Frechada do teu olhar
2 Parte 2
04 de junho de 1981
Convencer Sirius a dar uma folga a ambos foi a coisa mais fácil do mundo. Precisavam de alguns dias para ir e voltar na pequena viagem, mas ele não se importou. James era seu melhor amigo e ele amava Lily como uma irmã, sabia seu sonho de ser cantora então simplesmente liberou os dois.
James dirigia tranquilo enquanto tocava ‘Seja o meu céu’ no rádio.
— Estamos oficialmente fora de Cascavel. Só mais 811 quilômetros até Porto Alegre — Lily disse, sorrindo quando passaram pelo portal da cidade.
— Então estamos quase chegando.
— Exatamente — ela respondeu e ambos riram — Minha mãe disse que é loucura eu fazer isso com um cara que eu mal conheço..
— Que audácia! Nós nos conhecemos há uma semana inteira — ele dá os ombros e Lily sorri feliz, quando estava com James tudo era fácil.
— A gravadora que estou indo fazer a audição que lançou esse álbum — ela disse apontando para o rádio, se referindo a música que tocava.
— Sério?
James aumenta o som para ouvir melhor.
— Sorte deles terem você. Essa mulher não é nada comparada a você.
— "Essa mulher" é Nara Leão, James! E ela me deixa no chinelo.
— Eu não acho.
— Ela deixa!
Lily sorri.
— Mal posso esperar pra chegar! Conhecer pontos turísticos... Sabe eu adoro ser de Cascavel, mas às vezes a cidade parece... um pouco pequena demais.
— É…
— Ah, minha amiga Alice disse que tudo que precisarmos, podemos pedir para ela. Inclusive ela vai dar uma festa e nos convidou.
— Parece ótimo.
— Tem algo específico que você quer fazer enquanto estivermos em Porto Alegre?
— Quero visitar umas pessoas que conheço.
— São seus amigos?
— De certa forma...
De repente, James se sentia desconfortável em falar sobre o assunto. Lily nota e pega uma bolsa no banco de trás.
— Eu fiz sanduíches de mortadela. Nem sei se você gosta de mortadela, mas…
— Eu adoro mortadela
— Ahhhh eu também! Olha só pra gente, um casal de amantes de mortadela, viajando pelo país... E minha mãe disse que era cedo demais para viajar assim
— É mesmo? — ambos sorriram animados novamente.
***
— Então, como você conseguiu o teste? Para a gravadora? — James perguntou, dando uma garfada no macarrão, horas mais tarde quando pararam em um restaurante em uma pequena cidade para jantar.
— Minha amiga Alice, deu uma gravação minha para um assistente e ele entregou para um executivo de talentos de lá.
— Uau!
— É!
— E o que acontece quando eles se apaixonarem por você? Porque eles vão...
Lily sorriu abertamente antes de responder.
— Acho que eu faço uma gravação com um som mais profissional. Então se por um milagre isso der certo, eu gravo um álbum inteiro. Então, se vamos realmente sonhar acordados eu abro um show do Chico Buarque e então caio na estrada…
— É isso que você quer fazer?
— Não sei... Eu gosto de ver as pessoas dançando enquanto eu canto. As pessoas não dançam tanto quanto deveriam — Lily começa a olhar para um casal de idosos que dançava em um canto do restaurante — E eu gosto de fazer a minha pequena parte para manter isso vivo.
— Entendi a indireta — ele dá um sorrisinho e se levanta estendendo a mão pra ela. Eles vão até o canto do restaurante, perto de onde o casal de idosos dançava.
— Onde você aprendeu a dançar? — ela perguntou, quando ele a girava e depois a puxava para perto, encostando-a contra seu peito.
— Não era natal lá em casa enquanto minha mãe não dançasse, então eu devo ter aprendido um passo ou outro.
Eles riem e dançam mais, ela aponta para o casal de velhinhos
— Olha como eles são fofos... — Ela diz secando os olhos das lágrimas que brotavam no canto ao ver a cena. — Desculpe, eu choro à toa.
— Tudo bem. — Ele ri.
— E você? Chora muito?
— Não... Nunca.
— Nunca? — ela parece meio sentida — Nem mesmo lendo aquele livro Cazuza? Aquele que o menino na hora do recreio se escondia para ninguém vê-lo comendo em uma latinha, mas na verdade ele não tinha o que comer, então a lata estava vazia?
— Não, eu... Eu virei mestre em engolir as coisas ruins.
Lily pressiona os lábios mas não responde e eles dançam outra música.
— Isso é ótimo — ela diz quando a música acaba.
— É o que eu sempre digo... As pessoas não dançam tanto quanto deveriam
— Ei!
***
Ao chegarem em um pequeno hotel para passar a noite na beira de estrada, a primeira coisa que notaram foi que o quarto tinha duas camas, ambos tentaram esconder a expressão de desconforto.
— Quer usar o banheiro primeiro? — James perguntou de repente.
— O que?
— Para tomar banho, escovar os dentes.
— Ah, sim. Claro
Lily pega algumas coisas dentro de sua mala e caminha em direção ao banheiro, antes de fechar completamente a porta, ela percebe James tirando a camisa para poder trocar de roupa e solta um suspiro.
— Eu acho que meu avô tinha um pijama igual — diz ele em tom brincalhão ao notar ela saindo do banheiro alguns minutos depois, com um pijama listrado comprido.
— Calado — eles riem — Eu gosto de dormir quentinha.
Ela anda em direção a ele, sentindo o coração bater mais forte. James coloca uma mecha do cabelo dela atrás da orelha e se aproxima lentamente, unindo o pequeno espaço que havia entre os dois para um toque já conhecido por ambos e então delicadamente James a guia em direção a uma das camas.
05 de junho de 1981
Os músculos de James se enrijeceram e ele tremia de maneira desesperada em cima da cama.
— James! Ei, James! — Lily tenta acordá-lo do pesadelo, quando ele finalmente abre os olhos ela respira aliviada — Você está bem?
— Sim. Estou bem — responde quando consegue se recuperar do choque.
— Você teve um pesadelo?
— Acho que sim, não me lembro.
— Você tem muitos pesadelos com as coisas que viu no Rio de Janeiro? — ela ousou perguntar.
— Eu não lembro muito dos meus sonhos….
— Ok...
— Talvez você esteja tendo esses pesadelos porque… — Lily pergunta após um minuto de silêncio.
— Lilian, por favor.
— Ok. Desculpe.
— Tudo bem.
Ele coloca a mão em cima da coxa dela e faz um carinho, depois James se levanta e vai em direção ao banheiro para clarear os pensamentos. Ele infelizmente se lembrava sim do que havia sonhado, as memórias de momentos quando morava no Rio de Janeiro sempre o assombravam.
***
— Você vai adorar Alice. Ela veio de Cascavel para ser atriz e acabou de fazer um comercial de papel toalha. — Lily disse quando mais tarde naquele dia, já em Porto Alegre, subiam os degraus da frente de uma enorme casa.
— Uau!
A porta estava aberta e uma grande confraternização acontecia na casa e no enorme jardim.
— Lily! — uma moça de calça boca de sino e uma regata amarela grita feliz ao encontrar a ruiva e elas se abraçam.
— Oi, Lice!
— Esse é ele? — ela pergunta sorrindo e aponta discretamente para James enquanto se abraçavam.
— Sim, Lice. Esse é o James.
James aperta a mão de Alice com um sorriso tímido.
— Oi, muito prazer. Obrigado por nos receber — responde de maneira cordial.
— Sim! Essa casa é incrível. Você mora aqui? — Lily confirma e aponta para tudo em volta.
— É quase isso. É de Frank Longbottom, um diretor de sucesso e meu namorado.
— Oh, uau!
— Vocês querem beber alguma coisa? — Alice pergunta quando percebe que nenhum deles tem um copo na mão.
— Eu pego, pode deixar — James se afasta.
— Obrigada.
— Amiga, que cavalheiro. Me fala dele…
— Eu nem sei o que dizer. Tudo é tão novo... Estamos viajando há dias, mas eu não sei mais sobre ele agora do que sabia quando nos conhecemos. Ele vai visitar alguém amanhã enquanto faço a audição, mas ele não me diz quem é.
— Você acha que é uma garota? — Alice pergunta desconfiada.
— Não, não. Não é isso. É só que ele acabou de voltar do Rio e acho que aconteceu alguma coisa a respeito de... você sabe. Então ele está lidando com alguma coisa, mas ele não conversa comigo sobre isso. E eu queria que ele dividisse isso comigo.
— Você está realmente afim desse cara não está, Lily?
— É.... Eu só quero estar onde ele está. Mas também queria que ele fosse mais aberto comigo — nesse momento James volta e entrega um copo de champagne para Lily.
Um estampido alto se faz presente no ambiente, James fica tenso e joga o corpo na frente de Lily, como que para protegê-la de uma ameaça.
— Foi só a rolha do champagne — ela diz com voz doce, percebe que ele pensou que era o barulho de um revólver — Você está bem?
— Sim, desculpe...
06 de junho de 1981
Um dos dois homens sentados na sala da gravadora usava bigode e camisa social de tom alaranjado. O outro, que estava de pé ouvia atentamente a demo gravada por Lilian. Ela estava sentada de frente para uma mesa, mexia as mãos de maneira ansiosa e se sentia tensa por sentir o peso do seu futuro naquele momento.
— Bom material, muito bom. É lindo — o segundo homem que estava na escrivaninha diz quando a gravação termina.
— Sério? Obrigada.
— Obrigado por você ter vindo — diz o outro, de camisa laranja.
— Então…? — pergunta Lilian incerta.
— Mantenha contato, deixe-nos saber sobre o que estiver fazendo.
— Ok, obrigada pelo tempo de vocês.
Ela se levanta, aperta a mão de ambos e vai em direção a porta, mas se vira quando coloca a mão na maçaneta para abri-la.
— Desculpe. Mas vocês podem ser um pouco mais específicos sobre a opinião de vocês?
— Como assim? — pergunta o homem que estava sentado.
— "Mantenha contato", o que isso significa?
— Avise-nos se vocês der um show e tentaremos mandar alguém te ver.
— E então?
— Mantemos contato…
— Por favor. Eu vim de muito longe. Se você puder ser apenas bem claro — havia um tom leve de desespero na voz dela.
— De onde você é? — pergunta o de bigodes
— Cascavel, Paraná.
— Bom, achamos que você é boa para Cascavel.
— Obrigada pela sua opinião.
Lilian sente seu coração virar gelo quando fecha a porta atrás de si.
***
Após deixar Lily na audiência, James dirige até uma casa em um bairro no subúrbio, ele bate na porta e uma mulher baixinha, ruiva e grávida aparece.
— Molly Prewett? — James pergunta.
Ela assente e no mesmo momento um homem aparece na porta atrás dela.
— Meu nome é James Potter, eu morava com seus irmãos e tenho algo pra você.
James entra na casa de maneira tímida para conversar com a mulher e seu marido, que se apresentou como Arthur. Haviam três pequenos garotos pela casa que brincavam animados, o casal os apresentou como William, Charlie e Percy.
— Boa parte das coisas que vivi no Rio, não foram felizes — ele começou — As minhas lembranças são sombrias. Eu não sei qual de nós três teve a ideia naquele dia de sair a noite, eu devia ter impedido. Mas acabei indo junto. Era uma noite tranquila, pelo menos eu pensávamos que estava sendo, então baixamos a guarda. Sabíamos que era perigoso, bebemos um pouco além da conta. Não tinha mais toque de recolher naquela altura, mas nós sabíamos que não era bom arriscar. Estava tarde, encontramos alguns militares. Foi tudo muito rápido, quando eu percebi eles já haviam sido levados — James estava com lágrimas nos olhos — Não sei que sorte que eu tive que me deixaram apenas com alguns hematomas. Eles nunca mais voltaram, algum tempo depois, com ajuda de alguns contatos descobri que estavam realmente mortos. Eu saí do Rio pouco tempo depois disso.
Molly chorava silenciosamente enquanto Arthur o olhava com atenção.
— Eu sei que você era a única família deles — disse para ela. — Então eu trouxe isso aqui.
James tirou de dentro do casaco uma pequena caixa de alumínio onde havia algumas fotografias de Fabian e Gideon. Desde a infância dos garotos com a irmã mais nova, Molly; dos três sobrinhos e dos dois. Algumas das fotografias, inclusive, James que havia tirado.
— Nós não tínhamos certeza do que havia acontecido, embora no fundo soubessemos — disse Molly, com lágrimas nos olhos — Obrigada por nos contar, James.
— Estamos grávidos de gêmeos — disse Arthur de repente, após um tempo em silêncio — Vão se chamar Fred Fabian e George Gideon em homenagem à eles.
***
Assim que Lily fechou a porta do carro após sentar-se no banco do carona, James perguntou:
— Como foi?
— Foi... ok. Como foi sua visita?
— Ela foi tão bem quanto possível.
Lily assente.
— Aqui é uma loucura não é? O trânsito é uma caos. Eu gosto de um lugar calmo... — ela faz uma pausa, respirando fundo — Me disseram que eu sou boa para Cascavel. O que eu decidi levar como um elogio.
James segura a mão dela.
— Posso ouvir a música?
— Eu acho que já cantei demais hoje.
— Lils, por favor.
— Lils? Ninguém nunca me chamou assim. Eu gostei — ela sorri.
“De tanto leva frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furar
Lily percebe pelos movimentos do corpo de James quando ele virou completamente para a janela, que ele estava chorando. Por um momento ela para de cantar e pensa em falar alguma coisa, mas coloca a mão sobre a dele e continua.
Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver
(...)”
Ele olha pro lado e começa a chorar. Quando ela percebe ela para de cantar um pouco, mas depois volta. Ela segura a mão dele.
— Eu não consigo falar sobre isso. Tudo que eu vi, as pessoas que eu perdi... Eu não… — ele diz depois de alguns minutos em silêncio, quando consegue parar de chorar — Eu não quero trazer aquela parte da minha vida para isso. Com você.
— Vamos voltar para casa?
— Ok.
***
— Eu acho que a sua música ficaria boa como um dueto — James diz após algumas horas, enquanto dirigia.
— Não sabia que você entendia de música — ela responde, em tom doce.
— Eu era cantor no Rio de Janeiro, mas comecei a perder muitos amigos. Quando voltei, Sirius me ofereceu uma vaga para cantar, não para ser barman. Mas tudo se tornou doloroso demais.
Lily sorriu sincera.
— Você cantaria comigo?
— Eu acho que você é a melhor pessoa para me ajudar a ressignificar a música.
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