Forgotten

2 Capítulo II


Notas iniciais
Boa leitura!

Era meio-dia, e ainda não tinha parado de cavalgar Melda. Faltava pouco para finalmente atravessar o Rio, em uma área longe do castelo. Após horas cavalgando, mal podia ver o reino; era apenas um ponto distante no horizonte. Contudo, ainda era perigoso ficar nos arredores, já que não estava tão longe como gostaria. Logo que descobrisse de sua fuga, seu pai mandaria todos atrás de si; e não estava preparada para perder a essa altura do campeonato, após ter feito tantas coisas vergonhosas, como fugir na calada da noite e bater em dois irmãos. Com certeza, se seu pai a pegasse, esbravejaria com toda a raiva do mundo.

Expulsou os pensamentos da cabeça, tentando focar no que faria após atravessar o Rio. Não conhecia a região muito bem, apenas conhecia os arredores; sabia que mais a Norte estaria Erebor, a terra dos anões, onde habitava o terrível dragão Smaug; ali provavelmente não seria bem-vinda. Tinha também Esgaroth, a cidade dos homens; mas ali seria reconhecida como elfa, e seria um dos destinos onde seu pai procuraria. E a Oeste de Esgaroth estava a morada de seus parentes, na Floresta das Trevas.

Um arrepio passou pela sua espinha ao pensar nas Florestas, onde antes eram belas, mas uma sombra negra se apossou do lugar, e os elfos lutaram muito para manter uma parte dela intacta; mas aquele era o último lugar onde gostaria de passar, pois se fosse pega, ou pior, se encontrasse criaturas nefastas, seu pai também ficaria sabendo, pois mantinha uma relação com o Rei dos elfos, Thranduil. Evitaria aquele lugar, então. Infelizmente, além desse alcance, pouco sabia sobre o que tinha ao Sul, ou a Oeste. O único lugar em que tinha pensado em passar era a Velha Estrada da Floresta, que cortava a Floresta das Trevas e onde, provavelmente, a levaria a algum lugar longe dos domínios de seu pai.

Talvez conhecer a terra dos homens, ou ainda melhor, Imladris, o lugar onde Lorde Elrond Meio-elfo morava; já ouvira em canções de seu povo falarem sobre o lugar, em que tudo parecia um sonho e a paz reinava. Pensando bem, podia conhecer o que quisesse. Estava livre; livre para ir onde quisesse sem ser interrogada. Poderia passar parte de sua vida conhecendo a Terra Média, e depois, talvez, passaria para as terras além do mar, onde viveria o resto de sua vida longínqua.

Com tantos pensamentos sobre o futuro e a ideia de liberdade brilhando em sua mente como uma bela pedra de diamante, pela primeira vez naquele dia fatídico, sorriu. E o sorriso se transformou em uma melódica risada, que era levada pelos ventos como uma bela musica. Abriu os braços, se equilibrando sobre Melda com as pernas, e sentiu o vento de verão soprar-lhe os cabelos, que esvoaçavam atrás de si. Ficou alguns segundos assim, até abrir os olhos e encarar a terra a sua frente, de um verde extenso e brilhante, com uma nova perspectiva. Nunca tinha se sentido assim em todos os seus incontáveis anos de vida; estivera sempre presa a um lugar ao qual sempre chamou de lar, mas do qual nunca foi permitida sair. Fazia passeios pelas terras ao redor, mas nunca podia ir muito além do que queria. Vivera assim por muito tempo, achando que aquela vida era maravilhosa. Entretanto, nunca tivera uma aventura emocionante, ou explorara terras e culturas além da sua. Ouvia apenas murmúrios de estórias distantes e que pareciam mitos e lendas.

Sentindo sua felicidade, Melda relinchou baixo, movendo sua cabeça para cima. Abaixando, abraçou a égua com paixão. Aquela tinha sido sua amiga por muito tempo, e continuaria sendo sua fiel companheira nessa nova jornada de sua vida.

O sol já estava se pondo quando resolveu parar; já tinha avançado uma boa parte do caminho em direção ao Norte, e já não podia mais avistar seu reino. Andava pelas margens do Rio, acompanhando-o. Antes, pensara que conseguiria atravessa-lo, mas pelo movimento rápido e forte da água, perdeu as esperanças. Eram pelo menos três metros de largura de uma margem para a outra, e não conseguiria atravessar sem deixar Melda para trás.

Encheu seu cantil com a água do Rio, e esticou um pouco as pernas antes de subir em Melda novamente, pronta para recomeçar a cavalgar. Não pararia tão cedo, sabendo que ainda faltava muito para alcançar as bordas da Floresta das Trevas. Ainda não tinha visto sinal da floresta, e não fazia ideia do quanto faltava para vê-la. Portanto, continuaria até Melda não conseguir mais. Por sorte, a égua era acostumada a percorrer longas distancias e não se cansava tão facilmente, embora soubesse que logo se cansaria.

Continuou a percorrer todo o caminho rente ao Rio, até a chegada do anoitecer. Resolveu parar novamente, dessa vez para descansar e deixar Melda se alimentar. A noite estava mais iluminada, com a lua um pouco maior do que estava na noite anterior, e as estrelas brilhando com ainda mais força. Não ouvia som algum na escuridão da noite, a não ser o movimento do Rio e o uivo baixo do vento. Nem mesmo o som de animais podia ouvir. Estava em uma área deserta, apenas ela e Melda.

Soprava um vento frio, vindo do Leste, fazendo-a apertar a capa mais ao redor de si, para se proteger. Pensou que escolhera a estação certa, pois se fosse inverno, o frio seria impossível de aguentar, até mesmo para ela.

Suspirando, tirou da bolsa uma maçã, se sentindo de repente faminta. Viu Melda pastando na relva esverdeada, e deu uma mordida em sua própria maçã. Após comer, se esticou no chão, observando o céu estrelado acima de si. Imaginava quanto tempo demoraria até encontrar a Floresta, e quanto tempo duraria seus suplementos. Não tinha trazido muita coisa; dentro da mochila tinha uma muda de roupa, uma faca, um elixir de seu povo para o cansaço, tiras de tecido, caso se ferisse, e comida. Contudo, o que a preocupava era se os alimentos que trouxera seriam suficientes. Trouxe alguns bolos embrulhados em folhas, frutas, e pão.

"Espero que dê." Pensou alto, e ouviu o eco da própria voz na imensidão do silencio. Deixou os olhos desfocarem, entrando em estado de meditação, e sentindo os músculos de seu corpo cansados. Não soube quanto tempo ficara naquele estado, mas assim que sentiu o focinho de Melda em sua orelha, focou sua visão novamente, vendo-a a grande cabeça da égua na sua frente.

A lua estava alta no céu, e uma fina camada de nuvens cobria as estrelas, escondendo-as parcialmente. Se levantou, e esticou os braços para cima. Melda estava deitada ao seu lado, respirando rapidamente. A deixaria descansar por um tempo, e depois continuaria com sua viagem. Esperava aproveitar parte da noite e do dia, e esperava percorrer uma longa distancia sem parar.

Após uma hora, Melda se levantou, e assim continuaram sua viagem. A noite passou lentamente enquanto cavalgava dentro da escuridão, no silencio e sem ver nada além do Rio ao seu lado e montanhas à distancia. Quando finalmente a lua dava lugar ao sol, e as estrelas a imensidão azul clara do céu, pode ver que tinha avançado bastante. O Rio parecia um pouco mais aberto, apesar de ainda estar feroz. Suas esperanças de chegar até a floresta aumentaram, e continuou cavalgando durante todo o dia.

Finalmente, quando o sol já estava se despedindo novamente, e sua cabeça pendia de cansaço, conseguiu observar ao longe o que parecia um muro de arvores. Sorriu, alegre e esperançosa, vendo que finalmente podia avistar a floresta.

Resolveu então parar e descansar nas margens do rio novamente. A ideia foi bem recebida por Melda, que correra sem cessar durante todo o dia, parando apenas para beber água, nem mesmo para pastar. Não demorou muito para a égua cair ao seu lado, cansada. Passou a mão sobre sua crina, e se deitou olhando-a.

"Logo chegaremos, minha amiga. E, assim, descansaremos por um bom tempo." A égua apenas bufou; não sabia onde chegariam, nem quando, ou se poderiam de fato descansar. Mas uma ponta de esperança é melhor que nenhuma.

Novamente ficou perdida em pensamentos observando o céu estrelado; contudo, não dormiu. Apenas descansou o corpo, principalmente as costas, que estavam duras por ficar ereta sobre Melda por tanto tempo. Fora isso, não sentia vontade de dormir. Por isso, apenas observou a imensidão brilhante que era o céu.

Sentiu algo se mexendo ao seu lado e viu que Melda tinha se levantado. Apenas naquele momento percebeu que tinha entrado em um estado de dormência sem perceber, ainda de olhos abertos. Percebeu que ficara ali mais do que pretendia, pois a lua estava se indo para o Oeste, o que sinalizava que a alvorada logo chegaria. Levantou-se, tirando a poeira da parte de trás da capa, e esticando os braços. Olhou ao redor, e não viu mudança alguma. O silencio ainda se fazia presente, quase que a apertando em um grande abraço. Bebericou de seu cantil, subiu em Melda e continuou sua jornada.

Não tinha se passado longas horas, e o céu estava começando a clarear, com tons de laranja, cor-de-rosa e um azul fraco, quando pode ver a floresta mais claramente; era um emaranhando de arvores largas e altas, e parecia sufocante por dentro. Emanava uma escuridão, e sentiu arrepios só de olhar de longe. O vento uivava por entre as arvores velhas, como se fosse um alarme contra o perigo. Entretanto, seu coração não se assustou. Ainda eram arvores, sofridas e tristes por estarem imersas em uma escuridão severa e maldosa. Não se ouvia barulho de passaros cantando, nem de pequenos animais começando seu dia de trabalho arduo. Ouvia-se apenas a água fazendo o rapido caminho rio abaixo, e o vento soprando.

Ao meio dia passara por boa parte da floresta, e a cada trote de Melda, sentia seu coração apertar ainda mais; as estórias sobre a floresta que um dia fora bela e alegre, com grande e majestosas arvores, e se tornara escura, com uma maldade pairando, acabando com qualquer vida que algum dia habitou ali. Achava uma covardia, e era uma dor no coração ver algo tão belo transformado em algo tão negro e assustador. Não era a única que se sentia dessa forma. Melda também estava inquieta, tendo que ser acalmada algumas vezes. Conseguia pressentir a maldade, e tinha medo.

Quando o dia finalmente chegou ao seu fim, conseguiu ver ao longe um pedaço da floresta que quase se juntava com o rio. Era uma passagem afunilada, diferente do campo aberto por onde tinha percorrido durante toda a viagem. Decidiu que, por ser muito próximo a floresta — durante grande parte do trajeto tinha permanecido longe das bordas e mais próxima ao rio -, iria percorrer apenas na alvorada. Não confiava naquelas terras o suficiente para andar na escuridão da noite, onde as criaturas das trevas geralmente saiam para fazer suas maldades. Portanto, sentou-se com Melda na margem do rio, enchendo novamente seu cantil e comendo um pedaço de bolo. Melda pastava silenciosamente, com as orelhas atentas a qualquer movimento estranho. Sentindo-se cansada, resolveu molhar o rosto com a água do rio. Estava fria, e a sensação contra sua pele quente foi boa.

Olhava novamente as estrelas, esperando ansiosamente, pela primeira vez, pelo nascimento da alvorada. Começou a pensar no que estavam fazendo em casa, se estavam a procurando ou se estavam preocupados. Imaginou o pai de cabelos em pé, nervoso e a mãe, calma como sempre, com o cenho franzido e os lábios cerrados, demonstrando preocupação. De repente, no frio que o vento vindo do leste trazia, sentiu-se solitária e com saudades de casa. Lembrava-se dos campos, da cidadela com bolos e pães-de-mel deliciosos a venda, e do povo alegre que sempre cantava no final do dia, e inicio da noite, para as estrelas, suas mais amadas musas.

Foi tirada de seus devaneios de repente, ao ouvir um barulho de passos atrás de si. Se levantou imediatamente, olhando para as bordas da floresta. Viu ali um par de olhos brilhantes contra a escuridão. Ficaram se encarando por segundos, até o ser sair da floresta a passos lentos e um sorriso sinistro. Sentiu o sangue gelar ao ver a criatura, que era deformada e de uma cor escura. Tinha olhos malignos e famintos, e sua boca negra salivava. Rosnou algo em alguma língua a qual não entendia, e veio em sua direção com um machado em mãos. Melda, percebendo a criatura, relinchou e ficou ao seu lado.

O que aconteceu no momento seguinte foi rápido demais para sua mente processar. Automaticamente pegou sua adaga, que estava no chão ao lado da mochila, atitude extremamente descuidada de sua parte. Logo seu corpo se chocou com o da criatura, e pode sentir o odor que vinha de seu halito negro. Rolou para o lado, mandando Melda se afastar, ao que prontamente a égua obedeceu, e se preparou para a luta. O monstro atacou a com o machado, ao que habilmente desviou, e então largou sua adaga sobre o braço, ouvindo um rosnado de dor. Sangue negro sujou sua arma, mas não teve tempo para se enojar quando a criatura a atacou novamente. Dessa vez, deu-lhe um chute no abdômen, mas a criatura pegou seu pé e a puxou, fazendo-a cair no chão com um baque. Sentiu as costas doendo pelo súbito impacto, e logo a criatura estava sobre si, agora pronto para lhe dar uma machadada certeira. O que não esperava era a agilidade, que provinha do povo de orelhas pontudas, na qual se levantou e desferiu-lhe um chute certeiro na face, fazendo-o perder o balanço do próprio corpo novamente.

Sem dar chances de se recuperar, enfiou-lhe a adaga diretamente na cabeça, ouvindo o barulho de uma carne pútrida se rasgando sob o toque de sua lamina. A criatura caiu silenciosamente, sujando o gramado com sangue negro. Ficou observando atônita a cena, mas logo foi trazida de volta a realidade por mais sons de passos. E dessa vez não era apenas um, e sim vários; o bastante para fazer o chão sob o seus pés tremer um pouco. Com um olhar determinado, e o coração acelerado, pegou suas coisas rapidamente e subiu sobre Melda, preparada para cavalgar o mais rápido possível.

"Vamos, amiga. Vamos." Disse em palavras urgentes, e a égua prontamente obedeceu. Correram à beira do rio, e a certa distancia podiam ouvir berros e palavras malignas. Olhando rapidamente para trás, viu uma multidão de criaturas como a que tinha a atacado, e vinham raivosas, espumando atrás de si, com armas levantadas em direção ao céu escuro.

Notas finais
Olá novamente! Aqui estou eu com mais um capítulo. Gostaria de agradecer à Karen Phantom e Marcelle Sohan pelos comentários! São os primeiros e espero que não sejam os últimos, mas serão sempre lembrados no meu coração ^^. A estória logo vai desenrolar, então não se preocupem! Se mais alguém estiver lendo, pode falar comigo, dizer o que está achando até agora, que eu ficarei imensamente agradecida. Espero que tenham gostado desse capítulo, e que quem estiver lendo continue. Beijos e até o próximo!