Formas de Amor
4 Reencontro
Notas iniciais
– Alô ? — eu repeti.
– Amora ? Amora De Lana ? — eu ouvi uma voz um pouco rouca do outro lado, "será ?" eu pensei.
– Sim, sou eu. Quem está falando ?
– Vejo que não se lembra de mim. Nat Wood.
– Ah claro, Nat ... o cara do Café. — eu ri baixo e continuei. — mas Nat, como você conseguiu meu número.
– Bom, é uma longa história .. — ele riu. — tá, nem tão longa assim. Você deixou sua agenda florida caída no chão, em baixa de uma das mesas do café.
– Oh meus Deuses, eu não acredito ! — exclamei com toda alegria que tinha em meu coração. — Wood, você salvou minha vida.
– Bem, já é a terceira vez que te ajudo. Acho que vou parar por aqui. — ouvi ele rindo sarcasticamente do outro lado.
– Não comece a ficar convencido Wood. — eu ri também.
– Mas me diga, posso saber por que demorou tanto para atender ? — ele pareceu realmente curioso.
– Eu estava tomando banho, corri para atender, podia ser do trabalho. — nem pensei para responder aquela pergunta.
– Então quer dizer que você está falando comigo, nua ? — ele falou sério.
– Não.. quer dizer .. tô- eu gaguejei. — Mas tô enrolada na toalha. Pra que você quer saber ? Não deveria ter respondido. — eu fiquei indignada imediatamente, por que estava falando aquilo para um homem que eu nem conhecia ?
– Desculpe De Lana, não fique zangada. — ele falou rindo. — Só fiquei curioso. — Senti meu rosto esquentar.
– Mudando de assunto ! — exclamei. — Quando você devolve-rá minha agenda ? Você não leu, não é ?
– Posso devolver agora se você quiser, eu vou aí. — ele falou rindo. — Se quiser, nem precisa sair do lugar, ou se preocupar com a vestimenta.
– Você não é flor que se cheire, não é mesmo Wood ? — eu ri um pouco.
– Que isso De Lana, sou um gentleman ou um shameless, o que você quiser na verdade. — meu rosto esquentou mais uma vez, acabei sentando no sofá e por um momento, esquecendo que estava despida.
– Você não é mesmo flor que se cheire. Mas Wood, preste atenção, eu preciso dessa agenda para sexta-feira, preciso que me entregue ela amanhã.
– Podemos nos encontrar no Petit Café novamente, o que acha ?
– Foi a primeira boa ideia que você teve. — ele riu em um tom tão cafajeste que me arrepiou.
– Talvez eu possa ter outras boas ideias, se você deixar. — eu ri.
– Wood .. — eu acabei cortando ele. — Tenho que desligar . Amanhã, 19h40 no café. Te espero lá.
– Estarei lá, De Lana. Até.
– Até.
Quando olhei novamente para o celular, a chamada já havia encerrado. Verifiquei o número, era um número de celular. Salvei em meus contatos "Nathan Wood". Fiquei encarando o celular, até que ele apagasse por completo. Olhei para o lado da TV de tela plana onde tinha um relógio, 20h15. Olhei para mim mesma, e tentei pensar no que eu estava fazendo. Levantei e fui para o quarto, ignorei o resto do meu banho. Vesti um blusão, uma calcinha confortável e deitei ao lado de Dragão na cama. Olhei para o belo candelabro de vidro trabalhado, o quarto continuava frio como a meses atrás. Meus movimentos, com as mãos, se repetido nos pelos negros e brilhosos de Dragão, e meu pensamento em Wood. Eu não me sentia atraída por ele, quer dizer, um pouco, mas não o suficiente. Acabei adormecendo.
Acordei agitada com o barulho chato do despertador. Dragão não estava mais na cama, olhei para o lado pra ver se o encontrava. Foi em vão. Levantei e toquei o chão frio, sempre me causava arrepios, era uma sensação até gostosa. Fui direto para o banheiro, e encontrei Dragão brincando com uma bela Palmeira Ráfia que ficava no corredor. Entrei no banheiro e me olhei no espelho.
– Bom dia . — eu disse, sem nenhuma convicção.
Vesti minha roupa e calcei minha bota, abri a porta do apartamento e percebi que estava sem luvas, a brilhante maçaneta de aço havia me dado um choque gélido. Voltei e encontrei Dragão deitado no sofá em cima das minhas luvas. Ele é um gatinho tão maroto.
Mais um dia, mais uma vez a Euston Station, mais uma vez Samantha, mais uma vez Jean, mais uma vez. Mas para falar a verdade, todo aquele cenário, me fazia feliz. Eu acho que era minha vida particular que era mesmo uma droga, porque a profissional estava indo muito bem. Abri a porta da minha sala, que agora, tinha o meu cheiro, tinham também novas plantas inclusive um Bonsai de troncos múltiplos que ganhei da Emy de presente, e também um belo armário pequeno armário de escritório com um belo jarro de gira-sois em cima dele. Coloquei minha bolsa dentro do armário, tirei meu sobretudo, pendurei na cadeira, sentei e comecei meu trabalho. Depois de alguns minutos, uma batida leve na porta:
– Amora ?
– Entre Samantha.
– Bom dia Amora, aqui estão seus objetivos de hoje. Sr. Young pediu para lhe avisar pra focar mais hoje, ele quer que você apresente sua próxima coluna na sexta-feira. Sem erros na apresentação.
– Pode avisar pra ele que serei perfeita, Samantha.
– Avisarei.
– Tenha um bom dia Samantha.
Samantha saiu da minha sala, e fechou a porta delicadamente como ela sempre fazia. O resto do dia foi normal. A todo tempo olhava para hora na parte superior do computador.
Na hora do almoço, eu estava com Emy, no restaurante que costumávamos ir, foi então que recebi uma mensagem:
19h40, espero por você, De Lana.
Nathan Wood.
Eu abri um sorriso bobo para o celular, e então logo escutei a voz fina de Emy:
– Namorado novo ? — ela diz novo, como se eu tivesse um a cada semana.
– Não, é a Samantha.
– Você é lésbica agora. — eu olhei fixamente para ela. — você é ? — ela me olhou assustada.
– Sou. — falei sem rir.
– Verdade ? — ela continuava com os olhos arregalados.
– Sim, você quer ver a mensagem da Samantha ? — indaguei .
– Quero ! — ela deu um grito e começou a rir, me estapeando e tentando pegar meu celular como se fossemos duas crianças.
– Não Emy ! — eu falei, fingindo que estava chorando.
– Eu sei que é um cara, me fala logo Amora, antes que eu descubra.
Brincamos, mas ela desistiu de pegar meu celular. Voltei ao trabalho, e tentei começar a preparar minha apresentação para sexta, mas era difícil com minha agenda com aquele, aquele, tá vendo, me peguei pensando novamente em Wood.
– Merda ! — gritei quando vi que havia digitado errado por não estar focada no trabalho.
Saí do trabalho por volta de 19h25, um pouco mais tarde que o normal. O café ficava perto do meu trabalho, então não fazia sentido sair tão cedo. Antes de sair, passei no banheiro, e retoquei a maquiagem, fiquei me encarando no espelho e pensei "para que isso ? Só estou indo pegar minha agenda.". Desci de elevador, me despedi de Gary, atravessei o escuro Hall do prédio, ouvindo apenas o som do meu salto batendo contra o piso liso, e saí pela porta da frente. O frio imediatamente apertou minhas bochechas, passei os braços em volta da minha cintura e comecei a andar de vagar.
Cheguei no café exatamente às 19h35 e me deparei com Nathan Wood, sentado em uma das mesas do café, olhando para seu celular, muito distraído. Cheguei de mansinho e sentei na cadeira que tinha em frente a ele. Ele imediatamente levantou a cabeça, um de seus cachos estava caído sobre seus olhos. Ele sorriu, seus dentes eram incrivelmente brancos, sua boca estava ainda mais rosada pelo frio, e ele usava uma jaqueta enorme, que o engolia.
– Boa noite De Lana. — ele continuou sorrindo.
– Bom noite Wood. — sorri de volta.
– Vai pedir alguma coisa ?
– Vou, claro. Meu pedido é: devolva minha agenda agora, por favor ?
– Você é muito sarcástica Amora.
– Falou o shameless. — eu ri. E ele também.
– Só vou devolver a agenda quando você pedir algo. — ele não parava de sorrir, e nem eu.
– Você está me fazendo perder tempo Wood.
– Vamos lá Amora, você quer ou não essa agenda ? Porque posso joga-la fora.
– Tudo bem, um capuccino, pode ser ?
– Ótima pedida, menina esperta.
Ele levantou e fez os pedidos. Voltou com nossos cafés e se sentou em seu lugar, ele me devolveu a agenda e conversamos bastante, descobri que ele estava fora os últimos oito meses, ele tinha ficado todo esse tempo em um navio petroleiro. E ele era químico. Químico ? Não parecia. Me contou dos pais dele, e eu contei dos meus. Ele disse que tinha um irmão mais velho, John, que morava fora do país, e tinha uma bela esposa que ele ainda não conhecia pessoalmente. Quando dei por mim, já eram 21h57.
– Ai merda ! — quase gritei.
– Menina, você só sabe falar esse palavrão ? — ele riu, mas eu o ignorei.
– Já está tarde, eu tenho que ir. Amanhã tenho que acordar cedo.
– Mas já ? — ele fez cara de bebê.
– "Já?!", está de brincadeira ? Está muito tarde. — falei me levantando.
Ele se levantou e me seguiu, caminhamos rápido e calados um ao lado do outro até a Euston Station.
– Bom, eu fico aqui. — falei baixinho pois o frio me impedia de falar mais alto.
– É realmente uma pena. Também é uma pena que eu não tenha mais nada seu para te entregar. Porque tenho certeza que você não vai me ligar. — ele falou ajeitando o cabelo.
– Nada impede de você me ligar. — eu sorri tentando enterrar o rosto no cachecol.
– Tem razão. Pode deixar que eu não foi te deixar em paz. — ele falou rindo.
– Então, tchau Wood.
– Tchau De Lana. — ele falou se aproximando.
Ele tocou minhas bochechas com as costas da mão, se aproximou mais um pouco, e eu achei que ele me beijaria a boca. Continuei com meus braços abaixados, sem reação. Ele ajeitou minha toca em minha cabeça, aproximou o rosto dele do meu e beijou suavemente minha testa. Um beijo que durou cinco segundos, que parece uma bela eternidade.
Ele se afastou e ficou parado me olhando nos olhos, eu olhei para cima para conseguir olhar nos olhos dele. Nos rimos e enfim me virei, sem dizer uma palavra.
Desci a estação e fiquei rindo sozinha, tinha apenas um casal na estação, então fiquei observando os dois. Eles se abraçavam e trocavam caricias, era tão bonito. Quanto tempo não achava um ato de carinho bonito. Eu costumava ser cética nesse assunto, bom, eu tinha bons motivos.
Cheguei em casa, quando abri a porta, Dragão estava sentado atrás dela. Joguei a bolsa em cima do sofá e peguei ele no colo. Fui para o quarto, coloquei ele em cima da cama e fui tomar meu banho. Fiquei pensando naquele beijo, foi tão bom, eu me senti diferente naquele momento, me senti segura, amada. De um jeito diferente. Mas amada. Fui pra cama e acabei pegando no sono.
...
No que eu tava pensando pra beija-la ? Tudo bem, não foi um beijo desrespeitoso, mas eu me descontrolei. Aquela menina meche comigo, não de um jeito, sei lá. Eu não quero transar com ela. Quer dizer, se ela quiser, eu não vou negar, mas, esse não é meu objetivo com ela. A companhia dela me faz sentir jovem de novo, me faz sentir vivo, me faz sentir que eu não tô sozinho no mundo.
Fui andando pra casa, olhando para o chão, e enfrentando o frio que paralisava meu rosto. Cheguei em casa em menos de 15 minutos. Abri a porta e fiquei alguns segundos parado do lado de fora. Entrei, tirei o casaco e sentei no sofá. Coloquei a cabeça para trás, e minha mente voltou no tempo, voltou para aquele beijo.A pele dela, é macia como uma pétala de rosa. Falando em flores. O cheiro dela, ela cheira a flor. É doce, mas não é enjoativo. Cheiro de anjo, cheiro de menina.
Naquela noite não dormi direito. Mas quando dei por mim já eram 8h30 da manhã e o meu celular tocou. Atendi sem olhar para o visor:
– Alô ?
– Nat ?
– Mãe ? — falei assustado.
– Filho, que saudade .. Quanto tempo. — ela disse em um tom doce.
– Pois é Mãe, também senti saudades.
– Filho, eu quero te ver. Seu Pai também quer.
– Ah, o Pai .. — falei desanimado, minha relação com meu Pai não era das melhores, ele não aceitava o fato de eu querer ser químico e não ser como ele.
– Meu filho, estamos com saudade, venha almoçar conosco.
– Mãe, eu vou pela Senhora. — murmurei.
– Não diga isso meu filho.
– Que horas devo estar aí ?
– A hora que você quiser .
– Então espere por mim.
– Te amo Nat. — ela falou suavemente.
– Também te amo Mãe.
Encerrei a chamada. Fiquei olhando pra TV desligada. Levantei e fui me arrumar para ir a casa dos meus Pais.
Não ficava muito longe, uns 30 minutos de caminhada. No caminho, comprei um vinho que minha Mãe costumava gostar. Quando cheguei em frente a casa deles, parei. Fiquei parado na rua olhando para aquela casa, que um dia eu chamei de minha. Era bonita, tinha um ar antigo que me encantava. Subi as escadas em direção a porta o mais devagar que consegui, segurando a garrafa na mão esquerda. Toquei a campainha. Esperei alguns segundos até que um rosto que eu não via a pelo menos um ano apareceu bruscamente na porta.
– Nathan ? O que faz aqui ? — meu pai falou, espantado.
Fiquei calado, em quanto via minha Mãe surgir do corredor levemente iluminado pela luz do sol, atrás de meu Pai.
– Nat ! Que bom que veio. — ela sorriu, parecia muito feliz.
Fiquei parado olhando para o meu Pai, quase ignorando minha Mãe. Meu pai fez o mesmo. Ficamos calados por alguns segundo, até que minha Mãe tomou a inciativa:
– Venha Nat, entra. — ela falou pegando na minha mão e me puxando para dentro ...
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