Fracture (sequencia De Falling)
8 06 - Capítulo bônus - Reconciliação
Notas iniciais
Decidi escrever esse capítulo, que não acrescenta NADA ao enredo da história, só por diversão. Eu li Silence em 7h, terminando essa madrugada, e estou sob efeito Patch. Quando eu pensava que ele já tinha atingido a perfeição, a tia Becca chega e me escreve Silence. Surtei.
Mas posso concordar que as similaridades são muitas, mesmo. Curioso, e eu que nem acreditava em coincidências. Será que em Finale teremos... bem, não posso adiantar nada do enredo de Fracture. Agora as coisas vão esquentar.
Espero que gostem, são 6000+ palavras de Nora sendo... Nora. E Patch sendo perfeito.
Mas posso concordar que as similaridades são muitas, mesmo. Curioso, e eu que nem acreditava em coincidências. Será que em Finale teremos... bem, não posso adiantar nada do enredo de Fracture. Agora as coisas vão esquentar.
Espero que gostem, são 6000+ palavras de Nora sendo... Nora. E Patch sendo perfeito.
Quando Vee entrou pela porta, naquela tarde, eu sabia que tinha merda acontecendo. Ela nunca chegaria sem avisar, e com aquela cara de quem tinha aprontado. Vee era previsível demais, mesmo quando ela tentava se mostrar impassível e sem emoções. Ela simplesmente não conseguia. E lá estava ela, segurando o celular com muita força nas mãos, olhando para mim com aquela cara de quem pediria desculpas depois de fazer o que pretendia. E ela deveria, considerando que fora ali para interceder por Patch.
— Você deve estar brincando comigo! — Protestei. — Ele te enfeitiçou, usou algum poder sobre você?— Não, Nora. — Vee moveu os ombros. — Eu dei ouvidos a ele porque ele mencionou aqueles arcanjos. Você sabe que tenho uma péssima impressão deles… Rixon sempre os culpa por tudo. Diz que são crueis, implacáveis; que têm mania de mandar todo mundo para o inferno. Então… se ele tem algo importante; se esse tal Rafael apareceu hoje para ele, pode ser grave.— Eu conheço Rafael. — Considerei. — É a marionete de Azrael; ele o envia quando precisa assustar Patch.— E você vai arriscar? — Vee me colocou em dúvida.— Não vou, não. — Desisti. — Fale com Patch que vou recebê-lo, e que, seja lá o que ele pretenda, eu vou ouvir apenas sobre os arcanjos. Vee sorriu e me abraçou. Havia ternura e preocupação naquele abraço, como se ela estivesse me dizendo um “se cuida”. Ela não confiava muito em Patch, assim como ninguém que eu conhecia. Só eu mesma confiava naquele vagabundo, e ele me aprontava uma daquelas. Droga, Patch! Assim que Vee saiu, dizendo que o chamaria, eu entrei meio que em parafusos. Tinha que manter minha postura cruel e distante; por nada eu podia sucumbir ao charme dele. Eu tinha certeza que ele viria com mais mentiras para mim, e eu já estava farta daquela conversa fiada. Quando ele entrou no quarto eu senti um arrepio esquisito. Por que era daquele jeito, eu nunca saberia. Patch desencadeava uma reação muito estranha em mim, e ele tinha aquele poder como se fizesse parte inerente de quem ele era. Ele era poderoso, dele emanava uma energia imensa. Era possível senti-la, se você estivesse prestando atenção. Eu sentia. Mas, apesar de tudo, naquele momento ele estava tão frágil que eu não consegui reconhecer nele o mesmo Patch mau caráter pelo qual me apaixonei.— Diga o que você quer. E depois vá embora. — Eu disparei, antes que perdesse a coragem. Ele olhou primeiro para Rose, e seus olhos pretos estavam confusos como nunca. Havia alguma coisa errada ali, talvez Vee tivesse razão. Os arcanjos o tinham perturbado o suficiente para ele engolir o orgulho e pedir ajuda. Patch não era muito auto suficiente para aquilo. — Como vocês estão? — Ele se aproximou da nossa filha, e eu pude ver que seus músculos tremiam. O que era aquilo, afinal? Patch parecia quase desesperado. Fiz um movimento que ele entenderia. Eu queria que ele a segurasse; o fato de Patch ter sido desonesto comigo não o tornava, automaticamente, um mau pai. Pelo contrário, ele estava além do conceito de bom. — Eu não estou a fim de conversar com você, Patch. Vee disse que era algo muito importante, e se ela deu algum crédito a você, talvez eu também deva. Mas é só isso… o que houve?— Eu recebi a visita de Rafael hoje. — Aquilo eu já sabia. — Ele veio me avisar que eu não posso me aproximar de você, e que… Ele me recordou que eles vêm buscar Rose. — Hoje? — Arregalei os olhos, porque a ausência de um prazo no final daquela frase me colocou em pânico instantâneo. Eles tinham avisado que Rose era deles, eu sabia. Mas eu imaginava que eles a quisessem aos dezessete, quando ela já fosse adulta, e que, até lá, ela se tornasse forte o suficiente para recusar. — Eles estão para vir buscá-la hoje, eles vão…— Hoje, não. Ele quis me assustar, Nora; é o que eles fazem melhor. Mas eu já tinha sonhado com isso, eu já tinha uma noção de que eles não esperariam que ela crescesse e se tornasse adulta. — E você não me contou? — Fogo ardeu em meus olhos. Como ele tinha coragem de dizer que tinha sonhado com aqueles arcanjos sequestrando minha filha e não me disse nada? — Você sonhou quando com isso; é por causa desse sonho que você estava na minha janela? Que você está sempre na minha janela, que você…— Nora. — Ele me interrompeu e se aproximou. Travei. — Ela ainda nem tinha nascido, e foi só um sonho. Não havia motivos para alarmar você; eu estava aqui para te proteger. Para proteger vocês. — E agora você nos abandonou. Havia uma velada intenção de magoá-lo, com aquelas palavras. Mesmo que eu achasse que não fosse conseguir aquilo, pois, para mim, Patch ainda era mau caráter.— Eu não abandonei vocês! Eu fui porque você me mandou ir. Eu não voltei porque você não me chamou. Eu não sou como os outros homens que podem correr atrás da mulher que eles amam, Nora. Eu não sou um homem. Eu não posso ficar com você se você não me quiser aqui.— Isso é ridículo. — Lá estava eu, a tola, andando em círculos. Ele iria facilmente perceber que eu estava nervosa, e que a presença dele ali me deixava nervosa. Eu tinha que retomar o controle, mas parecia que ele estava apostando com a minha falta de coerência para tentar me vencer. — Isso é patético; esses arcanjos de merda ditam a nossa vida? É isso, vai ser sempre assim, nós dois com medo deles?
— Eu não tenho medo deles. Eu apenas preciso que você esteja ciente do que está acontecendo.— Onde você estava? — A pergunta simplesmente escapou de minha boca. De repente, eu me dei conta que aquele Patch estava muito diferente do Patch que eu costumava ver. Ele estava usando calça social — preta, claro — e uma camisa gola polo que eu desconhecia. Era muito cedo para ele ter um ‘encontro de negócios’ e não fazia sentido que ele tivesse se produzido todo só para me contar que os arcanjos queriam sequestrar nossa filha. — Eu ia a uma entrevista de emprego. Mas Rafael apareceu, e achei mais importante vir falar com você.— Emprego? Emprego como as pessoas normais têm?— Sim. Eu pretendia conseguir algo como entregador de pizza, garçom ou office boy. Minha aparência deve influenciar em alguma coisa. — Por que você quer um emprego, Patch? Você já não está bem, ganhando seu dinheiro naquele antro que você frequenta? — Era uma pergunta legítima. — Eu preciso de um emprego para mostrar a você que eu não preciso daquele antro. — Ele falou e não mostrou nem um pingo de emoção na voz. Ele estava tentando se controlar, mas para que, eu não sabia. — Eu preciso de um emprego para mostrar a você que eu posso ser digno de você, Nora, e que eu sou capaz de viver conforme você deseja. Que eu posso mudar o suficiente para merecer estar ao seu lado, se eu ainda não consegui isso. Mas eu não vim…— Patch. — Eu não queria ouvi-lo se declarar. Não naquele minuto. Eu precisava, instantaneamente, de respostas. Por algum motivo que ignorava, ouvir de Patch o que tinha acontecido naquele dia parecia mais importante do que as informações que ele tinha sobre a segurança de Rose. — Aquela manhã… o que houve?— Eu não sei, Nora. Eu estava bêbado; eu passei a noite jogando e perdi algum dinheiro. Precisava recuperar, então decidi apostar pesado. Eu ganhei várias mãos, e voltei me arrastando para o motel. Claro que eu não tranquei a porta, eu não sei se alguém foi até lá.— Você estava nu. Havia… você poderia me dizer a verdade, talvez eu pudesse perdoar você se você admitisse que errou.— Eu não posso mentir só para te fazer feliz, Nora. Por mais que eu deseje mentir, e por mais que eu deseje que você me perdoe, e por mais que eu queira, agora mesmo, calar a sua boca e te beijar, eu não posso fazer nada disso. Nada que vá te iludir, essa é a regra. Mentir para te agradar, eu não posso. Mentir para fazer você esquecer, eu não posso. Mentir para fazer você me amar, eu não posso.Uau. Por aquilo eu não esperava. Eu sabia que ele, antes, não pode interferir para que eu me lembrasse dele. Que ele não pode se colocar em meu caminho e que eu precisei redescobri-lo de novo. Precisei me apaixonar por ele de novo, e, daquela vez, sem interferentes. Mas daí a acreditar que ele nunca mais pudesse me dizer uma mentira sequer, eu não fazia ideia.— Então você está me dizendo que só pode dizer a verdade, para mim? Que nunca pode mentir? — Eu tinha que saber, claro.— Eu posso mentir. Posso dizer que vi uma pessoa famosa agora na rua. Ou que vou ficar careca daqui há alguns anos. Eu não posso mentir para que você fique comigo. Se, para você me perdoar eu preciso admitir que fiz sexo com uma mulher qualquer; se eu preciso admitir que te traí, eu não vou poder obter o seu perdão. Porque eu não fiz nada disso. Eu sou um canalha, um idiota que só fez uma coisa boa até agora; apaixonar-me por você. Todo o resto da minha existência foi um desperdício, os arcanjos estão certos. Azrael está certo. Eu sou uma perda de tempo, a melhor coisa para o Céu foi a minha queda. Eu esperei anos por você, para ter você de volta e para que você se apaixonasse por mim da mesma forma que eu me apaixonei por você. Eu poderia ter me sacrificado, por você. Eu não sinto por outras o que eu sinto por você. Eu te amo. Sexo não faz mais sentido; não importa quanto tempo eu tenha que esperar, eu só quero ficar com você. Droga, Patch! Eu não queria ouvir aquilo, eu não queria que ele se declarasse para mim. Eu não o queria ouvir dizer que me amava, eu não o queria ouvir dizer que sentia muito por tudo que tinha acontecido. Eu nem sabia o que tinha acontecido, mas eu só queria ter o direito de odiá-lo um pouco. Mas ele estava tão perto de mim, e seus olhos estavam tristes, e ele parecia exausto de dizer a mesma coisa tantas vezes, como que para convencer a si mesmo. Aquilo parou de fazer sentido; tudo parou de fazer sentido porque ele dizia que não podia mentir. Que a verdade era obrigatória, ou ele me perderia de novo. Droga! Eu queria gritar para ele, mas minha garganta estava fechada, eu estava sem voz, e ele já estava me beijando. Foram quase quatro dias, mas pareceu muito tempo quando senti a boca de Patch na minha. O calor que ele irradiava e o gosto que ele tinha, único, sempre me inebriavam. Eu poderia estar no Alasca, sem roupas, correndo pela neve, à noite. Se Patch me beijasse, eu entrava em combustão imediatamente. A reação química que ele provocava em mim era ridícula. Amoleci como se fosse feita de borracha, em seus braços, enquanto ele me invadia com a língua, e eu nem protestava. Quase patética, a minha irritação com ele passou no segundo em que ele colocou as duas mãos em mim. Eu estava meio em um transe psicodélico quando o ouvi dizer que me amava, mas eu não queria que ele falasse. Eu queria mais dele, mais da boca dele, mais Patch em mim. Nossa pele unida. Puxei-o para mim e beijei-o novamente, mostrando que ele deveria simplesmente parar de falar. Eu já tinha entendido, ou eu não acreditaria o suficiente em suas palavras. Eu não tinha muitas opções, afinal. Eu podia acreditar nele — e era o suficiente ouvir seu último discurso; ou eu podia não acreditar, e discurso algum faria a menor diferença. Não parecia importar, quando eu tinha as mãos prostradas em sua barriga, os dedos firmes segurando a sua carne e sentindo aquele calor. Mas ele se afastou de mim, e eu quis protestar. Patch tinha o semblante rígido, impassível como sempre. Eu quase nunca conseguia saber o que ele estava sentindo. Com o tempo, eu já tinha aprendido a lidar com as emoções dele, mas não era uma ciência exata. Ele me encarou, sem dizer nada, por alguns instantes, e arrancou a camisa pelo pescoço. — O que você pensa que está fazendo? — Imaginei que a sequência daquele ato fosse o de avançar sobre mim novamente, para me beijar, me atirar na cama, fazer comigo qualquer coisa. Mas ele continuou me olhando, com aqueles lábios indecifráveis. Seus músculos definidos causavam em mim, ainda, a mesma impressão de quando eu os vi pela primeira vez. E isso porque Patch nunca se importava em vestir uma camisa. — Toque. — Ele virou de costas e expôs suas cicatrizes. Elas também me impressionavam, sempre. Eram enormes, escuras, pareciam doloridas. Não imagino a dor que perdê-las deve causar. O sofrimento espiritual era muito pior, eu sabia, mas nem por isso era para se desprezar a dor física. De qualquer forma, eu ainda não tinha entendido bem o que ele pretendia. As cicatrizes de Patch sempre foram um terreno proibido para mim, ele nunca me deixava tocá-las. Era um tabu interessante; ele dizia que ninguém podia controlar direito o que via dentro delas, e, por isso, ele temia que eu fosse ver mais do seu passado do que ele pretendia me mostrar. E ele estava ali me oferecendo aquela possibilidade? — Você precisa acreditar em mim, Nora. E, se acreditar em mim, significa que você precisa de uma visão imparcial, então eu posso oferecê-la. Aquilo era um jogo. Claro que era. Se eu tocasse as cicatrizes, eu teria as respostas que precisava, muito provavelmente, mas eu provaria para Patch que não confiava nele. Se eu não tocasse, eu mostraria que confiava — mas seria mentira. Porque, no fundo, eu ainda não confiava. Patch sentou-se na cama, que estava desarrumada, e abaixou a cabeça. Era deprimente vê-lo daquela forma, tão rendido, oferecendo para mim a possibilidade de colocar um fim em todas as minhas dúvidas, mesmo que aquilo lhe custasse o orgulho. — Sente-se aqui, anjo. — Ele colocou a mão na cama, indicando onde eu deveria sentar-me. — Toque as cicatrizes, eu vou ficar com você e não vou deixar você se perder. — Eu posso me perder? — Fiquei confusa.— Não exatamente. Mas, se eu achar que você está demorando a voltar, eu te trago de volta. — Ele me olhou. Parecia sincero. Era um daqueles momentos que ele me autorizava percebê-lo. — Venha, Nora. Sentei-me, e coloquei a mão em seu ombro direito. Ele sorriu, tranquilizando-me, e colocou sua mão por sobre a minha. O toque irradiou eletricidade, e deixei que ele me conduzisse às suas memórias. Inicialmente, parecia que eu estava vagando por um túnel escuro e assustador, mas, depois, eu estava como espectadora da noite em que Patch supostamente me traiu. Ele saiu da janela de casa e foi para o bar, como tinha dito. Bebeu bastante, como tinha dito. Havia mulheres e mais mulheres se oferecendo para ele, tocando nele, sentando no colo dele. A expressão de indiferença em sua face era quase uma vitória, mas eu não conseguia deixar de sentir muito ciúme por causa daquilo. Elas todas tiravam vantagem da sua bebedeira, e ele perdeu no poker, mais de uma vez. Depois de beber mais, ele acabou vencendo, e bastante. Eu o vi arrastar-se para o quarto de motel, depois de colocar algumas notas de dez dólares sobre o balcão da recepção, e ir direto para o banheiro. Patch tirou peça por peça de roupa, deixou que a água fria caísse por sobre si, por alguns minutos, enxugou-se parcialmente, e desabou sobre a cama.
Eu fui expulsa da memória, então. Ela se tornou um monte de borrões e eu não tinha mais nada para ver, ali. Quando voltei para o meu quarto, eu estava deitada na cama, com Patch ao meu lado, mantendo a minha mão presa ao corpo dele. Seus olhos sombrios e líquidos ainda não me diziam nada. — Você espera que eu te peça desculpas, agora. — Eu arrisquei, um tanto quanto envergonhada pela constatação da verdade. Eu o tinha julgado, eu o tinha acusado de me trair, e ele estava falando a verdade. Mesmo. Ele não sabia, ele não viu nada acontecer depois de cair de tão bêbado na cama. Cama que ele ocupava porque eu o tinha privado da nossa cama. — Talvez seja um bom começo, sim. — Seus lábios se ergueram apenas um pouco, formando aquele sorriso sexy que me fazia desejar beijá-lo e violentá-lo onde quer que eu estivesse. Só mesmo Patch para conseguir ser bem humorado e fazer piadas em um momento delicado. — Anjo, eu quero apenas que você saiba. E que me deixe proteger vocês duas. — Você acha que pode nos proteger dos arcanjos? E, desde quando eu preciso de proteção? — Franzi as sobrancelhas, encarando-o.— Desde quando você é descuidada, e não pensa duas vezes em nenhuma besteira que vai fazer.Torci os lábios e continuei olhando para ele. Patch estava deitado ao meu lado, e minha mão continuava presa à dele, devidamente colocada por sobre seu peito nu. Os cabelos ondulados estavam cuidadosamente penteados, e ele cheirava a perfume e tabaco. Patch não fumava, mas ele estava sempre cheirando a cigarro de grife. Ele passou a mão livre por meus cabelos e os ajeitou atrás das orelhas, deslizando-a, logo depois, para meu ombro, meu colo, meus seios. Fechei os olhos e estremeci sob aquele toque, decidindo que eu não queria mais discutir com ele.— Mamãe vai demorar. — Eu disse, com um sorriso parcial. Foi o suficiente para ele entender, e me beijar. Abri a boca, receptiva, para ser invadida por sua língua. Eu adorava ser explorada por ele, sentir o gosto dele, ultrapassar algumas — não, ultrapassar todas! — barreiras. Ele se moveu para cima de mim rapidamente, e logo ele estava por todos os lugares. Eu não tinha aquela sensação há meses; não era uma questão de ter me afastado de Patch por alguns dias, eu não podia senti-lo daquela forma desde antes do parto. Naquele momento eu não me senti inadequada. Naquele momento eu estava pronta. Esperando por ele, desejando que ele fizesse comigo o que ele quisesse. Se não fosse por um pequeno detalhe. — Patch. — Eu disse, enquanto ele me beijava e já tinha as duas mãos por dentro da minha blusa. Ele ergueu o olhar e me examinou por breves segundos, já sabendo que eu tinha alguma coisa para falar que não podia esperar. — Eu não comecei a tomar o anticoncepcional. Ele franziu o cenho e me encarou, o semblante mais relaxado. — Eu posso não ser muito entendido desse tipo de conflito, mas arrisco-me a dizer que, se você não tomou o anticoncepcional, que comprou há uma semana, é porque duas coisas acontecem simultaneamente. A primeira, você pode fazer sexo comigo sem arriscar a sua saúde. A segunda, você não pode fazer sexo comigo sem arriscar termos outro filho. Acertei?— Na mosca. — Baixei o olhar e torci os lábios, demonstrando frustração. Eu tinha sido bastante estúpida, mas eu não queria me recriminar por não me preocupar com esse detalhe quando a fidelidade do amor da minha vida estava sendo colocada em jogo. Se bem que fui eu que duvidei de Patch, sem motivos. Havia motivos, mas eu deveria ter acreditado nele. Resumindo, eu fiz besteira todas as vezes. E precisaria esperar mais, se quisesse finalmente romper aquela abstinência sexual.Patch rolou para o lado da cama e deitou-se de costas, encarando o teto por algum tempo. Sua respiração era suave, quase imperceptível, e ele não parecia mais tenso ou agitado. Seu braço direito me puxou para ele, fazendo-me acomodar em seu peito, enquanto ele acariciava minha face e meus cabelos. — Está tudo bem, anjo. Até hoje de manhã, eu precisava lidar com a sua ausência e com o fato de que você poderia nunca me perdoar. Agora eu tenho você em meus braços. Acho que estou em melhores condições, portanto não posso reclamar. Mais uma vez, ele falava a coisa certa na hora certa, como se ele tivesse um script que contivesse todas as melhores frases para se dizer a uma mulher quando ela está em crise. Ouvimos o barulho da porta se abrir, e eu sabia que era mamãe chegando com a comida. E ela não ficaria muito feliz em ver Patch na casa, mas eu esperava que eles não entrassem em conflito. Eu não aguentava mais conflitos; eu estava farta de conflitos por pelo menos uma eternidade. Patch levantou-se e recompôs-se. Olhei curiosa para ele, mas ele não disse nada, apenas beijou-me a testa. “Está tudo bem, anjo”, ele falou em meus pensamentos, e fazia tempo que ele não fazia aquilo. “Fique aqui quietinha, eu vou preparar algo para você comer.” Mas eu não ficaria quietinha, porque ele iria diretamente para um confronto com minha mãe. Virei-me na cama e mantive-me alerta, querendo prestar atenção em tudo que estava acontecendo. — O que você está fazendo aqui? — Minha mãe perguntou. O apartamento era pequeno, e era bom, em alguns momentos, poder ouvir de tudo. — Veio causar à minha filha mais sofrimento?— Blythe, precisamos fazer uma trégua. Pelo bem de Nora, pelo bem de Rose. — Patch foi direto ao assunto. Eu pude visualizá-lo segurando a ponte do nariz, tentando manter o controle. — Ela não aguenta mais nossas discussões, então precisamos parar com isso.— Não me diga o que fazer. — Mamãe protestou. — Eu sei o que é melhor para Nora, e o melhor para ela é ficar longe de você.— Ela discorda. Eu discordo. E essa é a minha casa. Se você não me suporta, eu entendo. Entendo que você me veja como o canalha que sou, mas Nora não precisa sofrer por isso. Eu também não gosto de um monte de coisa, mas faço de tudo para ver Nora feliz. Se você não está disposta a me engolir para ver sua filha feliz, então eu terei que dizer que não é bem vinda aqui. Houve um silêncio constrangedor por vários minutos. Ouvi ruídos de vasilhas e portas se abrindo, e compreendi que as compras estavam sendo guardadas. — Está bem. — Mamãe finalmente falou. — Uma trégua. O que você pretende?— Limites. — Patch explicou. — A porta do meu quarto fica fechada, e você não entra. Você não quer saber o que acontece lá dentro, porque você já sabe. Sua filha e eu fazemos sexo, é claro. Como você acha que Rose foi concebida? Mas isso diz respeito apenas a nós dois. Então, nosso quarto está fora do seu limite. E você não pode interferir no modo como eu lido com Rose. Ou como Nora cuida da filha. Somos os pais dela e, mesmo que você não acredita, nós sabemos do que Rose precisa. — Mais alguma coisa? — A voz de mamãe mal podia ser ouvida, embargada. Eu tinha certeza que ela segurava as lágrimas, por ser obrigada a concordar com Patch. Mas eu não lamentei por ela, porque ele tinha razão. Naquele momento, ele tinha. — Não por enquanto. Você é bem vinda aqui, porque Nora te ama e precisa de você. Mas não me teste, Blythe. Eu nem sempre sei ser paciente. Eu não sabia direito o que pensar sobre aquele diálogo, então decidi fazer alguma coisa fútil. Rose estava dormindo e, pelos meus cálculos, ela só precisaria mamar em uma hora e meia. Então ela não acordaria antes disso. Pulei da cama diretamente para o banheiro, já tirando as roupas e me enfiando debaixo do chuveiro morno. Eu realmente parecia bipolar, e aquele comportamento até me assustava. Como eu podia jurar odiar tanto Patch em um minuto, e atirar-me em seus braços no outro? Obviamente, eu amava tanto Patch que aquele amor podia se confundir com ódio. Ciúmes do que ele era, do que ele representava, enquanto eu me sentia tão medíocre. Eu era nada, perto da grandiosidade que ele representava. Um arcanjo caído, um homem forte, lindo, exalando testosterona, poderoso. As pessoas do mundo de Patch o temiam. Ou queriam vê-lo morto. E aquilo era absurdamente excitante, por razões que só a minha mente doentia entendia. Deixei o sabonete e o shampoo lavarem aquelas ideias malucas de mim. Fui arrancada do transe pela voz de Patch, que me fez virar para ele, sobressaltado.— Fica difícil fazer certas coisas enquanto você está debaixo do chuveiro, Nora. Sem mim. — Ele disse, enquanto me encarava com aquela expressão incomum de desejo. Que apenas eu conseguia compreender perfeitamente. — Você pode ficar aqui e me esperar? Vou até a esquina comprar pudim de caramelo para você, a sua mãe esqueceu.— Eu não faço questão. — Não faz questão ou não quer?— Hm.— Já tenho a resposta. Volto em dez minutos. Patch fechou a porta do quarto atrás dele, e corri para terminar o banho. Aproveitei para conferir se eu estava depilada, se minha pele estava hidratada, se não havia nada fora do lugar. Eu sabia que ele não podia fazer muita coisa comigo naquela noite, mas eu não me importaria em estar perfeita para ele. Eu queria que ele me visse e me achasse linda. Naquele momento eu ignorava os riscos de uma investida dos arcanjos porque Patch estava comigo. Ele voltou exatamente nos dez minutos que pediu, e eu estava ainda decidindo o que vestir. Havia uma pilha de roupas por sobre a cama, e Rose, já acordada, prestava atenção na minha odisseia. — Continua difícil me concentrar na cozinha. — Ele franziu o cenho. — Essa é a minha lingerie favorita. — Ele apontou para a calcinha vermelha com rendas pretas que eu estava usando. Era quase infantil, eu podia jurar. — Na verdade, eu prefiro você sem ela, mas acho que podemos lidar com isso depois. — Conseguiu meu pudim? — Desconversei.— Vou trazer seu jantar. — Ele olhou no relógio. Realmente, já estava quase na hora de jantar. Para mim e para minha filha. — Não precisa se incomodar com o que vai vestir, não vai sobrar muita coisa até o final da noite, mesmo.Aquilo deveria ser uma ameaça, mas eu ri. Dei uma gargalhada meio nervosa, enquanto ele fechava a porta mais uma vez, e desaparecia. Olhei para Rose e movi os ombros, querendo mostrar a ela que eu não era responsável pelo fato do pai dela ser também meio psicótico. Aquela era uma família interessante para nascer, considerei. Guardei o monte de roupas de novo no armário e enfiei-me em uma camiseta do Patch, uma que eu adorava, com estampas de rock e uma cor cinzenta que não combinava com ele. Ele voltou com uma tigela contendo sopa fumegante, torradas de pão integral, suco de morango e um pote com pudim de caramelo. — Tem calda extra. — Ele conferiu se havia caramelo o suficiente no meu pudim. Havia uma flor em um copo na bandeja, e eu mal podia acreditar que ele havia preparado aquilo. Patch não era exatamente o estilo cavalheiro. Ele me olhou de cima em baixo e sorriu. — Bem melhor assim, anjo. — Preciso comer, porque daqui a pouco é a vez dela. — Apontei para nossa filha e sentei-me na cama. Ele colocou a bandeja ao meu lado e me beijou a testa. — Vou me acostumar com isso, sabia? E será uma péssima ideia; você vai se arrepender de me mimar. — Vou tomar um banho. E levarei Rose comigo. Relaxe e coma.— Vai tomar banho com ela? — Ergui uma sobrancelha.— Ciúmes de nossa filha também, Nora? — Havia humor em sua voz, apesar de seus músculos todos relaxados. — Cale a boca, Patch! — Só não atirei um travesseiro por sobre ele porque ele já estava com Rose no colo. Ela sorria para ele, e eu nunca a via sorrir. Apenas quando ela via o pai. Era uma criança avançada, eu não sabia se bebês podiam exprimir emoções tão bem definidas tão cedo. — Só fiquei curiosa, você nunca…— Pois é. — Ele me interrompeu. — Mas precisamos de um tempo a sós, eu e ela. E você precisa comer, assim, se ela chorar, não vai te incomodar. É uma logística perfeita. Patch levou Rose com ele, e continuei naquela percepção de que eles conversavam sem palavras. E, mais assustador ainda, que ela o entendia e que podia respondê-lo. Era querer demais, pois ela não podia compreendê-lo, nem conversar com ele. Mas eu tinha aquela impressão e nenhuma coragem de perguntar a Patch sobre ela. Tudo que eu menos queria era parecer ridícula para ele, porque eu me sentia bem tapada nos assuntos sobrenaturais — culpa da minha perda de memória. Ouvi o chuveiro ligado, e decidi tomar a sopa. Que estava deliciosa, cremosa, e eu poderia facilmente descrever como a melhor sopa que já tomei em toda a vida. Não ouvi o som de minha mãe aparecendo para perguntar sobre a comida, nem mesmo se movendo do lado de fora do quarto. Havia a televisão ligada, apenas. Respirei aliviada, considerando que, talvez, Patch tenha conseguido vencê-la sem que eu tivesse que fazer o trabalho sujo.
Ele voltou para o quarto, a toalha enrolada nos quadris, água pingando por seu corpo e molhando o chão. Por sorte eu já tinha terminado minha refeição. Minha respiração acelerou ao vê-lo, e tive certeza que eu estava absurdamente carente. Sem terminar de se enxugar, Patch entregou-me Rose e recolheu a bandeja, que ele colocou por sobre a mesa de cabeceira do seu lado da cama. Depois saiu do quarto mais uma vez, voltando com um copo bem grande de água em temperatura natural. Tinham se passado quatro dias, mas era como se aquele Patch fosse uma versão reformulada do Patch que eu conheci antes. Não que ele não fosse atencioso, antes. Mas saber tudo que quero — e preciso — era novidade. Enquanto eu amamentava Rose, na penumbra do quarto, aproveitando que a luz solar já nos abandonava, ele enxugou o cabelo, vestiu suas boxers, fez a barba e banhou-se com aquela loção mentolada que me tirava do sério eventualmente. A quem estou querendo enganar, ela me tirava do sério sempre. Estava tudo bem silencioso, e Rose não demorou a dormir novamente. Bebês tinham uma vida perfeita; comiam, eram amados, e dormiam. Sem preocupações, sem problemas, sem ataques de ciúmes que poderiam colocar em risco um relacionamento. Quando Patch saiu do banheiro, ele confirmou comigo que ela já dormia e pegou-a no colo. “Vou levá-la para o quarto dela, dessa vez,” ele disse novamente em meus pensamentos. Não sei o que despertou nele a vontade de usar aqueles poderes, mas faziam o mesmo efeito do que as palavras dita, no final das contas. — Pronto. — Ele sentou-se ao meu lado, na cama. — Como você está se sentindo? — Confusa. — Sorri para ele. Seus olhos estavam dilatados, e havia tensão em seu maxilar. Pequenos detalhes que revelavam o estado de espírito de Patch. — Quem visitou você durante esses quatro dias, Martha Stewart? Porque você parece ter saído do programa dela!Patch deu uma gargalhada. — Anjo. — Ele traçou meus lábios com o polegar. Senti meu estômago revirar. — Eu esperei você por tanto tempo que sou quase um especialista nisso. Em esperar você. Mas perder você foi a primeira vez. De todas as vezes que eu fiquei sem você, eu sabia que você voltaria para mim. Porque não tinha sido por vontade própria. Você foi tirada de mim. Dessa vez, você não me queria mais. E não, eu não estou preparado para lidar com isso. Patch então me beijou. Tocou-me na face, escorregou os dedos para minha nuca, puxou-me para perto, e me beijou com intensidade. Escorreguei por seu corpo e desabei no colchão, sentindo-me embriagada por aquele beijo. Cada vez que ele me beijava era uma novidade, eu não sabia como ele conseguia. Patch deslizou por sobre mim, mantendo-me devidamente presa entre seu corpo e a cama. Ele me acariciava os cabelos, enquanto beijava meu pescoço, e ia descendo. Logo, ele já invadia a minha blusa, tocando-me a barriga com seus dedos firmes, e subindo. — Você quer levar isso adiante para ter que parar na metade? — Estúpida, eu tinha que perguntar. Patch rosnou, enquanto se esforçava para não arrancar minha blusa de uma vez, e encontrou meus olhos. — Eu não pretendo parar, anjo. — Não havia nada naquele olhar que indicasse que ele estava brincando. — Mas, Patch, eu pensei que…Ele ergueu o corpo e levantou-se. Foi até o banheiro e voltou com algo na mão, que jogou sobre o colchão da cama. Meus olhos se surpreenderam quando visualizei o que seriam envelopes plásticos de preservativo. — Você só pode estar brincando. — Dei uma risada. — Sério mesmo, um anjo caído usando preservativo… — segurei um envelope — ultra sensível?— Você não me deu opções, deu? — Ele tinha os braços cruzados e me encarava. Eu ainda ria, achando aquilo cômico demais para me controlar. — Pensei que esperar fosse sua expertise, Patch. — Eu sei esperar. — Ele voltou para a cama e arrumou os preservativos sobre a mesa de cabeceira. Do meu lado da cama. — Isso não quer dizer que eu goste de esperar, anjo. Nesse momento, eu quero tanto você que sou capaz de inventar desculpas para não precisar mais esperar. Ele estava falando sério, então. Patch não pretendia parar. E, se eu o conhecia bem, e estava apostando naquilo, ele tinha começado cedo porque ele tinha intenções de levar aquilo pela noite toda. Só uma pessoa o interromperia, e aquela pessoa estava tranquilamente dormindo no quarto ao lado. Quando ele deitou por sobre mim novamente, eu tive certeza que ele pretendia me dar uma noite bastante cansativa de presente — e por isso ele tinha sido perfeitamente atencioso antes. Não que eu estivesse reclamando. A história do preservativo era uma novidade para nós. A primeira vez tinha sido sem sentidos. Pelo menos para Patch, ele não podia me sentir fisicamente. Aquilo foi superado, e o sexo entre nós se tornou incrível. Deveria ser, das duas formas, mas eu sempre o preferi com sentidos. Daquela vez, haveria a barreira de látex entre nós. Nada que devesse me incomodar, nem a ele, mas era uma novidade. Que ele pretendia adiar um pouco, uma vez que, depois de uma longa sessão de beijos e depois que a camiseta que eu vestia já estava no meio chão, ele resolveu que eu precisava de mais atenção. Patch era incrível em praticamente tudo que fazia, e no sexo oral não seria diferente. Eu estava já muito excitada quando ele começou a me beijar na linha da barriga e foi descendo, descendo, me fazendo colocar o travesseiro na boca para impedir que alguém me ouvisse. Eu nem mesmo me importei em prolongar nada, foi rápido e absolutamente alucinante. Eu tremia em espasmos tão violentos que não consegui coordenar meus dedos nem mesmo para abrir o envelope com o preservativo. Com uma expressão de humor, ele se encarregou daquilo também, e eu prestei atenção no que ele fazia. Mas ele estava tão urgente que mal consegui acompanhá-lo; quando dei por mim ele já havia deslizado para dentro de mim. Foi simples. Ele estava mais lento e mais intenso do que eu me lembrava, e ele também não tentou se demorar mais do que o necessário. Talvez ele até pretendesse prolongar aquele momento por mais do que dez minutos, mas nenhum de nós conseguiria. Ele investiu contra mim com força, sem gentileza, e eu nem imaginava que sentia falta do Patch bruto e viril ao qual eu tinha me acostumado. Sim, eu gostava de ser bem tratada, afinal eu não era masoquista nem psicopata. Mas fazia parte de ser Patch, aquele jeito violento de me empurrar contra a parede, de sugar meu lábio inferior até ele ficar inchado, de segurar meus quadris com as mãos e me penetrar sem me dar opção de não querê-lo, porque ele sabe que eu sempre vou querê-lo. Fazia parte do homem — anjo — que eu amava, e era fácil entender por que eu o amava. Além de vários fatores, ele era o oposto de mim. E nós nos completávamos.
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