Forgotten
6 Capítulo VI
Notas iniciais
No outro dia acordou com batidas leves em sua porta, e, imaginando ser Lothriel, caminhou até a porta, ainda como estava, abrindo-a. Viu cabelos loiros, olhos azuis, mas não era Lothriel que a encarava e, sim, Legolas. Ele a olhava com um sorriso, e soltou uma risada quando percebeu que a elfa acabara de acordar. Os cabelos negros estavam bagunçados, o mesmo vestido da noite anterior amassado em algumas partes e os pés descalços. Os olhos cinzentos o encaravam arregalados, ainda com uma sombra de sono, com uma surpresa evidente.
“Bom dia, minha bela senhora. Está descansada?” ele perguntou, com um sorriso matreiro. Tawariel o observou, estática por alguns segundos, sem saber o que fazer ou dizer. Afinal, não era todo dia que o príncipe de um reino aparecia em sua porta, lhe dando bom dia com um sorriso tão iluminado quanto sol daquela manhã.
“Sim, meu senhor.” Despertou de seu transe e respondeu, corando levemente, o que apenas o fez sorrir ainda mais.
“Gostaria, então, de conhecer o meu belo reino comigo?” ela o encarou ainda mais surpresa; se perguntou se aquilo era permitido, já que ele era o príncipe, e provavelmente tinha coisas mais importantes para fazer. Por isso, mordeu o lábio encarando o chão, sem saber o que dizer novamente. Legolas, percebendo sua hesitação, soltou uma leve risada.
“Não precisa se preocupar, estou livre de meus afazeres hoje.” Ela o olhou novamente, vendo-o vestido com roupas parecidas a que ele vestia quando o vira pela primeira vez, uma túnica verde musgo, calças acinzentadas, e um cinto marrom na cintura. Os cabelos dourados estavam presos ao lado em uma trança bem feita, e não pode ver sequer um fio fora do lugar. Não pode deixar de notar, mas o elfo estava ainda mais encantador do que a primeira vez que o viu. E pensar nisso a fez corar imediatamente, o que fez Legolas soltar uma leve risada. Não passou despercebido o olhar analítico que a elfa a sua frente lhe lançara; e vê-la corar por causa disso era divertido. Imaginava o que a elfa pensara a seu respeito.
Após ponderar sobre a ideia por alguns segundos, pensando se seria prudente ou não, Tawariel resolveu que talvez não tivesse problema, já que o mesmo viera lhe procurar.
“Se esse for o caso, seria minha honra.” Respondeu finalmente, se segurando para não corar novamente – embora fosse em vão, pois sua face logo adquiriu o tom rosado. Legolas sorriu, assentindo.
“Ótimo. Te esperarei aqui, no corredor.” ele disse, se encostando na parede oposta a porta de seu quarto, com os braços cruzados e um sorriso divertido no belo rosto. Percebeu o que ele quis dizer, e com uma breve reverencia, fechou a porta.
Na solidão de seu quarto, sentiu um nervosismo tomar conta de si, sem entender bem a razão. Seria apenas um passeio, uma formalidade para com uma convidada de seu reino; não tinha motivos para ficar nervosa com algo tão simples.
Respirando fundo, para acalmar os nervos, seguiu em direção à comoda, pegou o pequeno espelho e ajeitou o longo cabelo com os dedos, abaixando os fios rebeldes; diferente do cabelo de Legolas, o seu parecia uma fera a ser domada, com todas as ondas e nós. Depois de tentar, sem sorte, abaixar os cabelos com os dedos, resolveu que seria melhor penteá-los. Depois, quando sua juba já estava devidamente no lugar, passou a mão por sobre o vestido azul escuro, que Lothriel lhe trouxera na noite anterior, para poder atender ao banquete. Infelizmente, não tinha muitas roupas, e era uma pena ter que usar um vestido tão bonito e elegante em uma ocasião casual. Calçou as botas de couro rapidamente, e, assim, dando uma ultima olhada no espelho, saiu do quarto.
Legolas permanecera da mesma forma em que o deixara, com o mesmo sorriso no rosto, que apenas iluminou ainda mais quando a viu. Sem falar nada, ofereceu seu braço para ela, e juntos caminharam pelo longo corredor. Tawariel, que sentia o coração bater um pouco mais rápido, sentindo o toque leve do braço do príncipe no seu próprio, permaneceu silenciosa. Legolas, no entanto, parecia bem relaxado e logo começava uma conversa com ela.
“Há muitas eras atrás, Oropher, pai de meu pai, caminhou com meus parentes através das Ered Luin, até chegar aqui, onde construiu com meu povo nosso reino. Cada pedra entalhada, cada árvore que aqui enfeita, cada pedra preciosa, tudo foi feito com grande amor, e de Oropher, esse grande presente passou para seu filho, Thranduil.” Observou Legolas contar a história de seu reino, e pode ver um brilho em seus olhos azuis, e uma paixão enorme em cada palavra que saia de sua boca. Apesar de se sentir feliz por saber a história daquele lugar, se sentiu triste por não ter uma história para contar também. Imaginava se também tinha um reino de onde viera, e se era tão belo quanto aquele, ou se tinha tantas histórias a serem contadas. E imaginou, também, se sentia a mesma paixão que Legolas pelo seu reino, já que algum motivo a fizera deixar o lugar.
Caminharam durante todo o caminho, para onde Tawariel não sabia, com Legolas contando a história da formação de seu reino. Finalmente chegaram ao mesmo salão onde tinha comido pela primeira vez, e onde o desjejum estava posto. Apenas ela e Legolas estavam presentes na sala, e a grande mesa estava repleta de comidas; certamente aquele povo gostava de fartura, pensou Tawariel.
Legolas se sentou na cabeceira da mesa, lugar reservado certamente para o rei, e convidou-a a se sentar a sua direita, e ela prontamente o fez. Comeram em silêncio, um observando o outro disfarçadamente. Era quase cômico vê-los ali, se olhando mas não falando nada.
Legolas observava a nova elfa de seu reino com certa curiosidade e, ao mesmo tempo, admiração. Percebeu que Tawariel não estava totalmente relaxada, e parecia um pouco constrangida –suas bochechas deixavam isso claro-, mas isso só a deixava ainda mais interessante. Tawariel, por sua vez, encarava a comida em seu prato como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Vez ou outra ousava olhar para Legolas, apenas para perceber que ele também a olhava, e assim ficava ainda mais constrangida. Contudo, apesar de ser embaraçoso, era bom ter a companhia de outra pessoa que não fosse Lothriel, por isso estava bastante satisfeita com o convite do príncipe.
Após comerem, continuaram com sua caminhada pelo reino. Enquanto andavam, nada de muito diferente aparecia, com exceção de subidas e descidas, algumas escadas e pontes, as quais Tawariel não tinha visto e que conectavam partes do palácio.
Legolas explicava algumas salas e o que elas eram, como por exemplo uma grande biblioteca, onde vários livros de eras passadas e desta ficavam. Várias estantes, que tomavam conta de todas as paredes, estavam lotadas de livros de diversas cores e tamanhos. Tawariel encarou tudo maravilhada; a sala era cheia de lamparinas, fazendo-a bem iluminada, provavelmente para a leitura dos elfos. Várias mesas com bancos e cadeiras estavam espalhadas por toda a sala, embora não visse nenhum elfo sentado e lendo.
“Nós, elfos, somos muito ligados as leituras, e também a escrita; principalmente os elfos mais jovens, pois estes tem grande vontade de ler histórias sobre eras passadas. Aqui temos livros escritos por elfos desde a invenção de nossa língua, o Sindarin. Temos também livros com a escrita dos elfos da floresta, que é um dialeto derivado do Sindarin –e o qual todos nós do reino falamos -, e alguns livros dados de presente por aqueles que já habitaram as Terras Imortais, mas a maioria está em Quenya, e essa língua, infelizmente, não posso falar.”
“Qual língua estamos falando agora?” perguntou Tawariel, com o cenho franzido. Legolas soltou uma risada antes de responder.
“Falamos Sindarin, que é a língua mais comum entre os elfos; é provável que, por isso, você fale também.”
“Interessante.” Tawariel disse, sorrindo com a nova descoberta. Legolas assentiu e continuou, então, com suas explicações.
“Sim, é realmente interessante como a língua evoluiu, e, com ela, a escrita. A escrita élfica é considerada a mais bela dentre os povos, e para os mortais, tal escrita contém magica.” O elfo parou, rindo. Para ele era deveras engraçado o fato de muitos homens os verem como seres mágicos.
“Mágica?” perguntou Tawariel, sem entender o porquê de Legolas estar rindo. O elfo, percebendo sua curiosidade, logo explicou.
“Sim. Os mortais, homens em sua maioria, não entendem muito bem o mundo dos elfos – com algumas exceções, é claro -, e por causa disso muitos mitos e lendas foram criados. Lendas sobre elfos que enfeitiçam homens e mulheres, deixando-os em um sono profundo apenas com o som de suas vozes. Bem, isso não deixa de ser verdade, pois bela é a musica que é cantada pelos elfos, e muitos já se perderam apenas por ouvir esse canto. Existem lendas sobre a comida, a bebida e os lares dos elfos serem encantados, e que muitos que entram em suas casas jamais voltam; mas isso seria facilmente explicado pela beleza e tranquilidade dos reinos élficos. Eu mesmo tenho grande vontade de conhecer um dos mais belos reinos élficos da Terra-média, o reino de Lothlorien, a floresta dourada.” Tawariel viu como um brilho passou sobre os olhos azuis de Legolas, enquanto ele continuava com suas histórias.
“Conta-se que a nenhuma outra floresta na Terra-média se compara em beleza e maravilha, pois no outono, as folhas das árvores não caem, mas ficam douradas. E o chão e teto da floresta são dourados, como se a luz do próprio Anor¹ tivesse permanecido por tempo demais naquele lugar, colorindo-o com suas belas cores. Ai, se um dia eu tiver a oportunidade de dar uma olhada nessa floresta magnifica.” Com a mão no peito, Legolas encarou uma das paredes da sala, completamente vidrado, como se estivesse visualizando as florestas que tanto desejava ver naquele exato momento. Tawariel, que tinha ficado quieta apenas ouvindo até o presente momento, tocou o ombro de Legolas levemente, dizendo.
“Tenho certeza que um dia poderá ver o que tanto deseja.” Legolas, após sair de seu momento de distração, sorriu para a elfa. Não soube o porquê, mas parecia que suas palavras tinham certa verdade e certeza, e aquilo aqueceu seu coração.
“Agora tenho um novo desejo em meu coração, minha senhora.” Ele disse, tocando a mão sobre seu ombro gentilmente. “Desejo que, quando esse dia chegar, a senhora esteja comigo.”
Tawariel não pode deixar de corar ao encarar aqueles olhos azuis, que, de repente, tinham um brilho ainda mais vívido. Estaria ele cortejando-a? Tal pensamento parecia impossível, embora as palavras e gestos do elfo deixavam-a com duvidas. Sem conseguir sustentar o olhar firme do elfo a sua frente, desviou os olhos para o chão. E Legolas, percebendo que a deixara constrangida, mas sem se sentir culpado por isso, mudou de assunto.
“Muitos mortais tem diversas lendas sobre nós e muitos até mesmo nos temem. Digo isso por experiencia própria, pois já fui várias vezes na cidade de Esgaroth, em épocas diferentes; e, em todas, os homens me olhavam com estranhamento, mesmo que façamos negócios há tantos anos. Vejo medo, ao mesmo tempo em que vejo admiração e curiosidade em seus olhos. Por falar nisso, também temos livros dados por homens, que contam suas próprias histórias e com suas próprias canções. Alguns são realmente interessantes, pois contam como é viver como um mortal; como é passar por doenças, a perda de entes queridos, e a própria morte assombrando a todo momento.”
“Parece triste. Imagino como deve ser, o medo que a mortalidade traz.” Tawariel murmurou, aproveitando a mudança de assunto. Legolas assentiu e ambos ficaram em silêncio, pensando no quão difícil deve ser viver limitadamente.
“Meu senhor por acaso escreve?” Tawariel quebrou o silêncio, atraindo a atenção de Legolas para si novamente. O elfo riu, balançando a cabeça.
“Bom, particularmente prefiro ouvir canções e poemas à escreve-los. Meu talento está na luta, no arco e na flecha, não na escrita.” Ele admitiu, e Tawariel mordeu os lábios para reprimir o sorriso, pensando que realmente ele não parecia apto à escrita. Percebendo que ela sorria, ele arqueou uma sobrancelha, analisando-a. Tawariel ficou apreensiva, pensando que talvez tinha o desrespeitado, e já ia se desculpar mas foi calada pela voz dele. “A julgar pela leveza de suas mãos, poderia dizer que você escreve. Entretanto, pude ver que você também tem algum treinamento na arte da luta. Mas suas mãos não são mãos de um guerreiro, o que me leva a pensar que não luta com frequência.”
Ele dizia tudo com um ar analítico, e, de repente, Tawariel sentiu que ele sabia muito sobre ela, enquanto ela mesma não sabia de nada. Olhou para as suas mãos, vendo que, embora fossem suaves e macias, ainda tinham algumas marcas que confirmavam o que Legolas dizia.
“Como sabe que tenho treinamento na arte da luta?” perguntou por fim. Legolas encarou-a por alguns momentos antes de começar a falar.
“Lembra-se que meu pai lhe disse que eu tinha salvado-a?” Tawariel assentiu, e ele continuou. “O dia em que você entrou na Floresta, eu estava fazendo ronda. Tudo parecia normal, silencioso... como a tranquilidade que precede a tempestade. Estávamos voltando para o reino, pois nossa ronda tinha acabado; mal tínhamos nos movido quando ouvimos o trote de um cavalo. E quando nos viramos nessa direção, vimos que uma luta estava sendo travada perto das bordas da floresta. Não vimos quem era, mas vimos que orcs corriam na direção dessa pessoa.”
“Corremos nessa direção, vendo o cavalo de crina dourada passando por nós e relinchando desesperadamente. Ouvimos o som de metal, o urro dos orcs, e um grito de dor. Quando chegamos até você, alguns orcs jaziam no chão, mortos. Para nossa surpresa, uma de nosso próprio povo também estava lá, sendo ferida pelas criaturas ao seu redor. Acabamos com os orcs, e fomos ao seu resgate.” Terminou de falar, e uma sombra estava sobre sua bela face. Tawariel pode perceber que ele relembrava as cenas pela forma em que sua visão estava desfocalizada, o cenho franzido e os lábios crispados.
Se aproximando dele novamente naquele dia, tocou-lhe o braço. Legolas piscou algumas vezes, e virou o olhar para ela. Parecia assombrado, mas logo se recompôs e sorriu fracamente.
“Está tudo bem, meu senhor. Eu estou bem.” Disse, sorrindo da melhor forma que pode para assegurar o que disse. O sorriso de Legolas aumentou, e ele assentiu, concordando com suas palavras. “Por falar nisso, ainda não te agradeci. Muito obrigada por ter salvo minha vida.”
“Não fiz mais do que minha obrigação; não há necessidade de agradecer.” Tawariel assentiu e sorriu. “Agora, eu realmente fiquei interessado pelas suas habilidades na arte da luta. Talvez algum dia possamos treinar juntos?”
Os olhos de Tawariel se iluminaram com essa probabilidade; talvez se fizesse coisas que lhe eram familiares, pudesse recuperar a memória mais rapido. Com isso em mente, sorriu ainda mais para Legolas.
“Seria minha honra, senhor.”
“Ótimo.” Respondeu ele, a encarando pensativamente. “Ai! Essa conversa me fez lembrar de algo que pode te interessar. Venha comigo, vamos até a vila.” Tawariel soltou uma risadinha ao vê-lo andar rapidamente para fora da biblioteca, puxando-a pelo braço.
Continuaram, assim, sua caminhada pelo reino. À poucos passos da biblioteca, no fim de um longo corredor que dava em outro lado do reino, as habitações dos elfos ficavam.
Era um espaço aberto, sem teto ou paredes rochosas, com o chão coberto de relva, cercado por altas árvores, e com uma pequena fonte no meio. Pode ver casas em vários lugares diferentes, de diferentes tamanhos e cores. Algumas eram feitas de madeira, outras de pedra, e algumas tinham jardins floridos, bem cultivados com uma variedade de flores, outras não. Percebeu que elfos caminhavam por ali, vestidos casualmente, ocupados com seus afazeres. A luz do sol brilhava e refletia sobre a água da pequena fonte, onde alguns pássaros bebericavam a água cristalina.
Estava encantada. Achava que o palácio era belo, mas aquela pequena vila onde os elfos moravam era bem mais bela. A natureza estava presente ali, no farfalhar suave das folhas das diversas árvores ao vento, no canto dos pássaros, na luz do sol e na suave brisa de verão.
“Essa é a vila élfica do Reino da Floresta. Aqui é onde os elfos moram, cultivam alguns alimentos, tomam conta das árvores e dos pequenos animais, que ainda tem o coração puro e cheio de luz.” Legolas dizia tudo com um sorriso alegre e satisfeito no rosto. “Essa é a única lembrança da Floresta das Trevas, da época em que era chamada de Floresta Verde, a Grande, e a vida reinava.”
“É lindo.” Murmurou Tawariel, com os olhos brilhando ao olhar para o lugar. Legolas a puxou pela mão, o que a assustou um pouco, e assim continuaram a andar pela vila; todos os elfos que os viam faziam uma reverência, e davam “bom dia”. Tawariel não pode deixar de notar alguns olhares de estranheza e curiosidade que lhe eram lançados, mas logo desapareciam.
Ao caminhar mais para dentro da vila, viu mais casas, e percebeu que até mesmo em cima das árvores tinham casas, a qual Legolas nomeou de talan e em seus troncos finas escadas balançavam.
Viu algumas crianças brincando alegremente, correndo pela grama verde; não pode deixar de sorrir, vendo pela primeira vez aquelas pequenas criaturas. Quando passaram por elas, chamaram por Legolas, cantando uma musica alegre que parecia falar do príncipe, e que o fez rir e ela olhar encantada.
“Venha, vamos até o lago.” Ao longe viu o brilho do sol colorindo a superfície de um lago. Quando chegaram, viu alguns elfos lavando suas roupas nas bordas do lago, ao mesmo tempo que alguns se banhavam alegremente não muito longe.
“Aqui é onde tiramos a água pura do reino; infelizmente o rio da floresta é encantado, e impossível para uso. Por isso tivemos que recorrer ao lago.” Ele explicou. Depois, continuaram a caminhada pela vila, dando a volta no lago; enquanto andavam, os elfos acenavam para Legolas, e este os respondia com um sorriso.
Passaram por mais algumas pessoas e casas, até chegarem em uma área onde havia apenas uma casa. Era um campo mais aberto, com a relva maior e mais verde; ainda sem entender, encarou a casa. Era feita de madeira, com grandes janelas que deixavam o vento passar.
Legolas, sorrindo animadamente, a puxou para dentro da casa, onde sua curiosidade foi sanada. Ali, naquela casa, vários cavalos descansavam.
“Mas o que...?” ela murmurou, ainda sem entender o porquê de Legolas traze-la ali.
“Espere aqui.” Ele disse, adentrando mais o estábulo, e sumindo dentro de uma das portas onde os cavalos ficavam. Após alguns minutos, o elfo saiu da porta puxando um cavalo com pelo dourado, que, ao vê-la, soltou um relincho de felicidade, e se aproximou com mais velocidade, fazendo Legolas rir.
Tawariel encarou o cavalo, e logo lembrou das palavras do rei, que fora salva por causa de sua égua, que atraiu a atenção dos elfos para onde ela estava.
Arregalando os olhos, se aproximou mais da égua, passando a mão em seu focinho. A égua bufou, se aproximando de seu rosto e dando uma grande lambida em sua bochecha. Tawariel riu, sendo acompanhada por Legolas.
“Certamente essa é sua égua. Posso sentir a felicidade emanando dela, apenas por te ver.” Disse Legolas, alisando o pelo da égua.
“Oh...” murmurou Tawariel, sentindo uma alegria lhe preencher. “Foi você que me salvou, não foi?” disse para a égua, que balançou a cabeça, tirando uma risada de sua dona. Logo Tawariel estava a abraçando, como se a muito não visse um amigo. Sentiu certa familiaridade com a égua, mas fora isso ainda a via como uma estranha; mas uma estranha que lhe conhecia, e aquilo já era suficiente por enquanto.
“É uma égua muito corajosa, pois veio em nossa direção rápida como um flecha, e quando nos viu, relinchou até que atraiu nossa atenção.” Legolas disse, com um sorriso no rosto. “Quando a seguimos, vimos você, deitada no chão, com aqueles malditos...” Tawariel viu uma sombra passar sobre os olhos de Legolas, e por um momento ele ficou quieto novamente, olhando para o nada enquanto repassava as cenas em sua mente; cenas que a própria protagonista não se lembrava.
“Legolas?” Tawariel o encarou preocupada, encostando levemente seus dedos sobre o braço do elfo; assim que sentiu o toque, os olhos de Legolas a encararam, e logo o sorriso reapareceu em seu rosto.
“É uma boa égua.” Ele continuou, passando a mão sobre a longa crina do animal.
“Sim.” Concordou Tawariel, também fazendo carinho na égua. De repente, se deu conta de algo. “Oh! Não sei o seu nome... o que faremos agora?” se perguntou, mordendo os lábios e franzindo o cenho.
“Dê-lhe um novo nome, como fizemos com você; afinal, ela não pode ficar sem um, não é?” Legolas disse, como se aquela fosse a solução obvia. E era, mas Tawariel se sentiu triste por também não lembrar o nome de sua companheira. “O que acha de Huoriel, a corajosa?”
A égua, parecendo entender a situação, balançou a cabeça, soltando um relincho baixo. Tawariel riu, passando a mão sobre sua grande cabeça dourada.
“Acho que gostou, não é mesmo? Só espero que consiga me lembrar de seu verdadeiro nome...” disse sorrindo, e sendo observada por Legolas, que também sorria.
Andaram um pouco com Huoriel, e as vezes a égua a encarava com grandes olhos negros como se fosse para se certificar de que sua dona estava realmente ali. Tawariel sorria, passava a mão em sua crina e dizia palavras alegres. Legolas, que vira a interação entre as duas um pouco de longe, pois não queria atrapalhar um momento que poderia ser crucial para a volta da memória de Tawariel, não aguentou mais sua ansiedade e disse.
“Por que não a monta?” Tawariel o encarou como se ele fosse louco, e depois, vendo que ele estava falando sério, olhou para Huoriel novamente. Enquanto a olhava, a vontade de subir sobre ela e cavalga-la cresceu em seu coração.
Dessa forma, juntando toda a sua coragem, e recebendo olhares de apoio de Legolas, montou-a com um pulo. A égua, que não esperava, deu um pequeno relincho de surpresa, mas logo se acalmou, percebendo que era Tawariel.
Segurando na crina dourada, e pedindo para que Huoriel andasse, deram alguns passos. Mas não demorou muito para que seu corpo relaxasse e ao sentir isso, Huoriel começou a galopar mais rápido. Logo estavam correndo, não muito rápido por causa do espaço, mas rápido o suficiente para que Tawariel sentisse o vento matinal soprar sobre seus cabelos. Tirou as mãos da crina de Huoriel e abriu os braços, desejando sentir o vento ainda mais sobre o seu corpo.
Quando Tawariel desmontou, sentou-se com Legolas sobre a grama – onde o mesmo tinha ficado, enquanto observava-a-, e Huoriel deitou-se ao seu lado. Ficaram em um silêncio agradável, apenas observando a paisagem; o sol agora estava mais acima deles, o que indicava que logo seria a hora do almoço. Pássaros de todos os tamanhos e cores voavam por cima de suas cabeças, alguns indo parar nas árvores, outros bebericando a água do lago.
“Meu senhor, seu reino é encantador.” Resolveu quebrar o silêncio, lançando-lhe um olhar rápido.
“Me chame apenas de Legolas, por favor, Tawariel.” Ele disse, olhando-a profundamente antes de voltar a falar. “Há algum tempo atrás, não só meu reino, mas toda a floresta, eram belos. Contudo, uma sombra agora paira na floresta, e criaturas nefastas vivem nela, disputando conosco a posse do lugar. Quase todos os dias temos que sair para acabar com as aranhas enormes que agora vivem na nossa bela floresta, espalhando seu veneno em pequenos animais e plantas, além dos malditos orcs que aparecem de vez em quando.” Tawariel percebeu a tristeza do príncipe ao falar da floresta, e também o amor que o mesmo ainda tinha por sua casa.
“Sinto muito.” Murmurou, incapaz de dizer algo mais sábio.
“Ah, mas não é culpa sua.” Ele disse, rindo, sua face logo estava livre de qualquer sinal de tristeza que antes se fazia presente.“Apesar de toda a escuridão, a floresta ainda preserva as altas e belas árvores, e aqui e ali a luz força sua entrada. Acredito que um dia as trevas irão sumir, pois onde há luz, há esperança.” Tawariel sorriu, olhando-o com ainda mais admiração.
“Acho que você está certo... Legolas.”
Infelizmente não ficaram juntos por muito tempo, pois uma hora antes do meio-dia, um elfo alto de cabelos escuros veio chamar Legolas, dizendo que seu pai desejava falar com ele. Legolas o encarou confuso, mas assentiu e disse que logo iria ao encontro dele.
“Tenho que ir, Tawariel. Deveria ser meu dia livre, mas o dever sempre acaba chamando.” Disse, se levantando com um olhar de desculpas. Tawariel, embora desapontada por ele ter que ir, assentiu e forçou um sorriso.
“Não tem problema.” Ele também sorriu, fazendo uma reverência.
“Você pode caminhar por onde quiser; tente conversar com alguém. Amanhã passarei em seu quarto novamente, para te mostrar outros lugares do reino. ” Assentiu, sorrindo, e o encarou com surpresa quando pegou sua mão e beijou-a, sem tirar os olhos azuis dos seus. “Até mais, Tawariel.” E assim ele partiu.
Ficou observando suas costas até desaparecer totalmente de sua linha de visão. Depois, voltou os olhos para Huoriel, que recebia seu carinho na cabeça, pensativa.
Começou pelo dia que acordou, e com o sonho que teve. Era uma imagem de si mesma, caminhando por algum lugar desconhecido. Lembrava vagamente de um chão de pedra, e algumas plantas. Mas fora isso, não lembrava de mais nada. Pensou então no rei e seus olhos frios e astutos, naquele reino grande e escuro, e no belo príncipe, que lhe dera tanta atenção.
Além de Lothriel, fora o único a se preocupar com ela, falar com ela. Não conseguia parar de pensar no quanto o admirava, pois era gentil e sorria facilmente. Mesmo o conhecendo há pouco tempo, gostava de seu jeito. Uma luz parecia ilumina-lo, uma luz que com certeza poderia ilumina-la da mesma forma.
“Oh, Tawariel! Finalmente te encontrei.” Saiu de seus pensamentos, olhando para a fonte da voz e encontrando Lothriel.
“Olá, Lothriel.” Respondeu, sorrindo para a elfa. “Não sabia que estava me procurando, sinto muito.”
“Não tem problemas. Estava te procurando quando me disseram que você estava com o príncipe Legolas. Mas há algum tempo o vi saindo da vila, então resolvi que você deveria estar sozinha. Por isso estou aqui.” A elfa sorriu, e encarou a Huoriel, só agora percebendo sua presença. “Oh, encontrou sua salvadora?” disse sorrindo, enquanto Tawariel assentia.
“Legolas resolveu me mostrar o reino, e se lembrou de que eu cheguei aqui com ela.” Algo brilhou nos olhos azuis de Lothriel, mas não soube dizer o que era. “Tudo aqui é muito lindo.” Suspirou, dando uma olhada para trás, e vendo parte da vila.
“Sim, para mim é o lugar mais lindo em toda a Terra-média.” Disse a elfa, sentando-se no lugar onde Legolas estivera.
“Você já esteve em muitos lugares?” perguntou curiosa.
“Não, não.” Respondeu Lothriel rindo. “Sou ainda muito jovem, e não tive oportunidade de sair das bordas da Floresta. Mesmo assim, imagino que esse reino seja o mais belo.” Ficaram em silêncio por um tempo, antes de Tawariel deixar sua curiosidade lhe vencer novamente.
“Lothriel, desculpe se for rude, mas você tem quantos verões em seu nome?” Lothriel abriu os olhos, olhando para o céu, pensativa.
“Tenho apenas trezentos anos. Muito pouco para um elfo, e mais do que o dobro que um homem pode viver.” Tawariel ficou em silêncio, imaginando quantos anos ela mesma tinha, e se já viajara para outro lugar da Terra-média. Ficaram em silêncio novamente, antes de Lothriel se levantar e a encarar.
“Está na hora do almoço. Vamos?” encarou Huoriel, pensando onde poderia deixa-la. Lothriel, percebendo, disse. “Pode deixa-la aqui, pastando. Daqui a pouco todos eles sairão daqui e irão para fora, para tomarem o sol de meio-dia.”
Tawariel assentiu, passando a mão sobre o focinho da égua novamente e dizendo.
“Logo voltarei para te ver, minha amiga.” E se virou, seguindo Lothriel para fora do estábulo.
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