Fredo, Meu Querido Fredo
4 Eu Não Te Reconheço
Notas iniciais
Já era final da tarde quando Ágatha resolveu se arrumar para festa. Ela não tinha sido devidamente convidada, mas seu objetivo não era se divertir. Estava numa missão. Iria destruir a vida da sua inimiga assim como esta fazia todos os dias com ela. Aquilo já estava mais do que decidido: Ágatha e Luíza descobririam Patrícia no flagra com Arthur, e com isso, ele estaria “solteiro” para a felicidade da primeira menina.
Desde o intervalo na escola, Godofredo não havia aparecido. Ágatha estava começando a achar que tudo não tinha passado de uma grande alucinação, afinal quem vê, literalmente, seus amigos imaginários? Eles não existem! Era isso o que pensava. Caso contrário, acharia que estava ficando louca.
Depois de ter vestido um short jeans e uma blusa mais ou menos arrumada com uma manga curta, ela se olhou no espelho, tirando coragem para seguir em frente com esse plano maluco.
– Tita, Tita... Não me provoque usando esse short. – uma voz apareceu no seu quarto.
Na mesma da hora, Ágatha se virou em direção à sua cama, de onde tinha vindo a voz, com um espanto estampado no rosto. Fredo estava deitado na cama, todo esparramado, numa posição descontraída, com aquele sorriso leviano de sempre.
– O que você está fazendo aqui?! – perguntou, estressada e irritada ao mesmo tempo, por causa da visita inesperada de Godofredo.
– Ué, eu pensei que nós iríamos para uma festa! – respondeu, dando um pulo da cama, aparentando animação.
– Em que momento você achou que “nós” incluía você?
– Nossa, Tita. – fez uma cara de sofrido. – Você me feriu agora... – e do mesmo jeito que apareceu, ele sumiu.
– Até que enfim! – Ágatha comemorou.
Seus pais ainda não haviam voltado do trabalho, quer dizer... Sua mãe tinha levado Gabbe ao médico e seu pai, provavelmente, estava no escritório. Essas noites de sexta-feira sempre tiravam uma parte da noite dele e sua filha odiava isso. Mas, isso não vem ao caso, não agora.
Ágatha pegou o seu celular e ligou para Luíza.
– Alô?
– Oi. – respondeu a outra linha – Olha, amiga... Meus pais não me deixaram sair. Eles querem que eu estude para a prova de segunda.
E ainda tinha a tal dessa prova!
– Tudo bem, então. Se você não vai, eu vou.
– Tem certeza disso, Ágatha?
– Sim. – disse num suspiro profundo.
– Não me convenceu.
– Preciso ir. Tchau. – desligou.
Não sei se você, leitor, se lembra, mas, logo no começo, foi citado a localização da casa de Arthur: “Agora, advinha só? Nós somos vizinhos!...”. Ainda não consegui me decidir se isso foi importante ou não para que tudo o que acorreu ocorresse dessa maneira. Mas, vamos prosseguir.
Ágatha foi caminhando calmamente até a casa ao lado. Não tinha pressa nem horário marcado para a sua chegada. Estava repensando no seu plano. Já que Luíza não viria mais, quem iria ajudá-la a pegar o casal em cheio? Ela precisaria de uma ajudante ou, se não, teria que mudar o plano. E foi isso o que ela decidiu. Voltou correndo para casa e pegou sua máquina fotográfica e o binóculo do seu pai. Infelizmente, essa era a melhor ideia que tinha tido até agora.
Devidamente colocada, a árvore enorme que ocupava um local do jardim perto da casa de Arthur serviria de esconderijo para o plano. Lá de cima, Ágatha tiraria uma foto dos dois se agarrando e, segunda-feira, mostraria sua linda prova para Susana.
“Até que a festa está bem agitada”, foi o que ela pensou quando parou em frente a casa do seu vizinho e se deparou com um bando de adolescentes gritando, dançando, se pegando e fazendo outras coisas mais que não eram possíveis de se distinguir. E quanto mais ela ficava ali parada, criando coragem, mais pessoas chegavam e mais alta ficava a voz de Katty Perry. Contou até três, correu até a árvore e escalou-a.
Arranjando uma posição confortável, Ágatha se ajeitou e colocou o binóculo no rosto. Procurou, procurou e procurou por Arthur e Patrícia e nada deles. Estava começando a achar que teria que entrar na casa, mesmo não querendo de jeito nenhum. Foi então que...
– Quem você está olhando, Tita?
Ela soltou um grito estrondoso de susto, mas ninguém ouviu, por causa da música, mas não foi só isso: ela também acabou se desequilibrando e começou uma queda feia e dolorosa, galho abaixo.
O tombo foi horroroso, inédito, desesperado, mas acima de tudo muito constrangedor.
Quando Ágatha se levantou, ela se deparou com uma cena que nunca iria esquecer: Patrícia estava olhando-a com uma cara assombrada, de susto e debaixo dela alguma coisa se mexia e gemia...
– Ai...
– Ai meu Deus! – ela exclamou, sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
– Saia de cima dele, sua estúpida! – Patrícia gritou.
Esquecendo-se dos hematomas adquiridos durante a queda, Ágatha se levantou sem esperar uma segunda ordem. Arthur se levantou com um pouco de dificuldade, gemendo de dor. Ao tentar ficar em pé, uma de suas pernas vacilaram e ele teve que se segurar no tronco da árvore para não cair novamente.
– O que foi que... Quem é você? – ele perguntou, franzindo o cenho.
O que foi mais constrangedor ainda era o fato de Ágatha estar completamente paralisada pelo pânico. Ela tinha acabado de cair de uma árvore em cima do menino que ela estava afim. O que poderia falar?
– O que você estava fazendo lá em cima? – nada de resposta – O gato comeu sua língua, menina? Quem é você?
Maravilha! Agora ele vai pensar que Ágatha era uma surda-muda que subia em cima de árvores desconhecidas e depois se jogava lá de cima em direção a alguém! Não havia nada o que pudesse fazer. Então ela começou a correr.
Agora entra aquela minha questão do fato da localização da casa de Arthur importar ou não. Digo, se ficasse longe, seria melhor para ela por um lado, pois poderia correr até se perder na linha do horizonte. No caso, a casa ficava a poucos metros de distâncias. Ela nunca conseguiria despista-los.
Chegando em casa chorando, ela nem percebeu a presença de Godofredo em todo lugar que ela ia.
– Essa sua queda foi hilária! Nunca ri tanto na minha vida! – ele disse quando entrou no quarto.
Ela jogou a máquina e o binóculo em cima da escrivaninha de qualquer jeito e foi em direção ao banheiro, lavar as feridas mais graves.
– Você deveria ter visto a cara dela! Tipo: “O que foi isso que caiu em cima do meu namoradinho?!” – ele se dobrou de rir. – Foi muito engraçado!
– O que você quer de mim?! – Ágatha gritou na cara dele, explodindo de raiva, vergonha, medo, ira...
– Ahn? – ele parou de rir um pouco. – Não te entendi.
Ela começou a tremer de raiva. Seus olhos pareciam duas cascatas de água salgada. Sua cara inchada e vermelha deixava claro que estava acabada emocionalmente.
– Ele nunca vai gostar de mim. – lamentou.
– Por que isso é tão importante? – Fredo perguntou.
Ela lançou um olhar assustado e curioso para ele. Estava tentando compreender o que ele pensava. A sua pergunta não tinha cabimento. Óbvio que o que Arthur pensava era importante! Óbvio que gostar dela é a peça fundamental do jogo! Parecendo estar se questionando assim como Ágatha, ele também começou a olha-la de maneira mais analítica, investigativa. Os dois ficaram desse jeito por um tempo até ela quebrar o silêncio.
– Eu não te entendo.
– Eu não te reconheço.
Aquilo a deixou intrigada e tocada. O que ele queria dizer com aquilo? Esta pergunta ficou uma eterna incógnita, pois alguns segundos depois, sua mãe chegou com Gabbe e chamou por ela.
– Estou aqui em cima, mãe! –gritou da porta do seu quarto, mas quando ela vira para ver Godofredo, ele não estava mais lá.
– Que festa é essa que esse maloqueiro está dando uma hora dessas?!
– Não sei, mãe!
– Desça aqui, por favor!
Assim Ágatha fez.
– O que foi? – perguntou assim que ficou ao seu lado.
– Eu acabei de chegar e vejo uma ambulância estacionar na casa ao lado da minha. Filha, eu não quero que você ande com esses tipos de pessoas, entendeu?
– Você viu o que?! – exclamou.
– Eu sei. Eu também estou assustada, mas eu preciso... Volte aqui, Ágatha!
Era uma pena ser tarde de mais para gestos heroicos, pois a ambulância já havia partido, junto com Arthur. Porém, uma pessoa se fazia presente e Ágatha a reconheceu de imediato.
– Patrícia...
– Você pensou, por acaso, que eu não a reconheceria, cocô de pombo? Eu me lembro tão bem da sua insignificante existência quanto da sua maravilhosa irmã. Por falar nela, onde será que ela está? É mesmo! Ela passou num teste superconcorrido para uma das melhores escolas de ensino médio no Canadá. Mande um beijo para ela.
Vadia, filha da puta, travesti, satanás... Ela teve que se controlar ao máximo para não voar no pescoço dela. Sentia tanto ódio, tanta tristeza... Correu para sua casa e se trancou no quarto. Esqueceu até de jantar, não viu seu pai chegar exausto do trabalho, nem foi dizer boa noite para mãe. Gabbe... Ele nem existia. Apenas Godofredo permaneceu ao seu lado, impenetrável, invisível e distante.
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