Four Seasons

12 Capitulo XII -Lágrimas de neve


Notas iniciais
O céu de inverno parecia chorar ...como se lamentasse o nosso sofrimento, naquele fatídico dia.

Era uma tediosa e fria manhã de fevereiro, a neve cobria praticamente tudo lá fora, e na da minha condição de desocupada, decidi ir buscar a correspondência como costumava fazer todos os dias ultimamente. Contas , contas e mais contas, entre todos aqueles envelopes de noticias desagradaveis encontrei algo que realmente chamava a atenção. Uma carta destinada a mim, Yukari, diretamente de Nova York. Demorei um pouco pra meu cerebro começar a descongelar.

- Aya-Chan ! — Exclamei com euforia o nome da possivelmente unica pessoa do mundo que me escreveria.

24 de janeiro , Nova York EUA

Hello Yukari-Chan

Menina, que saudade de você ! Como vão as coisas ai ? As roupas do Keisuke continuam indo passear de vez enquando ? BRINCADEIRA. A aulas na faculdade começaram a uma semana. E definitivamente não vejo a hora de voltar pra Tókyo. Quem diria que cursar jornalismo fosse tão complicado . E você ? A essa altura já deve ter prestado vestibular em ao menos uma faculdade né ? Ou continua na mesma indecisão ?

está sendo meio dificil me adaptar a nova vida, principalmente por causa do idioma. Apezar de ter sido a garota com as piores notas em ingles da historia do colegio, eu sei pelo menos dizer \"Hi, my name is Shibuia Ayako, and you ? \" .Esta sendo raro encontrar alguem que saiba alguma palavra em japones que não seja Arigatou ou sayonara. Até agora a unica pessoa com quem converso alem claro, do meu pai, é uma menina americana chamada Kate, da minha turma. Ela descendence e morou em Osaka quando criança e está sendo praticamente meu cão guia, ´por que as vezes eu me sinto mais perdida que cego em tiroteio.

Existem tantos lugares que quero visitar. Lembra do meu sonho de ir pra Disney ? Oh, eu ainda não desisti de realiza-lo. Mas seria muito mais divertido de você estivesse aqui, com certeza. Por favor, responda assim que der.

Beijos,

Ayako

- Ela não mudou nada...- Comentei rindo.

- Yuu-Chan !

- Kei ! Onde estava ? Hum...deixe eu adivinhar...papai te fez tirar a neve do templo outra vez ?

- Ah...- Ele suspirou -Seu pai está me fazendo trabalhar muito ultimamente sabia .

E você queria o que ? Morando de favor e namorando a filha dele ? — Brinquei.

- Então acho que ser seu namorado está me deixando no prejuizo sabia ? — ele riu e me puxou para um beijo.

A voz do meu pai nos chamando da cozinha nos fez corar e correr até lá pra ver o que era. Ao chegar no comodo, notei que ele e minha minha mãe estavam se preparando para sair de casa.

- Vão sair ? — perguntei.

- Yukari, eu tenho que ir ao hospital fazer alguns exames, se só voltarmos a tarde por favor cuidem de tudo ok ?

- Eu pensei que a senhora tivesse ido na semana passada.

- São apenas exames de rotina querida, não tem com que se preocupar. Ah ! por favor filha, eu esqueci meu relogio no quarto, será que você poderia ir buscar pra mim. — Tentou explicar meu pai.

Continuei achando tudo estranho, mas exitei em perguntar e subi pra pegar o objeto. Mais tarde, enquanto eu e o Keisuke estávamos na sala vendo televisão, resolvi tocar no assunto.

- Ei Kei...o que meus pais dizeram pra você quando eu sai da cozinha ?

- N-nada...sério. — Ele respondeu rapidamente. — Esqueci isso tá legal, você tá se preocupando a toa.

- Espero que esteja certo...

Eu realmente desejei com todas as forças que Keisuke tivesse razão. Mas não foi isso que aconteceu. As estranhas consultas ao médico, o ar de tristeza que, mesmo tentando esconder, rondava todos da casa nos ultimos dias. E pra piorar mais ainda, finalmente chegara o dia do meu vestibular. Meu coração estava quase saltando pra fora, precisava dar o melhor de mim naquela prova, prova esta que me custara muitas noites sem dormir.

- Cheguei. — falei abrindo a porta da frente de casa após voltar do local do terceiro exame. Sim, eu havia prestado vestibular em três universidades, duas em Tókio, e uma em Kioto, por que esta ultima, não era das melhores, mas tinha poucos concorrentes.

- Yukari-Chan ! — Keisuke sorriu vindo em minha direção e me abraçou. Era incrivel como o sorriso dele me fazia esquecer de todos os problemas. — Como foi ?

- Ah...-Revirei os olhos e suspirei. — Acho que fui muito mal...

- Bobagem, você tem que aprender a ser mais confiante sabia? Olha, seus pais deixaram o seu almoço pronto, coma e depois vá descansar um pouco, você deve estar precisando.

- Sabe não sei o que seria de mim sem você Kei. – Respondi sorrindo e rumando em direção a cozinha. De tarde, quando meu pai chegou sozinho, senti um aperto no peito, uma sensação horrível, entretanto, novamente ele não deixou que eu ouvisse a conversa que queria ter com Keisuke, mas eu, desobediente, acabei por me esconder e prestar atenção em cada palavra dos dois.

O que significava tudo aquilo? Lágrimas começaram a cortar meu rosto involuntariamente, não estava agüentando mais.

- Por que esconderam tudo isso de mim? – Gritei saindo do meu “esconderijo”.

- Yukari, filha... Escute, nós não te contamos antes por que...

- Por que eu sou uma criança? Até quando pensaram que poderiam continuar finjindo que estava tudo bem? Eu quero ver minha mãe, AGORA!

- Yuu se acalme, por favor... – O Kei falou o que só me irritou mais.

- E quanto a você... Sabia de tudo o tempo todo e mentiu pra mim? Idiota! – Me aproximei de Keisuke e lhe acertei uma tapa no rosto. Eu estava furiosa. Ele por sua vez não reagiu, nem disse absolutamente nada. Sei que não fizera por mal, certamente papai pedira para guardar segredo, mas naquele momento eu não pensava em mais nada.

- Vamos ao hospital. – Disse meu pai.

...

Agora tudo parecia tão claro, o jeito que ela vinha me tratando de uns tempos pra cá, como se fosse partir a qualquer momento. Sentia-me culpada por não ter percebido nada.

- Mamãe...? – Perguntei cuidadosa ao entrar no quarto.

- Filha...como você...?

- Fiz eles me contarem tudo.

- Entendo...sinto muito querida... – Ela falou com dificuldade, era visível o motivo dos médicos não a deixarem voltarem para casa com meu pai mais cedo. – Não queria que me visse neste estado mas mesmo assim, fico feliz por estar aqui.

- Estou com medo...- Uma lagrima cortou meu rosto.

- Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Uma enfermeira entrou no quarto e pediu que eu saísse para minha mãe poder descansar. Uma semana se passou desde de então. Certa vez, papai decidiu passar a noite no hospital, temendo que o pior acontecesse.

Era madrugada e eu ainda não havia pegado no sono, ficava pensando em tudo que o acontecera, a sensação de não fora capaz de fazer absolutamente nada para evitar aquilo. Me levantei e caminhei vagarosamente até a porta do quarto de Keisuke.

- Kei...- Bati uma vez de leve na porta. E vendo que não obtivera resposta, insisti. – Kei...acorda, por favor...

Um bom tempo se passou ate que finalmente abriu a porta, com a habitual cara de sono.

- Yuu...o que foi ? Aconteceu alguma coisa ?

- Precisamos ir ao hospital agora. – Falei, o que obviamente resultou em uma expressão de espanto por parte dele.

-Yukari...não dá pra ir agora no meio da madrugada, amanha bem cedo nós vamos. Agora, por favor volte a dormir. – Quase que imediatamente eu, que permanecia com a cabeça baixa, levantei o rosto para encará-lo, com lágrimas.

- Você não entende...precisamos ir agora. Se não quer me ir comigo, pego um táxi e vou sozinha, mas eu realmente preciso chegar aquele hospital. – Keisuke respirou fundo e suspirou.

- Tudo bem...mas por favor, será que posso ao menos trocar de roupa, ou devo ir de pijamas mesmo ?

Respondi com um sorriso fraco e ficamos na entrada do templo esperando o táxi. Todo o percurso foi como uma tortura, meu coração palpitava, e senti que o motorista já estava começando a se irritar, pois eu pedia constantemente para que acelerasse, ignorando qualquer lei de transito que pudesse existir sobre excesso de velocidade. Keisuke segurava firmemente em minha mão e aquilo, de certa forma, me acalmava.

Chegamos finalmente ao destino, desci apressada, pagamos o homem e entrei correndo no prédio, e obviamente a recepcionista não permitiu que eu subisse até o quarto. Mas eu não tinha tempo para formalidades como assinar aquela maldita ficha.

Decidi não esperar o elevador e subir as escadas, sempre com ele atrás de mim, temendo que eu pudesse tropeçar nos degraus ou algo do tipo, tamanha a minha ansiedade e desespero, mesmo que ainda continuasse sem compreender nada. Finalmente chegamos ao andar, o quarto, 114, ficava no fim do corredor, mas pude ver de longe meu pai sentado nas cadeiras de frente para o quarto onde minha mãe estava.

Segundos depois, eu estava diante dele, encarando-o, não era possível dizer quem de nós estava em pior estado. Ele soltou um longo suspiro e abaixou o olhar. Eu compreendi tudo.

- Me perdoe... Filha. – Foi tudo o que disse.

Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Essas foram as ultimas palavras que eu ouvira dela, palavras estas, que não saiam da minha cabeça. Aquilo era um sonho... Ou melhor... O pior dos pesadelos. Fora tudo tão repentino. Principalmente pra mim, a ultima a saber. Alias, só tomara conhecimento dos fatos por desobediência.

Mas foi graças a essa desobediência que estava ali. Era inevitável o que havia acontecido. Eu sabia disso. Desde que os medidos alertaram da pequena porcentagem de recuperação, dois dias antes, nossas esperanças diminuíram drasticamente.

Mas nada se comparava a terrível confirmação de ela estava morta. Um problema no coração, que escondera de todos nós durante dois anos, foi se agravando, e, numa madrugada de março, quase no inicio da primavera, levou minha mãe.

- Yukari abra a porta. – Meu pai praticamente implorava. – Se continuar assim, vai acabar ficando doente.

- Me deixe em paz ! – Gritei. Essa era a rotina em que minha família se via mergulhada a três dias.

- Então vou ter que derrubar. – E foi o que ele fez. E tudo o que viu ao entrar foi uma garota escondida embaixo de cobertas e bichos de pelúcia, como uma criança frágil. Então, caminhou até a minha e se abaixou a altura dela, mesmo que eu ainda me recusasse a olhá-lo. – Por favor, saia daí.

- Não...

- Você precisa ser forte querida...todos nós estamos sofrendo. Sua mãe não gostaria de te ver assim, não acha ? – Resolvi ceder. Coloquei apenas o rosto pra fora da minha “fortaleza”, revelando os olhos inchados e a face vermelha. – O que é isso...está chorando de novo ?

- Eu... Eu...

- O destino é algo incerto, coisas como essas são imprevisíveis, mas precisamos tocar a vida. Não adianta ficar parado e esperar que a morte nos leve também.

- Papai...- Abracei-o com força, e percebi o quanto estava sendo egoísta. – Eu só dou trabalho para o senhor e o Kei...desculpa.

O que ia acontecer a partir daquele momento ? Nada será como era antes, mas jurei que daria o meu melhor, por mim, e por todos que me são importantes.