Freedom Planet: Faith & Shock
56 Estórias do deserto - Parte 2: Alfataa aljamila
Notas iniciais
Momentos depois do fim do exame Alsahwa uma comoção generalizada tomou a Magnanimous Arena. Não por Mu, que foi novamente ignorado, mas sim pela bela jovem feneco que acabara de lutar contra ele. Ninguém ao certo sabia o que estava acontecendo, mas todos faziam o mesmo comentário:
“Uma garota na Academia Persania?!”
E isso também era um pensamento que Mu tinha acerca do momento nada usual.
— Mas... Mas... Como isso... Como isso pode...
— Como assim “isso pode” o que?
— UMA GAROTA! – Disse, apontando na direção da jovem.
— Uma garota?! Onde? Onde? – Disse, olhando ao redor. Ela fez isso em tom irônico.
— Mas... Mas... – Mu se irritou com isso – Para de tirar onda da minha cara!
— Ei, o que foi? Não me diga que nunca viu uma garota na vida?
— Eu nunca vi uma garota aqui na Academia, é isso que eu quis dizer, sua louca!
— Então deve ser a primeira vez que você vê uma garota louca na Academia, hehe...
O Duke responsável pelo exame se aproximou da jovem, dizendo:
— Senhorita, peço que retire-se da Magnanimous Arena imediatamente!
— E eu poderia saber o porquê?
— Creio que esteja no lugar errado e na hora errada, por esse motivo.
— Ah... Bem... Foi mal aí pelo atraso, tá? Mas eu estou no lugar certo. Só a hora que eu “errei”, hehe... – Disse, meio sem jeito e mostrando a língua no canto da boca.
— O que quer dizer com isso?
— Espera... – Ela pegou um papel por dentro do uniforme de combate – Aqui, ó!
Entregando o papel para o instrutor, ele o leu no mesmo instante. E sua reação de surpresa veio seguido de suas palavras:
— O QUE?! Você... Você é uma aluna transferida da Dance Academy?!
— Isso mesmo, senhor.
— Mas como isso?! Eu não fui comunicado de nada disso!
— O que não entendeu? Nunca teve aluno transferido na Academia Persania?
— Garotas nunca pisaram nessa academia, senhorita.
— “Garotas nunca pisaram nessa academia”... Nossa, então sou a primeirona! Me sinto honrada.
— É inadmissível esse seu tipo de comportamento, senhorita! – O Duke não gostou do sarcasmo.
— Ok... Desculpa, tá? Comecei com o pé esquerdo... – Disse, reverenciando-o – Muito bem, me chamo Tahniiswara Al’Halawi Panthoora. Tenho 12 anos e já aflorei meu Nirvana. Meu objetivo é me tornar uma Persan.
O Duke estava incrédulo, ficando com um semblante bem fechado e até mesmo irritadiço. Ele, seguindo o protocolo, aceitou o documento e atendeu ao protocolo.
— Se-seja bem vinda a Academia Persania, senhorita Panthoora.
— Encantada... – Ela novamente o reverenciou – Mas podem me chamar de Tahn.
Até isso incomodou o Duke, que logo impôs sua autoridade:
— Todos os alunos estão liberados para se arrumarem. Vocês tem uma hora antes da volta as salas de aula.
Ele se retirou, levando consigo o documento de transferência da nova aluna chamada (apelidada) Tahn. Ela então se retirou, indo até seu vestiário.
Sim, vestiário feminino. Por mais que isso fosse estranho para todos os jovens e adultos da Academia Persania, haviam vestiários femininos pelo grêmio, mas que dificilmente eram utilizados, tendo em vista que todos eram garotos. Entretanto a escala de 100% de garotos agora era de 99%: Tahn era o 1% que fez com que todos os garotos torcessem o nariz e tratasse como um tipo de ofensa.
Sim, os garotos se ofenderam com a presença dela.
Inclusive um certo alguém se manifestou também:
— COMO QUE UMA GAROTA FOI PARAR AQUI NA ACADEMIA?!
Exato. Era Mu. Só que ao contrário de todos, ele não estava ofendido. Como uma situação natural, o feneco estava confuso e surpreso.
Minutos depois...
Sala de aula da turma A | Setor A
Com os alunos devidamente trajados com os uniformes da Academia, a aula estava em seu início. Como de costume, Mu estava no fundo da classe, sozinho e isolado. E para surpresa novamente da turma, a aluna transferida apareceu na porta, adentrando ao recinto estudantil. O professor, ainda aceitando esse fato, lhe deu as boas vindas:
— Be-bem... Esta é Tahn, uma aluna transferida da Dance Academy. Saúdem nossa nova integrante.
Ninguém saudou a jovem.
Ela percebeu isso no mesmo instante.
Mas:
— Estou vendo que vocês estão tão animados por ter uma garota aqui que até ficaram sem palavras. Mas não se preocupem, pois eu sei que todos aqui são extraordinários! E eu estou muito honrada em fazer parte desta turma de nobres lutadores!
Embora tenha mostrado honestidade nas palavras, era fato que isso foi uma provocação leve jogada por Tahn a seus novos “amigos” de classe. Ela então caminhou até uma carteira, mas todas estavam ocupadas. Fora que ninguém estava facilitando seu caminho, onde alguns dos alunos encolheram o corredor. Mas Tahn mostrou uma agilidade incrível, saltando e se equilibrando no braço das carteiras, o que causou reação no professor:
— Senhorita, não é permitido usar os assentos da sala de aula como aparelhos de acrobacia!
— Opa, jura?! É que estava ficando um pouco “estreito” passar por aqui, se o senhor me entende.
— Trate de se sentar pois irei começar a aula!
— Tá... Mas não tem lugar pra eu sentar!
— Procure o mais rápido que puder!
— Aí... – Disse ela, para a turma – Algum cavaleiro poderia oferecer um lugar a uma dama delicada como eu? – Um silêncio veio em seguida – É, eu acho que não...
E restou a Tahn ir para o fundo da turma, onde lá estavam Mu, que pensava sem parar:
— *Não vem pra cá, não vem pra cá, não vem pra cá, não vem pra cá, não vem pra cá...*
Seus pensamentos não foram ouvidos e nem atendidos, já que:
— Olá novamente! – Disse Tahn, e sentando ao lado de Mu – Pelo visto só tem lugar no fundão da sala... Deixa eu adivinhar: você é o descolado, não é?
— Hm... – Ele mostrou indiferença.
— Aí, estou falando com você, guerreiro!
— Não fala comigo... Por favor!
— E porque não? Você parece mesmo o descolado, o que todo mundo quer ser!
— Cala a boca! Não fala comigo...
— Você que falou “comigo”. Como fica agora?
— Hã?! Como fica o que?
— “Não fala comigo”... Você falou “comigo”!
— Sim! Pra você não falar comigo!
— Mas eu não falei “comigo”. Só agora e antes pra deixar claro que não disse “comigo”! Você que disse “comigo”.
— Para de falar comigo!
— Mas eu não disse “comigo”! Foi você!
Nesse jogo de palavras, Tahn já estava prendendo o riso pra não chamar atenção, mas Mu percebeu que estava sendo alvo de uma brincadeira de Tahn e:
— VOCÊ TÁ TIRANDO UMA DA MINHA CARA?!
E o professor:
— Musrie, que indisciplina é essa? Sabe que é estritamente proibido gritar em sala de aula!
— Ah... Gah... Desculpe, professor. Eu errei e estou mesmo arrependido – Disse, se levantando.
— Tudo bem. Desculpas aceitas. Agora sente-se e mantenha silêncio!
— Hunf... – Resmungou, dizendo baixo em seguida – Como se eu não ficasse a maior parte do tempo...
Só que Tahn ouviu isso e:
— Então você não é o descolado e sim o nerd?
— Como é que é? – Ele estava irritado.
— Nerd! N, e, r, d... Nerd.
— Se você pensa que vai ficar aí tirando uma comigo, melhor parar antes que...
— Primeiro: você deveria saber que “comigo” não tá aqui pra eu tirar nem duas ou três. E segundo: você leva as coisas muito a sério...
— Eu não te perguntei nada!
— Mas eu estou respondendo!
— De tão metida que você é!
— Tapa na cara você quer!
Tahn o ficou olhando, enquanto Mu rangia os dentes trocando o olhar. Por sorte o feneco percebeu que novamente era a jovem brincando com ele.
— Tá bom... Já entendi. Você gosta de ficar enchendo a paciência. Clichê e vergonhoso...
— “Você gosta de ficar enchendo a paciência. Clichê e vergonhoso”... – Arremedou Tahn , imitando a voz de Mu.
— GAROTA, PARA COM ISSO!
Como antes, a gritaria de Mu chamou a atenção do professor e:
— Eu já avisei que é proibido gritar em sala de aula, Musrie!
— Desculpe, professor. Eu...
— Sem explicações. Na próxima vez você será conduzido até a diretoria da Academia, estamos entendidos?
— Sim, senhor professor...
Por duas vezes Mu perdeu a paciência. Curiosamente ele nunca antes tinha sido chamado a atenção, dado o detalhe que o feneco NÃO INTERAGIA com ninguém por “motivos de força maior” que todos vocês sabem o porquê. Entretanto essa garota o tirou do sério e quebrou o silêncio que o jovem tanto sofria.
Minutos depois...
Com a aula transcorrendo normalmente, o professor havia aplicado uma lição para que os alunos lessem um livro relacionado a diretrizes de missões. Como aluno dedicado que tirava ótimas notas, esse era o momento que Mu se sentia um pouco melhor, já que todos ficavam em silêncio durante a leitura. Mas:
— Esse livro é um pouco burocrático demais, não é? – Disse Tahn, olhando para Mu.
— Caso você não tenha percebido, eu estou lendo! – Disse o jovem, voltando a se concentrar.
— Você é sempre lento assim pra ler?
— Não... Só quando uma garota enxerida abre a boca pra me atrapalhar! E o pior: acaba não lendo também!
— Ah sim... Eu já terminei de ler, nerd!
— Como é?! – Disse, surpreso – Não tem como você ter lido vinte páginas inteiras em dez minutos!
— Como não? É a coisa mais fácil do mundo... Eu já li sim e eu achei muito entediante... Ih acho que agora eu que sou a nerd, não é? – Disse, com a língua no canto da boca.
— Impossível! Você não poderia ter...
— “Código VII do quadrante de análise sistêmica – Parágrafo treze: todo cadete e/ou postulante deve e pode realizar varredura para catalisar suas propriedades de poderio de luta ante o sistema de combate e segurança da Academia Persania”. Se eu não tivesse lido tudo, não teria sabido disso. Sabe porque? Tá no meio do livro, “inteligência”!
— Grr... – Mu já havia passado da metade – É, você leu...
— Jura que você admitiu que eu sou uma nerd maior que você?
— Você não é uma nerd maior do que... – Mu se deu conta que havia caído novamente no jogo de palavras – Ei , espera aí...
— Hahaha! Admitiu! Admitiu! Nerd!
— Para com isso! Eu não sou nerd!
— É sim! Você disse! Eu ouvi!
— Não! Você que fica fazendo jogo de palavras pra me confundir!
— Então eu sou mesmo mais inteligente que você!
— Não é! Eu... – Novamente ele caiu – Espera, isso que você disse...
— Hahahahaha! Tá vendo? Você disse de novo!
— Grr... Para! Me deixa quieto!
— Nerd!
— Para!
A garota tirou mesmo Mu do sério, restando ao feneco se acalmar para não ser chamado novamente a atenção.
A aula, da medida do possível, transcorreu normalmente. Entretanto, depois de tanto tempo calado, Mu voltou a interagir com alguém em sala de aula.
Não foi do jeito que queria, mas foi um avanço.
Horas depois...
Pátio do refeitório da Academia | Início da tarde
Estamos agora no lugar mais democrático e mais liberado de toda a Academia. O refeitório em si já é um recinto onde a alimentação era levado a sério a exaustão, tenho em vista que fazer com que os postulantes deveriam receber o que havia de melhor de alimentos, tendo em vista seu n desenvolvimento sadio e proteico. Conversar era permitido, mas baixo. O lugar era luxuoso, com poltronas acolchoadas e aveludadas, ambiente climatizado e bem iluminado.
Onde as coisas ficavam mais tranquilas e livres era no pátio do refeitório, onde haviam vários assentos e até mesmo livros em estantes temáticas. Junto a isso havia também um imenso pátio, onde rodas de conversas eram muitas.
Mas nesse dia em especial, houve um evento inesperado.
Tahn, que tinha acabado de comer, foi ao tal lugar e ficou deslumbrada como tamanho. E enquanto observava o grande salão, não percebeu que haviam garotos que a cercaram. Ela, olhando para um deles, disse:
— Então, poderiam me dar licença?
— Volte para a Dance Academy, agora!
— Eu? Não, estou bem aqui... Mas se quiser ingressar lá, recomendo começar a requebrar bastante, tá?
Um deles era peça conhecida: Sid. O jovem tomou a frente de seu amigo e, autoritário, perguntou:
— O que você quer dizer com isso?
— Vocês devem pensar que eu sou uma “delicada dama”. Então estou imaginando que você é um “valentão cavalheiro”. Quero ver só você mostrando o rebolado lá...
— Grr... – O garoto entendeu a provocação – Acha que gostamos de ter uma garota aqui?
— Lá na Dance Academy não tem garotos, mas seria legal ter. Sério, tenta uma vez. Você vai gostar e ficar pra sempre.
— Pare dessa conversa torta! Você sabe muito bem que...
— “Não queremos garotas na Academia Persania”... Era isso que você ia dizer, né?
— Exatamente! Então vai dando o fora!
— Não. Estou bem aqui. Mas agradeço por sua “preocupação” para com uma “dama delicada e lindinha” como eu.
Tahn era muito irônica e não se intimidava, o que causou irritação entre os garotos. O líder, que estava mais irritado que seus colegas, caminhou até próximo a jovem, expressando-se:
— Se você não sair daqui, coisas ruins pode acontecer com você!
— Nossa, sério? Como o que?
— Eu te desafiar pra um duelo. E eu não vou ter pena de você!
— Ah eu entendi! Você se sente muito mal por ter uma garota aqui e se sente menor por causa disso! Olha, eu quero que você me desafie! Sério mesmo! Faça isso!
— O que?! Você tem noção do que está dizendo?
— Claro! Olha só que bom: vamos lutar! E melhor: vou ter o prazer de lutar contra um garoto que se acha “o melhor de toda a Academia”! Era exatamente o que eu estava precisando... Uma luta contra “o melhor”! Vai... Me desafia!
Nessa meia conversa, Mu, isolado e distante como de praxe, observava atentamente o desenrolar do diálogo desconfortável entre Tahn e o garoto que a afrontou:
— *Ah legal... Olha só quem já achou problemas... Essa garota não vai durar um dia aqui na mão desses caras...*
Ele poderia ter um juízo meio errado de garotas na Academia, mas tinha ainda um pingo de decência em sua mente:
— *Se bem que... Tipo, a muito tempo que eu não conversava com alguém na sala de aula... E essa garota não me julgou nem nada... Mas ela não me conhece e com certeza ela vai ser como todo mundo aqui quando souber dos meus poderes...*
E voltando ao grupo...
— Então como vai ser, garoto? Vai ser aqui?
— Garota maluca, só vai embora daqui e não vou te fazer mal, ninguém aqui.
— Ir embora? Olha, na boa, eu não vou a lugar nenhum! Estou bem aqui e a Dance Academy não é um lugar que eu quero mais. Tava bom no início, fiz até muitas amizades, mas eu quero ser uma Persan!
— HAHAHAHAHA! – Sid riu alto – Nunca teve uma Persan mulher na Academia!
— Então até nisso eu vou ser a primeira! A cada minuto eu fico mais e mais motivava a seguir até o fim! Eu o agradeço por esse incentivo!
— Incentivo?! – Ele estava confuso.
— É, colega! Mas e aí... Vamos duelar?
— Então você está mesmo falando sério? Não tem a mínima chance de vitória se continuar com essa sua valentia...
— Valentia?! Eu estou com vontade de lutar, entendeu? E eu tenho certeza que você é bem forte, o que me traz mais motivação!
— Idiota... Eu vou acabar com você! – Disse, manifestando suas chamas.
— Eu sabia! Você é forte! – Disse Tahn, também fazendo o mesmo com suas chamas – Nossa, estou muito animada pra lutar contra um garoto muito mais forte que eu! VAMOS LÁ!
E aquilo era mesmo sério. O garoto correu em direção a Tahn, que se colocou em base de luta. O clima de duelo estava formado, com os alunos formando uma roda, delimitando a área da suposta luta.
Mas tudo isso foi interrompido: Mu entrou na frente do garoto, que cessou seu ataque, recuando ao quase encostar no feneco, que o olhou nos olhos. Os passos para trás foi imitado por todos, que dispersaram para os arredores do salão em segundos. Mu foi o responsável em terminar bom o conflito somente em entrar no meio da luta. O nível de preconceito era tanto que nenhum aluno se atrevia a chegar perto do jovem feneco.
Entretanto, Tahn viu aquilo tudo. Ela estava impressionada, pasma e muito deslumbrada com o que acabou de ver:
— Nossa... – Ela estava incrédula.
— Garota, o que você tem na cabeça?
— Nossa... – Ainda mais.
— Aquele cara era o Sid, um dos melhores postulantes da classe Commando da turma A!
— Nossa... – Mais ainda.
— Você está ouvindo?!
— NOOOSSA! Você não é o descolado e nem o nerd...
— Hã?! Garota, você tá me ouvindo?!
— VOCÊ É O MAIORAL DO PEDAÇO! (✯ᴗ✯)
— Como é?!
— Só foi você olhar para o tal de Sid nos olhos pra ele colocar o rabo entre as pernas e sair de fininho!
— O que?! Sua maluca, não é nada disso!
— É sim! Olha só... – Disse, apontando para todos – Todo mundo foi pra longe só por sua presença... E você me salvou!
— Tss... Tô vendo que falar com você é inútil... – Disse, caminhando para fora do pátio.
Sim, Mu saiu do lugar as pressas, mas Tahn também fez o mesmo, o seguindo até. E enquanto o feneco caminhava, a jovem o acompanhava, dizendo:
— Meu salvador... Meu salvador... Meu salvador...
— Garota, para de me seguir!
— Tenho que seguir meu salvador...
— Para com isso! Eu não sou salvador!
— É sim! Ah... Seu nome é Mu, não é?
— Sim... Mas para de seguir!
Ela não parou de segui-lo e aumentou o coro:
— Mu... Mu... Mu... Mu... – A jovem estava saltitante a cada dizer.
— Grr... Para de ficar dizendo o meu nome!
— Porque não? Eu tenho orgulho de ter sido salva por você!
— Será que você não notou que isso é irritan... – Disse, sendo interrompido.
E como isso aconteceu? Simples: Tahn lhe deu um beijo carinhoso no rosto, o deixando confuso.
— Ah... Gah?! Hã?! Mas... O que...
— Hahahaha! Toma, você mereceu!
— Vo-você me... be-beijou?!
— Ih... Que tem? Só fiz isso pra agradecer, ué.
— Uma ga-garota me beijou?!
— O que tem?
— Eu nunca antes fui bei... – Mu interrompeu suas palavras, bastante corado.
— Como é?!
Um silêncio veio a tona, com Mu e Tahn trocando olhares. Até que:
— HAHAHAHAHA! É a primeira vez que você foi beijado por uma garota! Que fofinho! ( ◜‿◝ )♡
— Para de dizer isso!
— O que tem? Você teve a honra de levar um beijo no rosto! E você mereceu! Qual o seu problema?
— O meu problema?! Qual o seu, isso sim!
— O que tem?
— Você ignora todo o problema que tá em volta! Você quase arrumou encrenca com o Sid! Ele é o presidente da classe A! E agora fica nessa de me seguir e ainda me beij... – Ele ficou corado de novo, pensando – *Essa garota conseguiu mesmo me deixar envergonhado!*
Por Mu brevemente resumir o que havia acontecido, Tahn imediatamente mudou de semblante, ficando mais séria. E ela, se aproximando do feneco, se expressou:
— Obrigada por ter me ajudado.
— Hã? Mas... Você...
Ela então continuou sua caminhada, mas desta vez sem Mu. O jovem ficou alí, olhando para a feneco com a ponta de sua cauda colorida, que virou no corredor que dava acesso ao prédio central. O jovem divagou:
— O que aconteceu aqui? Porque do nada ela mudou? Estranho... Essa garota é maluca mesmo.
Isso sim foi inusitado para Mu.
Horas depois...
Sala de aula da turma A | Setor A
Resumidamente, a aula seguiu mais do que normal. Mu não teve maiores problemas após a aula começar, com Tahn concentrada na lição. Isso chamou a atenção do feneco:
— *Hm... Ela está quieta pela primeira vez desde que esse dia começou. Mas o que houve? Bastou eu abrir a boca pra ela simplesmente me agradecer e sair... Porque ela não falou nada? E porque eu estou me preocupando com isso!? Ela é uma garota na Academia, caramba! Nunca antes aconteceu isso... Eu não deveria nem estar falando com ela! Mas... Ela foi a única pessoa que conversou comigo desde que eu fui chamado de Maleun... Mas ela ainda não sabe! Tenho certeza que ela vai me tratar como os outros quando descobrir!*
Foi estranho ver a interativa feneco concentrada e compenetrada a lição, onde a classe estava fazendo do mesmo. Mas lá na frente da turma alunos constantemente olhavam o Tahn, como Mu mesmo percebeu. O feneco estranhou esse comportamento, mas se limitou a ficar calado e a fazer seu trabalho.
Todavia, esse detalhe, de perceber que seus “colegas de classe” olharem para Tahn a todo instante, não passou despercebido e martelava sua mente.
Horas depois...
Pátio de liberação de Postulantes | Início da noite.
Os postulantes da Academia Persania tinham durante a semana inteira período integral de treinamento e ensino. Ficavam o dia todo por lá, fortalecendo seu físico, desenvolvendo seu Chi e aprendendo lições acadêmicas de ensino. Após um dia de estudos, o início da noite era o sinal de que era o fim das atividades no complexo. Todas as turmas, do setor F até o A, se reuniam no pátio de liberação, para enfim serem conduzidos para fora das dependências da academia. Em forma, os postulantes seguiam para o portal principal, indo para suas casas em seguida. Esse era o único momento que Mu tinha mais contato com os demais alunos como igual, pois o protocolo os impediam de saírem da formação. Mas durante o procedimento de saída, Mu ouviu uma frase:
“Ela vai ver... Nenhuma garota veio pra cá esse tempo todo... Então vai começar assim!”
Mu sentiu que essas palavras não eram somente um desabafo. Para ele, isso significava um plano... nada agradável, a critério dele.
Minutos depois...
Logo após os postulantes serem liberados, Tahn seguiu em direção a um dos pontos de ônibus para ir para a zona oeste de Persania. Ela em si caminhava por uma área industrial, para cortar caminho. O lugar era uma fábrica de tecidos, iguaria muito consumida pela cidade inclusive. Com o lugar sem funcionários pois o expediente havia chegado ao fim, estava tudo calmo e deserto. E quando iria deixar o lugar, eis que Sid apareceu, interrompendo a caminhada de Tahn, que logo disse:
— Ah... Você de novo. O que foi agora?
— Na academia você se saiu muito bem, garota. Mas aqui fora não tem regras...
— Quem disse isso?
— Eu estou dizendo! Já deve saber o que significa, não é?
— Sei sim. E eu estou decepcionada.
— Decepcionada?
— Sim...
— E porque?
— Primeiro: eu te vi como alguém forte. E segundo: gente forte não fica fazendo esse tipo de coisa que você faz. Você deveria ter feito o duelo lá dentro da Academia Persania pra todo mundo ver!
— Ah entendi. Você é uma daquelas garotas que gostam de se mostrar, pra todo mundo ver sua beleza e ficarem impressionados...
— Não. Eu realmente te via como um garoto bem forte e que queria lutar contra mim pra me testar. Mas essa é minha decepção: você não gosta de garotas na academia.
— Exato! Você é bem inteligente.
— Sou sim, mais que você. E eu sou mais forte também, já que você precisou fazer tocaia pra me “dar uma lição”. Porque não chama seus amiguinhos também? Se esconder de uma pequena dama é muito feio!
Como ela mesmo disse, logo pelo menos mais quatro meninos apareceram, bloqueando seu caminho. Tahn definitivamente não teria como fugir, mas esse não era seu desejo no momento: ela mesma já estava emanando seu Chi, olhando para Sid.
— Covardia não tem perdão.
— Covardia? Tá pensando que eu dependo deles pra te fazer criar juízo?
— Então vai lutar sozinho... Gostei. Já não te vejo como um fraco. Mas te vejo como um idiota.
— Como é?! Você não sabe com quem está falando!
— Sei sim. Você se chama Sid e é um dos melhores postulantes da classe Commando da Academia.
— Hã?! Mas... Como é que...
— Aquele feneco fofin que colocou você pra correr me disse. Pelo visto você tem medo dele...
Sid ficou em silêncio, bem incomodado com o que ficou sabendo. Tentando ignorar esse fato, ele continuou:
— Vai se arrepender de ter aparecido na Academia.
— “Vai se arrepender de ter aparecido na Academia “... – Ela arremedou Sid, dizendo – É sempre a mesma coisa. Seja na Dance Academy ou na Academia Persania... Sempre tem alguém que quer fazer da sua vida um inferno. Mas eu sou diferente, sou muito diferente...
— Quer bancar a revolucionária, não é?
— Oh finalmente um comentário maneiro! Sim, eu sou de entrar na vida e no lugar dos outros e querer mudar as coisas. Eu sou assim, como vai ser?
— Revolução é para indisciplinados. Mudar as coisas é perigoso, como os anciãos sempre disseram...
— Perigoso é sempre seguir o padrão. Uma pergunta muda tudo, bocó! – Disse, o olhando nos olhos – Não precisa fazer nada a força. Só precisa questionar o porquê de vivermos aqui sem poder sair e seguir a tradição... Já pensou em viver sua vida como você quiser?
— Gran Rajad nunca iria gostar de ouvir isso!
— Gran Rajad que permitiu que minha família me colocasse na Academia Persania! Sabe como eles conseguiram? Uma simples pergunta: “minha filha pode entrar para a Academia?” foi o que meu querido pai disse. Gran Rajad deixou e eu estou aqui.
— Grr... Impossível!
— Aceite que dói menos!
Sid não estava acreditando, emanando também suas chamas. A aura era forte, que até impressionou Tahn.
— Nossa... Você é forte mesmo, menino!
— CHEGA DE FALAR! Você tem ideias que eu não gosto de ouvir!
— Vai ser difícil você evitar de ouvir. Nós fenecos temos orelhas grandes... Oh que dó!
— CALE A BOCA!
— Porque você não vem calar? – Disse, manifestando chamas.
— Primeiro as damas, sua garota enxerida!
— QUE CAVALEIRO! – Disse, saltando para frente – Se prepara então, bocó de tigela cheia!
Tahn correu com tudo em direção a Sid, que se preparou. Mas antes que os dois entrassem em combate, um indivíduo saltou e ficou a frente da feneco: era Mu novamente, que desta vez abriu a boca:
— PARA COM ISSO, SID! VOCÊ É UM COMMANDO!
Imediatamente, assim como antes, Mu interrompeu o duelo. Isso sim foi algo inesperado, coisa que Tahn não previu.
— Ei... Você de novo?!
— Fica quieta, garota maluca!
— Tá me atrapalhando, Mu!
— Estou evitando que você faça besteira!
— Está tudo sobre controle! Eu quero lutar contra ele!
— Ah certo... Você luta contra ele, toma uma surra e é expulsa da academia. Lógico... Você é a “inteligente” que sabe de tudo...
— Como é?!
— Você não leu tudo. Eu sabia...
— Não li o que?
— Na aula, ora essa! Se tivesse lido o texto todo, iria saber que “É proibido postulantes lutarem fora da Magnanimous Arena sem a supervisão de um Duke e sem os trajes de proteção junto com o elmo”! Se você lutar contra o Sid, ele vai te denunciar!
— O que?!
E era isso mesmo. O plano foi descoberto por Mu durante a formação da turma do setor A. E isso foi confirmado após Tahn olhar para um dos garotos que estavam bloqueando seu caminho: ele tinha um celular, posicionado para filmar seu ataque. Tudo não passava de um oportuno para pegá-la no flagrante.
Mas Mu não parou:
— Se rebaixou a isso, Sid? Que legal... O Commando postulante mais forte tentando usar um truque desses... e contra uma garota!
Sid ficou calado, desviando o olhar ao feneco. Os outros meninos também fizeram o mesmo. Mas Mu continuou:
— Eu lutei contra ela sem mostrar meu poder, você viu... Se eu posso, então você também pode! Quer mostrar que é o tal? Então deixa pra Magnanimous Arena. Lá você ou qualquer um vai poder mostrar o seu valor, seja ganhando ou perdendo! Mas fazer esse jogo aí de cancelamento não tá com nada, é patético e covarde! Eu te conheço bem, cara... Tu não é de fazer essas coisas... Como você pôde se sujar assim? Eu poderia até ter denunciar por falta de decoro, mas eu sei o que virá...
Ele sabia exatamente o que viria logo após o que acabou de dizer. Sid olhou para Mu com um semblante incriminador e tornou a dizer:
— Maleun!
Essa frase tinha um poder muito forte, com todos os outros meninos a repetindo a todo instante. Mas Mu havia recebido tanto ignorar e abandono que essa sentença tão cruel já não o abalava mais. Ele ficou alí parado, irritado, mas sem esboçar reação maior que isso. Entretanto, Tahn tomou a frente e, também irritadiça, se manifestou:
— Maleun? Essa palavra... Mu, porque estão te chamando assim?
— O seu “salvador” aqui, o que você disse que era o maioral, o descolado e o nerd na verdade é um amaldiçoado que não tem as Flames of Persania aflorado. Então quando eu apareço assim e os encaro, eles me chamam de Maleun.
— Mas... Você tem Chi!
— Estou permanentemente proibido de manifestar minhas habilidades especiais para sempre. Eu lutei contra você só usando meu físico...
— Você o que?! – Disse, surpresa – Quer dizer que você está na Academia Persania sem poder usar seus poderes a não ser seu físico?
— Nossa, como você é inteligente. Ligar os pontos não é para qualquer um... Meus parabéns!
A breve explicação de Mu trouxe um sentimento de revolta por parte da feneco. Ela voltou a olhar para Sid, dizendo:
— Miserável...
— Garota, sugiro que saia da Academia! Isso não vai acabar até que estejamos livres de garotas!
— Eu não vou sair... Aliás, eu vou ficar até o fim para ser uma Duke...
— Desista. Nunca uma garota se tornou Duke desde o início!
— Eu já disse, serei a primeira... Só que tem uma coisa que você não sabe sobre mim...
— O que seria? PORQUE VOCÊ SE ACHA DIFERENCIADA? Escuta, eu não tenho nada contra você ter poderes nem nada. Mas não há lugar para garotas na nossa academia!
— “Porque se acha diferenciada?”... Você diz isso de uma forma tão desnecessária que me dá nojo...
— Eu não me importo com isso!
— Deveria... Já que trata o Mu feito um lixo... “Maleun”, você disse. Imagina só você viver ouvindo isso sem ter culpa de nada e segurar a onda sem agredir ninguém? Como você acha que alguém consegue viver dessa forma? Eu vim até a Academia Persania porque eu tinha certeza que só tinha pessoas fortes e poderosas... Sabe porque? Eu sou forte e poderosa. Tenho força na minha mente, nos meus punhos, no meu nome... e eu pensava que todos aqui eram como eu. Por isso vim para cá... Mas tudo isso mudou ao ver o comportamento de todos vocês.
Tahn rapidamente começou a manifestar uma aura mais forte, com um tom mais avermelhado nas chamas. Mas não parou por aí: seus olhos agora estavam vermelhos, brilhante até. E ela continuou a falar:
— Garotos não gostarem de garotas na Academia Persania é algo que eu não esperava. Mas é uma coisa que eu consigo superar. Mas ouvir essa palavra “Maleun”... É inconcebível, como minha amada mãe me disse quando não se aceita uma coisa tão banal! É uma vergonha... É UMA VERGONHAAA! – Disse, fazendo aflorar ainda mais seus poderes.
E ao fazer isso, a explosão inesperada de e energia deu início a uma mudança de intensidade de Chi em Tahn: quase que instantaneamente, mais oito caudas formadas por chamas vermelhas apareceram por detrás de seu dorso, se somando a sua cauda orgânica. A jovem estava com seus braços abaixados, enquanto recitou:
— A família Al’Halawi Panthoora teve uma importância maior na Great War of the Vast Desert a centenas de anos atrás. Uma delas foi formar uma legião de formidáveis mulheres dispostas a fazerem parte das linhas de frente do nosso grandioso exercito de louváveis homens de Persania... Sendo assim, havia uma Shakhsia (entidade, em árabe) que as abençoou...
— O que?! – Disse Sid, confuso – ISSO É UM MITO!
Por todo Great Desert haviam estórias do deserto. Todavia, as Ancient Scriptures eram a fonte principal dos alicerces tradicionais de todas os sub reinos do continente das areias. E os sacerdotes passavam a palavra, a fim de determinarem sua doutrina por milênios de anos em Avalice. E nas tais escrituras haviam denominações de entidades que influenciaram o povo por anos e anos de história. Sendo assim, diante o que Tahn disse e o que Sid acabou de dizer...
Não era um mito.
Tahn então lhes deu a notícia. Aliás, seu verdadeiro poder foi mostrado:
— As relíquias adquiridas por gerações da família Al’Halawi Panthoora correm por meu sangue e afloram ao meu Nirvana. Esse é meu poder: Kyubiko no Akai Hono — 九尾狐の赤い炎!(Chamas Vermelhas da Raposa Feneco de Nove Caudas, em japonês). Gran Rajad as viu, as abençoou e as entregou a Academia Persania.
— O QUE?! – Gritou Sid, surtando – IMPOSSÍVEL! NÃO PODE SER! Essa garota... ela tem... as chamas vermelhas da Kyubiko?!
— Eu sou diferenciada, Sid? Ou melhor dizendo: um dos melhores Commando postulantes da Academia?
Todos estavam boquiabertos perante aquele poder puro e reluzente. Isso para não dizer abençoado. Como componente histórico e parte da mitologia de Avalice, somente raposas feneco mulheres podiam ter esse tipo de Nirvana. Diferente de se ter dois tipos de Chi (e isso será explicado mais tarde nesta fic) os poderes herdados por gerações tinham um nome: Chi Tokutei — チー特定 (Chi particular, em japonês). Descoberto a pelo menos cem anos atrás pelo reino de Shang Tu, esse tipo de desenvolvimento de Chi era caracterizado pela potencialização do próprio Chi inicialmente aflorado, onde seu usuário ganhava um aditivo sobre o mesmo poder. Isso é: se você tivesse poderes de chamas, poderia potencializar suas chamas gradativamente.
Entretanto Tahn tem em seu sangue as Chamas Vermelhas da Kyubiko de Nove Caudas, onde essa potencialização é mais abrangente no que diz respeito a força. Em outras palavras, seu Chi era único, onde o desenvolvimento era de acordo com seu Chi original. Ou seja, ela poderia usar o limite de seu poder inicial sem necessariamente usar toda a potencialização, já que o uso das chamas vermelhas precisaria usar mais poder e, com isso, o esgotamento do usuário. Tahn poderia só usá-lo quando fosse necessário, por exemplo, sem que isso limitasse seu poder original.
Ela não tinha duas fontes de Chi e sim um Chi de dois níveis.
Estupefato com a revelação bombástica, tanto Sid quando os outros garotos ainda tentavam se recompor, onde Mu aproveitou para falar:
— As chamas da Kyubiko?! Mas...
— Impressionado também, Mu? – Disse Tahn, apagando suas chamas – Desculpa aí, tá?
Só que o feneco não ficou muito tempo por ali, correndo em seguida. E Tahn entendeu o porquê, chamando por ele:
— Ei, Mu... NÃO É O QUE VOCÊ ENTENDEU! VOLTA! ME ESPERA! – Gritou, correndo em seguida.
Abrindo caminho para que a jovem disse atrás do jovem, os garotos continuaram quietos e calados, ainda abismados com o que acabaram de ver. Entretanto, Sid deixou bem claro seu sentimento:
— Uma garota na academia e que tem as chamas vermelhas da Kyubiko... Muito bem, isso já passou dos limites. Eu tentei levar isso como se fosse uma exceção, mas me enganei... – Disse, olhando para os seus amigos – É, isso virou guerra. E Gio precisa saber também...
— Guerra?! Mas Sid, ela... Aquela garota parece mesmo ser muito forte...
— Ser muito forte não quer dizer ser imbatível. E se ela bater de frente comigo e mostrar mesmo ser bem forte, então a queda dela será bem maior...
Enfim, o que Sid planejou foi um completo fracasso. Pior que isso: Tahn se mostrou ser poderosa e sua presença na Academia Persania não seria impedida, já que a garota recebeu autorização direta do Gran Rajad por possuir as Chamas Vermelhas da Kyubiko, a Raposa Feneco de Nove Caudas.
O jogo mudou, virou e estava indefinido agora.
Minutos depois...
Persania 17th Avenue | Início da noite
Com a alvorada tingindo os céus da cidade com um lindo tom alaranjado, Mu caminhava cabisbaixo e pensativo. Visivelmente abatido, não era preciso muito esforço para saber que sua angústia era grande.
Mas...
— MU! Nossa... PERAÍ, GAROTO!
Era Tahn, que estava mesmo disposta a conversar com o jovem. Ela então chegou perto do feneco, mostrando preocupação.
— Porque você saiu voado de lá?! Eu não te entendi!
— Me deixa em paz...
— Espera... Olha, aquela história que você me disse de você não poder usar seu Nirvana... É verdade mesmo?!
— Garota, eu tenho muitos problemas... Você mostrou pra todo mundo lá, inclusive pra mim, que você é estupidamente forte... Você é uma privilegiada.
— O que?! Privilegiada?
— Entrou para a Academia Persania justamente por ser o que é e ter o que tem... Eu não vou te julgar por isso, mas muitos lá tiveram que fazer um esforço grande pra ter esperança. Então faz um favor: me deixa. Fica longe de mim. Vai ser o que você quiser, mas me esqueça. Eu sou um amaldiçoado que aproveitei o único momento que tive de fazer o certo pra quem me viu como alguém pelo menos uma vez mais. Então, sucesso aí...
Ele então caminhou, deixando ali a garota feneco. Mas Tahn não aceitou isso e, o surpreendendo, segurou forte em uma de suas mãos, dizendo:
— Não.
— Hm?! Tahn, me solta...
— Não... Eu não vou te soltar até você me ouvir.
— O que você quer falar?
— Você não é um amaldiçoado. Maleun é um título que não pertence a você...
— Você viu como me chamaram lá. Se eles dizem isso, então deve ser mesmo verdade... Talvez eu seja o que os Alalha (deuses, em árabe) dizem como predestinado ao fracasso e tudo que existe de ruim...
— NÃO É VERDADE! NÃO É! – Ela gritou com fúria.
— ATÉ OS ADULTOS ME ODEIAM LÁ NA ACADEMIA! Você acabou de chegar, não sabe de nada...
— SEI O SUFICIENTE PRA SABER QUE VOCÊ É FORTE E INCRÍVEL!
— Tahn?!
— NINGUÉM TEM O DIREITO DE TE TRATAR DESSA FORMA TÃO CRUEL! Nossa... Você me salvou suas vezes hoje... Como eu poderia te deixar sozinho? Sério mesmo que você concorda com eles? Você lutou contra mim só com seu físico... VOCÊ LUTOU DE IGUAL PRA IGUAL COMIGO! Eu não peguei leve e você suportou! Eu fui uma boba na sala com você, te irritei e você me salvou no pátio! EU RECONHEÇO VOCÊ! Mu, eu te respeito... Você a minutos atrás voltou a me salvar... VOCÊ ME SALVOU DUAS VEZES NO MESMO DIA! NÃO! EU NÃO POSSO TE DEIXAR SOZINHO!
— Garota...
— Não aceite isso! Não vou deixar que enfrente esse preconceito sozinho. Não importa se farão o mesmo comigo, e eu sei que farão! Você foi o único que me tratou como uma igual...
— Porque eu sei o que é ser alvo disso! Por isso que te tratei como gostaria de ser tratado!
— EXATAMENTE! – Disse, sorrindo para o jovem – E eu sei também o que é sofrer com isso...
Por muito tempo Mu havia ficado incomunicável na Academia. Mas o dia de hoje foi especial: essa garota mudou todo o contexto do cenário nada acolhedor que ele se encontrava. Ele levantou sua orelhas novamente após ouvir o que Tahn lhe disse, o fazendo ter de volta sua confiança. E junto a tudo isso suas emoções afetivas dispararam:
— Tahn... Olha... – Disse, com os olhos marejados – Desde que eu comecei a sofrer esse cancelamento, nunca mais conversei com ninguém da minha idade. Eu fiz o que fiz só porque você me fez esse favor de falar comigo... Sério, até me senti arrependido de ter te chamado de louca ou de ter gritado com você...
— Hm... – Tahn olhou para Mu expressando irritação – Você me chamou de louca mesmo , Hunf! (ー_ー゛)
— Tá, desculpa... – Disse Mu, um pouco sem jeito.
— E você gritou comigo...
— Ok, foi mal por isso...
— Eu deveria te pulverizar com minhas Chamas Vermelhas da Kyubiko... – Ela o olhou de forma maldosa.
— Ei, pega leve aí... – Ele até deu um passo pra trás.
— É, acho que vou fazer isso mesmo! Se prepara! – Disse, emanando suas chamas aos poucos.
— Não faz isso não! – Mu, com medo, colocou suas mãos a frente.
— Hahahaha! Calma, Mu... – Disse, dissipando suas chamas – É só uma brincadeira!
— Ufa... Por um minuto pensei que...
Só que Tahn voltou a segurar forte a mão de Mu, lhe dizendo:
— Eu entendi porque você saiu de lá... e preciso te pedir perdão pelo o que te fiz se sentir.
— Hã?! Tahn...
— Eu sou empática, Mu. Emanar minhas chamas te vez se sentir mal por causa de você não poder usar suas habilidades especiais. Eu te entendi e me sinto mal por te fazer ter esse sentimento ruim... Mas entenda: eu te respeito. Se eu fiz aquilo foi pra mostrar para o Sid que eu não estou onde estou a toa.
— Mas Tahn... Tipo, eu falei bem sério sobre muitos lá terem se esforçado e...
— “Você é uma privilegiada“, como você disse. Eu não concordo com isso. Mas sei porque você disse.
— Desculpa...
— Para de pedir desculpas! Eu não admito que pense que sou uma privilegiada. Passei por muitas coisas ruins até chegar aqui. Não te culpo por ter esse juízo de mim por você não me conhecer. Só que eu não quero passar por cima de ninguém, então não pense que eu sou essa pessoa que tem tudo na mão. Se você acha que na Dance Academy é moleza perto do que é a Academia Persania, você está enganado!
— Como é?! Mas... Lá só se dança e...
— Está enganado... Muito! Lá é um lugar odioso, pois te fazem seguir regras e tradições ridículas, onde se você fazer perguntas que cause burburinhos logo querem te calar e te fazer coisas muito ruins... Tem duelos lá, Mu.
— Duelos?! – O feneco se lembrou de sua irmã – *Espera... A Ayane me disse isso! Então... Então é mesmo verdade, aconteceu com essa garota também!*
— Tem duelo em todo lugar por lá, por isso eu pedi para que fosse para a Academia Persania. Não só pelo meu poder, que foi um tipo de requisito, mas porque pelo menos por lá eu sabia que teriam lutadores de verdade e bem fortes. Mas vendo o quero Sid tentou me fazer, não mudou muita coisa. Só que aí eu te conheci...
— Hã? O que tem?
— Você é diferenciado, Mu.
— Nossa, que legal ouvir isso... – Mu novamente sendo sarcástico – Me cancelaram por eu ser diferente, sabia? Tenho poderes elétricos! Todo mundo nessa cidade tem chamas... TODOS OS FENECOS TEM! E eu sou “diferenciado”... Você dizer isso é até piada...
— VOCÊ É DIFERENCIADO SIM! – Ela gritou, mas de uma forma positiva – Você pelo visto não abaixou a cabeça para o que quer da vida! Senão nem estaria na Academia! EU SEI QUE É ISSO!
— Tahn...
— Você luta com o que tem e o que pode fazer... VOCÊ É FORTE! E eu posso dizer isso com certeza porque lutamos... Você foi sagaz, inteligente, analisador, estratégico, corajoso e, como eu disse, forte! Minhas chamas não foram o suficiente pra te vencer! VOCÊ É DIFERENCIADO! Poderia dizer que você é o mais forte de lá, mas eu sei que não é...
— Do que está falando? Como pode saber quem é o mais forte?
— Porque eu sou, Hunf! – Tahn bateu em seu peito, se gabando.
A mudança de foco da jovem logo causou reações em Mu. Ele não acreditou que ela mesma se proclamou a mais forte:
— Nossa, que convencida! Primeiro você levanta minha moral, depois aproveita e se engrandece... Show, hein! – Ele bateu palmas, de forma sarcástica.
— Está duvidando de mim, é?
— Bem, você disse que eu sou forte. E eu também sou maior que você...
— O que tem? Eu sou pequena mas não sou pedaço!
— Sei lá... Já tenho isso como vantagem, haha! – Disse Mu, sorrindo.
— Então eu vou emanar minhas Chamas Vermelhas e te pulverizar!
— Não faz isso não!
— Hahahaha!
Pela primeira vez desde de antes do aflorar de Nirvana, Mu voltou a sorrir. Por um breve momento ele voltou a ser o mesmo garoto confiante e amigável que sempre foi. Tahn também sorriu, já que o clima melhorou e os dois já estavam mais a vontade um com o outro. Eles eram muito jovens e uma conversa aberta e livre de preconceitos era tudo que precisavam. Naquele momento podíamos ver que Tahn tinha um talento nato: motivação. Mesmo sendo bem nova, tinha o poder de palavras certas ditas na hora certa, o que trouxe de volta Mu e seu humor contagiante.
Por alguns minutos mais eles continuaram conversando, começando alí uma amizade. E animado por estar feliz, Mu convidou Tahn pra ir até sua casa.
Minutos depois...
Residência Al’jazii | Noite
— Pai e mãe... Essa é Tahn. Ela entrou hoje para a Academia Persania.
Mu não perdeu tempo em apresentar sua nova amiga a seus pais, que se orgulharam e ficaram muito felizes com essa notícia excelente. Não só pela nova amizade mas por ver seu filho estar livre do mal humor que vivia em seu rosto triste todos os dias.
Ainda muito animado, ele a convidou para conhecer seu quarto.
— Nossa, seu quarto é enorme!
— Hehe... um pouco só. É aqui que eu também fico treinando golpes.
O quarto de Mu era tão grande que havia até mesmo equipamentos de musculação e área de luta. Foi ele mesmo quem escolheu por isso, já que sua ideia desde sempre era para ser tornar um Persan. Tahn adorou isso:
— Ah... Legal! Nunca pensei que alguém treinaria dentro do próprio quarto! Isso é muito legal!
Enquanto isso...
— EU SABIA, ZAHIRI! Era questão de tempo pra esse tormento do nosso filho acabar!
Essas eram as palavras mais do que orgulhosas de Nanami, mãe de Mu. Os dois estavam sentados na sala, felizes e sorridentes com o ocorrido agradável.
— Nanami, você percebeu, não? As orelhas dele...
— Sim! Elas voltaram a ficarem em pé! Está mudando, meu amor... Eu sabia que meu filho iria superar essa fase! Meu tio vai adorar saber que ele está vencendo a maldita da depressão!
E abrindo a porta da frente, eis que apareceu Ayane, que logo percebeu o alto astral de sua família:
— Nossa... Vocês dois aí... Que felicidade contagiante é essa?
— Seu irmão... Ele fez uma amizade hoje!
— SÉRIO?! QUE FELICIDADE! – Ayane pulou de alegria.
— Eles estão lá no quarto dele agora... – Disse Nanami – E a garota é muito bonita...
— Garota?! Hum... Então o Musrie tá que tá...
— Hahaha! Pega leve com ele, tá?
— Fica tranquila. Eu estou feliz por ele também!
E seu pai se deu conta que:
— ... está tarde! O que houve pra você chegar a essa hora, Ayane?
— Ah... Uma das garotas problemáticas saiu e tivemos que selecionar uma para seu lugar. A miserável reclamona que saiu podia ser uma pedra no sapato, mas era muito boa no que fazia... Foi difícil achar uma próximo do que ela era capaz... Eu ainda continuo sendo o destaque.
— Oh... Que bom pra você então.
— Pai e mãe, com licença... Estou um pouco cansada. Estou indo para meu quarto, está bem?
Ela então seguiu subindo as escadas, com sua mãe dizendo:
— Dê um alô para seu irmão, está bem? Ele precisa de apoio.
— Tá... Pode deixar!
Ayane seguiu então para até o quarto de Mu, onde:
— SE PROTEGE, MU! – Gritou Tahn, executando um soco.
Sem mais nem menos, eles estavam lutando! Mu se esquivou, mas colocou um dos pés para fora da área demarcada no chão e:
— VOCÊ SAIU! HAHAHA! EU VENCI DE NOVO!
— Ah droga... Isso não é justo! Você tem mais equilíbrio que eu porque sabe dançar!
— Lá vem o choro... Perdeu, nerd!
— Eu não sou nerd!
— N, e, r, d... Nerd!
— Para!
— O placar conta 3 a 1! E a vitoriosa é a rainha peso-pena Tahn! Hahaha! – Disse, comemorando com os punhos erguidos.
— Você não é um pouco humilde!
— Humildade é para fracos, huhuhu... – Disse, fazendo voz grossa – Aí, é brincadeira minha!
— Tá... Eu sei! Eu sei...
— Bom saber, segundo lugar!
— Para de me provocar!
Embora competitiva, Tahn era muito respeitosa e sempre conseguia deixar Mu a vontade e sorridente. Não seria uma simples e inocente brincadeira que iria mudar isso. Até porque perdeu fazia parte do jogo, como o feneco sabia.
Mas não demorou muito para que batessem a porta. E lentamente ela se abriu, com Ayane aparecendo:
— Oi, Mu... Como você está? Os velhos estão bem animados por sua causa.
— Oi, mana! Sim, eu estou bem e muito animado até!
— Que bom! Ah e cadê sua nova amiga?
Tahn tinha uma estatura menor que de Mu, onde ela estava atrás dele, impedido Ayane de vê-la inicialmente. Mas o feneco fez as apresentações: saindo da frente e abrindo espaço para sua nova amiga, ele disse:
— Ayane, essa é Tahn! Tahn, essa é minha irmã Ayane...
Sua irmã arregalou seus olhos no mesmo instante, onde sua surpresa a fez até largar sua mochila, que foi ao chão. Tahn a olhava com serenidade, mas dando a entender que já a conhecia. Imediatamente Ayane emanou suas chamas, estando em base de luta, para espanto de Mu:
— AYANE, QUAL É A SUA?!
— Sua miserável desgraçada...
— O que?! Porque você está dizendo isso?!
— Como ousa invadir minha casa, sua mutamarid? (Insurgente, em árabe)
— Como é?! – Disse Mu, olhando para Tahn – Do que ela está falando? Vocês já se conheciam?!
Tahn continuou a olhando da mesma forma, parada. E ela respondeu a pergunta:
— Já sim, Mu... E eu nunca iria imaginar que você teria como irmã uma garota tão odiosa quanto ela.
— O que?!
Mu estava entre elas, sem saber o que fazer. Mas Ayane parecia estar disposta a fazer algo:
— Saia de perto dela, Mu. Essa garota não é flor que se cheire...
— Mana, sei lá o que tá rolando, mas para! Dissipe suas chamas agora!
— GRR... NÃO ANTES DE PULVERIZAR ESSA MUTAMARID!
Ayane partiu com tudo, arremessando bolas de fogo contra Tahn, que se esquivava com sua agilidade incrível. Movimentos de ballet eram usados pela garota, o que causou ainda mais ira de Ayane:
— GRR... EU VOU ACABAR COM VOCÊ, SUA DESGRAÇADA!
O ódio por parte de Ayane era visível em seu olhar, acompanhado agora com socos e chutes contra Tahn, que conseguia se esquivar. Essa mostra de destreza a irritou, que se expressou:
— FIQUE PARADA, SUA DESGRAÇADA!
— Como antes, eu sou mais ágil que você... – Disse, se esquivando de vários golpes com facilidade.
— CALE A BOCA!
— Eu sou melhor que você em tudo...
— NUNCA, SUA MUTAMARID! SORTE NUNCA SERÁ COMPETÊNCIA! – Ela atacou com ainda mais fúria.
— Você tem sorte de ainda estar de pé depois de nosso duelo...
— EU VOU TE DESTRUIR! – Ayane emanou suas chamas – Você desistiu e eu venci!
— Eu desisti porque não valia a pena derrotar alguém fraca com você... – Tahn não tinha dificuldades de evitar os golpes – Melhor entregar a vitória a alguém arrogante do que obter uma vitória sem significado. Vê? Você valoriza minha desistência e eu simplesmente segui com minha vida...
— DANE-SE!
Os ânimos estavam muito exaltados em Ayane. Um ódio fora do comum a dominava, sem deixar que Tahn descansasse um segundo sequer por causa de seus golpes. Mu se desesperou:
— PARE COM ISSO, AYANE!
— NÃO! ESSA MISERÁVEL TEM QUE SENTIR NA PELE O PESO DA MINHA MÃO E O CALOR DE MINHAS CHAMAS!
— VOCÊ ESTÁ DESCONTROLADA! PARA COM ISSO!
Só que esse pandemônio teria um fim assim que Nanami e Zahiri abriram a porta do quarto de Mu, com seu pai gritando:
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? AYANE, APAGUE SUAS CHAMAS AGORA!
— NÃO POSSO FAZER ISSO!
— NÃO FOI UM PEDIDO! É UMA ORDEM!
Relutando contra a ordem direta de seu pai, Ayane recuou e cessou seus ataques. E sua mãe logo disse:
— O que significa tudo isso, Ayane?
— Mãe... Essa garota tem que sair dessa casa agora!
— E porque?
— Ela não é uma pessoa confiável... pra não dizer desprezível!
— Ayane?!
Parecia que a verdade não seria dita, se limitando a Ayane desqualificar Tahn. Entretanto:
— Nós duelamos na Dance Academy e eu desisti depois... – Disse Tahn.
— Ah nossa... – Nanami estava confusa – Ayane, isso é verdade?
— Sim, mãe. Ela desistiu! Eu venci!
Mas Tahn não havia terminado:
— Sim, você venceu... Você manteve a mesma ideia de que garotas que vivem no deserto devem ser dançarinas por obrigação e tradição. Sua “vitória” fez com que tudo ficasse na mesma, com suas mesmas amizades a força e com o mesmo poder de influência que sempre você teve... Mas eu não. Eu preferi desistir de tudo isso, da Dance Academy e o tradicionalismo pra ser uma Persan. Como pode ver, eu não tenho o interesse de impedir e nem de mudar as coisas que você deseja fazer da minha própria vida! Então, se isso te causa irritação, não é problema meu... Só que as garotas da Dance Academy deveriam ter o direito de fazerem o que quiserem!
Nanami e Zahiri se surpreenderam, tendo em vista que as ambições da garota eram sim muito grandes. E Tahn concluiu:
— Mu, desculpa te envolver nisso. E Sr e Sra “mãe e pai” do Mu, peço desculpas por toda a confusão... – Disse, se retirando do quarto – A gente se vê na Academia amanhã, Mu...
Ayane estava reluzente, satisfeita por ver a garota sair, mas Tahn não iria fazer isso sem antes dizer:
— A propósito, espero que essa sua ferida no braço se cure o mais rápido possível!
— Grr... O que disse?
— E desculpa por ter te queimado com minhas Chamas Vermelhas... Sabe, elas são poderosas e eu ainda não tenho controle. Ah e mais uma coisa: desculpa aí ter te feito cair de cara no chão depois de você não aguentar a “potência” aqui, tá? Passar bem... – Tahn se desculpou, mas de forma provocativa.
Educadamente ela se retirou, mas Mu não aceitou isso e foi atrás. Entretanto ele feito impedido por seu pai, dizendo:
— Pai, o que...
— Deixa ela ir. Respeite. A garota percebeu que não tinha clima de continuar aqui e se retirou. Respeite sua etiqueta, Musrie.
— Mas...
Ayane estava mais irritada que antes, esboçando ir atrás de Tahn, mas sua mãe a impediu:
— Nem pense nisso!
— Mãe, eu não posso deixar que ela saia...
— Pode, deve e vai! Chega, senhorita! Você tem muito a explicar!
— Que droga...
Como o Sr Al’jazii disse, o clima não era dos melhores. E piorou porque Ayane se comportou mal e em segredo esse tempo todo.
Minutos depois...
— VOCÊ TEVE A PETULÂNCIA DE EMANAR SUAS CHAMAS DENTRO DE CASA!
Sr Al’jazii estava muito irritado com sua filha. E ele não era o único:
— Duelos na Dance Academy... Esconder ferida... Emanar chamas dentro de casa... Lutar contra uma convidada... Eu me pergunto onde é que você estava com a cabeça quando fez tudo isso! Eu não te ensinei nada dessas coisas, Ayane! – Disse Nanami, bastante irritada também.
— Mãe... Pai... Escutem... – Ayane tomou a palavra – Eu duelei contra aquela mutamarid porque... – Ela falou interrompida por seu pai.
— O NOME DELA É TAHN! Pare de colocar rótulos! Não viu o que fizeram com seu irmão na Academia?
— Tá... Desculpa... Aquela garota estava tentando influenciar as outras garotas da Dance Academy! O que vocês queriam que eu fizesse?
— Influenciar como? Porque ela não concorda em ser uma dançarina? Qual o problema nisso? – Disse sua mãe, ainda irritada.
— Mãe, uma garota ser dançarina é tudo de bom em Persania! Como eu poderia deixar que a mutam... Digo, a Tahn colocasse na cabeça das outras garotas essas ideias de que poderiam fazer outras coisas na vida? A Dance Academy tem um nome a zelar... Somos ótimas no que fazemos e é uma imensa honra continuar a tradição!
— Muito bem, minha filha... Você está certa em pensar por você... Mas você erra em um ponto: não pode pensar pelos outros!
— Alô?! Estamos no mesmo lado aqui?
— Se uma de suas amigas da Dance Academy não quiser ser uma dançarina, qual o problema nisso?
— Qual o problema?! Mãe, é a Dance Academy! O que mais uma garota pode querer mais do que ter glamour e renome neste universo tão especial?
— Hum... Eu escolhi praticar artes marciais e ser hoteleira. Algum problema nisso?
— Mãe, isso é uma outra coisa...
— Ah então eu deixei de ser uma “garota glamourosa” porque não segui o padrão?
— MÃE, É A DANCE ACADEMY! – Gritou Ayane.
— Não grite comigo, senhorita!
— Ah... Desculpa... Desculpa mesmo, mãe...
Sr Al’jazii tomou a palavra dessa vez:
— Porque emanou suas chamas?
— Pai... Isso é um pouco complicado de explicar...
— Complicado? Você está aí discutindo com sua mãe sobre tradicionalismo e honradez... Você sabia que por tradição nunca se deve emanar Chi dentro de moradias?
— Pai...
— Você sabia que não se deve duelar dentro de casas?
— Papai...
— E você sabia que vingança é um delito grave contra a tradição de nosso povo?
— Tá... Chega! Eu já entendi! Vocês estão no lado da Tahn e contra mim tudo ao mesmo tempo! Tá, show! Sou a hipócrita da família, lalala... – Disse Ayane, com deboche.
— CHEGA! Seu comportamento é abominável, Ayane. Lhe ordeno que vá para seu quarto e só saia de lá para ir ao banheiro! Não quero te ver hoje mais!
— O que?! Isso é verdade mesmo?!
— Se você vai ficar debochando do que estamos tentando conversar com você, então essa conversa se encerra agora! Vá já para seu quarto!
Só piorou para Ayane.
Horas depois...
Quarto de Ayane | Noite adentro
A feneco, já deitada em sua cama usando sua camisola, ainda estava furiosa com o ocorrido mais cedo. E diante esse seu sentimento, a porta se abriu: era Mu.
— Aí, Musrie... Bater na porta antes seria legal, não?
Ele a olhou e confirmou positivamente. Mu então voltou para fora, batendo na porta, como Ayane pediu. Só que:
— Hehe... Tá... Eu já entendi. Que retardado... Pode entrar, bobo!
Ele voltou a entrar, dizendo:
— Posso entrar?
— Pode sim... Sério mesmo que você vai ficar fazendo piada depois de tudo que aconteceu?
— Tem que fazer, né? Você ia brigar com a Tahn dentro do meu quarto.
— Ah... Desculpa, tá? Eu tava muito irritada.
— Tudo bem... Não vou dizer que entendo porque eu não entendi. Tipo, eu não sei o que aconteceu de verdade, mas você deu uma de sem noção a toa.
— Porque está dizendo isso?
— Mana, você viu como eu sofri essas últimas semanas... Foram três meses sofrendo lá na Academia todo dia. Você sabe sobre mim, sabe de onde vim, como sou, como vivo... porque somos irmãos.
— O que tem isso? Eu sei que você segurou a onda lá...
— Você tem algum problema com pessoas diferentes?
— Ah já entendi... Já sei onde quer chegar... A Tahn é da turma de diferente e eu tenho que saber tolerar isso, blá blá blá... NEM MORTA EU VOU FAZER ISSO!
— Mas mana...
— Não tem espaço para “diferentes” na Dance Academy! Somos o exemplo de pureza, de confiança e tradições! Somos excelência, isso é fato! Se você veio aqui pra tentar fazer o mesmo que papai e mamãe tentou me dizer, pode voltar pra seu quarto!
— Hm... Então eu só tenho mais uma pergunta...
— O que é? Diga!
— Todos da cidade tem as Flames of Persania, inclusive você. Diante esse seu pensamento, eu sou o diferente. E, com isso, eu não sou puro, não sou de confiança e não sigo as tradições... Conclusão: eu não tenho espaço na Academia Persania. Todos me evitam, todos se afastam de mim e me colocaram o rótulo de Maleun. Então eu te pergunto: sou ou não sou alguém pra você?
— Mu... Com você é diferente. Você é meu irmão...
— Então essa é sua resposta. Eu sou alguém pra você. Sou seu irmão... Então trate de pensar bem em como você está vivendo. Hoje você tentou sair no braço com a única pessoa que me tratou como igual na Academia Persania desde que eu aflorei minha maldição. E essa mesma pessoa te derrotou num duelo quando ela desistiu. Para e pensa bem no que você tá se tornando, mana... Mamãe e papai estão muito irritados com você... Boa noite.
Após se despedir, Mu deixou o quarto de sua irmã, sabendo de que Ayane ficou enfraquecida emocionalmente e até moralmente. A forma que pensava da vida, ainda que tivesse o respeito de seus pais, não foi tocada e sequer ajuizada. Mas do contrário, ela era opositora de pensamentos diferentes do seu no que diz respeito a Dance Academy e o que representava para ela.
Entretanto, os danos eram maiores nela.
Ayane estava mesmo incomodada com esse detalhe e sua noite não foi nada agradável. Logo os minutos se passavam, como horas também...
E a quietude e paz não chegou a sua mente.
Mas, para sua surpresa, ela recebeu um e-mail pelo celular, onde ela prontamente fez a leitura.
Wings of Salvation from the
Flames of Persania
Invitation
Você se encontra com dificuldades? Te convidamos para nos reunirmos na Ala Sacerdotal de Persania.
O caminho das Flames of Persania é a salvação.
Abençoado seja nossas chamas!
Te esperamos de braços abertos.
Ela se interessou no mesmo instante. Mas o que significava tudo isso?
Ayane realmente ficou curiosa...
A noite seguiu, com a jovem esperançosa pelo dia seguinte...
E ao amanhecer...
Academia Persania
Pátio Principal | Bem de manhã
— Então foi isso... Você e minha mana tretaram pra resolver as diferenças.
— Exato.
Sentados distante de todos, Mu e Tahn conversavam sobre o que causou todo o alvoroço do dia anterior. O sinal que iria anunciar o início das atividades da academia estava prestes a soar enquanto terminavam o diálogo:
— Você tem algo contra minha irmã?
— Você quer dizer se eu quero o mal dela? Não. Eu até quero que ela se dê bem na Dance Academy. Ela é meio cabeça dura, mas sua irmã é uma excelente dançarina. Eu reconheço isso e a respeito.
— Então minha mana manda melhor que você na dança... Ah legal saber disso.
— O que quer dizer? Ontem eu te venci no jogo, lembra?
— Não precisava lembrar disso, tá?
— Então não vem com provocação se não pode ganhar!
— Vai nessa... hehe...
Embora estivessem de bom humor, o clima na academia era tenso. Sid os observava de longe, principalmente a Tahn, assim como os demais postulantes. E Mu já deu a ideia:
— Eles estão te encarando o tempo todo, mas basta eu encara-los para que desviem o olhar.
— Pode deixar que olhem... Não me importo.
— Tudo bem... Você sabe muito bem como será daqui pra frente...
— Sei sim. Vão tentar me derrubar, fazer de tudo pra eu sair. Mas estamos juntos agora...
— Juntos? Como assim?
— Somos os diferentes, Mu. Só que não somos melhores que eles por causa disso. Teremos de mostrar na cara e na coragem... e na força.
— Sim... Bem, vai ser difícil. Mas com certeza agora eu vou começar a me divertir...
— Porque?
— Agora não estou sozinho... e também não estou mais calado.
Tahn sorriu, gargalhando em seguida. Isso trouxe um pouco de dúvida a Mu, que perguntou:
— Porque tá rindo?
— Hahaha... É que isso me fez lembrar do primeiro dia que falei com você. “Não fala comigo”... Hahaha! E agora você não quer parar de falar!
Os dois começaram a rir, que chamou atenção de todos no pátio. Um deles em especial era Sid:
— Se eles pensam que irão pra frente com seus objetivos, pode ter certeza que iremos pra cima desses dois sem pena! Está comigo, Gio?
— Pode apostar que sim, Sid.
— Ótimo... Vamos nos preparar e acabar com a Kyubiko junto com o Maleun, tudo de uma só vez. E você vai ver, garota bonita... Que apagarei suas chamas vermelhas como se apaga uma vela!
E assim uma rivalidade nada saudável se criou, com ambas as partes motivadas por seus ideais. Haverá vitoriosos, mas a que custo?
Continua.
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