Forasteira
25 Riacho
Notas iniciais
Beijos enormes da Amora
Capítulo
A noite de vigília havia sido tranquila. Nenhum imprevisto. Daryl acalmou Luna depois daquilo tudo que haviam conversado. Ele não quis fazer grandes alardes e tentou não parecer exultante com o fato de que tinha ouvido da boca dela que o amava. Mas a verdade é que havia uma festa rolando no seu íntimo.
Do alto da torre de vigília, enquanto Luna tirava um cochilo, Daryl viu os carros se aproximando. Rick estava de volta. Ele não quis acordá-la e desceu sozinho para abrir os portões. Mas o caçador teve um pressentimento de que algo não havia saído exatamente como o planejado. Imediatamente pensou em Merle. Assim que Rick pulou do carro, puxou Daryl pelo colete.
– Perdemos Yago. Vamos ter que contar para a Luna... Quero que me ajude!
– Não posso dizer que estou infeliz com essa notícia.
– Daryl, ele é parte da família dela...
– E é também um babaca.
Logo atrás de Rick Glenn salta do carro e ajuda Oscar a caminhar.
– O que rolou? A merda foi tão grande assim? – Daryl agora estava preocupado. Havia feridos entre os deles.
– Você não tem ideia, maninho! Mas eu disse pra esses cabeças-ocas que o Governador não deixava portão algum com vigília leve. Mas quiseram arriscar...
– Fomos até o portão de trás de Woodbury. Rick achou que ali teríamos melhores condições de tentar um contato com Andrea. Porém quando chegamos havia uma ronda da cidade bem perto da mata em que estávamos escondidos. – Maggie começou a contar.
– Vimos Michonne, a nova companheira da Andreia... – Glenn disse...
– E Andrea? – Daryl questionou?
– Nada. Nenhum sinal. – rebateu Rick
– E o que a tal Michonne estava fazendo com os homens do Governador? Você não disse que ela tinha se rebelado contra o filho da mãe?- Daryl perguntou a Merle.
– Maninho, você não está entendendo... O Governador gosta de manter uns zumbis como bichos de estimação. Temos um poço onde jogamos essas coisas. Elas são usadas para a arena. Acho que você se lembra de leve como era o circo de Woodbury – Merle disse se referindo ao dia em que o Governador jogou ele, Merle e alguns walkers para lutarem até a morte.
– Merle acha que eles iam atirar Michonne para os errantes. – Rick completou.
– Mas ai nós aparecemos. E ferramos com o plano deles. – Glenn disse.
–E eles ferraram com os nossos. – completou Oscar, agora se sentando no chão e tentando dar uma olhada na perna baleada.
– Mas como eles descobriram vocês na mata escura?
– Estávamos bem camuflados quando percebemos que os homens do Governador caminhavam na nossa direção. Ficamos em silêncio. O problema é que um errante apareceu e se agarrou na perna de Maggie. Ela se assustou e Oscar correu para matar o zumbi. Nisso um dos guardas de Woodbury viu um vulto correndo pela mata e começaram a atirar aleatoriamente. Eles atraíram outros zumbis. Foi um verdadeiro inferno... – Glenn contava tentando recuperar o fôlego.
– Basicamente ficamos encurralados entre os homens do Governador e uma horda de errantes. Nossa munição começou a acabar... Tivemos que correr. Mas... Yago tropeçou em alguma coisa que eu acho que era o corpo de um errante e dois homens do exército do governador pularam em cima dele... – completou Rick.
– Ah... Não morreu, então? – Daryl quis se certificar sem conseguir esconder o tom de decepção na sua voz.
– Acho que não. Devem estar dando uma sova nele, como fizeram comigo... O Governador pode achar que ele tem muitas informações sobre a gente. Ele vai apanhar muito se isso acontecer... – Glenn concluiu. – Como vamos contar para a Luna? – quis saber.
– Eu vou falar com ela! – Daryl se apresentou e começou a caminhar em direção à torre.
Rick o alcançou e o impediu.
– Você, não. Deixa que eu falo com ela.
–Por quê?
– Tá brincando? Você está quase fazendo um churrasco para comemorar, Daryl! Ela pode ficar chateada... – Rick ponderou.
– E com razão! – Maggie completou.
– Tá... Mas eu quero estar junto.
– Certo. Vamos lá. – Rick se virou para o grupo e disse – Glenn, Maggie, levem o Oscar para o Hershel. Merle, você fica de guarda aqui fora um minuto enquanto eu e Daryl falamos com Luna?
Todos concordaram e eles seguiram caminho.
Daryl e Rick se dirigiram a torre. Ela ainda dormia um sono pesado. O caçador não conseguiu de deixar de admirá-la e de pensar que pela primeira vez na vida ele tinha tido a sorte de esbarrar numa mulher que ele queria muito, que era decente e que Merle não tinha a menor chance de roubar dele.
Rick se abaixou e tocou o braço de Luna.
– Luna? Luna? – ele a cutucou.
A cigana acordou aos poucos e quando viu Rick na sua frente abriu um sorriso de alívio. Daryl sentiu uma pontinha de ciúme.
– Rick... Vocês á voltaram... E ai, como foi?
Com uma cara não muito boa, ele respondeu:
– Não foi como imaginávamos que seria, na verdade! Tivemos alguns acidentes e eu queria conversar com você sobre isso.
Luna se levantou rapidamente, em estado de alerta e só não teve um treco porque Daryl estava ali, bem diante dela, o que comprovava que a coisa não tinha sido com ele.
– o que foi? O que aconteceu?
– Yago... Nós o perdemos.
– Como assim o perderam? – ela se assustou e arregalou os olhos.
Rick contou tudo para ela com detalhes. Ao final, duas lágrimas escorreram de seu rosto. O que também deixara Daryl transtornado.
– Prometo para você que vamos tentar resgatá-lo. Mas agora precisamos de um tempo. Oscar está ferido, estamos com um homem a menos e precisamos de um plano melhor porque o Governador já deve imaginar que andamos espiando....
– Existe uma real chance de sermos atacados... – Daryl pensou em voz alta e Luna tremeu de leve.
– Eu entendo. Fico um pouco mais aliviada pelo fato de que ele não esteja morto...
– Escuta, Luna – Rick parou para tentar encontrar melhor as palavras – Acho que você precisa saber que o Governador é um cara sem escrúpulo nenhum. Ele fez Glenn e Maggie prisioneiros. Quase mataram o Glenn e quase estupraram Maggie. – Rick não quis dar detalhes da participação de Merle nisso tudo para não chocá-la. – Daryl também caiu nas mãos deste cara e o filho da mãe não pensou duas vezes antes de coloca-lo para lutar até a morte contra Merle.
– Mas eles são irmãos! Por quê isso? – Luna se assustou.
– Porque ele é sádico. Promove este tipo de “circo” com a desculpa de fazer justiça e entreter o povo de Woodbury ao mesmo tempo. Quando fomos atacados, eles estavam levando uma mulher amarrada para atirá-la num poço de zumbis e ser devorada viva... Por isso, quero que saiba que faremos de tudo para trazer Yago com a gente da próxima vez. Mas também quero que tenha em mente que ele pode não estar vivo quando chegarmos lá! Você me entende?
– Luna fez que sim com a cabeça. Ela estava chocada com aquele papo de atirar uma mulher amarrada e indefesa no poço de zumbis. Seria uma morte lenta, dolorosa e humilhante. Um frio percorreu sua espinha e ela decidiu se levantar e acompanha-los até a parte interna da prisão. Teria que arranjar um jeito de contar à Yanka, porque com certeza a pequena perguntaria pelo cigano.
Rick e Daryl a seguiram.
– Você está bem? – Daryl perguntou chegando perto dela.
– Estou nauseada... Esse tal Governador... Este cara é doente!
– Pode ter certeza que eu sei disso. Mas, olha... – Daryl parou e ela também. – Eu prometo pra você que ele não colocará a mão em você ou em Yanka. Não enquanto eu for vivo.
– Cala essa boca! – Luna disse, assustada.
– Quê?
– Não fale em voz alto na possibilidade da sua morte. Lembra o que eu disse sobre a força das palavras?
Daryl se lembrava.
– Então... Você vai viver muitos anos. Vai viver... – Luna voltou a andar repetindo que ele ainda ficaria velho e teria netos. Daryl achou graça daquela superstição, mas amou a preocupação dela para com ele.
As duas semanas seguintes foram bem tensas. Eles tinham certeza que o Governador atacaria, mas nada aconteceu. E isso só podia significar uma coisa: vinha chumbo muito mais grosso pela frente.
Oscar teve a bala extraída da perna e estava se recuperando do ferimento. Rick tinha desenhado um mapa dos arredores e outro de Woodbury com a ajuda de Merle. Eles tentavam montar um plano perfeito para surpreender a cidade e conseguir resgatar os membros do grupo que estavam presos lá.
Carol passara as semanas muito incomodada e arredia. Ninguém podia falar com ela que levava imediatamente uma enorme patada. Sua amizade com Yago parecia ser verdadeira. Ela ficara muito estranha desde que o cigano tinha sido feito refém pelo Governador.
Daryl percebera, mas resolveu não dar bola. Tinha coisa mais importante para fazer. Além de ajudar com o plano de invasão a Woodbury, ele ainda saia para caçar. Luna muitas vezes o acompanhava. Na mata ela recolhia sementes que considerava úteis e também servia como apoio para as caçadas de Daryl. Ele descobrira que a cigana era uma exímia especialista em armadilhas de caça. Com arame, corda e pedaços de madeira, Luna era capaz de montar uma arapuca mortal para bichos de médio porte, E aquilo era uma habilidade e tanto. Porque eles não precisavam ficar esperando pelo animal. Podiam sair para vasculhar as redondezas e depois voltar para ver se tinham dado a sorte de ter pegado algo e de algum errante não ter enfiado os dentes na caça antes deles chegarem até a armadilha.
Aquelas horas com Luna na mata eram a parte favorita de Daryl. Eles gostavam de se sentar a beira de um pequeno riacho que passava debaixo da ponte que dava acesso á prisão para molhar os pés na água corrente e ficar ali apenas conversando. Luna falava muito mais que ele. Coisa que Daryl amava. Sua voz o deixava anestesiado. Seu cheiro, nem se fala... Era um resumo do paraíso: natureza + Luna + nenhum babaca para encher o saco deles dois.
– Você recebeu muitas ofertas de casamento antes disso tudo acontecer? – Daryl quis fingir que perguntava por perguntar, mas estava nervoso pela resposta.
– Recebi algumas. Não eram muitas. Mas, enfim... – Luna abaixou a cabeça com o rosto corado. Ela ficava tímida em falar sobre isso.
– E quem eram os candidatos, além do Yago? – Daryl quis dizer “além do puto do Yago”, mas achou que ela poderia se ofender pelo fato do cigano estar agora nas mãos do Governador.
– Eu recebi quatro ofertas de casamento de ciganos do clã Ciobã, da Romênia. Sabia que os ciganos também têm um rei Ou melhor, tínhamos um rei... ? E ele pertencia a este clã que fez as ofertas para o meu pai. – Luna corrigiu.
– E você ia se tornar um tipo de princesa?
– É. Um tipo de... – Luna fez um careta.
– Porque a careta?
– Porque quando eles fizeram a oferta eu tinha apenas 14 anos e...
– QUATORZE ANOS? Que tipo de porra de pedófilos esses caras são? – Daryl estava indignado.
– Não, Daryl. Ciganos se casam muito cedo mesmo. É comum...
– Não achei nada comum... – Na verdade, Daryl repassou aquela cena de Luna sendo deflorada à força, sentindo muita dor... Mas agora ele via uma versão com a cigana ainda adolescente. E ficou mais enojado.
– Você tinha medo? Do seu pai casá-la?
– De certa forma. Tinha medo da tal noite de núpcias... – Daryl não conseguiu disfarçar uma risadinha porque ela parecia uma garota de 15 anos falando sobre isso. — Minhas amigas diziam que doía demais... Eu morria de medo! Certa vez, fui ao casamento de uma grande amiga minha. Seu nome era Laila. Ela tinha 13 anos apenas. Quando deu meia-noite, ela teve de ir para a tenda nupcial e ficamos dançando em torno da fogueira. Mas Laila tinha me prometido que eu estaria por perto quando acabasse a prova da virgindade. Então tive a péssima ideia de esperar atrás da tenda, onde ninguém pudesse me ver... – Luna parou de falar e engoliu em seco.
– E aí? – Daryl estava curioso. — E aí que eu ouvia Laila gritar e pedir pelo amor de Deus que ele parasse. Mas ele dizia. “Você tem de provar para mim que é virgem. É sua obrigação. Cala a boca!”. Eu quis sair correndo, entrar ali, dar na cara daquele cretino. Mas não podia. Eu apenas chorei do lado de fora. Chorei as dores da Laila ali, sem poder fazer nada. Essa foi a última vez que eu a vi. O seu noivo se mudou para Portugal e a levou junto com ele. Sinto tantas saudades de Laila. Ela era minha melhor amiga. – Luna se controlou e conseguiu não chorar.
Daryl se sentou um pouco mais perto dela e afagou seu cabelo, como que para confortá-la.
– Sabe? Não precisa ser assim... – ele falou. Tinha medo de que Luna ficasse absolutamente traumatizada com essa história horrível.
– Como assim?
– Fazer sexo pela primeira vez. Não precisa ser uma tortura. Se o cara for com calma e souber o que fazer...
– É. Você disse. Mas não foi isso que vi durante todos esses anos casando amigas e primas... – Você já teve essa experiência? – Luna perguntou olhando para o horizonte porque não queria encará-lo.
– De ser o primeiro cara de uma menina?
– É. – Ela estava morta de vergonha.
– Uma vez.
– E aí? – A curiosidade era muito mais forte do que a vergonha. Fato.
– Eu não era apaixonado por ela. Fomos vizinhos e ela parecia tão... liberal. Sabia que ela tinha beijado Merle. Quando meu irmão foi para o reformatório, eu a encontrei num bar da cidade. E ai começamos a beber e ficamos, você sabe, um pouco bêbados... E quando vi estava no quarto de motel com ela. Quando começamos a... – Daryl estava tentando escolher as palavras para não assustar Luna ainda mais. — tirar a roupa e estávamos deitando na cama, um pouco antes de... de.... É, bom, um pouco antes do ato em si, ela me falou que era virgem. E ai eu tive que parar e pensar.
– Como assim?
– Ela estava bêbada, Luna. Eu sou um cara bruto, mas até eu sei que isso é importante para uma mulher. E precisava saber se ela estava certa de que queria que fosse ali e comigo... – Daryl não percebeu, mas os olhos de Luna brilharam. Ele era tão correto. Ele se importava com uma mulher que não era sua esposa, nem era alguém por quem ele estava apaixonado. Daryl Dixon era um cavalheiro.
– E o que ela respondeu?
– Ela disse que queria que fosse comigo. E então eu fiz as coisas com calma e tentei ser carinhoso. Foi complicado. Eu tinha uns 19 anos. Eu e Merle ficávamos com umas garotas mais experientes. Fazer sexo era fácil e era algo mais selvagem. E eu precisei fazer diferente daquela vez...
– E deu certo?
– Acho que deu. Ela não reclamou de dor.
– Ela sangrou?
– Bem pouco. Mesmo. Foi algo suave.
– E depois?
– E depois o quê?
– O que aconteceu com vocês?
– Ah... Eu não estava apaixonado. Mas ela quis ficar comigo. Ficamos juntos uns dois meses, mas eu realmente preferia estar só.
Luna ficou calada. Daryl gostava de estar só. Ela sabia disso. Teve medo de um dia ele se cansar e a abandonar.
– Mas pelo visto cansei dessa vida né, cigana?
– Como assim?
– Eu conheci você e agora não tenho vontade de sair do seu lado mais... Eu devo estar muito louco mesmo. Eu não era assim! – Daryl disse deitando na grama.
– Acha que o que sente por mim é mesmo amor? – o coração de Luna pareceu se revoltar com aquela questão, pois tratou de começar a travar uma batalha contra as costelas dela. Batia tão forte que ela tinha certeza de que Daryl podia ouvir as batidas.
– Bom, vamos ver... – ele virou a cabeça para olhá-la melhor. Como podia ser tão bonita? Luna estava com os longos cabelos arrumados de lado e o sol batia nos seus olhos verde-oliva, dando a ela o brilho que só os anjos tinham. – Eu tenho vontade de fugir com você todos os dias? Confere. Sinto vontade de matar qualquer um que chegue a menos de 250 metros de você? Confere. Quando você fala que gosta de mim meu dia melhora na mesma hora? Confere. – Então, Daryl ergueu o tronco de novo e passou a ponta dos dedos pelas bochechas de Luna, num carinho bem leve. – E o principal: tenho vontade de passar o resto da minha vida ao seu lado? Confere! – e num movimento rápido sacou do bolso traseiro as alianças que antes eram de Lori e Rick e estendeu na palma da mão para Luna. — É, Forasteira. Estou achando que é amor mesmo...
O susto daquele gesto deixou Luna pálida como uma folha de papel. Ela tirou os pés do riacho, se sentou sobre as pernas de frente para Daryl e ficou olhando os anéis ainda na palma da mão dele de boca aberta. A cigana parecia querer dizer algo, mas nenhum ruído saia de sua boca.
– Você não precisa responder agora. Eu sei que não depende de você. Mas queria que soubesse o que eu quero. Você, Luna Sara Kali, é a coisa que eu mais quis em toda a minha vida.
Notas finais
Ah e também me digam se preferem que a primeira vez deles role antes ou depois deles estarem comprometidos, tá?
Espero do fundo do coração que tenham curtido. Esta cena do riacho estava na minha cabeça há muito tempo...
beijos enormes da Amora
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