Frente Fria
1 Capítulo único
O sol das dez da manhã não esquentava tanto como prometido nos dias de verão e enganava os desprevenidos. Era a primeira vez no ano que o frio se mantinha até esse horário, obrigando as pessoas a permanecerem em seus casulos, com dificuldade para se movimentarem. Os copos das bebidas quentes ofereciam o melhor serviço àqueles sem luvas, sem que se importassem com a leve queimadura formada em suas mãos, mesmo que por pouco tempo.
Nove peças de roupa. Somente essa quantidade fez com que Leah se sentisse confortável para sair de casa. Sem contar suas roupas íntimas e sapatos, foram escolhidas calças, o seu grosso par de meias, o par de luvas que não cumpriam sua função muito bem, blusas compridas, cachecol e gorro. O conforto era o que buscava e, coçando o nariz, finalmente foi capaz de sair de casa. A brisa, sem piedade, arranhou seu rosto parcialmente desprotegido, fazendo-a gemer sobre a grama molhada. Seu pé esquerdo queria ajuda-la e a levou até a porta, mas o direito fez questão de lembrar que ela já estava atrasada havia oito minutos para o seu compromisso, então ambos concordaram que deveriam se mover cada vez mais depressa para o ponto de encontro.
A respiração se tornava, na verdade, sufocante à medida em que o ar era inalado devido ao ressecamento do nariz e o frio nos pulmões. Nada parecia ser suficiente para aquecê-la, nem os espaços com sol, nem o aglomerado de pessoas. Leah se lembrou que humanos eram seres frios e por isso não importava quantas pessoas houvesse ao seu redor, o ar sempre continuaria congelante. Seus passos curtos se aceleravam, medida para se aquecer e reservar espaço de seu tempo para comprar algo quente. A loja a qual costumava ir, por sorte, estava aberta e com pouca gente. Com fachada simples, a tinta da parede descascando e a porta emperrada, não era a principal escolha de alguém que passasse ali, mesmo que o aroma de alimentos e bebidas frescas impregnassem o seu redor. Utilizando força pouco mais do que o normal, a menina conseguiu abrir a porta, sendo invadida imediatamente pelo típico cheiro de bolo de laranja. Mesmo que soubesse o que pediria, seus olhos procuraram o simples cardápio, e logo seus lábios ressecados anunciaram a sua escolha. A atendente informou que o total foi de sete reais e, com sorriso no rosto, agradeceu a preferência ao devolver o troco.
O seu pedido estava bem seguro pelo saco de papel com fundo de papelão, então Leah não se incomodou ao se apressar novamente. Enquanto caminhava pelo lado da rua em que o sol ainda se esforçava para oferecer algum tipo de calor, com sua compra segurada ao peito, avistou seis colegas de classe do outro lado, rindo escandalosamente. O ar ao seu redor se condensava cada vez mais rápido e ela sabia que não era pela sua pequena corrida. Antes que a avistassem, virou-se para outro caminho, mesmo sabendo que isso a atrasaria, mas o resultado poderia ser mais satisfatório. Sua cabeça conferiu, a cada quadra, cinco vezes se não estava sendo seguida. Sem qualquer sinal de pessoas às suas costas, o bamboleio de seus passos se tornara mais estável, voltando ao ritmo adequado. Finalmente percebeu que, no caminho alternativo que pegara, a distância do parque se reduzira em relação ao trajeto cotidiano e seu sorriso retornou ao rosto, machucando suas bochechas congeladas. Em quatro minutos ela seria capaz de chegar.
Quando sorria, a cada três passos Leah saltava discretamente. Mas tanto seus passos quanto seus saltos foram interrompidos quando avistou algo enrolado no cobertor e percebeu que, o algo, era alguém. Como havia comprado dois copos de café, decidiu deixá-los com a pessoa, pois ambos ainda estavam quentes e poderiam ajudá-la. Leah os comprara mesmo que já estivesse satisfeita com o que comera em casa, pois o café sempre a ajudava a se manter acordada nos treinos e, naquele dia, era justo o que tinha faltado à sua mesa. A jovem se aproximou do homem para entregar-lhe pessoalmente os copos, tocando suavemente seu ombro virado para cima.
Ao olhar bem, era somente um corpo.
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