Forma mágica

1 Capítulo único


Desde pequena sempre fui uma garota sonhadora. Daquelas que imagina o objeto de desejo por mais impossível que possa parecer. Dentre os vários sonhos, havia um em especial que mexia bastante com o meu imaginário. Não parecia ser algo grande ou importante para qualquer outra pessoa, mas para mim era. Por mais bobo que possa soar, minha maior aspiração era ver uma estrela cadente. Um sonho de infância que só cresceu com o passar dos anos.

Quando tinha 14 anos, participei da Olimpíada Brasileira de Astronomia, a OBA. Não obtive uma nota muito boa, mas me saí melhor do que meus colegas de sala, que também haviam participado. Independente disso, eu só me sentia mais motivada para tentar realizar o meu sonho. No ano seguinte, eu entrei para o ensino médio, e mais uma vez, tentei fazer a prova, só que desta vez o resultado foi ainda pior do que na primeira. Para ser sincera, eu não fiquei surpresa. Por mais que eu gostasse de física, nunca me saí bem nessa matéria, diferentemente de artes e literatura, minhas favoritas. A partir daí, busquei maneiras de me aproximar de meu objetivo. Não tinha dinheiro para comprar um telescópio, mas fui atrás de ferramentas para tornar o meu sonho real, desde bússola, a mapas estelares e calendários de eventos celestes. Quando cheguei ao meu último ano, acabei tendo que deixar alguns dos meus planos de lado por conta da rotina de estudos, mas para meu sonho, reservei um lugarzinho especial em meu coração.

Chegaram formatura, natal, ano novo e, em um piscar de olhos, lá se foi mais um ano. Com o inicio de 2016 também surgiram promessas, e uma delas era a de terminar assuntos inacabados, e isso incluía aquele pequeno desejo de criança. Algumas semanas depois saiu o resultado da faculdade, eu havia entrado para Artes Visuais. Estava eufórica, queria começar no dia seguinte, se fosse possível. Mas para a minha infelicidade, por conta das greves que ocorreram nas universidades federais no ano anterior, minhas aulas só teriam início no dia 16 de maio. Assim se instaurou um longo período de tédio e espera. Quando estava triste, saia para observar o céu, principalmente o céu noturno. E logo, como tudo o q eu fiz naqueles meses, isso acabou se tornando rotina. Toda noite, triste ou não, eu me dirigia ao meu quintal, me sentava na varanda e ficava observando as estrelas. Essas, que se tornaram minhas companheiras e até confidentes por muito tempo. Eu nunca estava sozinha, porque elas sempre estavam me vigiando, me passando certo conforto.

No dia 21 de abril, eu sai para observar o céu, quando me deparo com a imagem mais incrível que eu poderia imaginar. Havia um círculo ao redor da lua, e isso era magnífico. Tirei algumas fotos, fiquei ali por mais algum tempo e resolvi entrar. Depois de ir atrás, descobri que se tratava de um Halo Lunar, e que durante a madrugada, haveria uma chuva de meteoros. Eu fiquei empolgada, essa poderia ser minha grande chance, então procurei informações, me posicionei e esperei. Infelizmente, por uma série de fatores, eu não consegui avistar nenhum. Não vou mentir, fiquei extremamente decepcionada. Eu não havia conseguido de novo. Mas eu estava determinada a não desistir, então procurei e encontrei um calendário que dizia que haveria outra chuva de meteoros em maio, o que me deu um tempo para me preparar melhor. Passaram se alguns dias, até que eu vi na internet sobre a triangulação entre a lua, Marte, Antares e Saturno. Eu havia falado sobre isso com minha mãe no dia anterior, e decidi tentar fotografar esse evento, assim como fiz com o Halo. Sai do meu quarto, passei pela cozinha, falei brevemente com minha mãe e cheguei aos fundos da minha casa. Apesar de minhas fotos não ficarem boas, eu estava de bom humor, e como eu costumava fazer, comecei a falar sozinha:

— Ali está lua, ao seu lado Marte, Antares, abaixo Saturno — me virei — e ali está Júpiter.

Abaixei o olhar um pouco quando algo me surpreendeu. Sim, finalmente havia acontecido, eu havia avistado uma estrela cadente. Eu fiquei estática, não conseguia falar ou pensar em nada. Depois de alguns segundos, ainda sem desviar o olhar eu gritei para minha mãe, que ainda estava na cozinha:

— Mãe, eu vi!

— O que?

— Eu vi!

— Mas o que você viu menina?

— Uma estrela cadente…

Depois disso, eu só conseguia chorar enquanto ficava repetindo para mim mesma “Eu consegui”. Eu não sei dizer por quanto tempo fiquei ali, mas aquilo foi extremamente mágico. E, como em um estalo, eu finalmente havia entendido. Por mais que busquemos diversas formas e ferramentas para alcançar nossos objetivos, as coisas só acontecem na hora que tiverem que acontecer. Não depende do quanto você investe ou se prepara, porque isso vai além do nosso controle. Devemos sempre correr atrás de nossos sonhos, mas quase sempre, vai haver imprevistos, problemas que não vão nos deixar realizá-los naquele instante, mas quando você estiver mais distraído, eles vão simplesmente se realizar, como um feixe de luz passando pelos seus olhos. Deixando-te sem palavras, sem ar e com cara de bobo.

Depois de respirar fundo, olhei acima de minha cabeça e sem pensar exatamente a quem, eu agradeci por aquele momento. Se foi Deus, anjos da guarda, ou o simples acaso, eu não sei. Mas naquela noite, pela primeira vez, eu não fiz planos mirabolantes para alcançar meus outros objetivos, porque eu sabia que se eu corresse atrás, eles iriam acontecer. Não como e quando eu queria, mas de alguma forma mágica.

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