Fotografando Um Sentimento
1 CAPÍTULO ÚNICO
Notas iniciais
Quando finalmente senti o gosto do café na boca, não foi muito agradável, ele já estava gelado. Tudo isso culpa dos meus pensamentos novamente. Eu ficava totalmente absorta quando pensava demais, peguei minha bolsa para verificar se ninguém havia roubado nada e estava tudo lá. Levantei do banco e fui andando pelo parque mal iluminado, um vento não muito forte deixava os pelos dos meus braços eriçados, tive que arrumar meu cabelo umas três vezes até o vento finalmente parar e eu chegar na porta de saída, encarei as ruas lotadas de bares, boates e clubes que entupiam a calçada de latas de cerveja fazendo eu tropeçar em uma delas, por sorte ninguém havia olhado. Não era uma novidade eu me sentir sozinha numa sexta-feira movimentada em Nova York. Eu podia me sentir sozinha, mas eu não iria para essas boates porque não queria, nunca gostei de entrar em qualquer uma e ficar apenas encarando as pessoas dançando. Nunca fui de dançar pra falar a verdade e também era o motivo de passar o fim de semana em casa. Aliás, eu gostava dessa rotina. Acordar meio dia, trabalhar em casa, pedir uma pizza de tarde, passar no parque quando o crepúsculo se forma depois de comprar um Cappuccino na Starbucks. Larguei minha bolsa numa mesinha e sentei no sofá pegando meu notebook, havia um e-mail apressando-me para tirar logo a foto.
O meu trabalho era esse, fotografia. Mas era muito simples, todo mês havia um tema e nós teríamos que tirar uma foto que combinasse com o mesmo. Eu nunca havia atrasado em nenhum tema, o que fazia eles me darem até 3 temas adiantados pela qualidade ótima das fotos, mas hoje era apenas um e eu não conseguia cumprir o prazo, o tema infelizmente era: Amor. Esse tema me dava medo por vários anos e eu nunca tinha pensado que ele iria vir, tudo isso por causa de decepções amorosas estúpidas, hoje eu estou assim, sozinha, mas não pense que é porque eu quero! É só um jeito de bloquear a dor, a dor que as decepções tanto me trouxeram.
Inventei a desculpa de minha câmera ter quebrado e um resfriado ter me atacado... Mas estávamos em pleno verão. Enfim, foda-se.
Sou brasileira, morei no Brasil até os 15 anos quando minha família ficou com dificuldades financeiras e tivemos que nos mudar para os EUA, foi difícil me adaptar, tudo era diferente do Brasil. A escola, as comidas... Todo meu futuro que eu planejava com tanta felicidade havia dado uma reviravolta grande.
- Amanda, mas que porra você está fazendo numa sexta-feira a noite aqui nesse apartamento? – Letícia arroubou minha porta fazendo-me pular. Eu sempre esquecia que ela tinha a chave.
- Não vou para nenhuma festa, só tem bebidas e sexo! – Revirei os olhos a fazendo bufar.
- Você prometeu que iria comigo essa semana para a festa do Pedro Gabriel lembra?
Bati em minha testa, sim, a festa. Letícia estava de rolo com esse Pedro Gabriel há um mês e insistiu de me levar para essa festa, e como sempre eu absorta em pensamentos disse um sim.
— Não sou de quebrar promessas. – Suspirei.
— Ótimo! Vem! Trouxe umas roupas pra você.
***
— Você ficou linda Mandy! – Letícia a sorriu.
— Linda?
Eu usava um vestido curto, vermelho ‘’de doer os olhos’’, sapatos pretos e meu cabelo estava com cachos. A única coisa que achei bonita foi meu cabelo.
— Não gosto disso, é curto. – Fiz bico. – Só falta aparecer minha bunda!
— Não exagera. Você se sente nua quando coloca saia e vestido porque só usa calça e bermuda.
— Foda-se! – Revirei os olhos. – Gosto de me sentir comum.
Ouvi a campainha tocar, Letícia fez um sinal para eu não trocar de roupa. Como se eu fosse ouvi-la. Peguei uma calça, uma camisa xadrez e meu velho All Star. Ela voltou para o quarto e quase brigou comigo, mas isso não aconteceu porque estava de mãos dadas com o Pedro Gabriel.
— Pedro, essa é a Amanda. – Sorriu, mas seu olhar era de raiva para mim.
— Oi Pedro. – Sorri.
Ele sorriu de volta e logo depois olhou o relógio parecendo estar com pressa. Peguei minha bolsa.
(...)
A festa era uma House Party que era bem comum por aqui. Havia copos vermelhos jogados pelo chão, pessoas fazendo o que eu não quero falar pelos quartos e as caixas de som me deixavam surda. Pelo jeito eu era a única ‘’comum’’ pela festa, bem, ‘’comum’’ mesmo porque ou as meninas pareciam prostituas com suas blusas só faltando aparecer o útero e as saias que iam até o final das coxas ou estavam nuas, mas não sozinhas. Ah Letícia você me paga!
— Quero ir embora.
— Acabamos de chegar na festa.
— Festa ou puteiro?
— Só ignora.
— Admita, você só está aqui por causa do Pedro Gabriel. – Revirei os olhos – Não é?
— Ah... Chata! Vamos.
Soltou a mão de Pedro Gabriel dizendo que iria me levar em casa, ele me deu tchau antes de sumir no meio do pessoal. Quando estávamos quase na porta Letícia esbarrou com um cara e pareceu conhecê-lo, ótimo! Agora não vamos sair nunca.
- Pedro Lucas? – Escancarou a boca. – QUANTO TEMPO SEU NEGRO!
- Ei, Letícia!
Revirei os olhos já procurando um banco para sentar, essa conversa demoraria muito.
— Mandy, vem cá.
Levantei da cadeira bufando, ótimo, agora eu teria que conversar com o carinha.
— Fica aqui com o Pedro Lucas, tenho um namorado e não posso deixá-lo sozinho com essas putas aqui.
Quando eu ia responder que não ela já estava no meio do pessoal. Olhei para a cara do garoto que tinha um sorriso nos lábios, o superior era fino, mas o inferior era gordinho e me dava uma baita vontade estranha de mordê-lo. E mais uma vez eu estava absorta em pensamentos, as bochechas dele foram ganhando uma cor avermelhada, mas bem fraca já que ele era moreno.
— Então... Sou Pedro Lucas. – Puxou minha mão que estava presa no bolso do meu jeans para apertá-la.
— Amanda. – Forcei um sorriso.
E mais uma vez aquele silêncio entre nós dois prevaleceu, era desconfortável. Suspirei e fui andando para a porta.
— Avisa para Letícia que eu fui pra casa ok?
— Claro.
(...)
O vento frio me rondava novamente jogando meus cabelos no meu rosto, já estava sem paciência. Procurei alguma coisa para prender em minha bolsa e acabei usando uma caneta, abotoei minha blusa e abaixei as mangas já que eu estava quase tremendo, as ruas estavam vazias e eu só ouvia meu coração batendo. Resolvi parar num bar e comprar uma água, havia uns caras estranhos me olhando fazendo-me ignorá-los, quando sai do bar notei que eles me seguiam, mas em silêncio, como se estivessem esperando para dar o bote. Respirei fundo apressando o passo fazendo eles me imitaram e meu coração começar a acelerar.
— Ei! – Gritou um com a voz grave. – Você moça! Que tal dar uma paradinha hein? Eu e meus amigos queremos conversar com você.
Meu medo simplesmente subiu, estava a um fio de correr mas algo dizia que isso só pioraria as coisas, continuei andando com a mesma velocidade.
— Gatinha dá uma parada ai! Temos coisas boas pra fazer.
Agora eu havia começado a correr fazendo os caras só soltarem gargalhadas, estava em prantos quase chorando, acabei tropeçando em uma pedra e caí na calçada quando eles estavam bem perto de mim.
— Pronta pra diversão? – Mais gargalhadas saíram.
Quando eles iam tocar em mim ouvi um ronco de um motor, os caras se assustaram e eu continuei ali, no mesmo estado, tremendo. Os carinhas começaram a correr, depois o silêncio ficou alto, senti que meu corpo tinha sido tirado do chão e agora eu não sentia mais frio, fechei os olhos ouvindo outro ronco de motor. Pelo que parecia eu estava dentro de algum carro, não tentei nem olhar quem era ainda estava em choque pelo que quase aconteceu.
Quando abri os olhos novamente notei que estava em casa sentada no meu sofá completamente encolhida assim como eu estava no chão há alguns minutos – ou horas – atrás. Vi um rosto ficar perto do meu, era Pedro Lucas, ele estava de joelhos apoiando-se no sofá para verificar se eu estava bem. A única reação que tive foi puxá-lo para um abraço, eu soluçava.
— Calma, Amanda. – Ele me apertou contra seu peito. – Está tudo bem.
— Eu iria morrer! – Disse com dificuldade – Eles iam me estuprar.
Mais um soluço saiu de minha garganta, uma reação que fez Pedro Lucas me dá um copo com água até minha respiração ficar normal e meu coração desacelerar um pouco, respirei fundo e sentei no sofá.
— Oi, Edward Cullen.
Ele riu da minha tentativa de piadinha.
— Eu segui você. Sabia que essa rua era estranha a noite.
— Pela primeira vez na vida e acho que última, estou feliz por alguém ter me seguido, obrigada. – Minhas bochechas coraram. – Então... Vai querer alguma coisa?
— Quando você desmaiou aproveitei pra comer aquela pizza.
— VOCÊ COMEU A MINHA PIZZA?! – Controlei minha voz e respirei fundo. – Tudo bem, essa vai passar limpo porque você salvou minha vida.
Ele riu levantando, olhando meus poucos CDs que estavam na prateleira.
— Porque tem poucos CDs?
— Internet, já ouviu falar? – Ironizei – Os únicos CDs que eu fiz questão de comprar foram os do John Mayer.
— Bom gosto musical, sou fã dele.
Olhei o relógio em meu pulso notando que já eram umas onze da noite, me espantei já tentando arrumar uma desculpa para tirar Pedro Lucas dali educadamente.
— Já são onze horas! – Fingi espanto na voz – Vou dormir.
Ele virou para mim levantando uma sobrancelha.
— Quer que eu saia não é?
— Ah... Sei lá.
— Tudo bem. – Ele riu – A gente se vê.
Dei um tchauzinho sendo que ele me pegou de surpresa quando me deu um beijo na bochecha, um arrepio passou por meu corpo. Ouvi a porta sendo fechada fazendo-me soltar um suspiro enorme de alívio. Que noite!
***
Acordei de manhã sendo remexida sem parar, só podia ser a Letícia, ela sabia que eu odiava ser acordada cedo em pleno fim de semana, devia ser alguma coisa muito importante. Soltei um resmungo fazendo-a bufar de impaciência, cocei os olhos levantando.
— Mas que merda você quer?
— Bom dia pra você também Amanda. – Sorriu irônica – O Pedro Lucas me contou tudo e nossa!
— É – Deitei na cama novamente.
Depois de acordar novamente fiz tudo o que deveria fazer de costume, mas só que acompanhada de Letícia. Seu celular tocou e ela atendeu com um pouco mais de ânimo, eu tinha certeza que era Pedro Gabriel. Depois de ter desligado viu que a curiosidade estava escrita na minha testa.
— Vamos sair com os meninos hoje? – Quando viu minha expressão de pânico riu e disse – Não vamos pra nenhuma festa agitada, só nós quatro.
— Tudo bem.
(...)
Minha paciência tinha ido embora – a única que restava – enquanto eu esperava Letícia terminar de se arrumar, eu batia meu pé no chão diversas vezes fazendo o barulho do tênis começar a me irritar, Pedro Gabriel ligou pela quarta vez dizendo que já estava na porta do prédio nos esperando.
— Será que dá para ir mais rápido?
— Só um minuto! – gritou ela – estou colocando a sapatilha!
Quando finalmente saímos, encontrei um Pedro Gabriel nervoso e eu dava toda razão para isso. Letícia riu e puxou o seu iPhone surpreendendo-o, ele sorriu e a puxou para um beijo.
— Ei! Será que dá para pelo menos não me deixarem de vela?
— Entra no carro.
Obedeci e encontrei um Pedro Lucas de olhos fechados, parecia dormir naqueles sonos deliciosos e profundos. Era impossível não encará-lo dormir. Dei um sorriso enquanto procurava um CD decente no meio de vários guardados num lugar do carro de Pedro Gabriel, encontrei um do Oasis em seguida colocando em Stop Crying Your Heart Out. Fechei os olhos enquanto a música enchia o carro.
— Oasis? Garota, vamos casar agora!
A voz de Pedro Lucas me surpreendeu, virei e encontrei o mesmo sorriso da festa de ontem. Tinha de admitir que ele é... Lindo. Segurei uma risada com sua frase deixando apenas um sorriso fraco tomar conta de minha boca.
— Dei um cochilo enquanto esperava você e a garota do Pedro Gabriel e tenho uma pergunta... Vocês por acaso fabricam as roupas antes de cada saída? Porque puta merda, que demora!
Dei uma gargalhada vendo uma sair dele também. A dele era engraçada e isso só me fez rir mais ainda.
— Que risada é essa? – Continuei rindo.
— Cala a boca.
Mais uma risada saiu de minha boca enquanto vi a sua se formar em um bico manhoso.
— Todos falam dela. – Disse, ainda de bico. – Isso é bullyng!
— Ok, ok! Já parei de rir.
Vi as duas portas da frente sendo abertas e Pedro Gabriel mudou de cara o CD colocando um do Guns.
— Qual é Pedro! – Reclamou Pedro Lucas – Esse CD é foda.
— Meu carro, minhas músicas. Está insatisfeito? Vá a pé.
Em seguida a porta de trás foi aberta, Pedro Lucas saiu do carro rindo e me chamou com o dedo. Sai do carro arrancando um olhar surpreso de Letícia.
— Amanda? – Perguntou surpreso.
— Não, o monstro do lago Ness.
Pedro Lucas olhou em meus olhos e a reação do meu coração foi pular.
— Vocês até que são parecidos.
— Filho de uma puta!
Dei um soco em seu braço.
— Não fale assim da minha mãe. – Fez o mesmo bico do carro – Ela fritou nuggets com batata frita há muitos anos para mim.
Outra coisa que era impossível em Pedro Lucas era não rir ao lado dele. Tudo bem que ele era o mais responsável da turma por ser mais velho, mas não deixava as brincadeirinhas de lado e eu gostava disso, era agradável sempre ter alguma coisa para conversar com ele.
— A casa do Pedro Chato Gabriel é logo ali.
Logo a frente havia um prédio com no mínimo dez andares, era bonito até, pintado na cor azul e não havia nenhuma pichação ao contrário de alguns prédios no Brasil. Descobri que eles moravam no mesmo prédio mas em apartamentos diferentes, o de Pedro Lucas era confortável, simples, mas não deixava de ser bonito. Ligou a TV LCD que era enorme e foi procurar alguma coisa para nós comermos, encheu uma tigela inteira com M&M’s de chocolate junto com um brigadeiro lotado de granulado. Para ser mais perfeito ainda, colocou Dois Homens e Meio para rodar.
— Nossa! – Falei me acomodando em seu peito enquanto mastigava uns trinta M&M’s de uma vez – Isso sim é um sábado perfeito.
Ele sorriu e prestou atenção na TV. Já eu apenas olhava para seu rosto – claro que disfarçadamente – notando cada mania dele. Mordia o lábio inferior algumas vezes, mexia no cabelo, dava algumas risadas e continuava com o sorriso no rosto.
— Já cansou de me olhar? – Perguntou ele, quando disse a mim mesma que tentaria prestar atenção na TV.
Um arrepio passou por todo meu corpo. Ele havia percebido! Procurei algum lugar para enfiar a cabeça e nunca mais tirar, mas já era tarde demais, encontrei um sorriso sacana de Pedro enquanto meu rosto ia de branco para um vermelho mais que puro.
— É que tinha um mosquito no seu rosto, só que voou.
Palmas para mim. Já consigo ver meu nome no telão: E o Oscar de melhor idiota do ano vai para... Amanda!
— Ok então. – Ele sorriu.
Quando finalmente consegui prestar atenção na TV o interfone tocou. Sai dos braços de Pedro Lucas e ele levantou para atender. Fiquei refletindo quais eram os meus sentimentos em relação a ele, porque sinceramente eu não sabia. Gostava de olhá-lo dormindo, de ‘’agredi-lo’’ quando ele falava alguma besteira e uma vontade imensa de nunca sair de seu lado dominava meu peito a cada milésimo. Suspirei, é óbvio que estou apaixonada, mas é apenas uma paixão e não amor. Enquanto discutia comigo mesma via pensamento um Pedro Lucas totalmente saltitante abria a porta e voltava com um pacote grande.
— Chegou!
Era bonitinho vê-lo feliz, sentia que ele queria subir pelas paredes.
— O que é? – Não escondi minha curiosidade.
— Uma coisa muito especial.
Ajudei a rasgar o pacote. Quando terminamos de fazê-lo pude ver um violão escuro, era lindo, tinha de admitir apesar de nem saber como segurar um direito.
— Uau! – Falei encarando o violão. – E por que toda essa euforia?
— Era do meu avô. – De repente ele ficou um pouquinho para baixo – O homem mais incrível que eu conheci. Ele morreu há uns anos atrás e deixou isso para meu pai lá no Brasil. Ele achou mais apropriado ficar para mim e é a única lembrança dele que posso tocar, sabe? Também mandou restaurar ele um pouquinho e tem a aparência de novo.
— Ah... – Foi a única coisa que saiu de minha boca.
— Então... – Senti em sua voz a tentativa de ficar mais animado – Quer que eu toque?
— Claro que sim! – Se isso vai te deixar melhor, vai me deixar melhor também – Comece.
— Antes tenho que dizer que ando pensando em montar uma banda com o Pedro Gabriel e os garotos, então já compus algumas músicas com o Lucas que é um amigo nosso. Essa se chama O Que Eu Quis.
Quando o ouvi cantar notei que ele tinha um sotaque de paulista, era lindo. A voz dele era suave, gostosa de ouvir e eu sorria abobalhada enquanto ele cantava e tocava olhando em meus olhos. Quando a música acabou o sorriso ainda dominava minha boca.
— Gostou?
— É linda! Você canta bem, toca bem e a música é... Linda demais.
— Tem mais algumas se você quiser ouvir.
Concordei rapidamente com a cabeça. Era óbvio que eu queria!
***
Não queria ir embora, não queria mesmo, mas ainda teria que pensar sobre o tema do meu trabalho. Cheguei em casa mais feliz do que nunca e resolvi tomar um banho gelado e demorado deixando Pedro Lucas invadir meus pensamentos.
O que eu quis
Era poder te ter um pouco mais aqui
Bem perto do meu peito e ver você sorrir
Como as batidas do meu coração
Que bate acelerado de pensar em te perder
Cantarolei a música com um sorriso no rosto enquanto colocava um miojo no fogo. O que esse garoto fazia comigo – mesmo sem estar fazendo nada –? Era a pergunta que pairava em minha cabeça enquanto mexia o miojo procurando uma distração rápida. Quando o mesmo finalmente ficou pronto coloquei meu pijama que já estava velhinho de tanto uso, o short cheio de estrelinhas azuis estava curto assim como a blusa que deixava uma alça cair para o lado. Assim que terminei de colocar o miojo no prato fui até meu notebook abrindo minha caixa de e-mail.
Espero que essa demora toda signifique que você está caprichando nas fotos! Ainda estamos esperando ok? Você nunca atrasou uma sequer, o que houve? Você está bem? Ah sim, Nick acabou de me falar da sua gripe, desculpe HAHAHA. Vamos te dar mais algum tempo, boa sorte e melhoras da gripe!!!!
XX, Sophie.
Nunca fui com a cara da Sophie. Imagine uma patricinha mimadíssima, que tem tudo o que quer num segundo só e que nasceu num berço de ouro, usa apenas rosa e dá um chilique se quebrar a unha... Pois é, essa é Sophie. Ela também não gostava de mim porque sempre fui muito diferente dela e fazia de tudo para me complicar. Suspirei resolvendo deixar esse e-mail sem resposta. Ainda tinha que pensar no tema.
Meu telefone tocou de repente fazendo-me dar um pulo da cadeira, olhei a bina como chamam no Brasil e vi que o número era desconhecido, franzi o cenho mas mesmo assim atendi.
— Oi, Amanda!
Pedro Lucas? Onde ele tinha conseguido meu número?
— E antes que pergunte quem passou teu número, foi a Letícia.
— Ah... – Dei um sorriso – E qual o motivo da ligação Sr. Munhoz?
— Sei que vai ser meio idiota, mas... Você pode passar aqui para ver umas composições que acabei de fazer? Posso te buscar se quiser, afinal, está tarde.
Refleti um pouco sobre a proposta.
— Podemos passar numa Starbucks aqui perto, comer alguma coisa... Só quero que você venha! Sua opinião é importante.
— Tudo bem. – Falei sorrindo por saber que minha opinião era importante — Pode vir a hora que quiser, sou rápida para me arrumar.
— Ok então.
Nos despedimos e desliguei o telefone com um sorriso maior do que os outros que tinha dado. Vasculhei meu armário em busca de uma roupa decente para usar, acabei optando por uma blusa de manga e gola alta, uma calça skinny preta e um All Star azul – que era o meu preferido. Já que estava frio, deixei meu cabelo solto. Em alguns minutos já estava pronta esperando com uma ansiedade estranha por ele.
Como não agüentei ficar andando de um lado para o outro no meio da sala, fui para a rua enquanto esperava impaciente a chegada dele. Finalmente um carro desconhecido parou em frente ao meu prédio, rezei para que fosse ele enquanto tentava olhar sem sucesso pelo vidro escuro.
— Não vai entrar? – Perguntou ele assim que abriu a janela.
— Não sabia que era você.
— Vem logo, bobona.
Dei um sorriso e entrei no carro me acomodando nele logo em seguida.
— Coloca o cinto.
— Pedro... Dá preguiça!
— Meu carro, minhas regras. – Imitou Pedro Gabriel – Coloca o cinto.
Ri e coloquei o bendito cinto.
— Então... Estive pensando se você pudesse ver as composições num restaurante mesmo.
— São onze horas, Pedro Lucas.
— Ainda é sábado à noite, vamos encontrar um, relaxa ai.
— Você me assusta. – Dei um risinho.
— Aé? Sai do carro.
Virei a cabeça de lado encostando-a no banco e rindo.
— Dirige logo.
(...)
- Nossa! – Exclamei e logo abaixei a voz já que várias pessoas do restaurante olharam para mim – Para quem é essa?
— Essa o que? – Perguntou Pedro, engolindo um pedaço enorme de pizza.
— Música. – Revirei os olhos – Essa tal ‘’menina estranha’’.
— Ahh! Essa eu não fiz sozinho, acho que coloquei ai sem querer.
— A letra é legalzinha até.
— Legalzinha?! – Largou o pedaço de pizza – É linda! Maravilhosa!
Um garçom mais velho que passava por ali parou em nossa mesa.
— É muito bom elogiar sua namorada, rapaz – bateu no ombro de Pedro Lucas – Continue assim.
Olhamos-nos em tom de surpresa e depois duas gargalhadas invadiram o restaurante inteiro.
— Puta merda! – Dei outra risada
— Vamos para casa.
Depois que Pedro Lucas pagou a conta, entramos no carro novamente enquanto eu vasculhava as letras de música que ele tanto tinha escrito, todas me agradavam.
— Então... Vamos para minha casa ou para a sua?
— Hm... Boa pergunta.
— Pode dormir lá em casa se quiser.
— Está maluco? Se aquele tiozinho que nós nem conhecemos pensa que nós somos namorados, imagina os nossos amigos?
Pedro Lucas parou o carro e olhou para mim.
— Você tem vergonha se eles nos verem juntos?
— N-não! – Ótima hora para gaguejar – Eu só... Não quero que eles pensem uma coisa que não somos.
Os olhos de Pedro estavam presos nos meus, minha respiração estava meio falha assim como meu coração que parecia uma escola de samba. Senti ele se aproximar mais de mim.
— E se nós formos o que eles pensarem que somos? Você aceitaria?
Seu nariz fazia um carinho gostoso no meu, mas nem isso tirava o maldito nervosismo que rondava meu corpo inteiro.
— Não... Sei...
Foi muito difícil soltar essas palavras já que minha garganta estava fechada.
— Podemos deixar acontecer.
Suas mãos que antes estavam no volante, agora tomavam conta de me puxar para mais perto da sua perna.
— Pedro... Não...
Empurrei-o. Ele suspirou e voltou a dirigir.
— Vou te deixar na sua casa.
Eu sabia que tinha feito merda. Sempre faço isso. Algumas lágrimas insistiram em sair dos meus olhos e eu me xingava de tudo quanto é palavrão que existia pelo mundo a fora. De repente não consegui segurar um soluço e ele saiu alto para minha má sorte.
— Você está chorando, Amanda?
— Não! – Falei rápida.
— Claro que está.
Senti o carro parando novamente.
— Falei alguma coisa que não devia?
— Não! Não! – Agora era tarde demais para segurar o choro – Você não fez nada, sou eu que sempre faço merda! Sempre! Tudo culpa dessas porras de decepções amorosas que insistem andar comigo, e acabo ficando com medo. É isso.
Senti os olhos de Pedro Lucas me rondando, continuei olhando para a janela procurando uma escapatória depois de tanta coisa que minha boca tinha soltado.
— Mandy...
Puxou-me para seu peito.
— Não é porque você se machucou algumas vezes... – Passou as mãos por meus cabelos – Que a outra vez de tentar vai te magoar.
— Mas tenho medo.
Ele suspirou e me deu um beijo no canto da boca.
— Seria meio precipitado se eu te dissesse que te amo?
Meus olhos procuraram os dele e pude ver a sinceridade.
— Talvez... Mas... Seria precipitado se EU dissesse que te amo?
— Talvez. – Ele riu, e aquilo foi um bom remédio.
— Então... Na minha casa ou na sua?
— Você vai para a minha!
Dei um risinho enquanto o abraçava.
— Eu te amo. – Falei, enrolando seus cabelos em meus dedos.
— Amo mais.
Epilogo
Desde aquele dia eu sabia que todas as decepções amorosas que havia passado era apenas uma enrolada até encontrar o Pedro Lucas. Como se fosse destino sabe? Nunca fui de acreditar nesse tipo de coisa, que existe uma alma gêmea que Deus fez especialmente para você, mas fora ele quem me ensinou e não ensinou só isso. Ensinou-me o que era sorrir de verdade, o que é ser feliz, o que é o amor. Ok, é meio meloso demais... Mas enfim, você entendeu.
No mês seguinte fiz questão de entregar eu mesma as fotos até o prédio sede a onde eu trabalhava. Eles estranharam um pouco já que todas as fotos das quais entreguei eram minhas... E do Pedro Lucas. O tema era amor, certo? Pedro Lucas era a representação clara disso. De amor, de carinho, compreensão e tudo o que há de melhor. E foi assim que a minha vida de solteirona em Nova York que vivia na rotina foi para uma garota feliz e totalmente apaixonada pelo melhor namorado que alguém poderia ter.
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