olimpo se caísse nas mãos erradas... Ele devia ter um fucking poder.

Ela estava prestes a abrir uma janela e perguntar aquilo para Ares, quando algo pareceu bater no teto do vagão. Amanda olhou pela janela. Mariana tinha arregalado os olhos. Ela fez sua lança/régua aparecer, e estava pronta para correr na direção do vagão, quando... Algumas coisas aconteceram.

Certo. Vamos por partes...

Primeiro. A Flávia, que estava na cabine de controle da estação viu o trem da linha do meio (a linha 2) passar. Automaticamente a cancela se abaixou impedindo a passagem de Mariana, e Flávia não pode fazer nada a respeito. Ela observava tudo pelas câmeras de segurança.

Segundo. Mesmo que Mariana tivesse passado pela cancela, ela nunca teria conseguido entrar no vagão onde Amanda estava, já que o trem estava tampando o caminho. A linha 1, era a mais perto da plataforma. A linha dois era entre as duas, e a linha 3 (onde Amanda estava) era a mais afastada. Ou seja... Não tinha jeito.

Terceiro. Encima do teto do trem estavam os seis zumbis. Para a sorte da Mariana, eles estavam mais interessados no que estava dentro do trem da Lina 3, do que com ela. Eles começaram a socar o teto, ou atingi-lo com seus porretes de madeira. Para a sorte da Amanda (dessa vez), eles eram burros demais para notarem que tinha uma entrada por um tipo de janela no teto do trem.

- Merda... – Xingou Amanda baixinho. Se ela não chamasse atenção dos zumbis, talvez eles não a pegassem tão rápido. Ela correu até o próximo vagão, torcendo para que o objeto não estivesse no anterior, e fechou a porta atrás de si. Ela puxou uma espécie de corda de emergência que fez travar todas as entradas do trem. Ótimo.

- Agora vamos lá... Pense, Amanda, pense... – Murmurou ela para si mesma, e então se lembrou de algo. Ela pegou sua mochila e tirou de lá o seu celular.

Ela olhou para o lado de fora. Não havia nada a não ser o vagão passando, mas... Ainda assim... Podia ver vagamente a figura de Ares e de Mariana.

Amanda não sabia como, mas acabou digitando um número que julgava ser o do celular que Ares carregava.

- Que loucura! Eu nem mesmo sei se ele tem um celular! – Pensou ela, mas assim que apertou o botão verde, começou a chamar.

Mariana que estava do lado dele não parava de olhar preocupara para o trem. Ela queria arrebentar aqueles zumbis por se meterem com ela e suas amigas. Mas seu pensamento foi cortado por uma música.

- All the single ladies! All the single ladies! – A Beyoncé começou a cantar ao seu lado. Ela olhou e viu que a música estava vindo do bolso de Ares. – O que?!

O Deus da guerra pareceu um pouco envergonhado, mas acabou pegando o celular do bolso. Ele atendeu e perguntou quem era de um jeito bem educado.

- Vai se ferrar, babaca. Estou no meio de uma missão. – Falou ele para a pessoa do outro lado.

- Eu sei! Você que está guiando a gente! – Falou Amanda.

Ares arregalou os olhos. Ele podia ter perguntado como ela sabia o seu número, como ela estava, ou até mesmo se ela estava tendo problemas, mas ao invés disso...

- Você mentiu para mim! Disse que não tinha celular! – Protestou ele.

Amanda olhava em todos os cantos do vagão.

- Nossa! Eu enganei você no hotel, roubei as chaves da sua moto, fingi ser você, e deixei com que os zumbis arrebentassem a janela do seu carro. Você realmente está surpreso por eu ter mentido sobre o celular?! – Amanda riria se ela não estivesse correndo perigo mortal. – Mas... Esquece. Olha... Eu estou aqui no vagão, os caras maus estão no teto, e eu preciso saber... O que poderia ser o objeto perdido?!

- Qualquer coisa! – Respondeu Ares.

- Ah, isso ajuda muito! – Exclamou Amanda. Um zumbi alcançou a porta do vagão e começou a bater contra ela. Amanda olhou para trás e começou a se apressar na procura – Escuta... Eu não tenho muito tempo. Mesmo. Agora... Eu preciso de um plano. Não posso levar todos os pertences do trem!

- Vai falando o que tem aí, e eu te digo se pode ser mágico ou não. – Falou ele.

- Ok. Bom plano. – Concordou Amanda. Ela saiu correndo olhando dentro de algumas malas esquecidas, mas a maioria só tinha papeis. Como se fosse um vagão só para executivos. – Ahm... Tem várias malas.

- Alguma delas tem a letra delta? – Perguntou Ares.

- Ahm... Não. – Respondeu ela pensando qual a importância de uma mala assim.

- Então esqueça elas. – Falou Ares.

Ela largou as malas. O celular estava em seu ouvido, mas ela preferiu por no vivo á voz para poder ter mais agilidade. Cada vez mais zumbis batiam contra a porta, e ela não conseguiria lutar com todos.

Sobre uma das mesas tinha um leque rosa. Ela o olhou e sentiu o perfume.

- Tem... Um leque. – Falou Amanda.

- Ele é rosa com cheiro de flores? – Adivinhou Ares.

- É isso mesmo! – Exclamou ela pensando ter achado o objeto.

- Nem mesmo toque nele! É brinquedo da Afrodite. Se você se abanar com ele corre o risco de se apaixonar por um zumbi. – Disse Ares.

- Ahm... Eu acho que não quero correr o risco. – Amanda saiu correndo pelo vagão. Nada que ela via realmente parecia importante para Ares, até que... – Tem três pérolas... Azuis?!

- Isso pode ser importante!- Exclamou Ares – Agora pegue e dê o fora daí!

- Anotado, se... Ah! – Amanda gritou de dor. Ela foi atingida na cintura por um dos zumbis e caiu no chão. O monstro segurava um tipo de clava com espinhos e seu rosto mostrava que ele tinha adorado aquilo.

- Amanda! – Berraram Ares e Mariana juntos.

Ela não respondeu. Parecia inconsciente. Amanda estava caída no chão e o zumbi ia atacá-la novamente com a clava, só que não deu certo. Ela abriu os olhos com um sorriso triunfante no rosto.

- Te enganei. – Disse ela ao afundar sua espada no estomago dele. Amanda puxou-a para cima e partiu o monstro ao meio.

- Você está bem?! Como?! – Perguntou Ares incrédulo.

- Eu tenho um colete, lembra? Estou bem graças á isso. – Falou ela, mas algo em sua voz não soava bem. Como se aquela afirmação tivesse um fundo de mentira.

Ela cortou o pescoço de alguns zumbis, enquanto o trem do lado ia embora. Ela olhou para o lado rápido e viu que tinha um vagão quase que vazio. Só tinha um monte de feno dentro, o que ela acabou achanado engraçado (sabe-se lá porque).

Quando o último vagão passou por ela, o caminho finalmente estava livre. A linha 2 não tinha mais trem nenhum. Ela tinha derrubado todos os quatro zumbis que tinham entrado no vagão, mas sabia que aquilo não era nada demais. Eles iriam se levantar novamente e se recompor, mas Amanda não queria estar lá quando isso acontecesse.

Ela correu até o fim do vagão e colocou as pérolas no bolso. Ela abriu a porta, mas algo a impediu de pular. O trem estava começando a andar e ela nem tinha notado. Não teria como ela salta e cair inteira naquele chão de cascalho.

- Ah... Que se dane... – Murmurou ela. Amanda pegou impulso, mas no último segundo um dos zumbis tentou atacá-la. Ela o derrubou batendo o seu cotovelo no queixo dele. Ele caiu, mas não se deu por derrotado. O calcanhar dela estava a amostra, por isso... Foi onde ele atacou.

A cancela de proteção se levantou e Mariana esperou para ver se Amanda precisaria de ajuda. Para o seu alívio, ela conseguiu ver a amiga pular e cair de joelhos logo depois da linha 2.

- Amanda! – Exclamou Mariana sorrindo. – Você conseguiu! Olha!

Amanda olhou para trás com uma careta, e pode ver o vagão indo embora em alta velocidade. E levando com ele, é claro, os zumbis. Ela tinha conseguido, mas... Mesmo assim não tinha um sorriso vitorioso no rosto. Ela levantou os olhos para Mariana. Estava á uns doze metros dela.

- Mariana... – Falou ela – Você... Você lembra daquele filme de terror horrível? O... O albergue?

- Lá vai você com filmes de novo! Que saco! Você está viva! Será que isso não e bom o suficiente?! – Mas Mariana suspirou e assentiu. – Lembro, por quê?

- Lembra... Daquele cara. Que ele tentou fugir e cortaram... – Amanda não continuou. Ela olhou para o lado. Seu rosto estava ficando cada vez mais branco.

- O calcanhar. – Completou Mariana olhando para ela horrorizada. – Você está bem?! Amanda! Responde!

- Eu... Eu estou sentindo uma dor do cacete. – Respondeu Amanda fazendo uma careta, mas logo depois tentou sorrir. Ela estava viva, e era mais do que estava esperando. – Mas... Tudo bem. Eu estou bem.

Ela ficou de pé. Mal agüentava o peso do próprio corpo, mas sorriu mesmo assim. Ela tremia um pouco. Doía tanto... Ela tentou dar um passo na direção da plataforma, porém não agüentou. Seu pé direito a fez cair no chão. Ela gritou. Aquele som foi estridente e horroroso.

- Amanda! – Gritou Mariana correndo na direção dela. Ela pulou da plataforma e correu até a amiga. Ela tentou olhar o quão grave estava o machucado, mas Amanda a impediu.

- Não. Não olha. Por favor. – Ela pediu em um gemido. – Só... Me ajuda.

- Pode deixar. – Afirmou ela tentando transmitir o máximo de confiança – Amanda... Vai ficar tudo bem. Vamos... Eu te ajudo a andar até lá.

Poderia dizer que tudo deu errado, mas... Na verdade não foi bem assim. Digamos que ao invés disso... O relógio marcou exatamente 6:12. Mariana e Amanda estavam quase na linha 1. Elas estavam indo bem, até que as cancelas se fecharam. E... Mariana tropeçou.

As duas caíram encima dos trilhos do trem. A linha 1. Elas olharam para o horizonte. O trem estava vindo em uma velocidade impressionante. Quase a que Ares tinha atingido ao fugir dos zumbis em seu carro.

- Vamos! – Exclamou Mariana, mas assim que tentou se levantar viu que seu pé tinha torcido. Estavam ferradas.

- Não vai dar tempo! – Exclamou Amanda. Mariana estava caída do seu lado direito, estando assim mais longe da plataforma do que ela.

- Claro que dá! Vamos! Temos que tentar! – Insistiu Mariana em desespero.

- Mariana! – Ela olhou para a amiga com o rosto cheio de dor, e ao mesmo tempo ressentimento. – Eu sinto muito mesmo!

- O que?! Do que está falando?! – Mariana não estava ressentida por ter salvado ela – Se eu tivesse uma chance... Eu te salvaria de novo!

- Jura?! – Exclamou Amanda. A dor do seu calcanhar só aumentava o que tornava impossível ela sair do lugar. Ela encostou no lutar machucado, mas recuou a sua mão no mesmo instante. Estava muito sujo de sangue. Muito. Mesmo. – Eu estou tão ferrada...

Mariana tentou se levantar novamente, mas acabou caindo. Dessa vez, por cima da Amanda. O trem chegou cada vez mais perto. Flávia chegou com um sorriso no rosto pensando que elas tinham vencido tudo, mas soltou um grito de pavor ao ver a cena. Ares olhou para ela com os olhos arregalados de medo também.

Nenhum dos dois pode fazer nada quando o trem passou pelo lugar onde elas estavam.

- Não! – Rugiu Ares ao ver a cena.

- Ah! – Berrou Flávia sentindo lágrimas escorrerem pelo seu rosto – Elas...!

- Não. – Falou Ares correndo até a cancela de proteção. – Umas delas... Uma delas está bem.

- O que?! – Flávia olhou para ele – Como?!

Ele ficou em silêncio. Os dois fitaram o trem passar cada vez mais rápido em suas frentes. A cada segundo que passava, eles sentiam mais agonia e impaciência. Flávia não podia acreditar que só uma de suas amigas estava viva. Ares não queria perder sua filha, mas ao mesmo tempo... Amanda também era importante.

Mas o que reinou no momento em que o trem foi embora revelando a garota viva deitada sobre a linha 2, foi o silêncio. A expressão de choque, dúvida, tristeza e dor misturada nos rostos deles foram indescritíveis.

Flávia começou a chorar alto. Ares continuava encarando a garota deitada, que respirava pesadamente nos trilhos. A cancela se levantou.

Ele e Flávia desceram correndo para ajudar Mariana, mas antes olharam para onde Amanda devia estar. Nada. Só algumas manchas de sangue.

- Ela... – Mariana não conseguiu acabar a frase. Ela começou a chorar desesperadamente junto com Flávia. – Pai! Ela...! Ela me salvou!

- Eu sei. Eu sei. – Era tudo que Ares conseguia dizer.

Notas finais
Isso foi surpreendente?

O que vocês acharam?

É... Eu sei que estão chorando.

Tudo bem. Talvez leve um tempo para vocês se recuperarem disso, mas... Enquanto isso eu espero vocês no próximo capítulo.