Barry

— Há quanto tempo vocês estão aqui?

— Dez minutos. O corpo foi descoberto por uma funcionária logo após o café da manhã — diz Joe.

— Ok.

— Faça sua mágica — ele completa, dando-me espaço para adentrar o cerco.

Pego minhas luvas na bolsa e jogo a mesma no chão. Abaixo-me e começo a examinar o corpo, procurando por provas de homicídio. O rapaz está vestindo roupas tropicais, facilitando o meu trabalho. Avalio lentamente sua pele e vestes, na tentativa de achar algo útil para a investigação. Ferimentos, hematomas, marcas de amarras, vestígios de sangue, qualquer coisa que auxilie na busca e captura do responsável. Nada. Aproximo-me de seu rosto. Ele está envolto por uma mancha no chão. Isso aponta que ele sufocou no próprio vômito.

— A causa da morte parece asfixia, mas, Joe, você tem certeza de que ele não se envenenou? Não há indícios de confronto na vítima.

— Também achamos isso, Barry, mas encontramos esse cartão no bolso de sua bermuda — Patty responde por ele.

Estendo a mão e pego o cartão embalado que ela estende. É uma rainha de copas. Uma carta comum de baralho, aparentemente sem marcas de desgaste ou algo escrito.

— Acha que isso seja uma assinatura?

— Parece que sim. Esse é o terceiro corpo que encontramos com essa carta.

— Encontraram as digitais nas anteriores?

— Não.

Sacudo a cabeça. Aquilo não era bom.

— Quais foram as outras ocorrências?

— Uma mulher e um homem. A mulher foi encontrada num rio no interior da cidade. Causa da morte: afogamento. Só que o homem foi esfaqueado.

— Métodos diferentes.

— Exato. E há outras complicações. Identificamos as vítimas no banco de dados, mas a mulher já tinha sido dada como morta. Seu nome era Beatrice Barnes e ela morreu num acidente de carro com o namorado em 2010. O homem, Drew Gold, atendeu a porta quando fomos contatar a família para identificação do corpo. Também compareceu pessoalmente para esclarecermos o ocorrido.

— Eles não tinham irmãos gêmeos?

— Negativo. E mesmo assim, as digitais...

— São únicas, eu sei. Só estava cogitando o fato de alguém ter trocado de lugar.

— Alguma testemunha?

Joe balança a cabeça indicando que não

— As cenas do crime também não foram favoráveis. Beatrice foi encontrada longe do centro e Drew num galpão abandonado. Quer dizer, os sósias deles. Ainda não sabemos quem são, porém eram pessoas idênticas. Ainda vamos interrogar os hóspedes oficialmente, porém pelo que todo mundo disse ele chegou ontem sozinho e não comeu nenhuma refeição ou conteúdo do frigobar.

— Ainda vamos avaliar esse caso a fundo, mas as chances de termos ainda mais perguntas depois das análises de laboratório são altas. — Diz Patty, com expressão e tom frustrados.

— Barry, a cidade já está caótica, mas esse assassino está nos dando mais dor de cabeça ainda. Precisamos resolver isso — Joe me pressiona, claramente perturbado com a situação.

— Tudo bem. Dê-me tempo para analisar a cena do crime e ver se encontro algo a mais. Podem ir interrogar os outros hóspedes.

+++

Termino de comer e tomo um gole de suco. Apesar de comer meu prato favorito, sinto um gosto desagradável na boca. Não sabia ao certo por quê. Se era devido a Zoom estar em Central City, a confusão na qual a cidade se encontrava, meus pesadelos, a partida de Caitlin ou o medo do que poderia acontecer... Talvez tudo ao mesmo tempo. A estadia de Zoom e seu exército já era ruim o suficiente. Mesmo assim, sabia que as coisas poderiam piorar. E dada a minha sorte, iriam. Zoom estava atrás de mim. Aquilo me apavorava. Eu ainda lembrava de como ele me torturara meses antes. Caitlin me disse que meu coração chegara a parar. Eu temia que aquilo acontecesse de novo. E pior: que acontecesse com alguém que eu amasse. Zoom me aterrorizava. Por mais que tentasse ser otimista, nossa falta de sucesso alimentava minhas preocupações. E para agravar a situação: meus pesadelos tinham voltado.

O visor do meu celular se ilumina indicando uma chamada de Joe. Atendo imediatamente.

— Barry, encontramos digitais na carta nova.

— Ótimo. Conseguiu identificar?

— Sim. O problema é que pertencem a uma mulher que está em coma há cinco meses. Ela também não tem irmã gêmea.

Respiro fundo, tentando pensar em algo. Tenho uma ideia inapropriada.

— Joe... Será que você pode me emprestar esta carta? Talvez Cisco consiga ver algo. Sei que não é permitido, mas é a única opção que temos. Ele pode até prever um próximo homicí...

— Sim, Barry, pode vir.

+++

— Ela deve ter errado o número sem querer — escuto Iris falar.

— É. Provavelmente foi isso — Cisco responde.

— Aconteceu alguma coisa?

Os dois pulam na cadeira e me encaram.

— Estava tentando falar com Caitlin. É que ela não viu minhas mensagens, então tentei telefonar. O número era de um restaurante mexicano.

— Ela certamente deve ter errado um algarismo ou algo assim — Iris completa.

Se não conhecesse Iris tão bem, a consideraria convincente. Entretanto, podia perceber uma discreta pitada de nervosismo. Ela parecia se esforçar para acreditar naquilo.

Cisco coça o braço e logo muda de assunto.

— O que é isso? Se você quer jogar buraco, precisamos de mais cartas, Barry.

— A polícia achou isso num corpo hoje de manhã. As digitais são de uma paciente em coma.

— Será que é de uma irmã gêmea? — Sugere Iris.

— Não.

— Um metamorfo? — Cisco se manifesta.

— Acredito que possa ser de alguém da Terra-2. Seja lá quem for, espero que você consiga descobrir com a carta.

— Joe deu permissão?

Gesticulo que sim. Cisco pega a carta em minha mão e se cala. Ele fecha os olhos e franze o cenho. O silêncio se estende por alguns segundos.

— Não consigo ver nada. Sinto muito.

Ele se joga novamente em sua cadeira, evidentemente frustrado. Encaro os pés. Gostaria de poder dizer algo a ele, mas não conseguia nem animar a mim mesmo.

— Cisco, está tudo bem. Vamos resolver isso. Sempre resolvemos. — Iris assegura.

Respiro fundo ao ouvir aquelas palavras. Não sentia que estivéssemos resolvendo as coisas. Nem um pouco.

+++

Acordo de um cochilo. Aquela era a única forma que conseguia dormir ultimamente. Esfrego os olhos e olho ao redor. Cisco não está. Ouço passos soarem em direção ao laboratório. Viro e vejo uma menina. Não parece ter mais que dezenove anos. Sua pele é branca, mas os cabelos e olhos são negros. Parece asiática. Ela veste um macacão colado de manga comprida e preto. Também usa um suspensório em formato de x e máscara da mesma cor puxada para cima.

— Gostou do meu presente de boas-vindas? — Pergunta-me sorrindo.

Ela percebe minha desorientação e exibe uma carta de rainha de copas. Prendo a respiração.

— Quer dizer, o homem inocente que você matou? — Respondo.

— A polícia dessa Terra não faz o seu trabalho? Porque nada do que você disse é verdade. Não matei, agredi, sequestrei aquele homem e nada do tipo. Mal cheguei a tocar nele.

A garota responde adentrando o laboratório e senta na minha cadeira. Ela pega o cubo mágico em minha mesa e começa a mexer nele.

— Você pode não tê-lo matado com as próprias mãos, mas certamente é a responsável pela sua morte.

— Você tem certeza?

Ela para e me observa, erguendo as sobrancelhas. Ignoro-a e olho para outra direção.

— Bom, ele era um assassino em série na minha Terra. Eu sou mesmo tão perversa por dar justiça a alguém que nem sequer é um cidadão daqui?

— Você o matou. Isso te faz tão assassina quanto ele.

— Certo — a menina suspira — Já cansei dessa nossa rixinha. Vamos direto ao assunto. O que importa é você.

— O que você quer de mim? — Rebato irritado.

— Nossa, quanta hostilidade. Sua mãe não te ensinou a receber pessoas direito?

Engulo em seco.

— Oh. Você não tem mãe. — Ela conclui. Imediatamente, faz uma expressão que parece envergonhada e tapa a boca. — Agora eu que fui indelicada. Desculpe.

Ela se levanta e caminha na minha direção.

— Quanto a sua pergunta, ela é ingênua e um tanto pretensiosa. O certo a perguntar seria "você quer algo de mim?". E na verdade, quero, mas ao contrário do que gostaria, você não tem nada a me oferecer. O que eu quero envolve você, mas envolve principalmente Zoom.

— Ele não está aqui.

— Nunca disse que estava. Na verdade, ele está lidando com uma mulher agora. Por isso, mandou-me para aquecer as coisas.

— Achei que Zoom quisesse me matar com as próprias mãos. — Adiciono.

— Você está certo. Só que ele quer te fazer sofrer antes. O cara é obcecado por você e está irado por ter recuperado os seus poderes e resgatado a namoradinha dele. Bom, também não é de se espantar que a coitada não tenha se derretido por algemas e hambúrgueres. Hunter não é tão charmoso assim, mas não se pode culpar um homem que só teve o hospital psiquiátrico como exemplo por tentar. — Comenta — enfim, voltando ao assunto, eu só estou aqui para agitar as coisas. Considere-me um ato de abertura, só não se engane: posso ser ainda mais esforçada que o ato principal.

— Espera. Você sabe algo sobre Caitlin? Zoom está com ela? Não quero te machucar... Diga-me onde Caitlin está e ficaremos quites.

— Quando foi que os ponteiros desta conversa mudaram? Porque quem está no controle ainda sou eu, docinho. Bom, não sei onde Katy está, mas tenho uma tarefa a cumprir.

— Você sabe que irá perder, não é?

— Eu não seria tão otimista assim, Flash.

A garota para bem na minha frente.

— Olha, eu sou uma assassina, mas gosto de jogar limpo. Vou te dar dois minutos de vantagem. Para um cara que corre mais rápido que a velocidade do som, isso já deve o suficiente.

A garota retira um celular do bolso e aperta alguns botões. Antes de ter tempo para processar o que estava acontecendo, ela me lança ao chão. Depois, retira uma espada que estava presa às costas e atira em minha direção. Apanho apressadamente.

— Já que tem reflexos rápidos, consegue me acompanhar num duelo — A garota desafia, apontando uma lâmina idêntica ao meu rosto.

Revido. Ela me dá um chute na virilha, me mantendo no chão e arranha meu ombro.

— Achei que você me daria dois minutos de vantagem. — Digo, bloqueando uma manobra na barriga.

— Oh, lindinho, eu estou. Esse é o nível fácil da nossa partida. E é melhor você melhorar, porque ainda suará mais.

Consigo me levantar e defendo um ataque na perna direita. Começo a tomar o ritmo da atividade, porém a garota é bem treinada. Todavia, percebo que ela está dando continuidade a conversa e faço o mesmo, na esperança de distraí-la e adquirir vantagem.

— Por que diz isso?

— Você tem suas cartas na manga, eu tenho as minhas.

Desvio um acerto e arranho sua orelha acidentalmente.

— E quais são elas?

— Digamos que eu tenho uma família muito unida.

Ela acerta uma de minhas coxas e caio outra vez. Bato de costas no chão e reclamo. A menina aproveita a deixa e observa o celular.

— Meu reforço chegou. Pronto para mudar de fase?

No mesmo momento, escuto vários passos altos se aproximando e não demora para vários clones da garota ocuparem a sala quase que por completo.

— O jogo é simples, mas trabalhoso. Vou te dar todas as instruções necessárias para ganhar, só que depende da sua habilidade física e mental. — Explica sorridentemente.

— Enfim, nós vamos lutar. Poderíamos te atacar ao mesmo tempo, porém seria trapaça. Só vamos nos embaralhar. Há apenas um clone meu com a mesma cor de cabelo e olhos. Se você conseguir encontrar-me em meio a multidão, a competição acaba. Que vença o melhor. — Ela diz ao fazer uma saudação. — Vamos ver se o herói da cidade faz jus a reputação. — Termina.

Em seguida, todos os indivíduos cobrem seus rostos e se espalham pelo cômodo.

Alguém se posiciona a minha frente e começa a lutar. Revido suas entradas. A pessoa se afasta e outra assume o posto. Acerto seu ombro. Minha habilidade melhora e consigo sentir as feridas sarando. Mesmo assim, o ritmo continua acelerado. Todos os clones apresentam experiência em esgrima. Seus disfarces também são eficientes, não deixando um fio de cabelo a mostra. A única forma de encontrá-la é reconhecendo seus olhos.

Recebo um corte na mão e revido. Sinto alguém atrás de mim, mas viro-me a tempo de derrubar o indivíduo no chão. Tento pensar em como solucionar as coisas. Recordo-me de Multiplex. Lembro que Caitlin disse para eu encontrar o que demostrasse cansaço.

Sinto um furo no peito enquanto resgatava tal informação. Consigo desviar antes que faça danos profundos. Outro clone se manifesta. Bloqueio seu ataque e o empurro. Olho ao lado e vejo alguém com o ouvido machucado. Aponto-lhe a espada. A garota puxa a máscara.

— Boa jogada, Barry. — Diz com um sorriso traiçoeiro.

— Só não foi a certa.

Antes que possa responder, sinto uma lâmina perfurar o meu peito e caio no chão.

— Pratique mais, Flash. Se nos encontrarmos de novo, lutaremos no nível difícil.

Vejo a menina sorrir e se retirar com seus clones e em instantes minha visão se escurece por completo.