Fragrância de Rosas
21 Uma Boa Nova
Notas iniciais
#Albafica#
Era manhã, e eu me preparava para fazer a poda e limpeza do terreno das vinhas. Eu sabia que minha ‘mágica’ só poderia acontecer aos poucos. Então íamos trabalhando pelos meios convencionais. Mas claro que eu ia acelerar.
Agasha vinha em minha direção. Íamos a pé até a plantação, que não era longe. Uma carroça nos ajudaria a retirar os galhos e ervas daninha do terreno para deposita-los numa vala aonde iriam se decompor para virar uma terra bem rica.
Ela estava vestida como eu a conheci. Eram roupas de camponesa, de trabalhadora, sem nem bordado ou laço, algo simples e prático. Mas por incrível que possa parecer, ela estava tão linda assim, que não ligaria se ela se vestisse apenas de modo simples. No entanto, hoje ela trazia o cabelo com uma trança lateral que a deixava tão encantadora. Eu não entendia, mas ela estava cada dia mais linda.
Me aproximei dela, e segurei sua mão. Começamos a caminhar juntos.
__ Você está ainda mais linda. – Sussurrei em seu ouvido.
Agasha corou e me fitou um pouco sem graça. Essa inocência ela jamais perderia.
__ Obrigada, meu amor. – Dei um beijo singelo em seus lábios.
Voltamos a caminhar, e ela apertava minha mão. Eu a segurava. Ela era meu porto seguro. E eu seu alicerce.
O vinhedo estava realmente tomado por ervas daninhas. E havia tantas gavinhas passando umas sobre as outras, cresciam até o chão e se espalhavam. Mas as vinhas estavam minguando, sem viço, sem produzir frutos.
Com luvas de tecido, começamos a retirar as ervas daninha. Eram tiradas uma por uma, para não causar danos às vinhas. Logo havia um enorme monte sobre a carroça.
***
Havia passado cerca de duas horas que havíamos começado a limpar o terreno dos vinhedos quando vi Agasha se encostar-se a uma das pilastras que segurava a armação onde estavam presas as vinhas.
Ela levou as mãos a sua fronte e percebi que algo estava muito errado.
__ Giovani, continue aqui. – Chamei o servo do meu lado e me apressei para chegar até Agasha.
Rapidamente percorri o espaço que nos separava, e tirei a luva que usava. Toquei sua fronte que estava gelada. Ela se assustou e me fitou.
__ O que você está sentindo? – Segurei seu corpo pela cintura, me abaixei devagar com ela se segurando em mim. Me sentei à sombra da vinha, e a peguei no colo. – Agasha, o que você está sentindo? – fui mais enérgico.
Ela me fitou com olhos estreitos, como se a luz a irritasse. Lentamente fechou os olhos. Meu coração estava acelerado.
__ Eu estou zonza Albafica. Minha cabeça está girando. – Ela se encolheu em meu colo.
Não tive dúvida. Levantei rápido com ela no colo e fui o mais rápido para o casarão. Quando ia subir os degraus de acesso a enorme varanda, uma das servas se assustou e me alcançou.
__ Senhor, a senhor Agasha está bem? – Ela nem esperou a resposta e passou a minha frente.
Subi as escadas do andar superior e levei Agasha para nosso quarto. Lá, a mesma serva, havia arrumado a cama para deitar Agasha. Logo pegou a bacia e água que ficavam no quarto para higiene matinal, molhou um pano e começou a passar pelo rosto de Agasha.
Eu segurava a mão de Agasha que aos poucos voltou a abrir os olhos. E me chamou fracamente.
__ Albafica.
Eu apertei sua mão.
__ O que você está sentindo? Você se alimentou bem hoje, então não é fraqueja. – Falei comigo. – Dulce, traga água fresca para Agasha.
A serva apenas assentiu e saiu do quarto.
__ Você está zonza, com tontura. O que mais? – Ela mantinha os olhos estreitos. – A luz te incomoda? – Ela balançou suavemente a cabeça em resposta positiva. – Está sem febre. – Toquei-a. – Enjoo? – Ela negou.
A serva Dulce entrou carregando uma jarra de água e dois copos de cristal. Serviu um para mim, e colocou outro no criado-mudo. Servi o copo para Agasha, que precisou de minha ajuda para beber.
__ Melhor? – Agasha ia responder quando a sua mão desceu para o ventre e ela se contraiu.
Dulce correu, tomando a bacia e segurando para Agasha que retornou toda a água. Nada mais. O processo de regurgitar foi tão intenso que lágrimas desceram do rosto de minha Agasha.
__ Vou chamar um médico. – Sai do quarto e fui para a cozinha.
As duas servas estavam trabalhando, mas suas expressões eram de preocupação.
__ Senhor, o que a senhora Agasha tem? – Marieta, a mais velha das servas parou seus afazeres e me olhava compadecida.
Eu sentei numa cadeira, e suspirei confuso.
__ Ela teve uma vertigem, e agora ela regurgitou até a água que lhe demos. – Pensei um pouco, poderia ser problemas estomacais. – Um chá amargo poderia ajuda-la. – falei para mim mesmo.
__ Senhor, não dê nada a Agasha, alguns chás podem fazer a mulher perder seu bebê. – Marieta sorriu tranquila.
A fitei confuso, mas num segundo depois compreendi. Sorri abertamente. Seria possível.
__ Marieta, tem certeza disso? – Estava descrente, pois seria muita felicidade.
A serva apenas assentiu sorrindo.
__ Posso ver a senhora Agasha? – Ela perguntou de forma respeitosa.
Concordei apenas balançando a cabeça. Ela entregou a colher que mexia a panela para Lucrécia, a outra serva. Ela passou por mim e subiu as escadas. Fui atrás, estava muito atordoado com a notícia, mas queria ver o rosto de Agasha ao receber essa notícia.
Ao entrar no quarto, a serva olhava consternada para Agasha.
__ Senhora, posso perguntar algumas coisas pessoais? – Agasha acenou positivo.
A serva me fitou desconfortável.
__ O senhor não quer esperar lá fora, essa conversa não interessa muitos aos homens. – Eu senti que ela estava sem jeito de falar. E eu imaginava sobre o que.
__ Marieta, ela é minha esposa, e não tem nada mesmo sobre ela que eu não possa saber. – Sorri tentando amenizar o desconforto. – Até mesmo sobre coisas de ‘mulheres’. – Falei baixinho.
Ela virou-se para Agasha, que apenas assentiu sorrindo.
__ Não se preocupe Marieta. Pode falar.
__ O que a senhora está sentindo? _ Marieta perguntou séria.
Agasha ficou quieta por um tempo, como se listasse os sintomas.
__ Tontura, fraqueza e agora enjoo, ai que mal estar. – Agasha descansou a cabeça no travesseiro apoiado na cabeceira da cama.
Marieta sorriu contidamente e me olhou balançando a cabeça.
__ Senhora, quando foi à última vez que suas regras vieram? – A serva voltou a ficar séria, diria até ansiosa.
Agasha paralisou. Seus olhos se moviam da serva pra mim, freneticamente.
__ Foi antes de nos casarmos, Albafica. – Ela sorriu contidamente pondo a mão sobre a boca, como se não acreditasse em suas próprias palavras. – Um mês e meio.
Eu sorri. Poderia ser, mas também poderia ser um alarme falso.
__ Posso tocar seu ventre senhora? – Marieta me tirou dos devaneios.
__ Pode. – Agasha se deitou na cama, se aplumando ao colchão.
Marieta afastou o lençol que cobria Agasha. Levantou a saia do vestido, deixando o ventre de Agasha exposto. Com as duas mãos, ela passou apertar de forma leve. Alguns momentos mais, e ela parou.
__ Ainda deve ser muito recente. Mais adiante dará para saber com certeza. – Marieta sorriu para Agasha. – Senhor, deve cuidar da senhora. Pode ser falso, mas até que as regras dela venham tudo indica que seja um bebê sendo gestado.
A serva voltou a cobrir Agasha. Em seguida saiu do quarto sem mais falar. Sentei-me na cama, e segurei a mão de minha esposa.
__ Meu amor, descanse. Vou preparar algo para você se alimentar. – Levantei-me da cama e beijei a fronte de Agasha.
Ela apenas assentiu e fechou os olhos.
Desci as escadas e fui verificar o que Marieta iria preparar para o almoço. Era um ensopado de legumes e carne assada. Para Agasha sentir-se melhor, preparei um chá de funcho, quer era conhecido por sua ação calmante. Adocei com mel, e carreguei o bule com a xícara para nosso quarto.
Encontrei Agasha olhando a janela aberta no quarto. Sentei-me ao seu lado na cama, e descansei o bule e a xícara no criado mudo. Servi rapidamente e entreguei a Agasha.
__ Tome um pouco. É funcho, acalma, e vai diminuir os enjoos.
__ Obrigada! – Ela segurou a xícara e tomou um pouco. – Será que teremos um bebê mesmo?
A pergunta me pegou de surpresa. Ela estava pensando nisso.
__ Logo saberemos. Mas mesmo que não, você tem que se cuidar.
***
Um mês havia passado desde a primeira vez que Agasha havia passado mal. Cuidei pessoalmente que ela se alimentasse. Estávamos neste momento andando pelo vinhedo, vendo o progresso das vinhas, que haviam sido podadas e o terreno tinha sido limpo.
__ Agasha, vamos voltar para o casarão. O sol está muito intenso, e você não pode se descuidar. – Ela me olhou fazendo um muxoxo.
__ Está bem, meu marido. – Ela segurou minha mão.
Ao voltarmos pela trilha, Agasha segurou mais firme a minha mão e tombou para cima de mim. Segurei-a pela cintura, em seguida tomei a no colo.
Corri com ela, e a deitei na cama de nosso quarto. Marieta trouxe água e pouco conhaque para Agasha cheirar. Diziam que ajudava nos desmaios.
__ Senhor, não há mais dúvida. – Marieta me fitou feliz. – Senhora Agasha não deve fazer esforço.
Agasha abria lentamente os olhos, e vi que fez uma careta de dor quando fitou a janela. Trouxe a água fria para que ela tomasse um pouco.
__ Marieta, faça um chá de funcho para Agasha e adoce com mel. – Falei tranquilo.
A serva saiu, fechando a porta do quarto.
__ Agasha, meu amor, não temos mais que duvidar. Você está grávida mesmo. – Toquei seu ventre com leve volume. – Está tendo tantos enjoos de manhã. Depois come como se tivesse passando fome há dias. Tem tonturas e desmaios. E sei que suas regras não vieram até hoje. – Segurei sua mão. – Agora temos que nos preparar para receber nosso primeiro filho.
Agasha me fitou com os olhos brilhando e sorriso estampado. Eu a abracei e dei um beijo leve em seus lábios.
__ Agora descanse que vou cuidar de você. — Sentei-me na cama e trouxe-a para meu colo, acomodando-a confortavelmente nos meus braços. – Nossa felicidade começa a se completar.
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