Freddy Walker, o filho do sol

1 Capítulo 1 - Eu matei um Leão com uma guitarra


Olá, meu nome é Freddy Walker. Eu sou um garoto de 12 anos que morava em Nova York. Eu vivia em um apartamento no Upper West Side com minha mãe Rachel Walker, uma mulher doce, ela tinha os cabelos do mais profundo tom de preto, e olhos tão azuis como o mar; eu tinha os cabelos tão escuros quanto os dela, mas meus olhos não eram azuis, e sim castanho-escuros – herdados, talvez, de meu pai. Minha mãe conheceu meu pai quando tinha vinte e um anos, ela chamou sua atenção pelo fato de ser uma boa artista. As únicas coisas que sei sobre ele é que ele nasceu na Grécia, e veio para os Estados Unidos com os parentes.
Era uma manhã comum, minha mãe estava sentada à mesa da cozinha bebendo numa xícara cheia de um líquido preto – café! Café era a melhor bebida do planeta. Claro, eu bebia outras bebidas com cafeína, como Coca-Cola e Monster, mas café era a melhor de todas. Não! Eu não sou viciado em cafeína! Bom, talvez só um pouquinho.
Eu enchi uma xícara grande e a bebi em dois ou três goles. Levantei-me para enchê-la de novo, mas minha mãe interveio.
— Chega de café – Disse ela, com seus olhos penetrantes – ou você não dorme hoje!
— Mãe! – Teimei – Você sabe que a cafeína não me afeta.
Era verdade. Eu podia beber quantas xícaras de café eu aguentasse, e eu não perderia uma noite de sono.
— Tudo bem. Mas só mais essa, ou você vai se atrasar.
Enchi a xícara e bebi de novo, dei um beijo na minha mãe e desci o prédio. Peguei o primeiro táxi que encontrei.
— 72 com a 11 – Disse para o taxista.
Por um breve momento, nós trocamos olhares no espelho retrovisor, e ele pareceu ter apenas um olho. Eu pisquei, e o segundo olho voltou ao lugar.

Eu estudava na Midtown School, um prédio grande, de cinco andares e três torres; a sala da sexta série ficava no terceiro andar da torre B. As paredes internas da escola eram enfeitadas de pinturas que os alunos faziam e os professores de arte gostavam – cinco das minhas estavam no corredor do terceiro andar.
A porta da minha sala estava fechada, mas eu pude escutar o Senhor Clinton – Professor de Ciências – pela porta. Ele falava alguma chatice sobre a fotossíntese de uma planta do norte da Europa.
Não me leve à mal, eu gostava de Ciências, mas só quando o assunto era o corpo humano ou medicina, de resto, não importava. Meu grande sonho era me tornar um bom médico em um hospital de nome em Nova York.
Eu bati na porta três vezes, e o Senhor Clinton a abriu. Ele era um senhor de meia idade, que sempre usava um casaco tweed e uma gravata-borboleta, como se gravatas-borboletas fossem legais. Não, cara. Não são.
— Olha só quem chegou – Disse em tom de sarcasmo – A que devemos a honra, Senhor Atrasado? Sente-se em seu lugar e fique quieto.
— Desculpe – Desculpei-me e sentei em minha carteira, atrás de meu amigo Ozzy Philips. Ozzy tinha a mesma idade que eu; era afrodescendente; ele sempre usava um boné do Cleveland Cavaliers, o time de sua cidade natal; e ele sempre mancava, por causa de uma lesão que sofrera na infância.
— E aí, Astro do Rock? – Cumprimentei enquanto o professor olhava para o quadro. Esse apelido era uma piada interna não tão interna; eu o chamava assim, pois ele compartilhava o nome com um dos maiores astros do rock que já existiram. Ozzy não gostava muito de rock, música era mais a minha praia.
— Tudo bem, turma – Disse o Senhor Clinton – Agora abram os livros na página 116, onde estudaremos o impacto do aquecimento global na vegetação norte-europeia...
— Professor – Interrompeu o Diretor Davies, parado à porta – Será que posso pegar o Frederick um pouquinho?
O professor assentiu. Sábia escolha. O Diretor Davies não era exatamente mal, mas se você contrariasse suas ordens, ele fazia você aprendeu que fez errado. Eu estremeci ao escutar as palavras do Diretor. Primeiro: Eu não era um bom aluno, só ia bem na prova de Ciências, e olhe lá – se o conteúdo da prova não fosse o corpo humano, ou algum assunto de medicina, eu também ia mal –; e segundo: Ele me chamou de Frederick, os adultos só me chamam de Frederick quando ficam muito bravos comigo. Como quando eu usei o violão de meu avô como taco de baseball, além de quebrar o violão do meu avô, eu quebrei a janela de sua casa com a bola. Ou quando eu pressionei minha mãe com perguntas sobre meu pai: ela começou a chorar, não de tristeza, mas de raiva, então ela disse: ”Frederick, vá pro seu quarto agora”.
O Diretor Davies era um homem de trinta e cinco anos que sempre usava um paletó e um cachecol dourado, mesmo no calor. Além disso, ele tinha um anel dourado no anelar direito em forma de cabeça de leão. Sua sala era no quinto andar, então andei bastante ao seu lado, mas ele não soltou uma palavra.
Eu chamava sua sala de Prisão, pois quando você entrava, somente o “juiz” (O Diretor) te tira de lá. As paredes Prisão eram ostentadas com centenas, talvez milhares, de livros, livros de arte, livros didáticos, livros clássicos; nenhum Harry Potter ou Magnus Chase da vida.
A mesa do Diretor era enfeitada com várias estátuas de leões banhadas a ouro – algumas pareciam ser feitas de ouro puro. A cadeira também era dourada, como se feita com couro de vacas de ouro. Na parede, atrás da mesa, havia um pôster de uma leoa mostrando o muque; em letras grandes, estava escrito: “SIM, NÓS PODEMOS”, e embaixo, em letras menores, estava escrito: “CAÇAR GAZELAS”.
— Belo quadro. – Comentei, pra quebrar o gelo.
— Sim – Disse ele – Foi uma boa aquisição, consegui com a Tia Eme.
Tia Eme?, pensei, De quem diabos ele está falando?
— Bom, Freddy, o motivo pelo qual eu o chamei é – A voz dele subitamente mudou para um tom mais grave, quase como um rugido – Para você morrer!
Ele começou a se transformar: o cachecol se transformou numa juba dourada, e o paletó se juntou ao corpo do Diretor, ele colocou as mãos no chão, e seus membros se transformaram em patas; em um momento, ele era o Diretor Davies, e no outro, ele se transformara em um leão.
Era o Leão de Neméia. Eu sabia por que mitologia grega era um dos únicos assuntos de que eu conhecia. Nenhum metal poderia cortar o seu pelo, ele era indestrutível. Ele tinha esse nome pois ele foi encontrado nas colinas de Neméia. Hércules o matou, mas por meio de força bruta, ponto que eu não tinha ao meu favor.
Ponto fraco? Onde tem um ponto fraco?, pensei, A boca! Não tem pelo na boca!
Neste momento, Ozzy entrou pela porta com uma guitarra – uma Gibson Les Paul goldtop 1957, meu sonho de consumo.
— Freddy! Pelos deuses! – Ele jogou a guitarra pra mim – Toque!
Que diabos ele está pensando?, pensei, mas obedeci e toquei as cordas soltas pouco antes do Leão pular pra cima de mim; para minha surpresa, a Gibson se transformou em uma espada de bronze. Enfiei a espada goela abaixo da besta e ela se transformou em pó, literalmente. Eu estava coberto de pó dourado até os pés; no meio do monte, jazia uma pele de leão. Eu a peguei e ela transformou-se numa jaqueta colegial dourada com um ômega no peito esquerdo.
— Belo Troféu! – Disse Ozzy, colocando o braço no meu ombro – Se chegar assim no Acampamento, vai descolar muitas filhas de Afrodite!
— Troféu? – Comecei – Filha de Afrodite? Acampamento? Que droga está acontecendo? Como o Diretor se transformou naquele leão? Eu não estou entendendo nada!
— Espera um pouco, Fred, eu preciso fazer uma ligação.
Ao invés de tirar um celular da mochila, ele tirou um cantil d’água, abriu a janela, e fez uma poça de água no chão, fazendo com que um arco-íris se formasse na água.
— Ó Íris, deusa do arco-íris, aceite minha oferenda – Ele tirou uma moeda de ouro do bolso e jogou na poça, a moeda afundou e a poça tremeluziu – Mostre-me Quíron, no Acampamento Meio-Sangue. – Outra imagem se formou: um homem de meia-idade jogando um estranho jogo de cartas com um homem gordo, com uma camisa de estampa de leopardo – Quíron! – O homem de meia-idade se virou – Encontrei outro meio-sangue, o Freddy! Já estamos a caminho do Acampamento!
— Muito bem, Ozzy! – Ele se virou para o homem gordo – Sr. D! Pare de roubar no pinochle!
— Este jogo já está enchendo o saco! – Reclamou o Sr. D – Quíron, o que os mortais jogam de bom hoje em dia?
— Truco, pôquer – Falou Quíron.
— Então está decidido! – Exclamou o Sr. D – Ozzy e o outro – apontou pra mim – vocês vão passar numa loja de jogos e comprar uma maleta de pôquer para eu jogar! — Ele estalou os dedos.
Ao som do estalar, a poça tremeluziu e a imagem dos jogadores de pinochle desapareceu. Minha espada voltou à forma de guitarra e se enrolou nas minhas costas com a alça, e eu coloquei a jaqueta colegial dourada.

Notas finais
Esse foi o começo da história, se você gostou, deixa um comentário aqui embaixo.