Fotografia
1 Capítulo Único: Keep me in your pocket
Notas iniciais
Me guarde em seu bolso
Quando eu tinha 7 anos meu pai me abandonou.
É estranho começar a história da minha vida assim, mas acho que não tem outro jeito de começar, afinal, tudo mudou após esse momento. E, hoje em dia, não me importo mais em falar sobre isso.
Portanto, digo que meu pai me abandonou e deixou minha mãe e eu vivendo sozinhas. Durante um bom tempo chorei sentindo falta dele. Mas ele não me ligou nem sequer uma vez. Frederick Chase teve coragem de deixar sua família, mas não teve coragem de deixar uma explicação sequer para sua filha e a sua esposa.
Eu era apenas uma criança, tentando entender porque o pai havia partido, repassando minhas ações, achando que a culpa era minha. Conforme fui crescendo, percebi que a culpa não era de nós duas, e sim do homem que fechou a porta atrás de si e nunca mais voltou.
Não adiantava chorar por causa dele, ele não merecia nossas lágrimas.
Minha mãe, Atena Chase, tentava me distrair de diversas formas, tentando assim mascarar o seu próprio sentimento. E então ela me colocou em uma escola de música. E sinceramente foi a melhor coisa que ela fez para a minha vida, me ensinou a me apaixonar por algo que faria parte de mim.
Eu comecei a fazer aula de canto aos 10 anos. Mas, justamente quando eu estava voltando a ser feliz de novo, me encontrando na música, meu pai nos ligou. Ou melhor, ele me ligou, mas eu não quis atender. Minha mãe atendeu por mim e disse-me que ele havia se casado novamente e que tinha dois filhos gêmeos.
Além disso, ele queria que eu os visitasse em São Francisco, como se assim pudesse apagar tudo que ele fez. Eu o ignorei. Não queria vê-lo novamente nunca mais. Não queria ver ele com outra mulher que não era minha mãe, com outros filhos que não era eu.
Eu tinha 10 anos. Queria viver em um mundo mágico onde toda criança já quis morar um dia. Não queria apagar aquela imagem da cabeça, da nossa família feliz ao redor da mesa. Me mantive afastada de Frederick.
Então ele não nos procurou mais e vice-versa.
Minha mãe era dona de uma grande empresa de Arquitetura que tinha sede em Manhattan e possuía outros escritórios no Brooklyn, onde morávamos, e em Hudson. Então ela foi requisitada para a sede e tivemos que nos mudar para o outro lado ponte, assim por dizer.
Fomos para Manhattan quando eu tinha 14 anos. Achei que não iria me adaptar, que sentiria muita falta de Thália e Luke, meus amigos de infância. Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Eu gostei demais da nossa nova casa. Dos nossos novos vizinhos. Da minha nova vida.
E foi quando eu tinha 14 anos que conheci Perseu Jackson.
Minha mãe colocou-me em uma nova escola de música, visto que a música havia feito em mim um bem incrível. A Academia de Música e Dança ficava próxima a minha casa. A professora, sabendo que já havia feito aula de canto, convenceu-me a entrar nas aulas de instrumentos. Entrei na de piano e violão, pois eram os que mais me chamavam atenção.
Minha mãe me deu um piano branco que coloquei em meu quarto. E eu também havia ganhado um violão azul. Eu gostei do jeito dele nessa cor. Era um azul escuro e intenso. Gostava disso. Além da música, eu amava ler, era uma das minhas maiores paixões.
Nossa casa era luxuosa, já que minha mãe tinha, de fato, uma condição econômica boa. Então meu quarto era razoavelmente grande para suportar uma estante de livros, meu guarda-roupa, minha cama, um piano, uma escrivaninha — onde eu fazia os meus desenhos. Segundo minha mãe eu seria uma grande arquiteta — e minhas poltronas.
No meu primeiro dia de aula cheguei no horário marcado, até um pouco antes, creio que cinco minutos antes da aula efetivamente começar. As cadeiras da sala eram enfileiradas em duplas. Eu me sentei em uma ao fundo e ninguém se sentou ao meu lado.
Enquanto a professora falava sobre os objetivos da escola, um menino chegou atrasado, parecia que ele havia corrido bastante para chegar até ali.
— Entre — a professora disse. — Espero que não chegue atrasado nas próximas aulas, senhor Jackson.
— Me desculpe, professora, eu me perdi na Academia, são muitas salas — ele disse com um sorriso presunçoso, fazendo com que eu soltasse uma risada baixa.
— Sente-se ao lado da senhorita Chase, ela também é aluna nova, escute as instruções do primeiro dia de aula, por favor — ela disse com um sorriso compreensivo. — Use um mapa na próxima vez.
— Sim, senhora — ele respondeu.
O menino andou em minha direção, a única cadeira vazia na sala era ao meu lado de qualquer modo.
— Olá — ele me disse.
Sinceramente me perdi em seus olhos por um instante, ignorando a sua pergunta involuntariamente. Eles eram verdes e muito bonitos. Na verdade, aquele menino era lindo, era moreno e tinha cabelos negros, mas era da mesma estatura que a minha. E um sorriso incrivelmente encantador, do tipo que faria todos ao seu redor sorrir junto com ele.
Afastei esses pensamentos enquanto ele sentava-se ao meu lado. Percebi que não havia respondido nada.
— Oi, sou Annabeth Chase — eu disse após um tempo.
— Perseu Jackson, mas me chame de Percy, por favor — ele disse, provocando o meu sorriso.
— Como o herói grego? — eu perguntei baixinho. — Interessante.
— Exatamente como o herói grego, minha mãe ama essas coisas. Considerando que meu pai chama-se Poseidon eu a entendo.
— Minha mãe se chama Atena, mas não há mais ninguém na minha família com nomes gregos.
— Você tem sorte — ele disse. — E é muito bonita.
Corei, obviamente. Ele voltou sua atenção para a professora e também a olhei, com os pensamentos em outro lugar.
Não me considerava uma menina tão bonita. Minha mãe me achava linda, mas a opinião dela não contava. Eu tinha cabelos loiros e olhos cinza, meus olhos eram os únicos que chamavam atenção. Mas às vezes me achava bonita, acho que todos nós deveríamos aumentar nossa autoestima de vez em quando.
E ouvindo isso de Percy, me senti bem. Não eram muitas pessoas que falavam comigo, era considerada meio nerd e tinha poucos amigos no outro colégio. Mas vi ali, com Percy, o começo de uma nova amizade. Uma grande e forte amizade.
E de fato foi isso que aconteceu.
Percy e eu viramos melhores amigos de um dia para o outro. Literalmente. Descobrimos que morávamos perto, ele em uma rua e eu na outra e, além disso, estudaríamos no mesmo colégio. Ficamos em turmas separadas, entretanto, o que foi decepcionante para nós.
Ele me dera logo um apelido, Sabidinha. Sabia que eu era muito inteligente, já que o ajudava muito no colégio, mas eu demorei a dar o troco. Só quando fomos à praia de Long Island eu encontrei um apelido para ele, Cabeça de Alga. Ele ficou com a cabeça cheia de algas quando entrou na água naquele dia. E então estava dado o troco.
Contei a Percy sobre o meu pai quando senti que realmente podia confiar nele. Na realidade, Percy exalava segurança, senti que podia confiar nele desde o primeiro dia. Mas demorei certo tempo para me abrir, ainda mais sobre algo que me machucava por mais que eu tentasse esquecer.
Ele achou normal o que eu sentia pelo meu pai e achou até apropriada a minha reação. Mas me disse que às vezes devíamos perdoar até mesmo as pessoas que menos mereciam perdão.
Às vezes ele não era tão lerdo assim.
Por isso, visitei meu pai nas férias de verão daquele ano, por causa do seu conselho. A mulher dele prontamente me odiou e eu prontamente a odiei também. Mas fiquei feliz com o fato de meu pai tentar acertar as coisas. Mesmo assim, decidi que o visitaria poucas vezes no ano. Não aguentava vê-lo com outra mulher, já era demais para mim toda aquela situação.
Percy e eu não desgrudávamos um do outro. Minha mãe e tia Sally, mãe dele, ficaram muito amigas por causa de nós. Elas costumavam dizer que parecia que a gente tinha nascido colado um no outro.
O pai dele era dono do maior Aquário de Nova York e era um renomado Biólogo Marinho. Vendo o exemplo do pai, Percy desenvolveu um desejo de tornar-se também um biólogo marinho. E eu queria me tornar arquiteta, como a minha mãe. Acho que aqueles eram exemplos bons para se seguir.
Mas além disso tudo, havia a música. E isso sim me fazia bem.
Cantar me dava liberdade, mesmo que estivesse sozinha. Mas eu nunca mostrei que sabia um pouco que fosse dessa arte em público. Todas às vezes que a professora tentava me fazer cantar, eu dava uma desculpa. Era muito tímida para cantar na frente de pessoas que não fossem a minha mãe.
Lembro-me da ocasião de quando cantei na escola de música quando eu tinha 15 anos. Mas não foi para ninguém. A sala estava vazia e toquei no piano enquanto cantava. Queria cantar para Percy em seu aniversário, queria mostrar que realmente confiava nele e que ele era especial. E ali era o único lugar que ele não poderia ver o meu “ensaio”, já que eu e ele vivíamos na casa um do outro.
Mas nesse dia, algumas meninas da escola e que também faziam aulas na Academia, porém de dança, entraram na sala para implicar comigo. Isso acontecia frequentemente, mas eu não me importava mais. Entretanto Percy entrou na sala no exato momento que elas entraram. E Percy não deixava que fizesse nada comigo enquanto estivesse perto.
Eu desconfiei que ele havia me escutado cantar All Of Me nessa ocasião, mas ele não mencionou nada por muito tempo. Ele apenas expulsou as meninas da sala e me acompanhou até em casa como todos os dias. E no fim, acabei desistindo de cantar e apenas toquei no piano a música para ele como um dos seus presentes de aniversário.
Cada vez que olhava para Percy, nesses meses que passavam, meus sentimentos mudavam. Tudo mudava. Tinha vezes que o que sentia por ele era mais do que amizade, mais do que um amor entre amigos.
E nenhuma canção era capaz de expressar isso.
*****
Um ano depois...
Minha mãe dizia que a nossa primeira paixão é a mais importante. Acho que ela via a minha confusão de sentimentos e tentava colocar alguma razão em minha cabeça. Mas, quando se tem 16 anos, não há como ter certeza de praticamente nada.
Se era paixão ou não o que eu sentia por Percy, eu não saberia dizer. Só sabia que era algo muito forte e que com toda certeza era muito importante para mim.
No dia do meu aniversário de 16 anos, Percy passou a tarde toda comigo, em minha casa. Tecnicamente, ou passávamos as tardes na casa dele ou na minha, todos os dias, então não era de fato uma novidade nossa pequena reunião. Raramente ficávamos passeando pela cidade, não éramos as pessoas mais sociáveis do mundo.
Tinha gente até que achava que namorávamos, já que vivíamos grudados, mas sempre que perguntavam negávamos envergonhados. Acho que nenhum dos dois sabia o que éramos de verdade.
Foi uma tarde agradável, mas cheia de questionamentos. Eu olhava para o teto, deitada ao lado de Percy em minha cama, pensando nessa nossa relação de melhores amigos confidentes. Sempre que nos abraçávamos era como se tudo tivesse um significado maior, como se tudo se transformasse para tornar nosso pequeno mundo o único.
Tudo que era feito com sentimento ficava maior.
— Queria que alguém me ajudasse a treinar — ele disse de repente, desviando-me dos meus pensamentos para encará-lo.
— Com alguém você diz eu, é claro — provoquei — Quer treinar o violão? — Posso te ajudar, com o piano e...
— Não, eu preciso que alguém cante comigo para treinar — ele me interrompe, encarando meus olhos. — Você pode me ajudar, senhorita Chase? Eu sei que você canta muito bem — ele estreitou os olhos, como se me desafiasse.
— O que, como você...?
— Eu te conheço desde os 14 anos, Sabidinha, devia saber disso — ele me interrompe novamente.
— Eu não sei, Percy.
— Por favor, eu quero escutar a sua voz — ele implorou. — Eu canto com você se você quiser, se isso te deixar mais confortável. Pode ser? — eu respirei fundo.
— Que música? — ele sorriu, dando um “soquinho” no ar e provocando a minha risada.
— All of me do John Legend. Tenho certeza que você conhece — eu corei.
Agora tinha certeza que ele havia me escutado cantar no dia que estava na Academia.
— Você pode me acompanhar com o piano, senhorita?
— Tudo bem, se sou obrigada — ele riu, ao me ver levantar.
Percy também se levantou, enquanto eu me sentava em frente ao meu piano. Ele se sentou em minha poltrona ao lado do instrumento. Eu encarei seus olhos e bati com o pé três vezes para indicar o início da música.
Ele começou comigo ao mesmo tempo. Eram tantas músicas tocadas juntos que nos comunicávamos sem o uso de palavras, apenas gestos. Tínhamos uma sintonia incrível. Era impressionante.
Fechei meus olhos enquanto deixava a música se apoderar de mim. Deixei para que Percy começasse a cantar.
What would I do without your smart mouth
Drawing me in and you kicking me out
Got my head spinning, no kidding
I can't pin you down
What's going on in that beautiful mind
I'm on your magical mystery ride
And I'm so dizzy, don't know what hit me
But I'll be alright
My head's under water
But I'm breathing fine
You're crazy and I'm out of my mind
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you oh
Sorri. Amava a voz de Percy, já a havia escutado antes várias vezes, já que ele vivia cantando pela casa. Ele dizia que havia pessoas que cantavam melhor do que ele, mas sinceramente não conhecia ninguém com uma voz melhor.
Ele colocava seus sentimentos nela, como se ela se apoderasse dele. Não havia melhor maneira de escutar alguém cantar do que daquela forma, ouvindo todas as mensagens por trás da melodia.
Percy me encarou, indicando que era a minha vez de cantar. Encarei as minhas mãos percorrendo as teclas do piano, incapaz de encarar Percy sem ficar completamente vermelha. E então comecei a cantar.
How many times do I have to tell you
Even when you're crying you're beautiful too
The world is beating you down
I'm around through every mood
You're my downfall, you're my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can't stop singing
It's ringing, in my head for you
My head's under water
But I'm breathing fine
You're crazy and I'm out of my mind
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you
Ele começou a cantar comigo, e o resto da música seguiu-se em um dueto único. Eu sorri em meio aos versos e aos acordes do piano e do violão.
Give me all of you
Cards on the table, we're both showing hearts
Risking it all, though it's hard
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you
I give you all of me
And you give me all of you oh
Ele ficou um tempo olhando para mim quando o último acorde soou. Encarei seus olhos também e então ele sorriu.
— Vocês são perfeitos! — escutamos minha mãe gritar do andar de baixo, provocando as nossas gargalhadas. — Daqui a pouco eu vou aí exigir um show particular, me aguardem.
— Está bem, dona Atena — eu gritei de volta, balançando negativamente a cabeça.
— Ela tem razão, devíamos fazer shows particulares, porque eu estou impressionado. Não havia escutado sua voz direito antes, mas puxa Annabeth, que voz linda. Por que você não entra nesses concursos que tem aí? Sei lá, você teria o meu voto com certeza.
Eu ri com a sua animação.
— Não, não, não, eu sou muito tímida, nunca cantaria na frente de um monte de gente. Nunca mesmo.
— Você cantou para mim — eu corei. — Eu sei que não sou um monte de gente, mas é diferente do que cantar para a sua mãe, por exemplo.
— Não, é diferente também. Você é o meu amigo, eu confio em você — encarei seus olhos. — Gosto de sua voz e percebi que gosto de cantar com você.
— E eu gosto de escutar a sua voz. Podíamos ter começado a cantar antes se você não escondesse o talento debaixo do tapete.
Eu soltei uma gargalhada. Percy se levantou da poltrona com um sorriso, pegando algo em sua mochila.
— Há dois anos atrás eu te conheci em uma aula de música — ele se agachou ao meu lado. — E você se tornou minha melhor amiga no mundo, a minha companhia de aventuras. E hoje essa menina especial está fazendo 16 aninhos.
Eu sorri, sentindo as lágrimas virem em meus olhos sem ele nem ter dito nada direito. Ele coloca em mim um colar e eu encarei a joia em formato de coração.
— Aí tem uma foto sua e outro lado está vazio. Quando alguém roubar a outra metade do seu coração, você coloca sua foto aí. É um presente, já que você não quis ter festa nem nada, temos que marcar essa data especial.
Ele se encaminhou até o meu som e ligou em uma música que identifiquei como Give me Love do Ed Sheeran. Ele me ofereceu sua mão.
— Me concede a honra de dançar uma valsa com você pelo menos, senhorita? — ele perguntou.
Me levantei e lhe dei minha mão, após enxugar as lágrimas que escorreram de meus olhos.
— Eu não sei como agradecer Percy. O colar é lindo, tudo é lindo. Você é a pessoa mais importante da minha vida, Cabeça de Alga — ele riu com o uso do apelido. — E eu sei quem vou colocar nesse coração um dia — sussurrei enquanto o abraçava.
— Porque tudo em mim ama tudo em você, Sabidinha — ele disse.
Eu sorri, enquanto valsávamos pelo meu quarto como se estivéssemos em um baile real ao som de Ed Sheeran.
Minha mãe entrou sorrateiramente no quarto, segurando uma câmera em mãos e registrando aquele pequeno momento para sempre.
Guardando pequenas lembranças em uma fotografia.
*****
Um ano depois...
Não sei como Percy me obrigou a entrar naquela apresentação de final de ano, show de talentos, ou qualquer que fosse o nome daquela atrocidade. Todo ano havia uma festa que apresentava os talentos da Academia como se fosse um sarau ou algo do tipo. Eu fugia de todas, é claro, mas naquele ano foi impossível fugir da insistência de Percy, da mamãe e até mesmo de tia Sally.
Só sei que quando eu vi estávamos no ensaio geral dessa apresentação.
Às vezes me impressionava o poder de persuasão de Percy e das duas tias donas do complô que ele arranjou para acompanhá-lo. Não que eu não estivesse apaixonada por ele, é claro, e isso facilitasse as coisas, é claro.
Tínhamos nossos 17 anos. Percy nunca havia namorado ninguém, embora Rachel, uma de nossas amigas, já tivesse tentado conquistá-lo — várias vezes, devo enumerar. Outras meninas do colégio já haviam tentado a sorte também, é claro, mas Percy sempre as dispensava.
Eu engolia os ciúmes quase todos os dias, o que eram coisas da vida de uma adolescente apaixonada e que se colocou na friendzone.
Percy e eu decidimos não mostrar nosso número no ensaio geral, pois nós queríamos que fosse uma surpresa para todos. Nossa professora ficou curiosa, mas apenas disse para informar o que precisaríamos para a apresentação.
No dia seguinte eu estava mais assustada do que qualquer pessoa no mundo, tremendo dos pés à cabeça. Quando estava terminando de me arrumar, Percy entrou no meu quarto. Minha mãe não reclamava mais disso àquela altura, antes ela quase matava Percy por entrar em meu quarto, ainda mais sem bater.
Com o tempo ela já nem ligava mais.
Senti seu olhar sobre mim e sorri quando terminei de passar o meu batom. Não usava muita maquiagem, não gostava, mas aquele dia seria especial, então me permiti usar um pouco mais do que o normal. Senti o nervosismo sair de mim por um instante ao encarar seus olhos calmos.
— Como estou? — eu perguntei, levantando-me e dando uma voltinha.
— Linda como sempre, senhorita Chase.
Meu vestido azul ia até o joelho, era de renda e um pouco rodado. Minhas sapatilhas eram de um tom mais escuro de azul. Percy estava com uma camisa social azul parecida com a cor do meu vestido e calça e sapato social. E estava lindo como sempre.
Muito azul, eu sei. Mas era a cor preferida de Percy. E tenho que admitir que se tornou a minha favorita também.
— Muito obrigada, senhor Jackson, está muito bonito também. Vamos?
— Nossas mães insistiram em tirar uma foto nossa, então as duas estão armadas lá embaixo — eu revirei os olhos. — Então vamos antes que elas nos assassinem.
Depois da seção fotos e de entrarmos no carro e chegarmos lá, o nervosismo se apoderou de mim novamente. Minhas mãos suavam e eu andava de um lado para o outro nas coxias atrás do palco. Percy me puxou para um abraço e permanecemos assim por um instante.
Suspirei e me acalmei um pouco ao sentir suas mãos subirem e descerem em minhas costas.
— Fique calma, vai dar tudo certo. Ensaiamos bastante e estamos prontos.
— Estou com medo — eu disse.
Ele encarou meus olhos.
— Cante para sua mãe que vai estar na primeira fileira da plateia chorando de emoção. Para minha mãe que vai estar abraçada a Atena Chase como se fossem irmãs siamesas — eu ri, sentindo suas mãos segurarem as minhas. — Cante para mim, Annabeth, eu vou estar ali do seu lado. Você confia em mim? — eu assenti. — Então cante.
— Agora, no piano, violão e voz, Annabeth Chase e Percy Jackson.
Nós escutamos a nossa professora nos anunciar e eu e Percy trocamos o olhar. Ele sorriu e me deu sua mão. E juntos subimos no palco, com as nossas mãos dadas. Eu me sentei em frente ao piano e Percy se sentou ao meu lado com o violão.
Eu dei o tom para Percy e ele repetiu os acordes no violão. Comecei a minha contagem com os pés e iniciamos a nossa apresentação. Era uma música linda no piano, mas Percy conseguia fazer um acompanhamento incrível no violão. Mesmo ele sabendo tocar piano, ele preferia o violão.
E então ele começou a cantar.
Say something I'm giving up on you
I'll be the one if you want me to
Anywhere I would've followed you
Say something I'm giving up on you
And I
Am feeling so small
It was over my head
I know nothing at all
Comecei a cantar no lugar de Percy. Senti a canção se apoderar de mim. E soltei a minha voz.
And I
Will stumble and fall
I'm still learning to love
Just starting to crawl
Say something I'm giving up on you
I'm sorry that I couldn't get to you
Anywhere I would've followed you
Say something I'm giving up on you
Percy e eu cantávamos juntos agora, fazendo segundas vozes com o nosso próprio arranjo.
And I
Will swallow my pride
You're the one that I love
And I'm saying goodbye
Say something I'm giving up on you
And I'm sorry that I couldn't get to you
And anywhere I would've followed you
Say something I'm giving up on you
E com um sorriso cantei sozinha os últimos versos da canção.
Say something I'm giving up on you
Say something
Quando o último acorde soou, as palmas vieram. Sorri para Percy.
Eu nunca desistiria daquele Cabeça de Algas.
*****
Um ano depois...
Percy e eu tínhamos nossos 18 anos. Fomos mudando com o tempo, embora não ache que eu tenha mudado muito minha aparência ou meu jeito de ser. Percy estava cada vez mais bonito. Havia tomado uma poção para crescimento, porque estava mais alto do que eu, o que eu achava muito irritante.
Mas ele continuava com a mesma doçura. Mesmo amor no olhar sustentado por aqueles olhos que me deixavam confusa. O mesmo sorriso pelo qual me apaixonara, quando eu nem mesmo sabia o que era paixão aos 14 anos. O meu melhor amigo, o meu parceiro de duetos.
Minha luz, minha nota, minha voz.
Estava em casa encarando o piano. Passei as mãos nas teclas sem fazer som algum. Precisava de uma música para lhe mostrar um sentimento em mim guardado por muito tempo. Mas como Percy era meio lerdo, eu não sabia como fazer isso.
Ele entrou no meu quarto sem bater. Coisas que me deixariam irritada, e a minha mãe também anos antes, e que passaram a não importar tanto. Sorri em sua direção. Percy estava com seu violão e se sentou num banco perto do meu.
— Oi, Sabidinha — ele disse, me dando um beijo na bochecha e provocando o meu sorriso.
— E aí, Cabeça de Algas?
— O que está fazendo olhando para o seu piano? — ele perguntou. — Ele é lindo, mas olhar fixamente para ele é meio estranho — eu ri.
— Estava pensando nas coisas que as músicas dizem e que eu não consigo dizer. Que não tenho coragem de expressar em palavras. Estava apenas pensando.
Ele tocou minhas mãos com a sua, fazendo com que eu desviasse o olhar para os seus olhos. Respirei fundo e senti o cheiro do seu perfume, o que se tornou uma má ideia. Fechei os olhos por um instante e ele acariciou meu rosto com sua mão direita, fazendo-me encará-lo novamente.
— Cante para mim — ele me pediu em um sussurro.
Isso era realmente injusto.
Seus olhos eram lindos, tão verdes e hipnotizantes que não me permitiriam nunca recusar um pedido. E quando olhei em seus olhos com um sorriso que não pude impedir ele retirou suas mãos de meu rosto, pegou seu violão e deu um dos seus sorrisos mais lindos.
— Qual música? — eu lhe perguntei.
— A que seu coração não aguenta mais guardar dentro do peito.
Parei para pensar e percebi que havia várias canções assim, que pareciam ser feitas para nós, que expressavam tudo de nós. E Percy queria que eu libertasse os meus pensamentos, tudo que guardava profundamente em meu ser.
— Photograph — eu disse.
— E vamos de Ed Sheeran — ele exclamou com um sorriso, provocando a minha risada.
Ele deu os primeiros acordes da canção, e enquanto ela se apoderava de mim, fechei os meus olhos. Como sempre, deixei a música invadir meu ser e irradiar pela minha voz.
Era para alguém que eu estava cantando, alguém que eu esperava que entendesse o significado daqueles versos e que percebesse em cada acorde daquela canção o que meu coração guardava no peito.
— 1...2...3... — Percy contou baixinho.
E então eu cantei.
Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it's the only thing that I know
And when it gets hard
You know it can get hard sometimes
It is the only thing that makes us feel alive
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time's forever frozen still
So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
Wait for me to come home
Encarei os olhos dele a música inteira. Seus olhos brilhavam enquanto tocava a conhecida música, sorrindo enquanto esperava a próxima parte da música. Era como se minha voz fosse um alimento para sua alma. Percebi que adoraria poder alimentar o sorriso de Percy com ela.
Loving can heal
Loving can mend your soul
And it's the only thing that I know
I swear it will get easier
Remember that with every piece of you
And it's the only thing we take with us when we die
We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Our hearts were never broken
And time's forever frozen still
So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
And if you hurt me that's okay baby
Only words bleed
Inside these pages you just hold me
And I won't ever let you go
Wait for me to come home
Oh you can fit me
Inside the necklace you got
When you were sixteen
Next to your heartbeat where I should be
Keep it deep within your soul
And if you hurt me
Well that's okay baby
Only words bleed
Inside these pages you just hold me
And I won't ever let you go
Se aquela música era para ele? Com certeza. Eu o amava desde sempre. Desde quando nos conhecemos naquela aula de música, quando aprendi a tocar piano e ele aprendeu a tocar violão. Desde quando eu senti que faria qualquer coisa por ele.
Percy estava tão próximo a mim. Os últimos acordes soavam. Os últimos versos da música saíram automaticamente. Encarei seu rosto, desviando meu olhar entre seus olhos e sua boca.
When I'm away
I will remember how you kissed me
Under the lamppost back on 6th street
Hearing you whisper through the phone
Wait for me to come home
E então eu senti seus lábios sobre os meus. Ele havia me beijado. E foi incrível.
Ele deixou seu violão de lado e ele me puxou para o seu colo. Quando nos separamos ele encarou meus olhos e um sorriso escapou de nossos lábios. Encostei minha testa na sua.
— Eu te amo, demais, mas acho que você entendeu agora — eu lhe disse.
Não precisava dizer mais nada, esperava. Minha declaração estava naquela música, em cada palavra.
— Realmente, você foi bem esclarecedora.
Ele acariciou meu rosto, fazendo com que eu fechasse meus olhos.
— Sabe de uma coisa? Eu te amo, Sabidinha, amo desde sempre — ele tocou o colar que me dera no meu aniversário de 16 anos. — E você poderia me colocar dentro deste colar que te dei quando você tinha 16 anos. Perto do seu coração onde eu quero e deveria estar. Mantendo isso que temos no fundo de sua alma. Nós manteremos nosso amor em uma fotografia, as memórias que nós temos.
— Depois você me diz que não gosta de Ed Sheeran, Percy Jackson — eu provoquei, enxugando uma lágrima de meu rosto.
— Aprendi a gostar com certa loira.
— Você é minha fotografia, Percy — eu acariciei seu rosto. — Guardada no meu coração, não só em meu bolso.
Toquei meu colar e, ao abri-lo, Percy pôde ver nossas fotos. Elas haviam sido tiradas um ano antes, em minha casa quando nos preparávamos para nossa apresentação. Ele sorriu.
— Porque tudo em mim ama tudo em você, Sabidinha — ele repetiu o que me disse aos 16 anos.
— Pra sempre, Cabeça de Alga — eu disse com um sorriso no rosto.
E quando ele me beijou novamente, eu tive certeza de que o nosso amor seria para sempre.
Registrado em uma fotografia. Tatuado em meu coração.
Fale com o autor