Notas iniciais
AINDA ESTOU ESCREVENDO A HISTÓRIA, ENTÃO ISSO PODE DEMORAR :)

Não era fácil, a missão de passar nove meses com Nora, enquanto ela esperava nosso filho. Eu já tinha convivido com mulheres grávidas antes, mas elas não eram minhas mulheres. Eu não precisava estar exatamente com elas, nem suportar nenhuma interminável crise de humor. A natureza humana deveria fascinar-me, mas eu posso jurar que eu estava mudando de ideia rapidamente.

Eu precisava, diariamente, reafirmar que a amava. Garantir que ela estava segura. Que nós ficaríamos juntos para sempre. E era tudo mentira, porque eu não sabia de nada. Sim, eu a amava, e talvez aquela fosse a única verdade naquele inferno. Mas, segurança? Não, eu não podia garantir que nenhum de nós estava seguro, nem mesmo nosso filho. E eu não podia garantir que ficaríamos juntos para sempre, porque aquele conceito só se aplicava a mim. Eu era eterno, eu tinha a imortalidade a meu favor. Se bem que, depois da pequena brincadeira dos Arcanjos, eu não sabia até onde minha imortalidade se estendia. Eu podia ser ferido, eu podia morrer. Mas eu sentiria os efeitos da idade?

Quando Nora me ligou aquela tarde – e foi uma péssima hora para ligar, porque eu estava jogando e estava ganhando – e disse que estava em trabalho que parto e que Vee a estava levando para o hospital, eu ergui meu olhar e agradeci aos céus por aquela bênção. Não exatamente porque eu seria pai, ou aquele blá blá blá pelo qual muita gente agradecia. Eu estava feliz simplesmente porque aquela criança sairia dela e talvez meu pesadelo acabasse.

Dirigi o Jeep o mais rápido que pude até o hospital, para encontrar Vee – e meu melhor amigo da onça Rixon – já na sala de espera, ansiosos. Nora estava com dores e contrações e foi levada para a sala de parto e, claro, ela me queria lá. Eu não poderia passar por aquilo sem ter que encarar a provação de entrar em um quarto de hospital e acompanhar o nascimento do menino. Eu não achava nada daquilo necessário, por mais glorioso que alguns pudessem considerar. Mas Vee foi enfática em afirmar que Nora me queria lá, e eu não seria louco de negar aquilo a ela. Eu não negava nada a Nora, desde que nos reencontramos, quase morremos, e passamos a viver como um casal comum. Rixon dizia que eu tinha perdido os colhões. Ah, aquilo não.

Eu já tinha me decidido, o menino não teria nome de Anjo. Eu não queria que ele atraísse mais atenção para ele; não queria ter que chamá-lo invocando Arcanjos. Nora ainda não sabia do meu sonho com Azrael, e eu não pretendia contar nunca a ela, mas Gabriel já era um nome fora de cogitação, assim como Daniel ou Mizael, nome sugerido em homenagem ao pai biológico de Nora. Eu tinha basicamente tudo sob controle, e nomes de Anjos estavam banidos.

Mas eu não estava preparado para a surpresa que o destino me preparou. Eu não estava pronto para o fato de que, quando Nora deu à luz nosso filho, e o médico ergueu a criança no ar, que chorava em alto som; que, quando ele me entregou o bebê saudável, rosado e tão pequeno que parecia poder quebrar com meu toque, ele fosse, na verdade, ela.

— É uma menina. – O médico disse, sorrindo. Nora estava ainda zonza pelo parto, sob efeito de alguns analgésicos, mas a frase também a chocou. Nunca confirmamos o sexo do bebê, mas era claro que era um menino. Os Arcanjos não deixariam furos na sua investida; eles certamente esperavam de Nora um guerreiro. E aquilo era...

— Dê-me. – Nora esticou os braços na minha direção. Eu segurava o bebê, enrolado em um manto rosa, e olhava para a pequena criatura nas minhas mãos, incrédulo. Aquela história de milagre e glória fez algum sentido quando pude, finalmente, olhar para minha filha. – Vamos, Patch, deixe-me vê-la.

Entreguei-a para Nora, e observei, por longos instantes, mãe e filha. Os Arcanjos, provavelmente, também não esperavam por aquela. Cocei o queixo com os dedos e franzi os lábios, deleitando-me com a minha família. Ah, aquele ia ser um verão muito divertido.