Freezing Passion
4 Capítulo 4 - The Ascension
As almofadas carmesim se mostraram mais confortáveis do que esperado. A base de aço frio e escuro servia como apoio para os braços demasiadamente magros. A cabeleira espessa e negra, agora com vários fios esbranquiçados, pendia semi-caída sob a cabeceira do alto trono. Os pés de tornozelos ossudos se mantinha folgado no interior dos sapatos altos exageradamente grandes. O que mais temia parecia se fazer verídico antes do que profetizara, e antes de findar os seus planos para reverter a situação tão caótica.
O ambiente jamais mudara. As janelas sempre se encontraram fechadas, e a luminosidade impedida de adentrar ao recinto pelas cortinas de seda negra que faziam do local úmido e abafado. Entretanto, a proprietária acabou por se acostumar pelas características sombrias, negando-se à inovar. Acreditava também, por fontes seguras, devo ressaltar, que a luz do sol seria prejudicial a sua pele, que já se encontrava decadente, seguindo seus requisitos de beleza.
Em um outro extremo, acomodada em uma simples poltrona, deveras inferior ao trono acolchoado, uma garota se esforçava piamente em ler um livro, o que se tornara praticamente impossível devido à baixa luminosidade. Dando o braço à torcer, fechou a obra e se levantou confiante. Seus olhos eram cor de âmbar e seus cabelos negros como a noite sem luar, sua pele apresentava um tom de castanho bastante diferente da pele pálida do povo de tal região. Suas pernas longas caminhavam fortemente pelo chão de pedra, enquanto seu vestido verde-oliva arrastava-se atrás de seu calcanhar. Ela fitava a figura deplorável sobre o trono.
Os olhos da mulher mal se abriam, ela se sentia exausta e impotente. Levando em consideração que ressurgira das cinzas –no modo literal-, era basicamente previsto que se sentisse tão mal. Sua boca se abriu por um instante, logo fechando-se novamente, queria notícias.
–Minha senhora, que bom que acordaste. –A moça de pele morena mesurou-a com uma reverência exagerada. – Primeiramente, tenho de dizer-lhe que executei tudo aquilo que instruíra-me conforme o planejado. Queria que o alvo ficasse à par de que alguém a ronda, por motivos que eu não compreendo...mas não devo lhe questionar. – A mulher suspirou, provocando um ruído agonizante com traquéia. – Porém, devemos ter cautela. Há guardas rondando as redondezas do esconderijo. Parece que um de seus convidados obteve um vislumbre de mim enquanto me distanciava. Me perdoe pelo descuido senhora.
A dama esquelética ergueu a cabeça, suportando seu peso sobre seu pescoço em carne e osso, fitando a mais nova nos olhos claros. Seus lábios rachados abriram-se e sua língua mexeu-se contra os mesmos, umedecendo-os.
–Mirabelle. Aproxime-se. – Mirabelle assumiu feições desprovidas calma. Ela estava realmente falando. Sua voz ainda era bastante rouca e sua fala decadente, mas era uma grande evolução, sem dúvidas. – Preciso que chegue mais perto, jovem. – Obediente, a garota caminhou pé ante pé até o trono vermelho. Ajoelhou-se, depositando suas mãos macias e delicadas sobre as pernas enrugadas da velhaca. – Como aprendiz, promete satisfazer minhas vontades, sejam elas quais forem? Jura se sacrificar e se privar de certas luxúrias somente pela minha sobrevivência?
O rumo da conversa fora duvidoso, mas a ganância de Mira era maior do que seu orgulho ou temor. Certamente aquela mulher poderia passar-lhe ensinamentos que qualquer outra feiticeira seria incapaz de fazê-lo.
–Oh, Senhora dos Vales Sombrios e Mãe dos Encantos, eu dou-lhe a minha palavra de que serei leal à ti. Abrirei mão do que quer que seja para satisfazer à senhora, minha doce Amelie. – Amelie sorriu. Um sorriso desprovido de dentes. Ergueu suas mãos trêmulas até o topo do crânio de Mirabelle e suspirou, enchendo seus pulmões de ar repleto de poeira.
Com a respiração ofegante, Amelie proferiu encantamentos e feitiços, ainda com as mãos em sua jovem. Mirabelle, por sua vez, se sentia cada vez pior. Sentia sua vitalidade se esvaindo aos poucos, enquanto seus membros ficavam mais fracos e seu rosto menos belo. Sua pele nada macia e seus cabelos enfraquecidos e sem brilho. Um preço a ser pago.
Por outro lado, Amelie parecia rejuvenescida. Seus cabelos cheios encheram-se de cachos negros e brilhantes. Suas maçãs do rosto tornaram-se enxutas e sua pele bela e lisa. Se sentia mais forte e confiante. Poderosa.
–Serei grata à ti, Mira, uma boa e confiável filha, a quem eu possa sempre confiar. Decerto seus esforços serão devidamente recompensados, peço que não temas e que tenha perseverança, sim? – Mirabelle ergueu-se tonta. Cambaleou pela sala, parando em seguida e levando seu olhar de encontro ao de sua mestra. Acenou-a positivamente. A garota de apenas dezessete anos dera lugar à uma mulher madura, de meia-idade e de visão fraca.
–Devo confessar que foi uma honra servi-la, minha mestra.
–Sem dúvidas, querida. –Amelie levantou-se de sua grande cadeira e esticou suas juntas. Bocejou por um instante e caminhou sobre seus grandes saltos. –Em tempos remotos, encontrar uma jovem dama a qual servir-me com lealdade se mostrava realmente dificultoso. Antigamente, a única saída que encontrava era adotar uma garotinha, trancafiá-la ao interior de uma torre e encarnar o papel da mãe boa e dedicada, que sempre tem razão e deseja o bem de sua amada princesinha. – Uma lágrima cruel escorreu por sua face. – Sinto falta daquela ingrata, deplorável mulher. Jamais fora capaz de proferir um simples “Obrigado”, nem mesmo olhou para trás quando deixei-a, despencando em cinzas. Trocou-me sem piedade, certamente nem mesmo se recorda da bela mulher que lhe presenteava com amêndoas e tintas para suas pinturas idiotas. Que ela caia na desgraça profunda! – Fungou. – São tempos áureos, minha querida Mirabelle. Um ser com poder superior ao de uma simples plantinha, de um simples cabelo loiro e comprido o suficiente para tropeçar sobre ele. – Cansada,sentou-se novamente em sua poltrona. –Devo uma grande parcela à você, meu doce, por ter reunido todo o seu poder e me ressuscitado do amontoado de poeira. Devo a você a idéia desse novo rumo, desse novo plano, desse novo motivo para continuar tentando. Para quatrocentos e vinte e três anos, creio que estou realmente muito bem, não acha? – Sua risada ecoou,alta, pelas paredes. – Muito obrigado, queridinha.
–Não pensei que meu...pequeno auxílio fosse tão importante para a senhora...fico lisonjeada. – Mira sorriu, ingênua. Mal sabia que era apenas uma peça descartável para o plano de Amelie, uma mulher diabólica. – Quanto aos novos planos, tem algum ideal à ser cumprido, minha senhora?
–Ora, filha, isso é você quem tem que dizer. Como anda oi disfarce? Conte-me mais, desejo saber de absolutamente tudo!
–Um simples feitiço fora o suficiente para me transformar em uma criada. Uma moça magra e ruiva, com incontáveis sardas espalhadas pela face. A rainha tem convidados, algo relacionado a Guardiões, o que não consegui compreender devidamente. Procurarei saber mais, e trarei tudo para a senhora. – Seus dentes puseram-se à mostra em um largo sorriso. – Elsa parece estar em seu resplandecer, uma rainha não tão nova, devo ressaltar, e de aparência incrivelmente juvenil, é impressionante. Encontrarei meios de ajudá-la, não se preocupe.
Amelie levantou-se novamente, caminhando outra vez por toda a dimensão do local. Seus olhos escuros faiscantes, enquanto sua mente maléfica idealizava diversos modos de atrair sua presa para o bote.
–Ótimo, querida. Volte já para o castelo, quero saber um pouco mais acerca desses tais...Guardiões.
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