Fredo, Meu Querido Fredo
1 Prólogo
Notas iniciais
Godofredo nunca foi uma pessoa a qual os outros se importassem. Hoje, eu sei como mais ninguém sabe que ele foi, é e sempre será o responsável por quem sou hoje, mesmo sendo o garoto mais levado, brincalhão, imaturo e engraçado que já conheci.
Você deve estar se perguntando: “Quem é Godofredo?”, ou se não: “Que tipo de mãe desnaturada colocou o nome do filho de Godofredo?”. Preciso informa-lhe que Fredo não é bem um garoto, quer dizer, ele é homem e macho, mas não é como o resto da população da Terra. Ele é especial, muito especial. Bom, agora, você deve estar achando que eu estou apaixonada por ele. Resposta errada. Ele é meu melhor amigo desde que eu me lembro que me chamo Ágatha e que tenho asma.
Voltando para Godofredo... Ele, literalmente, apareceu na minha vida há algum tempo, porém eu o conheço desde que tenho cinco anos. Sua companhia sempre me fez sentir mais perto da felicidade. Então, você pensa: “Por acaso, você não é feliz?” Na verdade verdadeira... não. Nunca fui até meus catorze anos – tempo pra caralho. Acho que está na hora de falar mais um pouco sobre mim, não é?
Como disse anteriormente, meu nome é Ágatha, Ágatha Savin. Savin porque meu avô por parte de pai é russo. Isso mesmo, Rússia, um lugar onde só tem neve e gente que fala cuspindo em você. E por causa disso, eu só consigo me comunicar com meu avô através da minha irmã mais velha porque ela se interessa por um idioma onde você tem mais chances de morder a língua do que conseguir perguntar que horas são. Para ser sincera, Miranda se interessa por tudo que nossos pais podem bancar: música, artes cênicas, competições de matemática, física e química. A menina sabe tocar piano, violão, violino e cantar. Fala fluentemente inglês, espanhol, francês – e russo, dãr. Fora eleita por sete, vou repetir, S-E-T-E vezes consecutivas, não são sete vezes qualquer, são CONSECUTIVAS, a presidente do grêmio estudantil da sua escola, que – não posso deixar de ressaltar – é, atualmente, a minha também.
Voltando para mim... Eu tenho dezesseis anos, mas isso não é importante, pois tudo aconteceu quando eu tinha catorze. Enfim, tenho cabelos loiros e olhos azuis os quais eu odeio muito. É sério, você não tem noção. Que coisa é mais sem graça do que uma loira de olhos azuis? Cadê a originalidade nesse mundo? Só não é pior do que ter cabelo preto e olhos pretos... Sem preconceito, mas, na minha opinião, parece um defunto. Tá, calei. Estudo numa escola magnífica onde só tem meninas patricinhas, metidas e loiras – mais um motivo para eu odiar ser loira. Quando eu falo que só tem menina, é porque só tem menina mesmo. Por isso, não me assusto com a quantidade alarmante de bissexuais que vejo pelos corredores. Já estou até acostumada. Só para a curiosidade, eu sou hetero, ok?
Bom, as meninas lá da escola até que podiam ser piores. Elas poderiam ser burras! Pois é, uma manada de meninas loiras, inteligentes e arrogantes disputando território e uma lasquinha de atenção quando, milagrosamente, aparece algum menino lá. Às vezes, me sinto que estou no meio de uma floresta com várias vacas/cavalos demarcando seu território, mas essas daí andam em bando para intimidar mais ainda os fracos. Uma vez, duas meninas foram suspensas por uma ter cortado uma mecha do cabelo da outra, e esta ter revidado, dando um show na hora do intervalo, lendo o diário todo da menina na frente das alunas. É tanta futilidade que fico com nojo só de pensar.
Voltando ao que interessa... Miranda já estudou lá, naquela “instituição”. Podia-se dizer que era idolatrada pelas meninas de lá, como se ela fosse a abelha rainha e o resto, seus súditos. Chegava a ser engraçado, tirando a parte em que usava suas submissas para infernizar minha vida. Na época, eu devia ter o que? Uns dez anos? Para fechar com chave de ouro, Miranda ainda tinha que ser líder de torcida. Ela desempenhava seu papel tão bem que foi até sem graça ganhar o prêmio na categoria Melhor Atriz do Ano. Pois é. Meu colégio tinha a péssima mania de classificar as pessoas de acordo com seus talentos, e eu odiava isso. Mas, para meus pais, isso soava mais como um modo de desenvolver as habilidades do seu filho de acordo com a sua vocação. Para você ver como palavras diferentes e bonitas podem mudar a cabeça de uma pessoa, uma não, duas!
Voltando a minha miséria de vida... Esqueci-me de mencionar que sou filha do meio. Tcha ram! O que o universo tem contra mim, pelo amor de Deus?! A peste foi surgir há dois anos quando Miranda descobriu que passara num teste para ir para o inferno – como se ela precisasse de um teste para isso. Mentira, mas bem que eu queria que fosse verdade. Ela foi fazer intercâmbio no Canadá. E que o diabo a carregue para longe daqui! Acho que deu para imaginar o tamanho da minha felicidade. Juro que no dia eu sorri mais de dez vezes por causa disso – meu recorde nos dias comuns era... um. Porém, como tudo que é bom, dura pouco, logo, minha mãe teve a brilhante ideia de anunciar que estava grávida! Se meu pai precisou de um remédio para baixar a pressão, eu precisei de um para aumentar. Vi todos ao meu redor se transformarem em borrões e tudo ficar escuro de repente. Me lembro perfeitamente do comentário excepcional da minha mãe depois que eu recobrei a consciência: “ Acho que ela ficou tão feliz que não aguentou a emoção e desmaiou.” Tão velha, mas tão ingênua...
Voltando a peste do meu irmão... A criatura com energia de um reator nuclear fez quatro anos ontem, mas isso é irrelevante, pois tudo aconteceu quando ele tinha apenas dois. Bom, resumindo a história: foi a pior coisa que me aconteceu. Você não sabe, entretanto meus pais são mais ocupados do que Barack Obama e O Homem de Ferro juntos. Acabou que minha linda mamãe cuidava de Gabbe de manhã enquanto eu estava na escola e era obrigada a sacrificar minha tarde para cuidar de um ser que só sabia babar e fazer cocô.
Miranda, é claro, sempre arranjava uma desculpa para sair à tarde e, por mais incrível que pareça, meus pais acreditavam! Em todas! Não havia uma sequer que eles questionavam! Talvez – tenho quase certeza – fosse pelo fato dela ser um exemplo dentro de casa. Esforçada, inteligente, refinada, gentil – só porque ganhou uma vez um prêmio por ser a maior fornecedora de donativos a uma igreja – e... deixa eu ver... Perfeita. Havia um porém – adoro um porém. Passado despercebido diante das incontáveis qualidades da minha irmã anjo, sendo que metade dessas qualidades era falsa, tinha uma coisa em toda a humanidade em que Miranda não tentara: pintura. E, por causa disso, eu me agarrava a essa atividade como se fosse a última garrafa de água num deserto. Só porque minha irmã não conseguia atuar nisso com suas lindas mãos que só faltava soltar pozinho de pililim pimpim.
Se meus pais trabalham tanto, no mínimo, pode-se deduzir que eles ganham muito, e é verdade. Então, por que não contratar uma babá?
Tudo começou quando minha irmã mais velha tinha três anos e meio. Uma mulher chamada Rose cuidava dela de manhã, de tarde e de noite. Certo dia, essa tal Rose saiu de casa com Miranda no carrinho e só foi voltar lá quase meia-noite. Pense num chilique de uma mulher histérica na TPM? Era a minha mãe quando descobriu. Demissão na hora. Nunca mais ouviu-se falar em babá em casa.
Voltando ao planeta Terra... Acho que deu para perceber que tenho um pequeno problema de falta de atenção, mas isso não vem ao caso.
Se você pensa que minha vida já está confusa demais para uma menina no auge dos seus catorze anos, que podia construir uma barraquinha e começar a distribuir hormônio, bom, você está muito enganado. Para não deixar de ser clichê, toda garota na minha faixa etária tem partes dos seus pensamentos roubados por alguém. Tá meio óbvio, né? Sim, eu estou apaixonada. Ele se chama Arthur e é dono dos mais deslumbrantes olhos cor de mel que eu já vi na minha vida. Pronto, está oficializado que estou apaixonada. Agora, advinha só? Nós somos vizinhos! Ideia genial essa do destino colocar uma menina completamente tímida e insegura morando na casa ao lado de um menino lindo e concorrido. Se, pelo menos, a metade da escola não morasse nesse maldito condomínio, minhas chances aumentariam em... 0,0000000001%. Número notavelmente pequeno, eu sei. Ao menos, eu não teria obstáculos.
Depois de ler uma bíblia falando sobre minha vida, você pergunta: “Onde esse tal de Godofredo entra nessa história toda?”.
(risos).
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