Forasteira
13 Agulha e linha
Notas iniciais
beijos enormes da Amora
“Não é de você que tenho medo. Tenho medo de mim mesma, caçador!”
Aquela frase não saia da cabeça de Daryl. O que aquilo podia significar? Ele achou que Luna gostava dele. Mas será que gostava do jeito que ele desejava? Mas, afinal, o que ele queria dela de verdade? Ele adorava sua beleza exótica, seu cheiro de incenso, seu corpo tão feminino... Não era mais uma magrela desbundada como as outras moças que tinham sobrevivido. E isso mexia com sua imaginação.
Ao mesmo tempo, também se sentia péssimo por pensar em Luna daquela maneira, pois sabia da sua promessa, dos seus valores... Ser pura era o pacto que a ligava ao seu povo e a sua própria vida. E Daryl não queria roubar isso da cigana. Santo Deus, ele estava enlouquecendo!
- Daryl? – Rick o acordava do transe.
- Oi...
- Você tá bem?
Daryl balançou a cabeça afirmativamente.
- Sei que está cedo, mas temos que ter esta conversa.
- Vai, pode perguntar o que quiser...
- Essa moça...
- Luna.
- Isso. Luna. Onde a conheceu?
Daryl tomou fôlego e contou ao xerife o encontro que tiveram na floresta e como acabou indo parar no acampamento cigano. Explicou também como ocorreu a briga com Yago e a invasão dos walkers. Rick parecia surpreso.
- Vocês passaram péssimos bocados, hein?
Breve período de silêncio.
- Você parece gostar dela.
- Do que você tá falando?
- A garota. Luna...
- Não viaja, Rick! A menina não pode nem ser tocada sem a permissão de um homem responsável... Como não tem nenhum por perto, ela não pode nem dar a mão pra mim direito.
- Isso não altera o fato de que você parece ter se apegado a ela...
- Merle vai poder ficar... sim ou não? – perguntou Daryl mudando de assunto.
- Vai! Por você e pelas duas que você trouxe... Mas você terá que dar um jeito de controla-lo. Caso contrário, já sabe...
- Vou colocar ele na linha.
- Daryl... – Beth chamava
- Hum?
- Meu pai pede que você dê um pulo aqui. Ele vai costurar a ferida da Luna.
Daryl se levantou e foi correndo para dentro da prisão. Rick permaneceu do lado de fora, pensando em como o caipira tinha mudado nestes últimos meses.
(...)
- Daryl, já conversei com Luna, ela sabe como o procedimento será... – Hershel foi logo falando.
- Ele me disse que vai ser muito dolorido. Mas eu aguento!
- Mesmo assim, Daryl... Vou precisar que você a segure pra mim. Quando eu começar a costurar, não vou poder parar mais. E preciso que ela fique firme para a agulha não machuca-la ainda mais. – Hershel explicou.
- Pode deixar comigo.
Daryl se sentou na cama onde Luna estava, de frente pra ela. Queria dizer algo, mas achou melhor não falar nada.
- Bom... Luna, vou precisar ter visão total da suas costas. Você terá de tirar a blusa, entende?
Luna tremeu. Não queria ficar nua. Não na frente daquelas pessoas. Na frente de Daryl...
- Querida – Hershel começou a falar – Juro que se não fosse necessário eu não a faria passar por isso. Vou fazer com que seja o mais rápido possível, certo?
Luna concordou.
- Podemos ficar a sós, então? – a cigana disse. – Só um segundo?
- Claro! Quando estiverem prontos, me chamem, ok? – Hershel disse e saiu.
- Daryl, estou com medo... – as lágrimas começavam inundar o olhar dela.
- Não fique!
- Pode prometer para mim uma coisa?
- Diga?
- Não olhe para o meu corpo enquanto eu estiver sem blusa... Por favor!
- Eu não vou olhar. Fica tranquila. Está pronta?
- Sim.
Daryl chamou Hershel que começou a dar as instruções.
- Daryl coloque esta toalha na frente do seu peito, assim Luna pode ficar mais confortável enquanto estiver encostada em você.
Daryl obedeceu.
- Bom eu acho que o ideal, Luna, é que você se sente de frente para o Daryl. Passe suas pernas por cima das pernas de Daryl. Vai ser como se vocês fossem se abraçar. Então você pode encostar sua testa no ombro dele. – Luna assentiu, mas estava apavorada. Qualquer um podia ver. — Daryl, você precisa mantê-la nessa posição e não deixe o cabelo dela cair pelas costas, ok? – Hershel terminou de explicar e esperou os dois se posicionarem.
Luna estava insegura.
- Vou deixar você se posicionar. Não vou tocar em você... – Daryl falava para acalmá-la.
Luna fez o que Hershel pediu. Sentou-se de frente para Daryl. Passou a perna direita por cima da perna direita dele. E a perna esquerda por cima da perna esquerda dele. Era como se eles fossem... se encaixar. Era muito constrangedor! Ela se aproximou aos poucos, puxando o quadril em direção a ele. E encostou a cabeça no ombro de Daryl. O caçador estremeceu de leve ao sentir a respiração de Luna no seu pescoço. Quis fazer um carinho nos seus cabelos, mas se controlou.
- Ok, agora eu vou levantar a sua blusa aqui, Luna. Você precisará tirar os braços das duas mangas, mas pode continuar com a blusa pendurada no pescoço. Isso te deixaria mais confortável? Não precisar tirar a blusa completamente?
Luna fez que sim com a cabeça.
- Certo. Então vamos começar! – Hershel ajudou Luna a tirar os braços de dentro das mangas de sua blusa, que ficou pendurada no pescoço. Depois derramou um pouco de álcool na ferida. Então atravessou a agulha pela pele de Luna pela primeira vez.
Nada poderia ter preparado a cigana para uma dor tão lacinante. Ela se segurou em Daryl forte. Hershel puxou a linha e atravessou a agulha pela pele de Luna de novo, fazendo força para fechar o ferimento. Luna sentia como se ganchos de ferro quente cortassem sua carne. Ela gemeu e o suor começou a se formar na sua testa. Daryl a sentia ofegar no seu pescoço e aquilo o deixava zonzo. Mais uma vez Hershel a perfurou com a agulha, e a dor foi tão forte que Luna exclamou:
- Aiiiiii! Daryl, está doendo muito! – as lágrimas começavam descer pelo seu rosto.
- Eu prometo que vai passar. Fica comigo! Vai passar, Luna!
Novamente Hershel a espetava com a agulha. Luna fechou os braços em torno de Daryl, segurando-o tão forte, que o caçador sentiu as costelas se comprimindo.
- Meu Deus... – ela sussurrou no ouvido do rapaz. – Está doendo demais. Eu não sabia que seria assim. Me ajuda!
Daryl sentia seu corpo todo pegar fogo. Queria se concentrar em mantê-la firme, mas aquele diálogo estava se misturando na sua cabeça. A posição em que eles se encontravam não estava ajudando em nada.
Nova picada da agulha e Luna cravou suas unhas nas costas de Daryl.
- Não sei se posso aguentar mais... Me desculpa! – ela chorava baixinho e sua respiração quente atingia em cheio o rosto do caçador. O cheiro da pele dela estava muito acentuado. Daryl se sentia bêbado.
- Luna, calma. Calma! Já vai acabar!
Hershel puxava de novo a linha, forçado a pele rasgada a se juntar de novo. Luna tremia nos braços de Daryl, chorando e se contorcendo. Ela estava pegando fogo, sua pele estava quente demais. Tão quente que agora o próprio Daryl começava a suar também.
- Eu preciso de um tempo para suportar esta dor... Não aguento mais! – ela suplicava.
- Não, não vamos parar agora, Luna. Você precisa fazer isso. Fica comigo. Não feche os olhos. – Daryl estava com medo da garota desmaiar de dor.
Os olhos de Luna já se reviravam. Ela só tinha forças para chamar pelo nome de Daryl. Estava desfalecendo aos poucos...
- Daryl, não a deixe dormir. Precisamos dela acordada! – Hershel avisava.
- Luna, acorda. Olha pra mim. Ei, ei... Olha aqui pra mim! Não dorme, Forasteira. Por favor, não dorme. – ele pediu. Mas de nada adiantava.
Daryl então chegou bem perto do ouvido dela e sussurrou para que apenas ela pudesse ouvir:
- Acorda, Luna! Não dorme. Eu acho que eu estou... – ele suspirou – Eu preciso de você, não entendeu isso?
Ele a viu abrir os olhos e fita-lo. Ela estava ali. Tinha acordado. Viu seus lábios se mexerem e encostou o ouvido para poder entender o que ela ia dizer:
- Me kon Te! Me kon te... — Daryl reconheceu aquelas palavras. Ela estava repetindo o que tinha dito para ele no acampamento, na ocasião em que deu toda aquela merda. Não sabia o que queria dizer, mas ignorou as regras e abraçou mais forte.
Hershel puxava o último pedaço de pele e dava um nó na linha para que os pontos ficassem bem firmes.
- Pronto, terminamos! Daryl, obrigado! – Hershel disse, limpando o local com um pouco mais de álcool. – Luna, vamos colocar a blusa de novo, querida.
Juntando as poucas forças que tinha, ela passou um braço por dentro da manga, depois o outro. Daryl puxou a blusa para baixo, cobrindo suas costas novamente.
- Ela precisa descansar. E também precisará de antibióticos. – Hershel declarou.
- Eu vou busca-los se for preciso. – Daryl declarou.
- Acho que ainda temos algumas caixas por aqui. Vou falar com Glenn. Ótimo trabalho, Daryl! Porque não fica um pouco com ela?
O rapaz assentiu. Eles deitaram Luna na cama e Daryl se sentou no chão ao seu lado. Enquanto a olhava dormir, ficou se perguntando o que estava acontecendo. Porque ele estava daquele jeito? Parecia um garoto idiota de 11 anos quando se apaixona pela primeira vez. Fechou os punhos. Daryl estava com raiva.
Recordou-se que, enquanto Luna sussurrava no seu ouvido, pedindo ajuda, dizendo que estava doendo, ele teve que se conter para não ficar... excitado! “Que tipo de doente fica de pau duro porque uma moça está agonizando nos seus braços?”, ele se questionava. Estava com nojo de si próprio.
Mas não conseguia controlar sua mente. A verdade é que senti-la tão perto dizendo “Está doendo, Daryl. Ai, não sei se vou aguentar” e outras coisas do gênero o fez pensar se era isso que ela murmuraria se eles estivessem fazendo amor pela primeira vez. “Eu sou um doente mesmo!”, concluiu.
Mas sua imaginação não parou de trabalhar. Imaginou sua cigana arfando debaixo do corpo dele, pedindo que ele fosse com calma, dizendo que estava doendo. Ele teria parado, lógico. Não a machucaria. Qualquer coisa, menos isso. Ele teria beijado seu rosto e olhado em seus olhos. Teria dito que poderiam tentar outra hora, outro dia. Mas se ela quisesse continuar, ele a penetraria devagar e quando sentisse que o hímen se romperia, teria mergulhado sua língua na boca dela, num beijo profundo e intenso. Para que ela não se concentrasse na dor. E uma vez que estivesse dentro dela, pediria desculpa pelo incômodo, prometendo que dali por diante ele só a faria sorrir...
Daryl chacoalhou a cabeça, afastando as cenas bizarras. Nunca aconteceria. Eles nunca fariam amor e isso era a pior parte de toda aquela insanidade.
- Oi, vim trazer um pouco de comida pra você. Você já está aqui há amis de uma hora... – ele levantou os olhos e viu Carol, segurando um prato nas mãos.
- É? Eu nem tinha reparado. Obrigado! – agradeceu aceitando a comida.
- Eu estava pensando... Queria conversar com você. A sós? Pode me encontrar mais tarde na torre de vigília?
- Tá bom... Daryl concordou mordendo um pedaço de carne e vendo Carol se retirar. O que será que ela queria?
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