Frames do Destino
6 Departamento dos corações torturados
Notas iniciais

Dezembro de 2008, depois do Grande Colapso.
A CAMPAINHA TOCOU duas vezes seguidas. Pamela, que escovava os cabelos ruivos diante da penteadeira do quarto, suspirou fundo e amarrou o laço de forma frouxa antes de descer as escadas.
Ao abrir a porta, não havia sinal de ninguém. No chão, porém, repousava um vaso repleto de rosas vermelhas, intensamente perfumadas.
“Rosas para a mais bela do jardim. De alguém que te admira muito e que não perde um momento seu na TV.”
Pamela sorriu de forma involuntária ao ler o bilhete e inspirou profundamente o aroma do presente antes de entrar novamente em casa.
Seria de Eddie Kaspbrak? Não. A mãe dele jamais o deixaria gastar tanto dinheiro com aquilo — além de odiá-la. E também Sonya surtaria se o visse colhendo flores por aí, por causa das inúmeras alergias. Então, quem mais no bairro poderia ser?
Ela seguiu até a sala e colocou as rosas sobre a mesinha de centro, admirando-as por um instante.
— O que é isso? Presente de algum admirador secreto? — perguntou Helene, encostada no batente do arco que separava a sala de estar do corredor que levava às escadas e à sala de jantar, no outro cômodo.
— O quê? Nada. Não tem nada aqui — Pam justificou, colocando-se à frente do vaso.
— Sério? Consigo ver e sentir o perfume das flores daqui.
Pamela se encolheu.
— Ei, está tudo bem, não estou brava — Helene riu, aproximando-se. — Também já destruí muitos corações de jovens rapazes na sua idade, sabia? — disse, passando o indicador e o polegar pelo queixo da filha, que sorriu em resposta. — E você é muito linda, sabia disso?
Pamela, então, cedeu e saiu da frente do presente.
— Rosas — comentou Helene, assumindo um tom quase profissional. — Seja quem for esse rapaz, ele tem um gosto impecável. Rosas vermelhas, frescas, bem cuidadas… escolhidas por alguém que entende de impacto visual e simbolismo. Apesar disso, é um tanto monossilábico com as palavras. Poderia, no mínimo, ter se esforçado para escrever um poema ou até um haicai — completou, analisando o bilhete. — Mas o que importa é a intenção. Faz ideia de quem possa ser?
— Na verdade, não. A única pessoa que cogitei… não teria como enviar isso.
— Se quiser, posso verificar pelas câmeras de segurança.
— Não precisa, mãe. Se a pessoa quiser que eu descubra, vai mandar outro presente… ou aparecer pessoalmente.
Helene tombou a cabeça para trás e riu.
— Adoro o seu otimismo em relação ao sexo masculino, querida. Mas acredite: você ainda vai descobrir que homens podem ser bem… decepcionantes — concluiu, balançando a cabeça em reprovação. — Mas sinto saudades do meu lado romântico, daquele que enxergava o mundo através de uma lente cor-de-rosa, como você agora… como eu mesma enxergava quando conheci seu pai. A minha mãe… — fez uma breve pausa. — dizia que via esperança nos mais jovens justamente por causa disso.
Helene suspirou fundo, olhando para um ponto distante do piso. Pamela a abraçou com força.
— Eu também sinto muita saudade da vovó.
— Oh, meu amor… — Helene retribuiu o abraço com a mesma intensidade. Ficaram assim por um tempo até que, aos poucos, Helene ergueu o olhar e pousou-o com carinho sobre o piano preto no canto da sala, próximo à lareira.
— Sabe — disse, quando desfizeram o abraço —, minha mãe amava o Natal. Todos os anos, ela me colocava para tocar “Silent Night, Holy Night” ali naquele piano…
Pamela acompanhou o olhar da mãe, observando o instrumento com atenção.
— Você sabe tocar piano, Pam?
A menina negou com a cabeça.
— Meu Deus… acho que ficamos tão presos à televisão, e você passava tanto tempo a mais com a Ruth do que aqui… não acredito que nunca te ensinamos.
— Está tudo bem, mãe. Você não tem culpa disso.
Helene continuou olhando para o piano por mais alguns segundos, como se tomasse uma decisão silenciosa.
— Venha. Nunca é tarde para aprender.
Pamela arqueou uma sobrancelha, confusa.
— Eu vou te ensinar a tocar, querida — explicou Helene com um sorriso suave.
Ela se sentou no banco e puxou Pamela para perto, posicionando cuidadosamente os dedos da filha sobre as teclas.
— Não precisa ter pressa — disse com paciência. — Piano é sobre sentir, não apenas tocar.
Helene pressionou algumas teclas, criando uma melodia simples e suave. Pamela imitou os movimentos com cuidado, errando aqui e ali, mas rindo a cada nota fora do lugar.
— Viu? — Helene sorriu. — Já está tocando.
E, aos poucos, entre risadas tímidas e notas hesitantes, a sala se encheu de música, memória e afeto — como se, por um instante, o espírito do Natal tivesse voltado a morar ali. Como se o espírito de Sylvia Beesly os velasse.
[...]
Pamela suspirou:
— Estou começando a sentir a sua falta, mãe…
E voltou a dedilhar as teclas do piano com extremo cuidado, tocando as notas do refrão de “Silent Night, Holy Night” de Frank Sinatra enquanto cantarolava a melodia em voz baixa.
“Noite silenciosa, noite santa
Tudo está calmo, tudo resplandece
Ao redor da Virgem, Mãe e Filho
Santo Infante, tão terno e suave
Dorme em paz celestial
Dorme em paz celestial”
Ao fundo, o som do freio de mão de um carro estacionando chamou sua atenção. Ela olhou pela janela e viu Jim descendo do veículo, acompanhado de Michael e Kelly. Sorriu, reconhecendo-os, e continuou a cantar enquanto os observava conversando em voz baixa e retirando alguns equipamentos do porta-malas.
Foi então que uma ideia lhe ocorreu. Pamela interrompeu a música por um instante, pegou seu bloquinho de anotações e registrou rapidamente a inspiração em palavras-chave. Em seguida, voltou ao piano, retomando a melodia como se nunca tivesse parado.
“Noite silenciosa, noite santa
Pastores tremem ao ver
Glórias descem do Céu distante
Coros celestiais cantam: “Aleluia!”
Cristo, o Salvador, nasceu!
Cristo, o Salvador, nasceu
Noite silenciosa, noite santa!
Filho de pura luz de Deus, o amor
vigas radiante do Tua santa face
Com a aurora da graça redentora
Jesus Senhor, no Teu nascimento
Jesus Senhor, no Teu nascimento”
A última nota ecoou suavemente pela sala no exato momento em que a campainha tocou. Pamela sorriu, fechou o piano com cuidado, ajeitou a barra do vestido rosa e caminhou até a porta.
— Boa tarde, Pam — cumprimentou Jim.
— Boa tarde — respondeu ela, sorrindo.
— É aqui que você pediu um serviço de instalação de enfeites de Natal?
Pam sorriu de leve em resposta, observando o rosto tranquilo e animado de Jim, enquanto ainda sentia o frio das teclas adormecendo a ponta dos dedos.
Na garagem, todas as caixas estavam cuidadosamente empilhadas, envoltas em plástico-bolha que estalava a cada toque. Pamela abriu a primeira, revelando bolas de Natal, laços e pequenos enfeites cintilantes, enquanto combinavam a divisão do trabalho. Jim e Michael ficariam responsáveis pelas luzes do lado de fora, passando os fios pelo beiral do telhado e contornando as janelas, enquanto Kelly ajudaria Pamela a montar as árvores e distribuir os enfeites pela sala.
Dentro de casa, Pamela e Kelly montaram as árvores com calma, separando as decorações por cores e tamanhos. O cheiro de pinho artificial misturava-se ao som distante das vozes de Jim e Michael do lado de fora, interrompido ocasionalmente pelo clique das luzes sendo testadas. Cada caixa aberta revelava um novo detalhe — estrelas, sinos, pequenos anjos — todos cuidadosamente escolhidos por Pamela.
Quando chegou a vez de posicionar o quebra-nozes na frente da casa, Pamela saiu com cuidado, segurando a peça entre as mãos. Ao ver Jim ajustando as últimas luzes, ela respirou fundo
— Você e o Michael foram bem rápidos! — Pam colocou as mãos na cintura, admirando as luzes já acesas. — Ficou muito bonito.
— Anos de prática — Jim respondeu, piscando para ela.
— Alguém tem alguma notícia da Hedda? Ela está melhor?
— Parece que ainda vai ficar alguns dias internada, em observação. Aquele desmaio serviu como um aviso de que o coração dela está muito fraco. Os médicos dizem que ela só deve ter alta, provavelmente, no Ano-Novo.
— Que pena… — comentou Pam, com genuína preocupação.
— É, parece que a derrota foi coisa demais pra ela — acrescentou Kelly.
— Mas e agora? — Pam continuou. — Quem vai me ajudar a organizar o evento dos bonecos de neve?
— Angela Martin — respondeu Michael, de forma simples.
— Angela Martin? — Pamela franziu o cenho. — Quem é Angela Martin?
— Namorada do Dwight — explicou Jim.
— O Dwight tem namorada?!
— Sim, na verdade, ela já é quase praticamente esposa dela e é bem bonita! — completou Michael. — Por favor, não digam à Holly que eu disse isso.
— O quê?!
— Garota, eu tive a exata mesma reação — disse Kelly, entre gargalhadas, enquanto passava um pano para tirar a poeira do quebra-nozes.
— Como ela é?
— Ela trabalha no mesmo escritório do Dwight. Ouvi dizer que é a chefe do departamento de contabilidade da Dunder Mifflin Scranton. Parece que eles se aproximaram durante um trabalho importante para a prefeitura e, desde então, não se largaram mais. — respondeu Jim. — Dizem que são almas gêmeas.
— Bom, vou tentar ver pelo lado possível — Pam tentou ser positiva. — Lidar com a Hedda Schrute deve ser bem complicado e exaustivo. Talvez essa Angela seja mais comprometida e profissional. Acho que dei sorte.
— É, querida… não, não — interrompeu Kelly, erguendo a mão. — Por favor, não se iluda tanto.
— Ué, por quê?
— Bem, como você acha que ela se dá tão bem com o Dwight e com aquela sogra mala?
— Porque eles se amam, e o amor supera qualquer coisa.
— Isso foi fofo. Uma citação digna de Shakespeare — Kelly sorriu de lado —, mas não. Eles se suportam porque são igualmente insuportáveis. Capiche? — concluiu, piscando no final.
— Droga!
— Acalme-se, não desanime ainda, raio de sol. — pediu Jim. — Talvez vocês se deem bem logo de cara e superem as expectativas.
— Ou você se afogará nessa tempestade de Dwight e companhia de vez. — complementou Kelly.
— Pelo apoio, Kapoor. — debochou Michael.
Algo vibrou no bolso da blusa de frio. Pamela puxou o celular e viu um número desconhecido no visor, que o aplicativo logo identificou: Angela Martin.
— Passaram o meu número pra ela? — perguntou Pam, surpresa.
— Não — respondeu Jim de imediato.
Kelly também negou com a cabeça.
— Ela é uma feiticeira! — interveio Michael, em tom conspiratório. — Teve seus próprios meios para conseguir. Ou ameaçou alguém. O que ela tem de bonita, tem de durona. Boa sorte.
— Obrigada.
Ela se afastou um pouco e entrou no cômodo ao lado, parando perto da lareira antes de atender.
— Boa tarde — disse Pamela.
— Boa tarde, Pamela. Sei que ainda não nos conhecemos pessoalmente, mas sou Angela Martin, noiva do Dwight e nora da Hedda.
— Sim, ouvi falarem de você.
— Imagino. Bem, como deve saber, minha sogra não estará em condições de ajudar na organização do desfile. Deixar tudo sob sua responsabilidade a está deixando mais… ansiosa do que o médico recomendou. Por isso, estou disposta a trabalharmos juntas para organizar o que falta o mais rápido possível e garantir um bom desfile.
— Acho uma boa ideia.
— Ótimo. Que horas podemos nos encontrar para uma reunião? Hoje à noite não posso; tenho um amigo secreto da igreja.
— Que tal amanhã, pelas sete e pouco?
— Sete e pouco? — Angela repetiu, num tom levemente incrédulo. Pamela teve certeza de que, do outro lado da linha, vinha um olhar de julgamento (mesmo sem nunca ter visto o rosto daquela mulher).
— É… ou lá pelas oito, se for melhor pra você.
— Por mim, “lá pelas oito” parece um bom horário. Dá tempo de eu acordar, fazer minhas atividades atléticas matinais e me alimentar adequadamente. Espero você aqui, na casa do meu Dwight.
— Sim, combinado.
— Ok, até mais, srta. “lá pelas oito” — disse Angela, antes de desligar.
Pamela revirou os olhos.
— Por que ninguém em Scranton consegue ser minimamente normal? — resmungou.
— Está tudo pronto lá fora — informou Jim, entrando na sala. — Deu tudo certo com a Angela?
— Digamos que sim.
— Ótimo. Venha, o Michael já está se preparando para acender tudo — disse ele, pegando sua mão e guiando-a com calma até a frente da residência Beesly. — Tudo pronto, Michael?
— Sim, só um minuto — respondeu Michael, enquanto terminava de esticar as extensões e murmurava uma pequena prece, na tentativa de evitar qualquer curto-circuito fatal. Em seguida, ligou tudo de uma vez.
A casa explodiu em um verdadeiro espetáculo de luzes. Pamela fechou os olhos por um instante e os abriu lentamente, deixando que se acostumassem à intensidade da iluminação. Os enfeites percorriam as paredes brancas até o telhado achatado. Na varanda principal, havia luzes até no quebra-nozes, e no jardim, em meio à neve artificial — ainda que gelada —, estavam as sete renas do Papai Noel, acompanhadas do bom velhinho em um trenó minúsculo e aberto, sorrindo e acenando, enquanto um baixo som de sua clássica risada ecoava em um looping programado a cada cinco segundos.
Jim aproveitou o momento para passar o braço esquerdo pelos ombros de Pam, repousando-o com naturalidade.
— Ficou incrível. Sério, muito obrigada, gente — disse Pamela, emocionada.
— Disponha — respondeu Michael, orgulhoso.
— Acho que agora você pode anular ou pelo menos reduzir algumas multas dela, não é, sr. Halpert? — cobrou Kelly, de braços cruzados e encarando Jim.
— Talvez. Mas vamos precisar consultar o departamento de contabilidade do conselho primeiro.
— Alguém já te disse que você está passando tempo demais com o sr. cabeça-dura Schrute?
Jim riu do comentário.
— Acredite, eu sei disso… e isso me assusta.
Pam sorriu antes de completar:
— Então, querem ficar para jantar? Posso pedir uma pizza e uns baldes de frango frito pra gente.
— Não posso — disse Michael. — Tenho que ajudar a Holly com as degustações das novas receitas… excêntricas… que ela e as crianças estão preparando. Pobre de mim… — completou, deixando transparecer um leve desconforto no rosto. — E meu intestino ainda não se recuperou daquelas pimentas nepalesas…
— E eu preciso polir meu troféu até a perfeição e encontrar o lugar ideal na sala para colocá-lo — acrescentou Kelly. — Mas muito obrigada pelo convite, sério. Talvez outro dia.
— Sim, de verdade, Pamela. Aceitaremos sua oferta com muito gosto em outra ocasião — reforçou Michael. — Mas tenho certeza de que o sr. presidente aqui — disse, tocando o ombro do amigo — vai ter enorme prazer em lhe fazer companhia nessa noite fria.
— Exatamente — concordou Kelly, com um sorriso cúmplice.
— Você está bem com isso, Jim? — perguntou Pam.
— Claro. Existe uma nova pizzaria na cidade, Alfred’s Firestone Pizza. Ela abriu no lugar da Alfredo’s Pizza Cafe, depois que o estabelecimento faliu por causa daquele incêndio criminoso, agora sob nova direção. Dizem que as pizzas são tão deliciosas quanto antes. E, por favor, não confunda com Pizza by Alfredo — declarou, enfático.
Pamela riu junto com ele.
— Nem me lembre daquela pizza azeda. Fiquei dois dias com infecção estomacal por causa da confusão do Dwight. — Depois, encarou os próprios pés. — Meu pai trabalhava como gerente da Alfredo’s. Ele ficou sem chão após o incêndio… estava prestes a comprar a pizzaria. Acho que isso acabou deixando o coração dele mais fraco, e foi por isso que sofreu um infarto…
— Meus sentimentos, amiga — disse Kelly, tocando seu ombro.
— Meus sentimentos, raio de sol — disse Jim.
— Valeu, pessoal. — A ex-atriz sorriu fraco.
— Meus sentimentos, Pam. Mas, bom, já que está tudo certo — começou Michael —, vamos indo então. Quer carona, Kelly?
— Adoraria.
— Mas sua casa é só duas casas daqui — observou Pam.
— Menina, mal dormi essa noite por causa da competição de biscoitos, esqueceu? E você ainda me fez trabalhar tanto hoje. Estou exausta! — justificou-se Kelly, rindo, enquanto entrava no carro de Michael.
Pouco depois, os dois desapareceram na esquina.
— Parece que sobrou só nós dois. — afirmou o homem.
— Fique à vontade, a casa é sua. Vou pegar o número da pizzaria.
[...]
— Peraí… o nome de solteiro do seu pai era De Luca? — comentou Jim, incrédulo, enquanto pegava mais um pedaço de frango frito. — Foi ele quem adotou o sobrenome da família da Helene quando se casaram?
— Foi — respondeu Pamela, dando um gole na taça de vinho branco. — Minha mãe dizia que a família dele tinha alguns problemas com a lei, se é que você me entende. Coisas do passado, envolvendo alguns irmãos do meu pai que saíram da linha. Já os Beesly, aqui em Scranton, sempre tiveram uma reputação… impecável. Tão limpa que dava pra usar como filtro de Brita, como a minha vó Sylvia costumava dizer.
— Ainda bem. Pamela De Luca não soa tão forte quanto Pamela Beesly.
— Pois é. Tanto a reputação quanto a sonoridade do Beesly foram bem pensadas, especialmente pra ajudar a ganhar papéis na TV. Sabia que meu nome do meio é Morgan? A gente sempre ignorou isso. Ideia do meu pai, que quis homenagear uma antiga professora da faculdade.
— Caramba… jamais imaginaria.
— Sinta-se honrado. Você é um dos poucos que sabem disso, além dos meus pais, empresários e dos meus fãs mais assíduos.
— Estou me sentindo muito especial agora. Obrigado.
Os dois estavam sentados de lado no sofá, mantendo contato visual, confortáveis naquela proximidade silenciosa. Sobre a mesinha de centro, havia uma caixa de pizza quatro queijos aberta pela metade, dois baldes médios de frango frito e duas garrafas de vinho quase vazias.
Jim observou a sala com atenção e percebeu que, perto do piano, havia uma pequena mesa preta e compacta. Sobre ela, repousava um vaso com rosas vermelhas, intensamente perfumadas.
Ele deu um gole no vinho e riu baixinho.
— Algum problema? — perguntou Pam, mordendo uma fatia de pizza.
— Você ainda as tem? — disse ele, referindo-se às flores.
— Ah, sim. O bom de serem artificiais é que, mesmo depois de quase duas décadas, continuam tão lindas e vivas. Até minha mãe, que era bem exigente, gostou delas na época.
— Elas parecem ter um apego emocional muito forte pra você.
— E têm… — Pamela suspirou, com um quê de tristeza.
— O que foi?
— Nada. É só que, até hoje, fico triste por nunca ter descoberto quem foi o tal admirador secreto que me deu as rosas. Por favor, não ria, mas quando as recebi, achei que finalmente minha alma gêmea tinha batido à porta. Esperei por dias que a pessoa criasse coragem e se revelasse… mas esse dia nunca veio.
— Você nunca teve nenhum palpite de quem fosse?
— Achei que fosse o Eddie, meu namoradinho da época. Cheguei a perguntar, mas ele negou. E, no fundo, eu sabia que não era ele.
— E ele não ficou bravo com a ideia de outro cara dar em cima da namoradinha dele?
— Não. Acho que sempre fomos… mornos. Ele fingiu ciúme, mas era mentira. Não sei explicar, só não via sinceridade ali — A ex-atriz suspirou novamente. — Relacionamentos românticos sempre foram tão complicados…
— Sei bem o que você quer dizer com isso. — confessou Jim.
Pam respirou fundo antes de continuar.
— Não sei se você sabe, mas eu já fui noiva. Fiquei oito anos com o Roy Anderson. Sim, ele me enrolou por todo esse tempo. Morávamos juntos, tínhamos conta conjunta, levávamos uma vida praticamente de casados… mas eu nunca entrei de branco numa igreja. Nunca tive a festa dos meus sonhos, e isso sempre me entristeceu, porque era algo importante pra mim. Também nunca chegamos sequer a falar, em voz alta, sobre ter filhos. Ele era… infantil. Quando não estava trabalhando, estava jogando videogame com os amigos. Tudo parecia ser mais importante pra ele do que eu.
Ela fez uma pausa, engolindo em seco.
— Teve um Natal em que ele me deixou sozinha com a família dele para ir a um show de rock de uma banda de amigos da adolescência. E toda a família dele ficou me olhando como se eu fosse um fracasso. Aquilo me machucou profundamente… mas ele nunca quis me ouvir.
— Um idiota preso na adolescência! — comentou Jim, sem hesitar.
— Exatamente. Nos Natais e aniversários, eu fazia surpresas, comprava presentes, dizia que o amava. Ele nunca me disse um “eu te amo” de volta. Nunca me deu um presente sequer. Nunca teve consideração por mim — Pam rodou a taça, observando o líquido vermelho descer no cristal, antes de dar um longo gole e continuar: — Pelo menos, não na mesma intensidade que eu tinha por ele. A gota d’água veio alguns meses antes da minha mãe falecer. Ele não queria ficar por aqui, dizia que Scranton era ultrapassada, cheia de costumes antigos e pessoas pobres, nada comparável às mansões luxuosas de Beverly Hills, onde ele cresceu. Tivemos uma briga horrível. Eu queria conversar sobre meus sentimentos, mas ele simplesmente não se importava… até que descobri que ele tinha me dado um golpe.
— O quê? Que cretino!
— Pois é. Eu pagava o apartamento em que morávamos. Quando chegou a hora de renovar o contrato, tive alguns problemas na empresa, minha chefe me fez trabalhar horas extras, e pedi pra ele resolver isso. Confiei nele. Fui burra.
— Por favor, não diga isso — Jim a interrompeu com suavidade. — Não foi sua culpa. Você confiava nele.
— Sim… e o que ele fez? Tirou meu nome do contrato e colocou o dele. Ainda bem que eu tinha essa casa dos meus avós. Se não, estaria até hoje pagando um aluguel caríssimo num cubículo em Marte — Ela suspirou fundo. — Eu tinha tanto potencial, Jim, e sinto que minha vida estagnou. Não consigo nem chamar a atenção da minha chefe pros meus talentos; ela acha que sou só mais uma na multidão.
Pam inclinou a cabeça para trás, piscando rápido para segurar as lágrimas.
— Eu sou um belo desastre escrito em linhas tortas.
Jim se aproximou e pousou as mãos com cuidado sobre os ombros dela.
— Ei, não fale assim. Você é incrível, Pam. A mulher mais incrível que tive o prazer de conhecer — disse com sinceridade. — E, sabe… a vida também não foi nada gentil comigo quando o assunto é amor — começou Jim. — Minha ex-esposa, Karen Filippelli… acho que você chegou a conhecê-la uma vez, quando veio passar as férias aqui, na época em que eu tinha acabado de começar a faculdade. No início, a gente se dava muito bem, apesar das diferenças. Ela era séria, eu mais brincalhão… mestre em pegadinhas, principalmente com o Dwight.
— Impressionante como ele sempre caía em todas e se estressava tão fácil!
— Acredite, até hoje ele é assim. Um verdadeiro poço de paciência! — ironizou Jim antes de continuar. — Mas, voltando… éramos como opostos que se atraem. — Ele deu um longo gole no vinho. — Só que tudo começou a desandar depois de um ano de casamento. Ela queria coisas caras, um padrão de vida ao qual sempre esteve acostumada por causa dos pais ricos. Era uma patricinha convicta quando nos conhecemos — Respirou fundo. Jim parecia se lembrar das péssimas atitudes de sua ex-esposa. — Uma verdadeira Regina George da vida. Participava da fraternidade Zeta Alpha Zeta na faculdade, cheia de loiras ricas e obcecadas por aparência. Meus amigos diziam que eu era um cara de muita sorte. E, no começo, ela parecia bem com tudo isso. A gente acreditava que o amor superaria qualquer coisa. Éramos jovens, intensos…
— Estou sentindo que vem um “mas” aí — deduziu a ruiva. O homem assentiu.
— Tudo em Scranton nunca parecia ser suficiente pra ela. Achava nossas tradições e crenças bobas. Para ela, Natal era só mais um dia do ano: peru, sobremesas e parentes insuportáveis. Detestava esse lance de associações comunitárias e me julgou muito quando assumi a presidência. Ela até jogou fora o smoking novinho que comprei apenas paras aquela ocasião.
— Lamento por isso.
— Aí, um dia, ela engravidou. E tudo parecia que finalmente ia melhorar. Compramos berço, roupinhas, arrumamos o quarto… seria um menino. Jason Clay Halpert. Estava tudo pronto. Mas ela teve um pico de pressão alta e perdeu o bebê. — A voz de Jim falhou por um instante. — Entramos numa depressão profunda. A casa perdeu as cores. A vida também.
Pam o abraçou com força. Ele retribuiu, sentindo o perfume doce de morango que vinha dela.
— Obrigado — murmurou ele, antes de continuar. — Depois disso, ela começou a dizer que eu tinha estragado a vida dela, que a tinha prendido aqui. Que poderia ter sido uma grande juíza, que não suportava mais me ver. Passava horas extras no trabalho só para não voltar pra casa. Aquilo era insuportável. Até que, numa manhã qualquer, sentados à mesa do café em uma guerra silenciosa, ela propôs o divórcio. Eu aceitei. Ela nem cogitou terapia de casal, nem quis conversar. Apenas aceitou… e começou a listar tudo o que queria no acordo. Tudo financeiro.
Jim suspirou fundo.
— O amor é uma droga, Pam.
— É… uma droga — concordou Pamela, deixando as lágrimas escaparem. — Minha mãe estava certa. Pelo menos você vestiu um terno de noivo e entrou numa igreja. Eu nunca sequer tive isso… e acho que nunca vou ter.
— Ei, não pense assim. Por favor, raio de sol.
— Meu tempo já passou, Jim. Estou velha demais… ninguém mais vai me querer.
— Você ainda é tão jovem e bonita — disse ele com suavidade. — Eu até te emprestaria meus olhos, se pudesse, só pra você enxergar isso.
Pam deu mais um gole no vinho, desviou o olhar e corou levemente.
— Olha, chega desse clima deprê. Que tal a gente se divertir como nos velhos tempos?
— Tipo ir ao Poor Richard’s Pub e dançar de forma completamente desengonçada, como naquele último verão antes de todo mundo ir pra faculdade… e antes de você investir de vez em Hollywood?
— Exatamente.
— Mas nós estamos meio bêbados. Como vamos chegar lá?
— Esqueceu que agora os carros se dirigem sozinhos? Harleen é uma excelente motorista de fuga nas horas vagas.
— Isso ainda me parece imprudente e perigoso. Não somos mais adolescentes pra isso.
— Por favor, Pam, você está falando igual ao Dwight agora.
— Tá bom… — ela suspirou fundo. — Mas só por duas horas, no máximo. Amanhã tenho compromisso.
— Relaxa. Ainda nem são nove horas.
— E eu tenho que guardar toda essa comida pra não estragar.
— Eu te ajudo.
[...]
Foram até o pub com Harleen guiando o trajeto, orientando cada curva e checando o estado de saúde deles a cada cinco minutos, garantindo que, qualquer coisa, haveria uma Harleen por perto para socorrê-los.
O Poor Richard’s Pub parecia muito maior do que da última vez em que Pamela estivera ali. As paredes agora eram pintadas de marrom e preto, cobertas por grafites vibrantes e cheios de personalidade. Havia mais mesas, uma área dedicada a jogos e, no segundo andar, uma pista de dança animada, acessível por uma escada em caracol iluminada por luzes quentes.
Eles pediram bebidas leves, e Pam, sentindo-se estranhamente corajosa, arriscou alguns passos na pista. Dancing Queen, do ABBA, ecoava pelo ambiente, e ela se deixou levar pela música, sorrindo, girando, esquecendo por alguns minutos tudo o que pesava em sua cabeça.
“A noite é uma criança e a música está
Com um pouco de rock
Tudo fica bem
Você está a fim de dançar
E quando você tem a chance
Você é a rainha da dança
Jovem e meiga, apenas dezessete anos
A rainha da dança
Sinta o ritmo do pandeiro, oh, sim
Você pode dançar, você pode se esbaldar
Aproveitar o melhor momento de sua vida
Ooh, veja aquela garota, observe essa cena
Se divertindo com a rainha da dança”
Jim a observava do mesmo jeito que a via na televisão quando criança: como se ela fosse uma luz onipresente, capaz de roubar toda a atenção ao redor. Um verdadeiro raio de sol — brilhante como uma estrela de quinta grandeza, com a intensidade silenciosa do próprio Sol que os antigos humanos cultuavam.
Mais tarde, Jim a chamou para jogar sinuca, apostando alguns trocados. Foi aí que Pam percebeu que era muito pior no jogo do que se lembrava. Tinha acertado, talvez, cinco caçapas em cem tentativas — ok, um grande exagero, mas ainda assim o suficiente para rir de si mesma sem parar.
Já era quase meia-noite quando voltaram para o carro, com Harleen assumindo novamente o controle do veículo.
Jim ria, relaxado.
— Foi divertido, não foi? — comentou.
— Foi bom. Só acho que estou um pouco velha demais para esse “Jovem e meiga, apenas dezessete anos”, mas deu pra arejar a cabeça, depois de um tempo.
— Confia em mim: sempre funciona.
— Menos na parte financeira — ela provocou. — Quanto dinheiro você perdeu? Uns 150 dólares?
— Quase isso — Jim riu.
Ele reparou então no cabelo de Pam, um pouco bagunçado, e estendeu a mão para tirar um confete preso ali. Pam foi pega de surpresa; seus rostos se aproximaram mais do que o esperado. Por um instante, o mundo pareceu suspender a respiração. Logo se afastaram, ambos corados.
— Espera um minutinho — disse Jim.
— O quê? Quer perder mais dinheiro? — brincou ela.
— Não. Eu… preciso confessar uma coisa. E, se não for agora, talvez eu nunca mais tenha essa chance.
Pam engoliu em seco.
— Jim… não sei não. Você está começando a me assustar…
Jim a surpreendeu com um beijo rápido. Pamela arregalou os olhos por um instante, antes de ceder. Ele levou as mãos até as bochechas dela, acariciando-as com cuidado, enquanto Pam se deixou levar, tocando de leve os cabelos dele. Quando se afastaram, estavam ofegantes, as respirações quentes se cruzando no pequeno espaço entre eles. Jim então a fitou profundamente, mergulhando nos olhos âmbar da mulher, como se tentasse guardar aquele instante para sempre.
— Eu… eu quero ser sincero com você. Do jeito que nunca fui antes — começou Jim, a voz baixa, insegura. — Por medo. Porque, perto de você, eu sempre me senti um ninguém. Pamela Beesly… fui eu quem te enviou aquele buquê de flores quando tínhamos doze anos. E acho que, em algum momento, você deve ter desconfiado disso. A minha irmãzinha, a Larissa, falava demais…
Ele respirou fundo, tentando se recompor.
— Eu me lembro de cada palavra daquele bilhete. Você sempre fez meus dias mais felizes. E me aproximar de você agora fez com que esse amontoado de sentimentos, que deixei guardado por tanto tempo, voltasse com tudo.
As mãos dele tremiam, denunciando a ansiedade.
— Eu estou apaixonado por você.
Pam sentiu o chão desaparecer por um instante.
— O que você está fazendo? — perguntou, a voz falhando. — O que espera que eu diga agora?
— Nada… — Jim respondeu, quase num sussurro. — Eu só precisava que você soubesse.
— Eu… eu não posso… — Pam engoliu em seco. — Me desculpa.
— Tudo bem — disse Jim, forçando um pequeno sorriso. — É muita coisa. Informação demais para processar.
O silêncio se instalou, pesado.
O carro parou em frente à residência dos Halpert.
— Destino alcançado, sr. Halpert — anunciou Harleen com suavidade. — Levarei a srta. Beesly em segurança até em casa e, em seguida, retornarei com o veículo.
— Ok, sem problemas — respondeu Jim.
Ele desceu do carro sem olhar para trás.
Pamela sentiu o coração se retorcer dentro do peito, acelerado, a respiração curta, a garganta apertada pela vontade iminente de chorar.
— Precisa de alguma coisa, srta. Beesly? — perguntou Harleen.
— Não… — Pam murmurou, encarando o vazio pela janela. — Na verdade, eu nem sei o que eu realmente quero, Harleen.
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