Fria Transcursão
2 Adaptação
Notas iniciais
Cisco
Começo a verificar todos os programas e aplicativos assim que ligo os aparelhos do laboratório. Desde que Zoom decidira dominar a nossa Terra, Central City virou ao avesso. Claro que a cidade já havia passado por maus bocados, graças ao fracasso do acelerador de partículas — que proporcionara superpoderes a várias pessoas que escolheram usá-los para o crime, mas naquela época conseguimos lidar com a situação. Com nossa equipe em ação, conseguíamos solucionar a maioria dos casos em menos de uma semana. Agora a situação é outra. Zoom trouxera terríveis meta-humanos de seu planeta para cá. Eles não eram apenas recém mutantes que entraram para a vida criminosa. Eles eram trapaceiros, agressores, ladrões, e, pior; assassinos treinados e experientes. Inúmeros. Com os poderes mais variados: invisibilidade, teletransportação, camuflagem, duplicação... Sem contar que nossos antigos meta-humanos, apesar de menos destrutivos, ainda estavam em ação. E Zoom começara a recrutá-los para o seu exército. Central City havia mergulhado em pleno caos.
O despertador de meu celular começa a tocar, indicando ser nove horas da manhã. Tinha esquecido de desligá-lo. Sempre mantinha alarmes durante um período de uma hora, para alertar-me desde a perda de horário até o início do expediente — já que muitas vezes chegava atrasado. Passei a fazer isso depois da milésima reclamação de Caitlin, que sempre chegava dez minutos antes. Segundo ela, aquilo era completamente não profissional, e, ao contrário de Barry, eu não podia "levantar num pulo e chegar ao laboratório antes dos meus pés alcançarem o chão". Sempre revirava os olhos quando me dizia isso, mas agora até que sinto falta de seus sermões.
Devo estar aqui por cerca de quinze minutos. É estranho chegar aqui a tempo, quem dirá antes da jornada de trabalho. Contudo, é preciso, pois Zoom está destruindo o lugar. A mudança repentina de Caitlin também me deixara um pouco atordoado. Sabia que estava afetando Barry também. Era estranho ficar aqui sozinho, já que na maior parte do dia Barry estava em campo. E eu odiava completamente todo aquele silêncio.
— Ei — Barry me cumprimenta rapidamente.
Gesticulo com a mão, enquanto vejo as múltiplas ocorrências do dia anterior. Barry era um velocista e bastante dedicado, mas dizer que apenas não estávamos dando conta era um eufemismo. Mesmo com todos os nossos esforços, a cidade continuava ruindo. Se fosse um dia normal em Central City, provavelmente teríamos folga devido a captura de tantos meta-humanos na véspera. Agora, nossas tentativas eram praticamente infrutíferas. E o pior de tudo: sabia que sem o nosso trabalho a cidade já teria sido totalmente aniquilada. Bufo com aquele raciocínio. Eu mesmo também estava com a mente a mil por hora. Aquilo estava me enlouquecendo. Balanço a cabeça tentando afastar tais pensamentos e encaro os ingressos de cinema que Patty me dera noite passada jogados na mesa. Um pensamento me ocorre. Levanto.
— Sei que não é muito apropriado, mas você quer sair depois do expediente? Patty arranjou ingressos para ver a pre-estreia de O Despertar da Força e... Ai meu Deus! O que aconteceu com você?!
Barry precisou de alguns segundos para processar minhas palavras e em seguida mirou o braço esquerdo.
— Ah, foi raspão. Deve sarar em alguns minutos. A boa notícia é que eu finalmente capturei aquela meta-humana.
— Espera. Você estava trabalhando até agora?
— Não. Eu trabalhei até as seis, depois vim até aqui para colocar Peyton na cela e acabei tirando um cochilo em uma das camas.
— Bom, então você certamente vai precisar disso — digo, estendendo-lhe um cupom — quer dizer, depois de solucionarmos o máximo de casos possível.
Ele deu um sorriso fraco.
— Cisco, vai ter um momento em que você terá que ficar a sós com essa garota. Aposto que ela vai aceitar, já que vive te dando esses ingressos que ganha. Patty só deve estar esperando que você seja o primeiro a usar a palavra com 'e'.
— Sério?
Barry apenas concorda com a cabeça.
— Ok, mas será que eu posso ter apoio moral essa noite para poder criar coragem?
Ele faz uma careta.
— Qual é! Você se divertiu no festival de patinação no gelo.
— Quando eu e Caitlin demos uma de babá da afilhada da Patty porque vocês ficaram flertando a noite toda e esqueceram da nossa existência?
— Certo. Não exatamente. Eu prometo que isso não irá acontecer de novo.
— Sei lá. Quatro pessoas é tolerável, mas três é demais, Cisco.
— Ah, você pode chamar a Iri...
— Fica para a próxima, tá? Acho que Iris gostaria de ir, pelo menos. Ela saiu com novo editor do jornal semana passada, então é capaz de ter companhia. Iris também precisa de distração.
Isso é novidade. Os últimos acontecimentos foram tão loucos que Barry nem mais se preocupa com o fato de Iris sair com outros caras. Barry aproveita a deixa e usa o meu silêncio para mudar de assunto.
— Então, está feito. O que temos para hoje?
— Bom dia.
Olho para o lado e vejo Iris com as mãos no bolso, pairando na porta.
— Oi. O que você está fazendo aqui?
— Apenas checando Cisco e você. E hoje é meu dia de folga e como sei que o laboratório está aceitando ajuda, quis vir cooperar.
— O jornal ainda está mantendo o cronograma antigo em meio a tantas notícias?
— Sim, Barry. O CCPN também contratou vários profissionais ultimamente. E mesmo que a cidade esteja em crise, todos precisam de um momento para si. O Flash deveria saber disso como ninguém.
— Iris, você não precisa se dar ao trabalho.
— Barry, deixa disso. Vocês precisam de toda ajuda que puderem reunir. Isso tudo é para o bem dos habitantes daqui. E essa sou eu... Sei que todo auxílio já é grande coisa, mas espero que ter uma amiga cooperando seja um pouquinho reconfortante. Tudo bem que eu não sou médica, mas ainda posso usar minhas ferramentas de jornalista e filha de policial. — Ela diz, dando-lhe um sorriso gentil.
— Obrigado.
Iris posiciona a mão sob o ombro direito de Barry e se aproxima, sentando em uma cadeira.
— Então, como está sendo as coisas?
— Agitadas — respondo.
— Disso eu sei. Eu quis dizer, como vocês estão se sentindo sem a Caitlin aqui? Não éramos tão próximas quanto vocês, porém sinto falta dela.
Respiro fundo.
— Há tanta coisa acontecendo na cidade que nem me dei ao luxo de focar muito nisso. Mesmo assim, sinto falta dela. Acho que ainda não processei isso, tudo está acontecendo quase que ao mesmo tempo. Parece que ela só está doente e vai voltar ainda essa semana.
Iris coloca a mão sob a minha como um gesto de conforto. Em seguida, olha para Barry.
— E quanto a você?
Barry faz uma expressão como a de um aluno que não estudara para a prova. Em seguida, dá de ombros.
— O que importa é a Caitlin estar sã e salva. Eu consigo aguentar o que está acontecendo. — Responde, com um pequeno sorriso.
Um silêncio se manifesta por alguns segundos e Iris dá um grito.
— Ai meu Deus! O que aconteceu com o seu braço?! — Ela exclama ao ver seu membro superior ralado.
— Um tiro de raspão. Está sarando, não se preocupe.
Iris o encara com desconfiança e suspira.
— Olha, talvez vocês devessem contratar uma médica nova.
— Não precisa, o meu metabolismo é rápido, lembra? — Defende.
— Sim. Todavia, até você precisa de socorro médico às vezes. Você já morreu antes. E até eu sei que é preciso um profissional para checar se um osso quebrado está se recuperando no lugar certo e tudo mais. Fora que a Caitlin não fazia somente os seus curativos. Ela ajudava a estudar os meta-humanos e encontrar soluções para deter criminosos.
— É, porém a Caitlin não era só uma médica. Ela era nossa amiga. Então, ninguém vai poder fazer o que ela fazia aqui.
— Barry, esse não é momento para ser egoísta e focar no próprio desânimo. Essa equipe não tem mais a cidade sob controle e sabe disso.
— Qualquer coisa, eu posso ir ao hospital como fui no Dia do Flash, tá bem? — Ele fala, tentando convencê-la e reconfortá-la — Vamos nos recuperar.
Seu celular começa a tocar e ele o atende antes mesmo do segundo toque.
— Tenho que ir. Houve um homicídio no centro.
À uma velocidade extraordinária, Barry vai embora, deixando-me sozinho com Iris e uma pilha de papéis espalhados no chão.
— Obrigado por ter concordado em vir. — Digo.
— Pode me chamar sempre que quiser, Cisco.
Sorrio e aceno para ela com a cabeça.
— Você acha que ele está bem? Barry se tornou fechado desde o começo do ano... Você consegue sentir alguma vibrar algo sobre o humor e emoções dele ou algo assim?
— Francamente? Eu não sei — respondo.
Fale com o autor