Fragrância de Rosas
31 A Decisão mais Difícil
Notas iniciais
Passei uma noite conturbada em seus sonhos. A mensagem o alarmava. Era um sacrifício para mim, mas seria ainda maior para Yuzuhira.
Era madrugada quando despertei, e não consegui mais voltar a dormir. Tinha um pedido para Albafica e Agasha também, mas acreditava que o pedido para minha amada seria o mais difícil de entender.
Tomei um robe de seda azul marinho, vesti-o. Caminhei para as portas de vidro que davam acesso o balcão. Olhei o santuário adormecido, e soube que jamais experimentaria a calmaria de muitos que ali moravam.
As mãos frias de Yuzu me despertaram de meus pensamentos. Trouxe-a para um abraço e lágrimas venceram o meu controle.
—_ Não importa o quão difícil seja cumprir a missão nos dada, eu o farei. Nós faremos. Pois somos antes de tudo guerreiros de Atena. – Yuzu sussurrou contra o peito rígido do amado.
Afastei-me para focar os olhos da mulher, e vi que não havia dúvida e nem mágoa. Ela era perfeita para mim em todos os detalhes. Acariciei o rosto delicado de Yuzu e decidi por fim ao silêncio que vinha mantendo desde Star Hill.
Caminhamos lentamente para dentro do aposento. Sentei-me numa poltrona e trouxe-a para meu colo.
—_ A mensagem que as estrelas me mostraram era sobre a próxima Guerra Santa. Teremos a chance de derrotar definitivamente Hades, mas será preciso muitas forças atuando juntas para isso. – Tomei as mãos de Yuzu e as beijei. – Nosso herdeiro será uma peça importante para vencermos Hades.
Dei um tempo para que Yuzuhira tivesse como assimilar aquela frase. Seus olhos arregalaram quase em seguida, mas ainda em clara confusão.
—_ Um descendente nosso estará na luta daqui há 200 anos? – Ela parecia confusa, mas orgulhosa.
—_ Sim, mas não um descendente distante. Será nosso filho.
Novamente, dei o tempo que ela precisasse para compreender minha declaração.
—_ Como assim? Ele será parte lemuriano, mas isso não exigiria exatamente um sacrifício, afinal, será daqui quase dois séculos... nem eu vou estar aqui. – Yuzuhira relembrou do castigo que havia recebido de Hades ao final da batalha. Era uma mulher como outras, sem cosmo, sem sua condição especial de lemuriana.
—_ Infelizmente, ele não terá uma vida longa como a de nossos mestres, já que não somos lemurianos, e sim mestiços. E por isso ele deve ser enviado ao futuro para ser treinado como cavaleiro de ouro.
Yuzuhira finalmente havia entendido o sacrifício exigido dela. Deveria abrir mão de seu filho. Do nosso filho. Provavelmente nunca o veria novamente. Era um preço alto a se pagar pela possível derrota de Hades.
—_ Será um menino? – Yuzuhira estava com a voz embargada.
Sequei as suas lágrimas.
—_ Sim, um corajoso e forte menino. Ele enfrentará titãs com seus amigos de armadura, guiará os jovens que deterão Hades até atingirem o supremo cosmo. Será a voz calma no calor das batalhas, e sua honra por mais testada que seja jamais sucumbirá. Ele continuará o legado de ferreiro divino.
Yuzuhira ouviu tudo com pesar. Mas sempre soubemos que aquele deveria ser o caminho a seguir, uma vez que havíamos nos tornado guerreiros de Atena. Poderia não ter mais o cosmo, mas ela ainda era uma defensora.
Alguns guerreiros sangram e morrem. Eu sabia que ela sangraria a vida inteira pela perda do filho. As dores eram parecidas, mas a intensidade era diferente. Um soluço, e Yuzuhira secou o rosto com as mãos.
—_ Ajude-me a resistir, Shion. – Ela se aninhou em meus braços.
Nada falei, apenas a abracei e afaguei até que a mesma dormisse.
***
O café da manhã foi tomado no quarto, pois Yuzuhira ainda estava abalada. Enquanto comíamos, pedi que avisassem a Albafica e Agasha que precisava conversar com eles urgentemente no escritório.
E assim, pouco depois da refeição, nós, além de Teneo estavamos acomodados em poltronas, enquanto eu dava detalhes da profecia das estrelas.
—_ Eu e Yuzuhira já tomamos nossa decisão, e tendo essa visão de que nossa união foi predita, nos casaremos ainda essa semana. Quanto a vocês, meus amigos peço apenas que pensem com carinho e cautela quanto ao que revelei. O rumo da próxima guerra está e nossas mãos.
Pelas expressões de Albafica e Agasha, percebi mal podiam acreditar que um descendente deles seria um dos cavaleiros de ouro, e teria um papel importante na definição da guerra juntamente com seus amigos.
Teneo por sua vez se descobriu como o antepassado de um jovem forte e destemido, que seria parte da elite de ouro.
***
Assim, cinco dias passaram. E o casamento que deveria ser de Teneo e Melinda, passou a ser um casamento duplo, composto ainda por mim e Yuzuhira, para surpresa dos soldados e aprendizes que formavam o exército.
E para realizar a celebração, Albafica juntamente com Agasha leram os votos que foram repetidos por nós, os noivos. As noivas, em seus vestidos esvoaçantes e trabalhados em rendas e fitas estavam lindas, mas a minha Yuzuhira parecia a própria Afrodite, visto o amor que seu olhar refletia. Nada de tristeza, de pesar. Aquele dia deveria estar livre de tudo isso.
Pelos menos por um dia, pensei comigo. Já que não havia revelado toda visão das estrelas. O meu fardo era ainda mais pesado do que eles poderiam supor. Mas eu sabia que Yuzuhira já carregaria muito peso. A dor dela não era comparada a mim, pois sabia que no futuro seria o mestre de meu filho. Nem esse fato ousei comentar para não deprimir ainda mais a minha mulher.
***
Enquanto nós ficávamos no santuário, onde deviamos servir a deusa Atena, Albafica e sua esposa voltavam para suas propriedades na Itália, onde possuíam uma nova missão. Treinar Alexándros e os demais filhos que tivessem.
***
Após nove meses ansiados, nascia nosso filho amado, Mu. O bebê tinha a beleza da mãe, e até mesmo as marcas lemurianas possuía. Seus cabelos finos como os da sua mãe era de cor lavanda. Seu riso enchia-me de felicidade.
Ele ficaria por 3 anos conosco até que Chronos, o deus do tempo o enviasse para o futuro onde eu o treinaria. Sua memória seria apagada, e como seria muito novo, poderia confundir algum lapso de memória com sonhos.
E por diversas madrugadas vi Yuzuhira com o pequeno Mu no colo, enquanto o embalava e chorava. Eu me enganei. Achei que só ela sangraria pela perda. Eu também estava sangrando.
Será que um dia iríamos ficar juntos novamente? Aquela pergunta me angustiava. E durante aqueles poucos anos tudo o que fizemos foi amar o nosso filho, por mais que ele não lembrasse em breve de tudo que vivemos em família.
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