Notas iniciais
Esse foi o capítulo mais esperado por mim. Primeiro pela emoção. Segundo pelas explicações. Terceiro pelo tamanho recorde do capítulo. Agradeço a todos que comentaram. Isso é um presente para mim. Até! ;-)

Acordei disposta, apesar de muito tensa. Tomei uma fruta da sacola que havia comigo e me despedi da dona da pousada. Olhar aquelas encostas rochosas e vermelhas me trazia a nostalgia como companheira. A saudade de tempos difíceis, mas felizes, deixou-me com imensa vontade de ceder o controle para as lágrimas que se acumulavam nas minhas pálpebras.

Enxuguei as lágrimas que nem haviam descido ainda pelo meu rosto. Não, minha missão era muito importante para ficar chorando por algo que não voltaria. Tomei o caminho tão conhecido para Rodório, torcia para que alguém estivesse voltando para Rodório naquele horário.

Já havia caminhado uns três quilômetros quando ouvi o bater de cascos sobre as pedras do caminho. Olhei e avistei uma carroça simples, guiada por um senhor idoso e uma mulher igualmente idosa ao seu lado.

Eles diminuíram o ritmo até ficarem ao meu lado.

__ Bom dia mocinha! – O senhor cumprimentou balançando suavemente a cabeça.

__ A menina está indo para a vila de Rodório? – a senhora sorria amistosamente.

Sorri retribuindo a gentileza.

__ Sim, estou indo. – Fitei-os. – Os senhores moram lá?

__ Moramos numa propriedade bem próxima. Estamos voltando da entrega de nossos produtos. Quer vir conosco? Se cansará menos, menina.

__ Ah, é claro que quero. – Subi rapidamente a carroça sentando entre as caixas de madeira que tinham resquícios de plantas.

Logo começamos a conversar sobre Rodório, e falei sobre onde morava sem revelar minha triste história vivida naquela vila. As pessoas tem o incrível dom de viver tragédias e com o tempo não terem mais que uma sofrida memória. Eu sabia bem desse sentimento de resiliência, o vivia constantemente.

Algum tempo depois chegamos ao entroncamento das estradas. Percebi que ali seria minha despedida.

__ Menina Agasha, seguiremos nessa estrada. – Apontou a senhora para a estrada lateral. – Esta estrada é que te leva a Rodório. Você deve ir por aqui. Está bem próxima.

Despedi-me do casal, e caminhei sentindo aquela sensação de estar sendo observada, seguida. Por isso decidi andar mais rápido, até que avistei os telhados das casas da vila.

Ao entrar na vila, senti-me arrebatada pelas memórias de oito anos atrás. A vila em mais um dia tranquilo quando fomos atacados por Minos, um dos juízes de Hades. Foi também naquele dia que vi minha vida despedaçada.

Caminhei algumas ruas até encontrar uma das escadas que dava acesso a uma velha trilha pela floresta que levava ao santuário. Era a trilha que usava quando tinha que levar flores ao Grande Mestre.

Quando comecei a subir, percebi que não era mais usada há algum tempo. Estava cheia de tijolos quebrados e muitas ervas daninhas. Então ao chegar ao final da escada, entendi a razão do abandono. Havia um buraco entre a parede por onde se erguia a escada e a encosta que levava ao santuário.

Pensei algumas vezes, calculei silenciosamente e decidi arriscar. O espaço que eu deveria cruzar era até pequeno. Corri o pequeno espaço que havia no último degrau e saltei. Consegui alcançar firmemente uma enorme rocha que estava enterrada na encosta.

Respirei aliviada. Aquela trilha me poupava alguns quilômetros de subida em ziguezague. Só algumas pessoas em Rodório sabiam deste atalho.

Como estava num terreno que ia se elevando, tive mais dificuldade para percorrê-lo. Mas logo me adequei à encosta, subindo mais rapidamente até chegar às escadas que levavam a primeira casa zodiacal já reconstruída. Quando alcancei o primeiro degrau assustei-me com a voz grave que ouviu.

__ Onde a senhorita está indo?

Ao reconhecer a armadura dourada, respirei fundo pensando como convencê-lo a me levar até o Grande Mestre. A armadura tinha chifres pequenos na região dos ombros e no elmo que ocultava um pouco o rosto.

__ Eu preciso ver o Grande Mestre Shion. – Falei firme.

__ E quem é você, senhorita? – O cavaleiro dourado perguntou um pouco debochado.

__ Sou Agasha, e preciso falar com o Grande mestre. Shion sempre me deu passagem pelo santuário. Eu era a florista na época de Sage, o antigo mestre. – Falei mais alto.

Vi um sorriso inocente se abrir na face do cavaleiro. Ele puxou o elmo e pude finalmente identifica-lo. Era Teneo, o pupilo de Hasguard, o cavaleiro de ouro de Touro.

__ Sou eu, Agasha, Teneo. – Se não fosse pelo rosto com as mesmas expressões e características, não o reconheceria.

__ Cresceu muito Teneo. – Senti os braços do cavaleiro me envolverem num doce abraço.

__ Há quanto tempo, Agasha? Você também cresceu. – Teneo me olhava com curiosidade, o que me causou um rubor nas bochechas.

__ Algum tempo. Teneo preciso ver o Grande Mestre. – Falei desconcertada.

__ Ah claro. Venha, eu te levo até ele.

Teneo me deu passagem e começamos a subir os degraus de primeira casa. Percebi que não havia nenhum cavaleiro ali e lembrei-me que Shion era o cavaleiro de Áries. Fitei-o indagando silenciosamente. Parecia que todos se perguntavam a mesma coisa.

__ Ainda temos muitas armaduras vagas. O santuário ainda levará muito tempo para superar as perdas da Guerra Santa.

__ Entendo. – Lembrei-me de Albafica.

Daquele momento em diante o silêncio reinou entre nós. Tanto Teneo com eu, tínhamos nos perdidos nas lembranças daquela época. Já estávamos em Aquário quando Teneo voltou a conversar.

__ Para onde você foi Agasha? Lembro que você vinha trazer flores para os túmulos dos cavaleiros. Cuidava especialmente do túmulo do Albafica. – Ele falava com se recordasse daqueles dias.

__ Eu fui morar numa vila perto de Agioi, na região de planaltos. Eu trabalho num campo de oliveiras. – Falei séria.

__ Nossa, viajou bastante para vir nos ver. Que bom que se lembra de nós. – Teneo parecia triste. – Aqui ficou tão solitário. Selinça casou-se e foi embora. Salo deve estar por aqui fazendo ronda, logo será sagrado cavaleiro. Mas é bom ver alguém diferente nos visitando.

Não consegui falar mais nada. Aquele sentimento de abandono e solidão eram meus companheiros constantes, mas em Mavrias consegui superar e encontrar o companheirismo com pessoas especiais. E agora havia Vince. Ou seria presente temporário para mim?

Alcançamos rapidamente a casa de Peixes. Estava novamente no seu lugar, mas vazia e fria. Apesar de sua solidão, Albafica emanava um calor, resultado de sua preocupação com os outros, que deixava tudo convidativo ali.

Passamos ao lado do jardim de rosas que estava destruído. No entanto, superando qualquer previsão, muitas roseiras vingavam sobre o terreno cheio de pedras e tijolos, demonstrando que toda a natureza tem sua forma de superar a tragédia. E lá estava um dos legados deixados por Albafica.

Ao pisarmos no pátio em frente ao salão do Grande Mestre, alguns soldados receberam as orientações sobre minha identidade, e pude finalmente voltar a aquele ambiente.

__ Agasha, aguarde aqui, que vou pedir uma audiência com o Grande Mestre. – Teneo mudou sua postura assumindo a seriedade do seu cargo.

Aguardei um bom tempo até que Teneo retornou e sorriu satisfeito. Imaginei que tivesse tido sucesso na sua solicitação. Se aproximou falando bem baixo.

__ O Grande Mestre irá te receber. Alguma serva virá te encaminhar para o salão do trono. – Teneo voltou a colocar seu elmo. – Terei que voltar ao meu posto. Boa sorte, e não se esqueça de ir me ver depois. – Teneo deu uma piscadela e sorriu travessamente.

__ Obrigado, Teneo. – Despedi-me aliviada e tensa. Aliviada por poder falar com Shion. Tensa, pois poderia descobrir coisas dolorosas.

Fiquei naqueles momentos que antecederam a audiência repassando minhas palavras e informações que tinha. Não sabia como Shion reagiria a uma intromissão como a mim, mas eu pagaria com qualquer consequência só para ter algumas perguntas respondidas.

De repente vi uma porta enorme se mover e uma serva me chamar para dentro daquele ambiente. Um longo corredor terminava no trono onde o Grande Mestre estava assentado.

Um soldado me guiou até mais próximo do Grande Mestre. Esse fez uma reverência e voltou ao seu posto na entrada do salão.

Sem usar a máscara, Shion deu um tímido sorriso para logo em seguida elevar sua voz.

__ A senhorita queria uma audiência, pois bem, em que posso ajuda-la, senhorita Agasha.

__ Grande Mestre, preciso esclarecer algumas dúvidas e informa-los sobre uma situação. Eu poderia me aproximar para não falar tão alto? – Sorri temerosa pela reação.

Shion acenou positivamente com a cabeça. Aproximei-me devagar e nervosa.

__ Vamos para o meu escritório. Poderemos conversar mais confortavelmente. – Shion via o cansaço que meu rosto transmitia.

Ele levantou e caminhou em direção à cortina do lado do trono que revelou uma porta. Eu apenas o segui silenciosamente. O único som que eu conseguia perceber era do meu coração batendo loucamente.

Era chegada a hora da verdade.

***

Depois de seguirmos por um longo corredor, Shion abriu grandes portas duplas que revelaram o escritório do Grande Mestre. As paredes em cores escuras como madeira, e cortinas longas e leves emolduravam o quadro do ambiente que incorporava também móveis de madeira maciça, assim como uma enorme estante com livros muito antigos, pelo menos era essa a impressão pelas capas envelhecidas.

No canto esquerdo havia uma grande escrivaninha com uma cadeira com encosto alto e revestido por um tecido vermelho. Alguns papéis, livros e uma caneta-tinteiro descansavam sobre o móvel.

Próximo a estante de livros, havia algumas poltronas dispostas em torno de uma mesinha de centro escura. Shion sentou-se numa das poltronas e me apontou a outra a sua frente. Caminhei rapidamente, com medo de perder os sentidos pela ansiedade.

Assim que sentei vi Shion acenar para uma serva que estava na porta. Ele fez um pedido que não consegui identificar tanto era a confusão na minha cabeça.

Shion voltou sua atenção para mim, retirando o elmo que usava. Eu devia estar pálida, pois era assim que me sentia.

__ Pela sua expressão e visita tão inesperada, suponho que seja algo muito sério.

__ Grande Mestr...

__ Shion, apenas Shion...

__ Bom, Shion, há cerca de um mês atrás, na estrada que leva a minha vila, fui abordada por um rapaz com uma aparência assustadoramente igual a um dos cavaleiros. – Nesse ponto Shion empalideceu mais do que sua pele era capaz de clarear. – Esse rapaz tinha perdido a memória e tinha apenas uma pista, deveria ir a Mavrias, que a vila em que moro. – Fiz uma pausa significativa tentando alinhar meus pensamentos em torno da história. – Eu abriguei esse rapaz em minha pequena casa, mas as coisas que se sucederam me trouxeram de volta as lembranças daquela guerra santa. Por isso estou aqui e preciso saber de algo referente ao santuário.

Shion olhou através da janela aberta ao lado dele. Seus olhos pareciam perdidos em alguma memória. Só então percebi como ele carregava uma expressão cansada, apesar da aparência jovial.

__ O que esse rapaz pode ter de comum com o santuário? – Shion me fitou novamente. Seu olhar parece responder mais do que questionar.

__ Ele consegue fazer plantas crescerem em momentos. Ele fez uma roseira brotar, crescer e florescer na minha frente. Tem sonhos quase sempre com um local sagrado, com muitas escadas e homens vestidos de dourado. Ele tem sonhos onde sempre se afasta das pessoas como se fosse envenena-los, e sonha comigo... – as lágrimas desceram pelo meu rosto.

__ Albafica! – Shion murmurou.

__ Eu preciso saber Shion. Eu preciso ter certeza de algo nessa história. Aconteceu algo de estranho nesses últimos meses aqui no santuário? – Eu quase suplicava pela resposta.

__ Melhor que palavras, será você mesma ver. – Shion se levantou, segurou meu braço.

Num segundo eu fechei meus olhos, no outro segundo eu estava na entrada do cemitério do Santuário. Olhei atordoada para Shion que se mantinha mais sério do que de costume.

__ Você sabe onde está à lápide de Albafica, vá lá. – ele me deu passagem e sai correndo.

Quando cheguei ao local fiquei estarrecida. Não era possível. O que havia acontecido? Li novamente a lápide e não tive dúvidas. Fitei Shion que havia acabado de me alcançar.

Minha expressão dizia mais do que qualquer palavra que conseguisse proferir naquele momento.

__ Tem cerca de um mês que encontramos o túmulo de Albafica assim. – Observei cada detalhe daquela cena. O túmulo estava aberto e a urna estava visível.

__ E os restos mortais? – Perguntei doendo mais que uma punhalada.

__ Vou te mostrar! – Shion apontou o dedo e a tampa da urna se mexeu.

Eu estava paralisada. Qual seria a imagem que encontraria ali? Senti meu estômago revirar e a tontura me desequilibrar. Mesmo assim não consegui deixar de fitar o caixão de Albafica.

A tampa foi completamente removida. Olhei em todos os cantos da urna. Não havia nada! Nada! Nem resquício. Aproximei e toquei o fundo da urna. Nenhuma poeira havia dentro da urna. Era como se nunca tivesse sido usada.

Olhei incrédula para Shion. O que havia acontecido ali?

__ Agasha, a única coisa que posso te afirmar é que não há qualquer sinal que mostre ter sido feito por humanos. Vim aqui logo que um abalo de terra ocorreu somente nessa região do cemitério. Os soldados estavam assustados, pois viram uma enorme luz sair do tumulo, e nada mais. – Shion estava observando a urna. – Quando cheguei aqui, removi o lacre da urna que somente o Grande Mestre pode por ou tirar, e não havia nada mais nela. Procurei a marca de peixes na urna. Era a urna que Albafica havia sido enterrado.

Fiquei emudecida ainda por mais um tempo. Shion se aproximou e tocou em meu ombro. Logo uma pergunta passou por minha cabeça.

__ Existe uma possibilidade de Albafica ter sido revivido? – Eu nem sabia mais o que pensar.

__ Houveram alguns casos em outras gerações. Cavaleiros que perderam suas vidas deixando a família que implorava por suas voltas. Nunca se provou a origem desses milagres. Mas segundo os casos que pesquisei todos tinham em comum a saudade desmedida dos familiares e a fé de que haveria uma chance para aqueles que estavam mortos. – Shion então me fitou. – Mas no caso de Albafica, não entendo quem poderia ter lamentado e pedido tanto aos deuses por sua volta, já que somente eu e Dohko sobrevivemos a aquela guerra, e Albafica era mais isolados de todos. – Shion estreitou os olhos em minha direção. – Você saberia de alguma coisa, Agasha? – Eu corei imediatamente.

__ Nãaao! – Falei desesperada.

Era mentira. Eu havia implorado e lamentado a morte de Albafica. E havia desejado com todas as minhas forças que pudesse tê-lo, pois o amava desde menina.

Seria possível que meus pedidos haviam sido mesmo atendidos? Um fato havia se confirmado: não havia restos mortais de Albafica. E aquela luz que havia retirado à urna lacrada seria de algum dos deuses?

Tudo condizia com os fatos que Vince havia me revelado. Como havia sido encontrado, suas memórias revelando fatos difíceis de compreender, exceto para os cavaleiros, poderes tão iguais ao de Albafica.

__ Pensou bem, Agasha. Teria algo para me contar? – Shion não deixava de me fitar.

__ Tenho sim. – Falei com a voz falha.

__ Certo! Vamos voltar para meu escritório. – Shion segurou meu braço e no momento posterior estávamos no escritório novamente.

__ E então, pode me contar Agasha. – Ele sentou-se na poltrona.

Sobre a mesa de centro havia um aparelho de chá sobre uma bandeja. Shion pacientemente serviu um pouco de chá para mim e depois para si. Então a minha voz voltou.

__ Shion, o rapaz que estou abrigando tem a aparência, os modos e dons de Albafica. Só não se lembra de nada, ou melhor, tem vislumbres em sonhos como te contei. – Eu tentei me recordar de mais informações. – Ah sim, ele sonha comigo ainda menina.

O silêncio se manteve no ambiente. Tomei um gole do chá, e esperei que Shion dissesse algo, mas o silêncio se manteve. De repente uma batida na porta do escritório me tirou do devaneio.

__ Entre. – Shion apenas ordenou.

Um soldado um pouco assustado entrou rápido e fez uma reverência desengonçada.

__ Grande Mestre, Teneo, o cavaleiro de ouro de Touro o aguarda acompanhado do Senhor Albafica!

Meu coração acelerou imediatamente. Fitei Shion que me devolveu o olhar preocupado.

__ Traga os aqui. – Shion deixou transparece sua tensão.

O soldado acenou concordando e saiu imediatamente. Senti o sangue correr de minhas faces, me deixando quase um fantasma. Talvez porque eu veria um fantasma.

__ Algo me diz que teremos todas as respostas para nossas indagações Agasha. – Shion fechou os olhos como se meditasse.

Notas finais
Bom leitores, quero ver os palpites de vocês. Comentem, a autora agradece imensamente. :-* SA