Fragments
1 Past and Future Fragment.I - Stars
Notas iniciais
O céu estava bastante estrelado naquela noite, e alguém o observava. A garota, de praticamente 9 anos, estava com a franja quase lhe tampando os olhos azuis. Seu cabelo ruivo-acastanhado estava curto, três dedos abaixo do ombro, embora agora estivesse decidida a deixá-lo crescer mais. Apoiava os braços na janela, enquanto seu olhar se mantinha preso aos pontos brilhantes. E o seu pensamento estava perdido muito além deles.
Isso já era até normal para ela. Chegava às vezes a acabar dormindo sentada em sua cama com os braços e a cabeça apoiada na janela, de tanto que se esquecia do mundo, e das horas. Sua mãe lhe dizia que era uma característica de pessoas inteligentes ficar tanto tempo perdida no mundo dos pensamentos. Não concordava com ela. Achava-se uma criança normal, talvez até menos.
-Alguém aqui já deveria estar dormindo. – a voz da mãe a tirou de seus devaneios
Piscou algumas vezes os olhos, um pouco confusa por ter sido tirada de seus pensamentos tão repentinamente, e voltou-se na direção dela. A mãe sentou ao seu lado e a abraçou, dando-lhe um beijo na testa. Ao ver o sorriso dela, esboçou um, embora fosse um pouco forçado.
-O que houve? – a mãe perguntou, como se intuísse o que pensava – Você está com um brilho triste nos olhos...
A garota suspirou e se recostou mais na mãe, aconchegando-se em seu abraço terno e protetor.
-Por que meus pais me abandonaram? – ela pareceu um pouco sem-graça por falar como se sua mãe adotiva não fosse verdadeiramente mãe dela – Digo, meus outros pais...
-Para começar, já te disse que não me incomodo de chamar seus pais assim. O que eu sinto por você e o que você sente por mim não vai mudar se falar isso. – houve uma breve pausa – Agora, respondendo a sua pergunta... Não acho que eles te abandonaram, Juno. Eles devem ter tido algum motivo para fazer o que fizeram.
-Mas e se não tiveram? – a garota rebateu, engolindo as lágrimas que começavam a ameaçar sair – E se eles simplesmente não me queriam?
-Bem, se esse foi o caso, cometeram um grande erro. – respondeu a mãe — Não sabem a garota maravilhosa que perderam. – ela esperou um pouco para o caso da garota querer rebater novamente, mas conhecia-a bem demais para não saber que ela guardava o que a machucava – Mas por que pensamentos tão tristes, principalmente antes de dormir? Sabe que isso prejudica o sono, certo?
-Eu sei... – disse Juno, desviando o olhar – Nem sei porque comecei a pensar nisso. Vou tentar esquecê-los.
A garota falou boa noite e saiu do abraço da mãe, ajeitando-se na cama para dormir. A última ainda olhou preocupada, mas acabou decidindo por sair. Juno não falaria mais nada, tampouco pararia de pensar no que falara há pouco. Depois de um leve suspiro, desejou-lhe boa noite, saindo do quarto. Juno, assim que ouviu a porta sendo fechada, voltou à posição que estava. Ao olhar para as estrelas, ao menos um pouco da solidão que sentia era suprimida. A verdade era que esse sentimento era o gatilho para o que pensava sobre seus pais. Se ao menos as crianças da vizinhança não a tratassem com tamanho desprezo, conseguiria conviver com o fato de ser adotada, nem se lembraria disso. Mas elas faziam questão de dizê-la que isso acontece é com pessoas cujas nem os próprios pais querem. E pensar que ela amava-os tanto, mesmo sem nem ter visto eles... Mesmo talvez essa sendo a verdade...
De repente, uma estrela cadente riscou o céu. Antes que pudesse sequer pensar, fechou os olhos e desejou uma vida nova, na qual tinha seus pais ao seu lado, além de pessoas amigas. Quando abriu-os novamente e olhou para suas companheiras brilhantes, conseguiu finalmente se sentir em paz. Sabia o que isso significava. Algum dia, seu desejo seria realizado. Mais tranquila, deitou-se em sua cama e dormiu em pouco tempo, pensando e sonhando com o que a aguardava.
Nem fazia ideia, mas as estrelas que admirava também tinham sua história, cada uma sendo um mundo. E, em um deles, alguém também as observava atentamente. O som das ondas quebrando faziam um ótimo complemento para o céu estrelado e a noite de lua cheia, deixando a noite perfeita. Ou, no caso da observadora, quase.
Uma suave brisa passou por ela, fazendo seus curtos cabelos ruivo-acastanhados se moverem, diferente dela, que estava parada no mesmo lugar já fazia quase uma hora. Seu rosto estava voltado para o céu, se perguntando em que estrela estaria aquela pessoa que tanto lhe fazia falta. Tomou um susto ao sentir alguém a abraçando por trás, mas logo se acalmou, percebendo quem era.
-Está pensando nela, não é? – ele perguntou enquanto ela se recostava em si
-Um pouco difícil não fazer isso hoje... – respondeu, respirando fundo – E pensar que 17 de setembro era para ser uma data especial...
-E é, Kairi. – o rapaz rebateu – Só não estamos juntos. Ainda. – percebendo que a ruiva não falaria nada, continuou – Como acha que ela está?
-Não sei. – um pequeno sorriso surgiu no rosto de Kairi – Como eu era aos 9 anos?
-Se ela realmente for tão parecida com você, teremos problemas. – comentou Sora, fazendo-a rir
-Desde quando você é ciumento? – ela indagou, ainda rindo
-Desde quando se trata da nossa filha. – ele respondeu, quase em tom de irritação – Além do mais, não é ciúme, é cuidado.
A ruiva ainda implicou mais com ele, ao que simplesmente foi parecendo irritado. De fato, Sora não fazia o tipo ciumento. Mas ver Kairi rindo, principalmente nesse dia, era a recompensa por tal teatro. Ao desviar o olhar para o céu, viu uma estrela cadente passando. Antes que pudesse pensar, pediu que Kairi sempre estivesse assim, rindo. E que sua filha estivesse do lado, do mesmo jeito.
Dizem que, quando desejamos algo sem pensar, é o desejo mais puro e forte de nosso coração. E dizem que, quando o fazemos para uma estrela cadente, ele se realiza.
Notas finais
Enfim, queridos leitores, espero que me apoiem nessa também, e saibam que o próximo cap de KoD sairá amanhã o/
Bjss e até o//
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