Freedom Planet: Faith & Shock
55 Estórias do deserto - Parte 1: Maleun
Notas iniciais
Contos do deserto sempre foram deslumbrantes, curiosos e, como de costume, misteriosos. Miragens ao sol escaldante faziam de seus viajantes vítimas de sua própria mente, os levando a um lugar seguro ou a um fim nada agradável. O desafio de se manter vivo neste bioma inóspito era mais desafiante que enfrentar o calor insuportável e, caso resistisse a hipertermia (temperatura corporal alta demais), preparem-se para noites congelantes quase como o dos polos.
Perigos estavam a espreita de desavisados, desafios aos bravos e destemidos e um fim repleto de agonia aos fracos.
Era o que ouvíamos do deserto desde quando crianças, seja em livros ou até mesmo desenhos animados e filmes.
Entretanto, mas não excetuando nada disso ainda, nesta estória veremos esses perigos em uma escala um pouco maior.
E estejam certos: as adversidades sobre essas areias misteriosas são muito maiores que em qualquer outro conto.
Então, como estavam esperando, vamos diretamente para o...
Extremo Noroeste de Avalice
Dunas de areia por todos os lados, que se deformavam e criavam novas formas conforme ventos do sudoeste ditavam o ritmo de seu movimento...
A vegetação rala, quase inexistente, davam a perceber perfeitamente o lugar árido e quase inabitável...
Fontes de água? Poucas, assim como precipitações. Eram raro chuvas, mas haviam sim faixas hídricas, mesmo que por um breve momento...
Estávamos na região mais isolada de toda Avalice. Muitos viajantes e intrépidos aventureiros buscavam a esse lugar para conhecerem o famoso bioma desolado e descobrir novos horizontes.
Este lugar de Avalice tinha o nome de...
الصحراء الكبرى
GREAT DESERT
Uma região peculiar e cheia de mistérios, segredos... e habitantes.
Sim. Habitantes.
E riquezas.
Isso mesmo. Riquezas.
Great Desert era uma zona de Avalice bastante populosa e rica. Todavia, não era um lugar tão simples de descrever como as demais reinos que conhecemos (Shang Tu, Shang Mu e Shuigang). O motivo disso era porque haviam quatro sub reinos que compunham Great Desert.
No extremo norte, isolados em um desfiladeiro onde a areia era seu porto seguro, tínhamos o reino de...
الزيمة
ALZIMAH
Repleto de répteis, o reino era o mais pertencente a costumes antigos de vida, com habitações rústicas de madeira e tecido fino. Sim, embora adeptos ferrenhos do tradicionalismo, era uma nação com muitas riquezas. As vielas estreitas davam um charme ao reino, com seus habitantes usando como vestimenta roupas grossas para enfrentarem o calor do dia e o frio da noite.
No extremo leste, tínhamos o “simplório” reino de...
إزنلايا
IZNALAIH
O menor dos quatro, este reino continha somente uma construção: todo o reino tinha esse prédio gigantesco (media em torno de 400 metros de altura e 200m² de espessura) como tudo! Moradia, escola, universidade, shopping, praias artificiais (é sério!) e até o kzar (autoridade da cidade) morava junto a seus súditos. E novamente: era uma nação rica. Sua população era formada pela espécie felina Mau.
Ao outro extremo, precisamente ao oeste, tínhamos o reino de...
ثروة
THARWA
Um dos reinos mais ricos. Famoso por importar iguarias de toda Avalice, esta nação havia a maior concentração possível de mercadorias, mercantes e mercadores de Great Desert. Logicamente, o país se orgulhava por seu comércio incrivelmente rico, tanto em variedade quanto em valor bruto. Seus habitantes eram comerciantes abastados, que tinham amor a seu trabalho e sua família. As espécies eram diversificadas em sua população, até porque maioria eram de imigrantes de toda Avalice. A propósito, os demais sub reinos tinham um certo preconceito por essa diversidade.
Todas as nações de Great Desert tinham auto suficiência, mas haviam algo em comum: era estritamente proibido deixarem Great Desert sem uma autorização direta do Gran Rajad, assim como estrangeiros que quisessem entrar no reino. Gran Rajad era um chacal altamente comprometido com sua posição e extremamente rígido no que diz respeito a tradição da região. Entretanto, era um monarca justo e honrado que odiava traição a sua terra. Todo cidadão de Great Desert deveria respeitar as rígidas sansões e leis de seu respectivo sub reino.
Qualquer ato infracional era punido com muito rigor. Mas eram nações em paz, ainda que houvessem suas diferenças.
Sim, está faltando uma nação. E vocês já devem saber qual será. Bem, no extremo sul, tínhamos o reino de...
بيرسانيا
PERSANIA
Esse definitivamente era o reino com instalações e tecnologia mais modernas de todo Great Desert. Seus altos prédios com arquitetura futurista e com edifícios que “arranhavam os céus” diziam por si só que era uma nação rica. Aliás, não havia pobreza em nenhum dos povos, mas em Persania, por ser mais contemporânea que as demais sub nações de Great Desert, isso era ainda mais evidente. E o que tinha de mais característico no reino? Simples: todos os habitantes, sem exceção, eram raposas feneco.
Suas ruas eram sempre um convite a passeio, onde todas elas eram climatizadas e com bom trânsito, sinalização idem. Não só isso, o comércio era bem agitado, com várias lojas dos seus variados tipos pelas ruas, onde vitrines adornavam aos cantos do centro da cidade, com shoppings completando o negócio. No centro da cidade também havia uma grande floresta, orgulho de Persania. A Rajad Forest era a única porção de área verde natural e ao ar livre de todo Great Desert, lugar de caminhadas e lazer. Além disso, haviam vários polos de leitura, bibliotecas, museus, memoriais e, como fator determinante, centros de estudo.
Mas faremos uma pausa aos pontos de destaque de Persania. Tomemos agora como cenário uma residência próximo ao centro. Seguindo a arquitetura da belíssima cidade, a habitação era luxuosa e bastante moderna em sua fachada, com vidro espelhado embelezando. Em seu interior, tudo de mais sofisticado e fino, desde mobílias de madeira a quadros. No chão, tapetes originários de Tharwa, os melhores de toda Avalice, diziam por si só que seu proprietário era conhecedor de tendências. Seu nome: Zahiri Al'jazii. Seu negócio de entregas era próspero. Rico e com muito apreço por Gran Rajad, lhe era permitido viajar por Avalice para expandir sua empresa.
E em uma dessas viagens, ele conheceu em Shang Tu uma raposa feneco chamada Nanami Matsuzawa, gerente de um hotel na cidade, além de ser uma praticante de artes marciais fora do expediente. Curiosamente, ela era a única de sua espécie fora de Great Desert até então. A relação dos dois se estreitaram e, por consequência, se casaram. Com isso, Nanami aceitou voltar a sua terra natal, ainda que nunca a tivesse conhecido.
Dessa relação renderam frutos. Eles tiveram Ayane Matsuzawa Al’jazii (nome dado por sua mãe) e Musrie Matsuzawa Al’jazii (este pelo pai). Os dois, orgulhosos e bastante felizes, passavam a maior parte do dia cuidando de seus filhos, já que trabalhavam em caráter home office. Rico e tendo meios diversos de levar sua empresa, Sr Al’jazii dispôs a seus filhos toda a estrutura possível para crescerem com saúde e muito amor.
Como de praxe em toda Avalice, as crianças são examinadas para saber se terão Nirvana e capazes de desenvolver Chi.
O resultado? Tanto Ayane quanto Musrie eram do elemento fogo... E os dois tinham Nirvana. Seu desenvolvimento de Chi foi constatado.
Tudo estava perfeito. Seus dois filhos eram mais saudáveis que imaginavam.
O tempo passou...
Ayane e Musrie cresceram e ganharam mais anos de vida. A pequena feneco seguiu por um lado mais artístico até seus cinco anos, fazendo parte bem jovem da Great Desert Dance Academy, se destacando inclusive. Já Musrie, ou como sua mãe o chamava carinhosamente, Mu, nessa mesma idade já mostrou seu interesse: durante um jantar o jovem feneco agiu por livre e espontânea vontade.
— Pai, vi na TV que tinha um monte de menino gritando e pegando fogo... O que era aquilo?
— Aquilo, meu Musrie, eram garotos mais velhos que você demostrando seu poder aflorado na iniciação de Nirvana.
— E o que é isso?
— É quando você mostra que é forte como o fogo. Nesse dia todo menino cresce mais do que outros, meu Musrie. E a cada dia você fica mais forte e mais forte!
— Tá, pai! Eu quero entrar para a Academia Persania!
— Mesmo, filhote?
— Sim! Eu quero!
— Que felicidade ouvir isso... – Disse, com emoção – Que Rajad lhe guie!
Isso foi mesmo um motivo de muito orgulho para o Sr Al’jazii. Ter um filho como um Persan era uma honra gigantesca.
Situando a todos, a Academia Persania , ou somente Academia, era uma instituição que visava treinar jovens para tudo na vida, desde escolaridade até a faculdade e, como interesse principal, treinar fisicamente e disciplina-los na extensa arte do Nirvana e desenvolvimento do Chi. Embora privada, o emirado de Gran Rajad tinha controle, já que boa parte da verba vinha do monarca.
E ver seu filho desejar ingressar um dia a esse lugar foi motivo de festa, principalmente por sua mãe. Nanami tratava a seu filho com mais atenção que sua filha, mas não no lado ruim. Pelo contrário: Ayane já era uma prodígio, tratada como uma jóia rara na academia de dança. Aliás, esse era o entretenimento favorito das famílias da cidade. Era uma questão cultural assistirem a demonstrações de dança e afins. Ayane era a “chama da casa”, como seu pai dizia.
Era uma família feliz e unida.
O tempo passou. Mu e Ayane crescerem, tanto em estatura quanto nos estudos.
7 anos depois...
Residência da família Al’jazii | Início da manhã
— Então é isso! A iniciação do Nirvana será amanhã!
As palavras do raposa feneco, que tinha sua pelugem bege e usava um uniforme escolar, com sapatos da cor preta, calça azul de tecido fino e camisa social branca com gravata preta e blazer caqui. Esse era o uniforme patrão da Academia de Persania.
Sim, Mu conseguiu ingressar a instituição aos seus 9 anos, um ano adiantado. Durante esses três anos ele aperfeiçoou seu físico, bem desenvolvido para um feneco de sua idade, e seus estudos. Tudo isso foi possível porque o menino tinha um entusiasmo enorme para seguir com seus objetivos, mesmo tão jovem. Muitos viam isso como uma característica da família Al’jazii, com ambos os irmãos sendo motivo de orgulho de seus pais.
E um pouco antes de seguir para a Academia Persania, é óbvio que um café da manhã bem balanceado era a melhor pedida para início de dia. E Mu tinha seu pai a mesa, acompanhando o rito diário.
A mesa haviam servido bolos, pães, frutas e suco, além de leite de soja, muito consumido nessa área de Avalice inclusive. E a conversa se seguiu:
— Vejo que está muito entusiasmado, Musrie.
— Sim, pai. Ainda estou aceitando que amanhã irei manifestar meu Nirvana pela primeira vez. Não vejo a hora!
— Fico muito feliz por saber disso, meu filho. A propósito, já definiu bem como irá desenvolver seu Chi depois?
— Bem, eu ainda não pensei nisso. Sid disse que eu deveria ser um Archer, mas não sei.
— Um Archer? Seria uma boa... Ter projéteis é um bom subterfúgio de combate.
— Eu preferiria ser um Commando. Atacar na linha de frente!
— É uma boa também... Mas você vai ter que treinar muito.
— Mas é aí que as coisas ficam interessantes, pai! Eu não quero ficar longe da ação, pelo contrário. E eu sei que o pessoal da Academia adora promover Commandos.
— Isso é verdade. Bem, alegra saber que você tem uma direção a tomar. Buscar independência. Faça isso cedo e terá muito sucesso, Musrie.
— Certo, pai!
A animação do jovem era bem evidente. E isso contagiou o Sr Al’jazii. Ele sempre estava vestido com um terno fino e usando um pequeno turbante sobre sua cabeça entre suas orelhas de feneco.
Em seguida, entrando no salão de estar, onde sempre se alimentavam, era sua mãe. Diferentemente das outras feneco de Persania, ela vestia um lindo kimono florido, calçando geta (chinelo de madeira, típico japonês) e com seu longo cabelo preso com um hashi. Aos olhos dos demais habitantes de Persania, ela era uma pessoa bem exótica.
— Oi, mãe... Bom dia!
— Bom dia, meu Mu... Vejo que está ansioso por amanhã.
— Estou sim... Estava conversando com meu pai sobre qual classe deveria escolher. Eu quero ser um Commando.
— Hm... Treine muito, meu Mu.
— Ih... Meu pai disse o mesmo...
— E ele fez muito bem em ter opinado. Commando é uma classe ofensiva, precisa de muita estamina e quantidade de Chi alta. Você se vê nessa situação?
— Me vejo num nível acima disso! – Disse, mostrando o punho.
— Essa sua energia e confiança já é um bom caminho. Continue assim.
— Vocês dois combinaram, é isso?
Tanto Sr Al’jazii e a Sra Matsuzawa riram juntos, provocando seu filho de forma leve. Não era uma pressão para que o jovem perdesse o interesse. Pelo contrário: era para motivá-lo. Tanto que no fim ele entendeu a brincadeira e também riu junto com seus pais.
A propósito, como de costume, sua irmã desceu as escadas, já pronta para ir para a Dance Academy. Ela era uma feneco com longos cabelos azuis, como de sua mãe, e estava vestindo um colante preto com uma canga oriental (estilo árabe) por sobre. Ela tinha um físico tão atlético como o de Mu, claro que devidas as proporções de idade. Seus lindos olhos cor de mel era um deslumbre por onde passava, puxando um lado exótico de sua mãe.
— E aí, Mu? Pronto pra amanhã?
— Com certeza, Ayane! Estávamos conversando...
— É, eu ouvi. Agora finalmente terei um rival na família a altura.
— Ei... Ei... Nada modesta você, não é?
— E por acaso você é? Agora você vai usar esse seu Chi pra algo... No início da temporada do Dance Academy eu aflorei meu Nirvana... Fogo, como sempre. Mas tenho certeza que meu Chi supera o seu!
— Como se em dança se conseguisse um nível de um Commando, por exemplo!
Sim, eles eram competitivos. Não no mal sentindo, até porque os dois se respeitavam. Era só uma rivalidade entre irmãos que se davam muito bem.
— Arrebenta lá na Dance Academy, Ayane!
— Obrigada. O mesmo digo a você na Academia Persania!
Mu nessa época já tinha 12 anos. Ele teve um crescimento sadio e nutrido com muito amor por seus pais. Sua irmã, com a mesma idade, já era referência em toda a Great Desert Dance Academy. E a expectativa era de Mu seguir pelo mesmo caminho de sucesso de Ayane.
Horas depois...
Persania Downtown
Academia Persania | Meio da manhã
Durante a mudança de curso, todos os jovens estavam no pátio da agremiação. Mu, como todas as manhãs a essa hora, estava sentado junto a seus dois amigos, Sidal e Giomeh. Era muito comum jovens de Persania apelidaram seus amigos pegando as sílabas iniciais de seus nomes. Então:
— Sid, está animado para amanhã?
— Sim, Gio! Meu pai já me deu todas as dicas. Cara, não vejo a hora de sentir as chamas saírem do meu corpo pela primeira vez!
— Pode crer, eu também! E você, Mu?
— Eu estou muito mais animado que todos! Falando nisso, só quero ver o nível de vocês...
— Ei, qual foi, Mu? – Disse Sid – Só porque você sempre ganhou da gente na competição de resistência não quer dizer que a gente vai ficar atrás de você em Chi!
— Hahahaha! Do jeito que vocês são, eu já estou na vantagem!
— Olha que convencido! Você vai ver!
— Xexéu! Hahahaha!
A iniciação do Nirvana era um acontecimento único na vida dos jovens de Persania. O que significava? Simples: o aflorar do Nirvana. Era um espetáculo cultuado pelo povo da cidade, onde pela primeira vez os jovens mostravam seu poder. Entretanto é necessário dizer algo muito importante: O poder de todos em Persania era referente ao elemento fogo e, pautado sobre o mesmo nome, o Nirvana de cada um também era de chamas. Ou seja, o fogo era o Nirvana de 100% da população de Persania.
O grêmio estudantil da Academia era muito competitivo. Os garotos viviam discutindo sobre o nível de Chi como se fosse um tipo de status. Mu era um dos melhores no que diz respeito a atividade física, se destacando em corrida, natação e escalada. Não só isso, o jovem feneco era um ótimo estudante.
Os dias no colégio da Academia sempre eram agradáveis durante os intervalos. Os alunos podiam fazer o que quiser, até mesmo voltar para casa e retornar na hora das atividades curriculares. O bem estar era muito valorizado em Persania, com sua população abastada tornando as coisas mais fáceis.
Dito isso, tomamos agora como cenário a Rajad Forest, reduto da maioria dos estudantes durante o intervalo. Era um lugar com muito verde e bem climatizado, quase como se estivessem com uma temperatura de início de manhã da primavera, com uma temperatura de 22°c a qualquer momento do dia.
Sentados frente a um lado no gramado perfeito da floresta, lá estavam Mu, Sid e Gio, que conversavam.
— Mu, você já soube da última?
— Eu não sei nem da primeira, Sid... Fala logo!
— Ontem encontraram um cara tentando fazer aintihar no Rayo River.
— Sério? E porque o cara foi tentar fazer isso?
— Era um tiozinho, pelo menos foi o que disseram. Meu pai disse que ele estava mal, sem direção...
— Cara... Isso é brabo. Mas como é que alguém pode pensar em fazer aintihar aqui?! Tipo, não vejo motivos... nenhum.
— Sei lá, Mu... Meu pai disse que o Gran Rajad ficou sabendo e o mandou prender.
— Cara, sério?! Mas o cara tentou o aintihar e o Rajad o prendeu porquê?!
— Eu fiz a mesma pergunta para o meu pai. “Rajad não tolera covardes. Então ele fez isso e limpou nossa cidade” foi o que meu pai disse.
— Nossa... Mas porque você está nos contando isso, Sid? – Perguntou Gio, até então calado.
— Vamos nos formar e nos tornarmos Persan. Então, cedo ou tarde, iremos encontrar gente assim. Temos que nos prepararmos o mais cedo possível para o pior...
Mu e Gio ficaram em silêncio depois disso, meio que deixando a entender que estavam impactados com o que Sid tinha acabado de dizer. Mas tudo mudou quando Mu começou a gargalhar com seu amigo, dizendo:
— Hahahaha! Cara... Sid, desencanada desse seu papo de tiozinho! Nossa, tu falou que nem um Duke!
— Haha... Depois eu que sou o nerdola da situação! Hahaha! – Gio entrou na zuera.
Mas Sid não se abateu, caindo na gargalhada também.
— Hahahaha! Pessoal... Calma! Hehe... Olha, a história é real, mas o cara lá que foi preso está bem... Eu, tiozinho... Vai se ferrar, Mu!
— Até parece! Hahahaha! Ganhei o dia com essa!
Depois da brincadeira, os garotos se deitaram no gramado, olhando para o céu juntos. E a conversa continuou:
— Cara, nem acredito que amanhã vamos aflorar nosso Nirvana... – Disse Gio.
— Quando a gente era criança nunca que iríamos imaginar que um dia estaríamos na Academia... E olha só onde estamos – Disse Sid.
— Lá vem o Sid bom esse papo de tiozinho... – Mu não parava – Mas tá certo. Você tem razão... Quando criança meu pai me contou várias histórias sobre a Academia... Ele só não seguiu com isso porque tinha a empresa dele pra cuidar.
— Mas ele se tornou um Persan? – Perguntou Gio.
— Sim... Por oito anos ele ficou aqui. Mas eu quero seguir carreira, defender nosso reino... Nasci pra isso, total!
— Olha só... Mu, o predestinado! O salvador dos oprimidos... – Brincou Sid.
Risadas e brincadeiras continuaram, deixando a todos a vontade. Mas também houveram momentos de conversa séria:
— Queria mesmo saber porque tem gente que gostaria de sair da cidade... – Questionou Mu.
— Como assim? – Disse Gio.
— Papos que eu ouço nos corredores da Academia... Muita gente daqui de Persania pensa em deixar a cidade porque “ela quebra as pessoas”... Não faz o mínimo sentido isso. Olha a nossa volta: tudo está bem, maior paz, temos tudo pra se divertir... Mas minha opinião, essa gente deve estar com algum tipo de problema na cabeça, só pode.
— Entendi... Mas como será que deve ser lá fora? Digo, tem tantos outros reinos por Avalice... Queria saber como é Shang Tu, Shuigang...
— Gio, pode ter certeza que tudo que tiver nesses reinos tem aqui e melhor.
— Mesmo assim... Ver estrangeiros no seu país nativo é muito legal.
— Ah se for por isso, na Nation Cup vem gente de toda Avalice. Aí podemos ver estrangeiros... e no nosso país, com tudo melhor!
— É, Mu... Você não entendeu meu ponto...
— Relaxa, cara! Xexéu!
Mu era um feneco muito seguro de como vivia e onde vivia. Eles simplesmente não deslumbrava ter uma vida fora de Persania. Mas não por desprezar as demais nações e sim por não desejar sair de Persania. Era onde queria viver e seguir com seu sonho de engajar na Academia. No seu ponto de vista, Persania tinha tudo que precisava para viver e crescer. E isso não era só um pensamento dele: praticamente todos os habitantes do país emirado desejavam viverem felizes na cidade.
Todavia, o intervalo terminou e os jovens voltaram para a Academia.
Minutos depois...
Academia Persania
Sala de aula | Setor B – Turma A
Existiriam seis setores na área colegial na Academia. A ordem de valor de cada um dos estudantes era do setor A, os postulantes a Duke, até o setor F, onde era o reduto dos calouros (jovens de 9/10 anos).
*Lembrando que em Avalice os anos passam num espaço de tempo diferente do da terra.
Mu, assim como seus amigos Sid e Gio, eram da melhor turma do setor B, fazendo com que todos desta turma fossem considerados promessas a Persan. A partir do setor A, o treinamento e o colégio aumentavam de nível, já que teriam de desenvolver seu Chi dali pra frente.
E justamente em sua sala de aula, minutos antes do final do dia, o professor disse:
— Jovens, amanhã será o dia que todos vocês esperavam. Fico feliz em ver que a média da turma A do setor B atingiu um recorde: obtiveram 95 pontos! É um recorde e eu estou muito orgulhoso. Rajad certamente irá nos felicitar imensamente durante a Iniciação de Nirvana amanhã!
Essa era a expectativa de todos da Academia e de todos os familiares dos alunos. Definitivamente era o momento mor de todos eles.
Enfim, soa o sinal do fim das atividades na Academia. Com os alunos deixando o prédio, Mu foi interpelado por uma jovem feneco na rua, justamente quando estava junto a seus amigos.
— Oi, Musrie!
— Ah... Me chama só de Mu, Joahn.
— Ai, desculpa!
— Nah... Tudo bem. O que foi?
— É que eu amanhã vou estar lá na arena pra te ver.
— Pra me ver?! Mas... – Tentou dizer, ficando envergonhado.
— Ih... Bem... Eu... Eu sempre te vi treinar e... Eh... – Ela estava mais envergonhada ainda – Eu vou te ver lá, tá? Então tchau!
A feneco saiu correndo, nem deixando que Mu se despedisse. Mas Sid se aproveitou e:
— Mu tem uma admiradora!
— Ih que foi?
— O que foi? Cara, ela está tão na sua... Ela vai na arena pra te ver!
— Cara, é a Joahn, a filha do vizinho...
— Melhor ainda! Já vai preparando...
— Cara, para com isso! – Mu estava ainda mais corado.
As risadas de Sid e Gio deixam o jovem feneco ainda mais corado, mas ele levou na brincadeira depois.
A vida confortável e cheia de possibilidades de Mu lhe fazia planejar um caminho de sucesso e conquistas. Sua meta era clara: se tornar um Persan, o grau maior da hierarquia da Academia Persania. Era quando o Duke se tornaria um batedor a frente do reino de Great Desert e a serviço de Gran Rajad. Isso era um orgulho imenso para qualquer um que tinha esse objetivo.
Entretanto, o próximo dia teria algo que mudaria para sempre a vida feliz de Mu.
No dia seguinte...
Academia Persania
Magnanimous Arena | Início da manhã
O local onde o evento de iniciação de Nirvana ocorria era na citada arena: um complexo luxuoso e moderno que ficava no interior da Academia. Um lugar grandioso, onde os postulantes realizavam treinamento e, como hoje, eventos de luta e festivos.
Após a formação dos postulantes da Academia frente ao público, que era formado pelos pais dos alunos, o grupo começou o ritual de iniciação de Nirvana: um dos muealim, como eram chamados os professores da Academia, foi até a frente para dar início ao evento.
— Senhoras e senhores... É com imenso gosto que teremos início ao Aflorar de Nirvana de nossa grandiosa cidade. Persania hoje conhecerá novos jovens capazes de controlar nossas tão idolatradas Flames of Persania!
Um lindíssimo show de hologramas se iniciou, mostrando a todos várias projeções em três dimensões de ocasiões passadas, que mostravam muita outros jovens de épocas diferentes aflorando seu Nirvana. Inclusive um deles era o jovem Sr Al’jazii, onde podíamos verá família toda reunida na arquibancada, com exceção de Mu, que estava numa formação a lateral do complexo.
Após a demonstração tecnológica dos projetores, logo veio a entrada da turma A do setor B, sorridentes e bastante orgulhosos. Era um acontecimento único na vida de cada um, então era mais do que normal esse sentimento tão agradável.
E então é chegada a hora.
Os alunos marcharam até o centro da arena, justamente onde o Duke Mor estava os esperando (Duke Mor é a honraria ao que mais tempo está regendo aos alunos da Academia). E eis que ele deu o sinal:
— Alunos... AFLOREM!
Concentrando ao máximo como nunca fizeram na vida, cada um dos alunos, como em um efeito dominó, sentiram pela primeira vez as chamas que habitavam seu corpo, fazendo de tudo aquilo um magnífico espetáculo. Na tribuna de lá estava Gran Rajad, encantado pelo espetáculo anual. Não só ele mas toda a arena compartilhava o mesmo clamor e honras pelo evento especial e único que estavam presenciando.
Entretanto, houve um acontecimento que logo chamou a atenção do Duke Mor: um dos alunos estava emanando uma grande concentração de Chi, mas não eram chamas.
Eram raios.
Isso por si só já foi motivo de estranheza por parte de todos, de forma escalada. Aos poucos as pessoas percebiam o acontecido anormal, que trouxe imediatamente um burburinho nada agradável, pois uma palavra muito preconceituosa foi repetida diversas vezes...
O Duke Mor logo se aproximou do jovem... que era Mu. Ele, confuso e sem noção do que estava acontecendo, disse:
— O que... O que está acontecendo comigo?! Por-porque estou cercado de raios?!
— Musrie, cesse seu Chi imediatamente!
— Minhas chamas... Onde estão minhas chamas?! Porque estou emanando raios?!
O próprio Duke Mor recolheu Mu, o cobrindo com sua capa e o levando rapidamente para os bastidores do complexo.
O evento foi interrompido.
Não só isso: as pessoas deixaram o lugar as pressas, repetindo várias vezes a tal palavra.
Muitos dos que diziam a palavra eram adultos, talvez conhecedores do que estava acontecendo... ou simplesmente agindo por puro preconceito por desconhecerem do que ocorreu.
A Magnanimous Arena estava vazia. Gran Rajad também se retirou, indo diretamente para junto de seus assessores e ministros.
Algo grave havia acontecido, era fato.
Horas depois...
مجلس نيرفانا الصحراوي العظيم
Conselho de Nirvana de Great Desert
Localizado no centro da cidade de Persania (por ser referência em todo o emirado) o prédio do conselho era formado por especialistas e mestres da região. Não só isso, haviam também sacerdotes ao grupo, tudo para zelar pelo bem estar e tradições de Great Desert.
Durante essa reunião, Mu imediatamente foi levado até o Grupamento de Treinamento de Chi de Persania, onde foi submetido a exames bem específicos. Eles demoraram um tempo, mas chegaram a uma conclusão: o feneco definitivamente havia aflorado Nirvana, mas de raios. Não era um efeito colateral nem nada.
Era definitivo, como citado anteriormente.
Mu tinha como Nirvana poderes elétricos.
Essa notícia caiu como uma bomba na família Al’jazii. O pai de Mu logo procurou tentar entrar a reunião, juntamente com sua mãe. Sendo assim, seu pedido foi aceito, pois:
— Essa é uma situação inédita em toda a história de nosso país! – Disse um dos sacerdotes.
O salão oval, onde podíamos ver todos os especialistas de Great Desert, era regido pelo emir Gran Rajad, o monarca do reino. A conversa se seguiu com um tom nada convidativo, onde a rigidez das leis e costumes tradicionais da região foram levados a sério com todo o rigor.
— Não há histórico desse tratamento. O que decidirmos aqui e agora será algo que todos nós colocaremos por escrito... para sempre – Disse Gran Rajad.
O monarca deixou bem claro a situação e era fato de que a decisão deveria partir naquele instante. Sabido disso, ele disse:
— Que entrem os genitores de Musrie Matsuzawa Al’jazii.
Sem perderem mais tempo, Sr Al’jazii e a sua , devidamente trajada com seu kimono florido e todos os adornos. Só que a Sr Matsuzawa era uma pessoa com atitude longe dos costumes de Great Desert, então:
— PORQUE ESTÃO TRATANDO MEU FILHO COM TANTO PRECONCEITO?
Isso causou um mal estar com um dos ministros:
— Mulher, abaixe sua voz ao se dirigir ao nosso emir!
— EU QUERO MINHA RESPOSTA!
Guardas a postos já estavam indo até ela para prende-la a mando do citado ministro, mas Gran Rajad se manifestou:
— Guardas, retornem... Essa senhora tem total direito a resposta a seu questionamento.
— Mas senhor emir...
— Basta! Aldiiz, ela é uma mãe protegendo a honra de seu filho. Devemos a ela uma resposta...
Embora rígido, Gran Rajad era justo. Ele tinha poderes para fazer o que quisesse, mas sua força com as palavras e a diplomacia eram suas maiores vantagens. E as usando, ele disse:
— Sra Matsuzawa Al’jazii... Eu, Gran Rajad, emir de Great Desert, tenho o dever de proteger a meus súditos. Estou ciente dos ocorridos desde já...
— Então porque trouxe meu Mu para cá como se ele fosse alguém perigoso?
Só que o mesmo ministro de nome Aldiiz, parecia querer provoca-la:
— Uma mulher proferindo tais palavras a nosso emir e desafiando a todos nós... Creio que o Sr Al’jazii devesse colocá-la em seu devido lugar.
Só que o pai do Mu não era um feneco desprovido de palavras. Pelo contrário:
— Hm... Com o devido respeito, ministro Aldiiz: minha mulher sabe se cuidar e pode ter certeza absoluta que ela tem capacidade de “colocá-lo no seu devido lugar” se não demonstrar respeito!
— O que?! – Disse, irritado – Como ousa me desafiar assim diretamente?
— Deveria ter ficado de boca fechada, Sr ministro Aldiiz. Nanami sabe muito bem se portar na frente de qualquer pessoa... e assim como ela disse, eu quero saber o que estão fazendo com meu filho!
— Isso é uma afronta!
Gran Rajad não pensava assim:
— Ministro Aldiiz...
— Sim, querido emir?
— Irá calar a sua maldita boca ou terei de vê-lo ser calado a força pela dama a minha frente?
— Gran Rajad?! Mas...
— Não se esconda por detrás dessa bancada quando se referir a uma dama nada indefesa. Ou o senhor tem medo de lutar contra a Sra Matsuzawa Al’jazii?
O mal estar foi sentido por Aldiiz, que se calou finalmente. A Sra Matsuzawa Al’jazii o olhava enquanto dizia:
— Meu Mu não fez nada de errado. A cerimônia não deveria ter sido interrompida daquela forma!
— Senhora... Creio que deva lhe colocar a par da situação delicada que todos nós estamos.
— O que quer dizer com isso?
— Para começar, irei dar a palavra ao sacerdote Gziliau.
E assim fez Gran Rajad. O sacerdote feneco, que usava vestimentas religiosas com um turbante sobre sua cabeça, caminhou até os dois, começando a falar:
— Desde os tempos mais primórdios as Flames of Persania afloraram em nossa nação com todo seu calor e fervura. Desde então foi estipulado que todo habitante de Persania teria tal presente divino para fazer valer seu despertar de Nirvana. Mas hoje vimos que... Bem, essa “exceção” que todos presenciamos não condiz com nossas tradições...
— O que quer dizer com isso? – Disse Sr Al’jazii.
— Seu filho não tem a nossa abençoada Flames of Persania.
— E daí? Meu filho pode facilmente desenvolver esse poder que ele tem...
Os burburinhos na bancada deixavam claro a insatisfação de terem ouvido isso. O sacerdote continuou:
— Sr Al’jazii, com a minha autoridade como guia religioso e detentor de conhecimento de nossas tradições, farei um favor a todos vocês e esquecerei o que sua pessoa acabou de dizer.
— Como é?!
— Serei bem claro, Sra Al’jazii: não existe a possibilidade de fazermos qualquer tipo de esforço ou incentivo para que outra forma de poder que não seja nossa abençoada Flames of Persania tenha a permissão de ser desenvolvido.
— O que?! – Deste vez foi a Sra Matsuzawa Al’jazii – VOCÊS NÃO PODEM ESTAR FALANDO SÉRIO! Zahiri, o que eles estão dizendo fere a honra da nossa família!
O Sr Al’jazii tomou a palavra:
— Isso é um ato preconceituoso!
— Sr Al’jazii, eu entendo sua preocupação e tenho como empatia sua dor. Mas esteja certo de que não há nada que possa fazer ou qualquer um que está nessa sala. Temos costumes e tradições que devem ser respeitadas a todo custo!
— Só que o custo está sendo meu filho não ter direitos de seguir com sua própria vida! Ele, como qualquer jovem nessa idade, tem objetivos! Ele está tendo seus sonhos destruídos por ter um poder diferente sem ter culpa alguma!
— Musrie está permanentemente proibido de manifestar, mesmo que timidamente, qualquer poder que não seja as abençoadas Flames of Persania! Esteja dito e factuado.
O ministro Aldiiz enfatizou:
— Sua retirada da Academia Persania será efetuada imediatamente!
A mãe de Mu nutriu um desafeto absurdo por ele. Tanto que se manifestou:
— Tenho quase certeza de que você estava com muita vontade de dizer isso, não é?
— São exigências para que sejam mantidas as nossas tradições e ritos religiosos. As Flames of Persania é o nosso símbolo de grandeza, prosperidade e força! Nenhuma outra deve ser manifestada, dito e factuado!
Era unanimidade a conturbada decisão. Como dito, Mu estava estritamente proibido de manifestar seus poderes elétricos, tornando assim impossível seguir com seu aflorar de Nirvana.
Entretanto seu pai não aceitava o fato de ver o filho ser expulso da Academia. Tomado por pura ira frente a tribuna de especialistas, ele disse:
— Gran Rajad, emir grandioso... Eu sei que Vossa Grandeza regozija sapiência e justiça.
— Eu agradeço tais palavras, mas bajulações não irão me fazer mudar de ideia.
— Há uma forma de meu filho ser mantido na Academia Persania... não é?
Os burburinhos voltaram, com os especialistas tomando isso como uma afronta. Mas Gran Rajad foi empático:
— Hm... Nobre súdito, há uma possibilidade.
— Certamente, Vossa Grandeza.
Aldiiz não ficou nada satisfeito com uma possível condição:
— TRATE DE ACEITAR NOSSA DECISÃO! Nada é mais degradante e humilhante que insurgência neste salão!
— Sr ministro Aldiiz... – Disse a Sra Matsuzawa – Ninguém pediu sua opinião! Então trate de calar a sua maldita boca senão eu vou te desafiar para um duelo agora mesmo, entendeu?
O recado foi dado, trazendo até um pouco de diversão a Gran Rajad. E com essa impressão, ele disse:
— Sr Al’jazii... Venha. Vamos até minha sala privada. Lá poderemos conversar sem ministros inconvenientes, se me entende...
O convite foi para justamente tratarem dessa condição que poderia vir a ajudar seu filho de alguma forma.
Mas os fatos eram mais duros: a bancada do Conselho já havia decidido e Mu nunca poderia levar seu Nirvana. Isso era um ponto que seria culminante para o desenvolvimento do jovem.
A conversa particular seguiu por vários minutos.
Horas depois...
Casa da família Al’jazii | Noite
O clima era de luto. Mu estava calado e com um olhar distante, mostrando profundo abatimento como se tivesse recebido um golpe certeiro. Se sentando no sofá da luxuosa sala de estar, ele disse:
— Onde estão minhas chamas? Pai... Mãe... Onde estão elas?
— Mu, meu filho... Eu... – Tentou dizer sua mãe.
— ONDE ELAS ESTÃO? ONDE? – Disse, começando a chorar – Eu sou um feneco... Amo meu lar, o reino todo... Porque eu não tenho chamas? Isso... Isso tudo é tão... tão injusto...
Seu pai então se sentou a seu lado, o abraçando. Ele sabia que seu filho precisava ouvir algo para animar seu espírito, ainda que não fosse fácil.
— Mu... Escute bem: tudo isso é novidade para todos. Você tem que ser forte e aceitar isso... Eu não vou poder te dizer coisas que não são verdadeiras, mas eu pude lhe dar uma forma de seguir em frente.
Sim, eles chegaram no ponto onde houve o acerto. A conversa rendeu a Mu a possibilidade de seguir na Academia Persania sob a condição de:
— ... eu terei de seguir na Academia sem usar meus poderes! Você acha isso certo?
— Eu não disse isso, meu filho...
— EU DEVERIA TER CHAMAS! TODO FENECO TEM! PORQUE EU NÃO?
— Mu, eu não tenho respostas para o fato de você não ter chamas... Não se sinta diminuído por causa disso. Você é forte, eu tenho certeza! Uma chama nunca será mais poderosa que sua força de vontade de vencer! Ninguém pode te tirar o direito que alcançar seus sonhos!
— Vocês viram como me trataram lá! Aquela gente toda na arquibancada estava me olhando feio! Todo mundo foi embora! TODOS FORAM EMBORA POR MINHA CAUSA! – Ele estava chorando ainda mais.
O clima era o pior possível. Mu estava bastante confuso e chateado. Tudo aquilo estava acontecendo rápido demais e ele não tinha entendimento do que tinha ocorrido. Por sorte, sua mãe disse:
— É um desafio, meu Mu.
— Uh... Hã?! – O jovem enxugou suas lágrimas.
— Quer dizer que você vai preferir ficar chorando e não enfrentar esse desafio de frente?
— Sua mãe tem total razão, Musrie... – Disse seu pai – Eu e sua mãe te defendemos lá no conselho. Agora é a vez de fazer a sua parte.
O feneco, que até então estava chorando, se recompôs. Talvez o que ouviu tenha despertado o lado destemido de Mu, onde ele se lembrou de tudo que faz até hoje.
— Vocês estavam lá... por mim... É isso?!
— Sim... Seu pai conversou com Gran Rajad. Você seria expulso da Academia, meu Mu – Sua mãe deu a notícia.
— Pai... Você fez isso mesmo?!
— Sim, meu filho... Eu não te criei pra que você mostrasse fraqueza. Te ver chorar ao mesmo tempo que me entristece também me causa raiva... VOCÊ É UM AL’JAZII! Então pare de chorar e se foque! Você sabe muito melhor do que eu que um Persan não pode ser molenga e precisa mostrar brio de guerreiro! Você não é fraco, Musrie... VOCÊ É FORTE!
— Mas... Eu só vou poder usar meu físico...
— USE-O! FAÇA SEUS MÚSCULOS TRINCAREM FEITO UMA ARMADURA! Você não precisa de chamas, Musrie... O FOGO DE PERSANIA ARDE DENTRO DE VOCÊ!
O incentivo de seus pais foi um fator determinante para que Mu deixasse de se lamentar e se levantasse como sempre fez. De pé, ele expôs sua virada.
— É ISSO MESMO! Até hoje eu tenho usado só meus punhos pra lutar! Nada mudou! Nada! Basta eu treinar e aprimorar meu físico além de todos... E EU VOU CONSEGUIR!
O feneco, sorridente e com energia, correu até seus pais, os abraçando. Novamente sua confiança havia retornado.
Sua motivação continua a mesma.
Sua meta: se tornar um Persan.
E ele tinha total confiança nisso.
Horas depois...
Quarto de Mu | Noite
— Então você não pode usar seu Nirvana? Hm... Isso é um pouco frustrante...
Ayane deu sua opinião nada otimista, mas que em nada abalou a moral de seu irmão. Eles estavam alocados em seu quarto, que era grande, com um computador potente sobre uma escrivaninha, uma cama confortável e, ao fundo, um closet moderno com toda as suas roupas a escolher frente a um vitral com o brasão de sua família estampando.
— Ayane, isso é só um detalhe. Eu cheguei até aqui sem precisar das Flames of Persania. Nada mudou, mas eu vou mudar. Pode ter certeza que irei ficar forte, mais do que eu já sou!
— Se você está dizendo... Hm... – Disse, ficando desanimada em seguida.
— Ih... O que foi? Nem vem com essa de ficar triste por minha causa... Já superei tudo.
— Não é você, bobo... Foi um lance que aconteceu na Dance Academy...
— E o que houve?
— Uma destrambelhada da ralé tentou acabar com o coro. E a miserável quase conseguiu...
— Ué?! Como assim?
— Eu não sei como ela foi aceita... A sem classe tentou fazer uma revolução por lá, não foi só isso. Durante quase uma semana ela começou a dizer uma ideias bem sem noção pra que “as garotas tentassem ser maiores” que são e “não ficarem se limitando a serem dançarinas só porque sempre foi assim”, blá blá blá... Eu amo isso, como não seria uma? Ela quase convenceu duas garotas... Ainda bem que eu intervi, mas... – Disse, colocando uma das mãos em seu braço esquerdo.
— Mas o que?
— Nada... Deixa quieto... – Disse, desviando o olhar.
— Fala! O que aconteceu por lá? Você quando faz essa cara é porque está escondendo algo!
— Mu... Eu vou te dizer, mas... Você não pode contar para nossos pais.
— Tá, tudo bem. Agora fala!
Ayane já estava usando seu vestido de dormir, com manga comprida que lhe cobria os braços. Ela então os dobrou, denunciando um curativo. Mu imediatamente disse:
— O que aconteceu?!
— Nós lutamos, Mu.
— Vocês lutaram?! Mas... Aquilo é uma academia de dança!
— E daí? Eu a desafiei pra que ela parasse de falar aquelas coisas e... No fim ela desistiu.
— Aí sim! Honrou a família, Ayane!
— É... Exato... – Disse, confirmando sem muita confiança nas palavras.
— Ótimo! Tá vendo? A gente está no caminho certo... Não tem porque me preocupar com o meu futuro! Estamos bem, Ayane... Vamos manter a “chama” da família!
Enfim, o comportamento e reação de Mu para com as ações de sua irmã só deixavam mais evidente o retorno de sua confiança. Para o jovem feneco, seu caminho tinha obstáculos (o fato de não poder usar seu poder) mas que poderia enfim continuar com sua ambição de vir a ser um Persan.
Após a conversa, Mu se despediu de Ayane e seguiu para seu quarto. Era hora de ir dormir.
Foi uma noite de sono tranquila, mesmo com toda a confusão que aconteceu. Mu teve bons sonhos...
Mas um pesadelo estava por vir.
No dia seguinte...
— Tchau mãe, tchau pai!
Mu se despediu de seus pais minutos antes de embarcar no ônibus da Academia Persania, luxuoso como esperado. Entretanto, assim que embarcou no coletivo, ele percebeu algo de diferente: todos os estudantes que lá estavam evitavam ter contato visual com ele, como se o estivesse ignorando. Até mesmo as conversas paralelas cessaram, dando um sinal de que esse comportamento era com ele. Mas mesmo com isso, Mu se sentou e não importou muito para isso.
— *Ah... Eles nem são da minha turma...*
Minutos depois...
Academia Persania
Pátio principal | Manhã adentro
Após o desembarque, Mu caminhou até o espaço onde haviam vários alunos...
A exemplo do ônibus, todos os alunos ficaram em silêncio, ignorando a presença do feneco, que novamente estranhou esse comportamento nada natural.
— *O que está acontecendo aqui? Porque todo mundo se calou? Será que...*
Sua indagação mental teve uma resposta em seguida: ele encontrou a seus amigos, Sid e Gio, conversando sentados a um banco no pátio. Chegando até eles, o jovem disse:
— Ei... Estava procurando por vocês! Não sei se foi só eu, mas vocês perceberam que esse pessoal da Academia anda ficando calada do nada?
Não demorou muito para ele perceber.
Sid e Gio também se mantiveram como os demais, mudos e ignorando Mu.
— O que houve?! Estou falando com vocês dois!
O mesmo ocorreu. Os dois simplesmente ignoraram a insistência de tentar diálogo de Mu. Calados e imóveis, eles até desviavam o olhar, como se estivessem mesmo evitando contato com o feneco.
Determinado a descobrir o que estava acontecendo afinal, Mu pegou no braço de Sid com força e o puxou, dizendo:
— QUE NEGÓCIO É ESSE QUE ESTÃO TODOS FAZENDO?!
Sid puxou seu braço com a mesma força e, demostrando desprezo no olhar e repugnância nas palavras, fitou Mu para bem dentro de seus olhos e disse:
— Maleun!
Mu arregalou bem seus olhos, como que não estivesse acreditando no que tinha acabado de ouvir. Aquilo que ouviu o fez raciocinar e assimilar todos os eventos desde o Evento de Aflorar de Nirvana, passando pelo embarque no ônibus e o presente momento.
Ele olhou ao redor e pôde ver o mesmo olhar de repugnância estampado em cada rosto daquele pátio em silêncio que tanto o incomodava. Tudo teve um significado bem concreto em sua mente, o fazendo entender de estar sendo ignorado.
Ele abaixou sua cabeça, junto com suas orelhas.
Mu instantaneamente ficou cabisbaixo, assimilando o duro golpe.
Até mesmo sua respiração mudou, ficando ofegante.
Aquela frase, unido ao comportamento de todos, aniquilou qualquer vestígio de animação que tinha.
Maleun. Uma palavra que tinha um significado muito pesado na língua antiga de Great Desert: Amaldiçoado.
O trauma de Mu foi pesado, acabando com seu dia.
Horas depois...
Residência da família Al’jazii | Noite
— O que vamos fazer, Zahiri?! Meu Mu está sofrendo!
— Nanami... Querida, eu não sei... Tudo isso é novo pra mim e até pra você!
— Ele não saiu do quarto desde que voltou da Academia!
— Eu sei... Já conversamos com ele... Eu já conversei com ele de pai para filho... e até mesmo você como mãe. Foi o que o desgraçado do Aldiiz quis dizer sobre “julgamento”. Era por isso que ele queria expulsar Mu da Academia...
— Não importa! Ele não pode ser punido por algo que ele não tem culpa! Aliás, ele não mudou só porque tem poderes elétricos!
— Isso não tem consideração alguma, Nanami. Eles vêem nosso filho como um intruso, alguém muito ruim... Alguém que pode trazer malefícios... Meu filho nunca pensaria em causar mal algum, mas a tradição de Persania é implacável... Não podemos fazer nada.
— Não podemos fazer nada?! O nosso filho não pode ficar sofrendo esse tipo de coisa!
— Eu sei...
— Zahiri, o que vamos fazer?
— Eu não sei... Os colegas do Musrie nunca fizeram isso antes...
— Mas meu amor...
— NANAMI, EU NÃO SEI! – Gritou, mostrando descontrole.
— Zahiri?! Você... Você nunca gritou comigo...
— Desculpe, Nanami... Mil perdões... mas... Como eu disse, eu não sei. Na certa os colegas dele receberam informações dos seus pais e agiram assim... Entende a situação, Nanami? Tanto eu, vocês, as pessoas dessa cidade... Ninguém sabe o que fazer.
— Sabem sim! Serem preconceituosos com o meu Mu!
— Ardiiz pode estar por trás disso tudo, ou outro ministro, ou algum sacerdote... Não tem como eu ou você apontarmos o dedo para alguém...
— Quer dizer que estamos sozinhos nessa?
— Não... Eu amanhã irei conversar com Gran Rajad e contar tudo isso... Mas eu não sei, Nanami. Eu realmente estou sentido por tudo isso que está acontecendo com a gente e, principalmente, com meu filho.
— Ele não merece nada disso... Minha vontade era entrar naquela Academia e fazê-los pagar por tudo isso!
— São só crianças, Nanami...
— Não... Você entendeu errado. Quem pagaria por tudo isso seriam os professores!
— Não pense em fazer isso, Nanami! Só vai piorar as coisas. Escuta, eu gostei de ver você encarar o patife do Aldiiz, ele mereceu. Só que envolver o corpo docente da Academia não vai dar em nada.
— Então é tudo um sistema opressor, é isso?
— Não existe isso em Persania. Não há corrupção nem influências... Tradição, Nanami. Acho que nunca te disse o quanto os habitantes de Persania guardam muito orgulho de terem as Flames of Persania. Isso vai além...
— Você quer dizer que esses tradicionalistas fazem as leis?
— Infelizmente sim... Todas as diretrizes de Great Desert são fundamentadas nos Ensinamentos Antigos. Nossa sociedade prega a doutrina de homogeneidade: todos nós, raposa feneco, temos a Flames of Persania.
— Mas nunca pensaram ou teorizaram que em algum momento da história teria um que não teria as chamas? Minha mãe sempre me dizia sobre Nirvana... De que cada um era único.
— Sua mãe te adotou, então ela não conhece muito dos costumes de Great Desert. Não a culpo, meu amor, mas infelizmente não há muito o que fazermos. Eu amo meu filho, quero o melhor pra ele, mas ele mais do que nunca terá de ser forte... Muito forte até.
— MAS ELE É! – Gritou Nanami, chorando – Meu Mu é o mais forte! Esses garotos da Academia deveriam ter vergonha de vê-lo como um amaldiçoado!
Essa foi a longa conversa que os pais de Mu tiveram após seu filho chegar em casa aos prantos e muito abatido. Como Nanami informou, ele ficou o restante da tarde inteira dentro de seu quarto, não querendo interação. Sua irmã mesmo bateu a porta para tentar conversar, mas sem sucesso. Ela logo foi para seu quarto também, preocupada com toda a repercussão.
— *Todos da Dance Academy falaram disso. Tentaram até mesmo me fazer bullying, mas eu não sou de levar problemas pra casa e resolvi lá mesmo a força... Mas no caso do Mu, isso já é algo muito mais complicado e tenso. Irmão, seja lá o que você esteja pensando, deixe que Gran Rajad lhe guie.*
A família estava unida, mas os dias seguintes foram ainda piores.
Não importa o quanto Mu estivesse abatido e desolado, o sofrimento se mantinha e o tratamento hostil e impiedoso de seus colegas e amigos minava ainda mais a moral do jovem feneco.
Segundo dia
As aulas seguiam do mesmo jeito, com os alunos a frente da classe e Mu, sentado em uma carteira afastado do restante da turma... ignorado totalmente.
Terceiro dia
Atividade física. O tratamento não mudou. Sua turma inteira praticava luta... e ninguém formava dupla de combate com o feneco, que treinou sozinho contra sua própria sombra.
Quarto dia
Seminário estudantil. Ignorado como se não existisse. Mu sequer teve espaço para tentar entrar a conversa. Ainda que insistisse, era unanimidade ignorarem sua presença, inclusive o professor.
Quinto dia
Treinamento de luta novamente. Como antes, Mu treinou sozinho. Ao tentar aplicar um chute mais categórico, o jovem caiu e se machucou na queda... e mesmo assim ninguém foi a seu amparo. Mu foi sozinho até a enfermaria... e encontrou a porta fechada.
Ele precisou chamar seu pai, que o socorreu e o levou até o hospital.
Sexto dia
Prova geral, que tinha como conteúdo todas as disciplinas. Mu gabaritou a prova... e sequer o professor lhe entregou o papel. Ele só soube pelo sistema online, em sua casa.
Sétimo dia
Exame físico. Rotina semanal. Todos os alunos foram examinados de todas as formas possíveis e com todo o cuidado... restando a Mu ter de esperar que todos terminassem. Quando chegou a sua vez, as portas se fecharam.
Sua mãe estava o acompanhando, onde ela os obrigou a examinar seu filho... a força.
A cada dia que Mu ia para a Academia, ele era ainda mais ignorado. Passou até mesmo a sofrer disso do corpo docente do lugar, o que gerou muita revolta de seus pais. Mas mesmo que Zahiri dissesse o fato a Gran Rajad, isso não era o suficiente para evitar que seu filho sofresse o pior dos males e tratamento para com um jovem de sua idade.
Não havia bullying.
Sequer violência física.
Ofensas pessoas? Tampouco.
Mas o dano psicológico era terrível... entregando a Mu um estado de total isolamento.
Ser ignorado, ter sua existência apagada do meio social, das pessoas que sempre teve convívio até às que tinha uma forte amizade... isso trouxe a Mu uma angústia infinita.
O jovem feneco, que até um dia era confiante e determinado, conheceu um estado de espírito devastador: a depressão.
Todos os dias, desde que ia para a Academia até sua volta para casa, seu semblante sempre fechado e suas orelhas baixas deixavam aparente sua tristeza. Um sofrimento interno doloroso e permanente.
Por mais que seus pais se esforçassem para lhe trazer alguma alegria...
Dias se passaram, assim como semanas, até completar um mês.
Residência da família Al’jazii | Noite
O estado emocional de Mu estava quase em frangalhos. Por causa disso, seus pais foram atrás de médicos especializados nesse tipo de transtorno... com a recusa de todos. O nível de preconceito chegou a um ponto que até profissionais não queriam contato com o feneco.
Mas, como um advento da sorte, um parente de Nanami, seu tio Bern, um cervo que morava em Shang Tu, foi chamado para ajudar. Prontamente aceito sua entrada pela fronteira por Gran Rajad, ele pôde examinar Mu. E:
— Nanami... Sr Al’jazii... Mu está com depressão... ainda branda, de acordo com o jeito que ele está encarando as coisas...
— Mas o que podemos fazer? – Perguntou Sr Al’jazii.
— Tirá-lo de Great Desert seria a solução mais lógica. Entretanto eu sei que obter liberação para que qualquer nativo daqui saia e viva em outro lugar de Avalice seja terminantemente impossível...
— Tio, teria outra solução? – Perguntou Nanami.
— Medicamentos só o ajudariam a suportar e controlar seu estado, mas não é a solução definitiva. Mu precisa de atenção, ser amado, se sentir abraçado... só que ele espera isso de vocês. O seu problema está fora dessa casa, então sua melhora vai depender exclusivamente de sua própria resiliência.
— Porque está dizendo isso?
— Vocês me disseram que ele é um aluno exemplar na Academia. Tira boas notas, é pontual... mas seu físico está definhando aos poucos.
— Ninguém quer treinar com ele, nenhum professor faz questão disso... – Disse Sr Al’jazii – Já conversamos com Gran Rajad mas mesmo nosso emir não tem poderes contra o preconceito de seu povo. “Ninguém é obrigado a fazer o que não querem” foi o que ele me disse.
— Isso é bem grave... – Disse Bern, guardando suas coisas – Na minha opinião, eu tiraria seu filho dessa cidade o quanto antes... Esse ambiente ao qual ele está não é nada acolhedor...
Só que Mu ouviu essa conversa, que estava sendo realizada na sala de estar. E ele não ficou calado:
— EU NÃO QUERO SAIR DE PERSANIA!
— Musrie?! – Se surpreendeu Sr Al’jazii.
— Eu sei que estou mal com tudo isso e eu sei os motivos... Mas eu não vou desistir. Você não me ensinou a fugir! Eu vou até o fim, queiram eles ou não! Eu vou me tornar um Persan! E eu vou proteger essa cidade! EU VOU! – Ele gritou, com lágrimas saindo de seus olhos.
Esse era o ponto ao qual Bern descreveu: “depressão branda”. Embora esteja recebendo um duro golpe em sua moral todos os dias, Mu não desistiu de seus sonhos. Seus pais puderam ver a determinação dos melhores dias em seu olhar e não poderia sequer pensar em desistir depois dessa. E nesse dia, vendo seu filho lutar contra suas próprias angústias, ele disse:
— Você é mesmo demais... Musrie, meu filho!
Sua mãe, com todo o conhecimento de artes marciais que tinha, caminhou até seu filho, sabendo que seu filho não iria entregar os pontos dessa forma.
— Você está lutando contra isso... Essa depressão que você está sentindo é o verdadeiro desafio, não é?
— SIM! – Gritou Mu.
— Você vai vencer, Mu... Eu... Eu te amo, meu Mu! — Disse sua mãe, o abraçando.
Todavia, havia um desafio gigante, onde somente a força de vontade de vencer a depressão não eram suficientes.
No dia seguinte...
Academia Persania
Magnanimous Arena | Início da tarde
— Muito bem, postulantes... Hora do exame Alsahwa (“Despertar” em árabe). Esse exame é muito importante...
O Duke, que estava sendo o responsável pelo exame, olhou para Mu enquanto dava os detalhes do exercício.
— Este exame é necessário para saber o nível de aprendizado e grau de poder de luta que cada um desenvolveu. Veremos hoje a evolução de vocês, postulantes, agora que são do setor A. Então coloquem o uniforme de combate e também o elmo.
O uniforme de combate era a forma de terem uma proteção durante a execução de habilidades especiais, essencialmente para resistir a danos causados por fogo. Era um tipo de armadura leve e flexível feita de lã e de liga de vidro. O elmo era tudo dessa mesma liga, onde um visor de cor preta protegia de clarões e fabulhas o rosto e olhos dos postulantes. Tanto o uniforme quanto o elmo eram da cor azul.
Devidamente trajados e alinhados ao espaço enorme da arena, o Duke continuou a instruí-los.
— Cada um de vocês tem em seus uniformes sensores de movimento que irão computar dados que serão usados para medir seus poderes e habilidades especiais. Além disso, o score final será usado para admissão de vocês para o próximo nível.
— Admissão?! – Perguntou Sid – Tipo, e quem não for bem o bastante?
— Será excluído do plantel de postulantes imediatamente.
Acreditem: só foi o Duke dizer isso para que o silêncio voltasse. Mu entendeu bem o recado.
— *Ok... Eles agora sabem disso... Ferrou.*
O instrutor continuou:
— Formem duplas e lutem com tudo que podem fazer. Não quero excessos e também não quero estrelismo! Respeite os limites de cada um e façam o melhor! Vocês tem cinco minutos para mostrarem suas competencias. LUTEM!
De forma imediata, todos os alunos formaram duplas e começaram a lutar. Os poderes pirotécnicos emanados pelos postulantes iluminaram o lugar e traziam calor a batalha de avaliação. Enquanto tudo isso ocorria, como esperado, Mu estava sozinho, isolado e ignorado por todos. Desesperado e sabendo de que precisaria lutar, ele gritou:
— EU NÃO TENHO A MÍNIMA CHANCE SE EU NÃO LUTAR CONTRA ALGUÉM! POR FAVOR, ALGUÉM LUTA COMIGO?!
Até mesmo o Duke ignorou o pedido desesperado do feneco, que não parava de gritar:
— POR FAVOR! PODEM ATÉ PEGAREM PESADO COMIGO, MAS LUTEM CONTRA MIM... QUALQUER UM!
Não havia reação por parte de ninguém as súplicas incessantes de Mu, abandonado ao próprio isolamento enquanto o tempo passava.
Ele novamente abaixou seu semblante, enquanto lentamente o seu estado depressivo contaminava sua mente, destruindo aos poucos suas esperanças.
Tudo aquilo parecia um plano para que fosse expulso definitivamente.
Mu nesse momento percebeu que tinha mais inimigos que imaginava.
Até o corpo docente da Academia Persania tinha desagrado a sua presença.
Mas algo inesperado ocorreu.
Mu já havia desistido de clamar por luta quando uma esfera de fogo foi arremessada ao chão próximo a seu pé. Ele rapidamente olhou para trás e viu um postulante vestido com o uniforme de combate em base de luta contra ele.
— Hã?! Mas... Você quer lutar contra mim?!
Music: No Mercy
Composer: Daisuke Ishiwatari — Guilty Gear XX
Exam in practice — Fighting with everything
The Battle is Begin!
Sem muitas cerimônias, esse desconhecido arremessou contra Mu várias bolas de fogo, tentando o atingir com força.
— *Ah... Ele é forte...*
Mu precisou pensar rápido e se esquivar das bolas, que passavam com uma velocidade impressionante. Uma delas atingiu seu peito, o desestabilizando um pouco.
— *ELE É UM ARCHER! E é um dos bons... Tenho que me aproximar, senão...*
Os conhecimentos de Mu foram colocados a prova, já que não poderia usar de seus poderes elétricos. Correndo com tudo que tinha, o desconhecido voltou a arremessar mais de suas esferas de fogo, fazendo com que Mu executasse todo seu repertório de esquiva que sabia.
Isso fez com que o desconhecido se sentisse pressionado, já queo jovem feneco estava se aproximando.
— *Um Archer perde metade do poder de ataque quando luta corpo a corpo! Eu vou te pegar, miserável!*
Mu poderia estar impossibilitado de usar seus poderes, mas tinha gana de lutador e entendia um pouco de luta, mesmo que nos últimos dias estivesse sendo ignorado. Mas ele sabia da teoria tanto quanto os outros.
Já próximo, ele passou a atacar, desferindo socos e chutes, mas seu adversário também era ágil o bastante para evitar seus ataques.
— *Um Archer como ele vai ter dificuldades pra contra atacar. Estou na vantagem... TENHO QUE APROVEITAR!*
Mas sua leitura não foi totalmente efetiva: seu adversário também passou a atacar com força, onde seus punhos estavam com chamas, aumentando seu poder de dano. Mu sentiu isso quando tentou se defender, sendo jogado para trás por causa do impacto.
— *Ahh... Ele não... não é um Archer! Ele é um... Commando?!*
Tanto projéteis quanto corpo a corpo. Um Commando agia assim. O feneco percebeu nesse momento que seu adversário era mais forte que imaginava, que investiu contra Mu arremessando bolas de fogo e partindo para o corpo a corpo.
Mu estava com dificuldades, se defendendo da maioria dos golpes, mas recebendo danos contra seu dorso.
— *Esse cara... Ele não pega leve! EU NÃO VOU TAMBÉM PEGAR LEVE!*
Dito e feito, Mu passou a fazer combinações de ataques, usando de finta inclusive. Por sorte isso foi efetivo, fazendo com que seu adversário recuasse. Os socos combinados com chutes do feneco jogou toda a pressão para o outro lado.
— AGORA EU QUERO VER, CARA! MANDA VER! VEM COM TUDO!
O desconhecido então tomou uma nova base, surpreendendo Mu. Era como se estivesse entre ataque e defesa ao mesmo tempo. Mas o feneco tinha da teoria para fazer uma leitura:
— *Eu conheço essa postura! Essa base... Ele... ELE NÃO É UM ARCHER NEM UM COMMANDO! Ele é... UM FULLER?!*
Fuller era uma classe onde o lutador tinha as características das demais classes. Não era um especialista em nenhuma, mas a união de habilidades de cada uma das classes o fazia ser muito mais plástico e arrojado que se tivesse uma só. Em outras palavras, o poder de adaptação ao combate era absurdamente mais desenvolvido.
— *Ele me atacou como Archer pra ver minha reação. Ele permitiu que eu o golpeasse para saber meu estilo e mudou para Commando. Agora estou combinando golpes e mudou para um Fighter... Sim, ele é um Fuller com certeza!*
Como Mu analisou, ambos agora trocavam golpes, de forma franca e direta. Porém seu oponente tinha seus punhos tomados por chamas, o quero fazia ter vantagens num confronto mano a mano.
— *Os golpes dele estão muito mais fortes... e é muito difícil eu defender por mais tempo! Então essa é a força das Flames of Persania?!*
Estava difícil para Mu resistir aos duros golpes com as chamas, ficando na defensiva contra sua vontade. A pressão era muita, o fazendo recuar. A cada golpe ele sentia na pele a força de seu oponente em utilizar das chamas.
Mas, para sua sorte:
— ACABOU O TEMPO!
O anúncio do fim do exame salvou Mu de não suportar os socos incandescentes do adversário, que cessou seus golpes.
O jovem feneco, exausto, se ajoelhou, puxando ar. Ele estava bem, só estava cansado e com os braços doloridos.
Mas o desconhecido ainda estava alí, em pé. E esse foi o momento que Mu pode observar detalhes de que anda não tinha percebido pelo teor de urgência e fervor da batalha travada: a cauda felpuda de fenecos sempre tinha o mesmo tom de cor (caqui ou marrom claro, de acordo com a pigmentação da pelugem de cada feneco de Persania). Mas esse era o detalhe: seu adversário tinha a ponta de sua cauda descolorida nas cores azul e magenta, com a base maior em um tom ruivo escuro.
Ele estranhou essa combinação e, o principal, por estarem essas cores tão chamativas em um dos postulantes. Mu então retirou seu elmo, tentando observar mais. Entretanto, sua surpresa foi muito visível em seus olhos arregalados ao ver a suposta pessoa retirar seu elmo: seu longo cabelo ruivo esvoaçou ao puxar a proteção, fazendo com que seu lindo rosto fosse visto. Seus olhos azuis fitaram os de Mu, que ficou mudo com a constatação que acabara de ter:
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você fez uma boa luta, sabia?
— Ah... Gah?! Você... Você é...
— Uh? O que foi? Vai ficar aí ajoelhado, lutador?
— Você é... UMA GAROTA?!
Continua.
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