Fora das Câmeras

2 2º ATO – Trauma


Os primeiros raios de sol iluminavam o quarto quando eu percebi que sonhava acordada com lembranças que pareciam pertencer a uma outra vida. Ainda que estes fantasmas do passado restassem exorcizados após anos de terapia, vez ou outra algo os ressuscitava sem aviso ou convite. Instintivamente, olhei para a data marcada no calendário e de imediato tudo se esclareceu. Isso porque, há exatos 20 anos, a nossa história finalmente recebia um ponto final naquela tempestuosa noite de outono.

Eu guardei aquele dia com bastante temor após 1997, então chega a ser curioso que, de uns anos para cá, tenha caído no esquecimento. Meu medo era tamanho que já me perguntei, inúmeras vezes, se seria possível que você pudesse estar escondido nos cômodos das casas em que vivi, espreitando e aguardando. Por conta disto eu passei a te ver como uma espécie de bicho-papão que se alimenta da imaginação fértil de uma criança. Mas você não é um bicho-papão, e eu com certeza não sou mais uma criança.

A manhã está apenas começando, e como há muito a ser feito pela frente admito que estou um pouco nervosa. Convenhamos: não é todo dia que a maior premiação de cinema nacional celebrará a sua carreira de quase 30 anos. O que mais me intriga, porém, não é o grande evento programado para esta noite, mas sim o fato de ele ter sido coincidentemente antecipado para o dia de hoje há pouco mais de dois meses. Algo sobre uma futura reforma inadiável no edifício que o sediará, pelo que eu soube.

Bizarro ou não, a verdade é que não há como esta brincadeira do destino ser mais do que uma mera coincidência. Afinal, a cerimônia também premiará os melhores lançamentos do ano, então nem tudo nesta noite será sobre mim. Além do mais, mesmo que a mídia tenha veiculado boatos sobre o que aconteceu há 20 anos, todos os fatos restaram abafados por seu competente time de advogados. O motivo da nossa separação? Diferenças irreconciliáveis protegidas por uma cláusula de confidencialidade.

De volta ao presente, lembrei-me da pilha de scripts que me aguardava e tentei acelerar meus afazeres para ganhar o máximo de tempo possível. Não que eu não confie em minha equipe para selecionar as propostas que me são oferecidas mês a mês, mas, modéstia à parte, tenho uma intuição que não costuma falhar. Sendo bem honesta, eu certamente já teria sido esquecida se tivesse concordado em participar de determinados projetos só porque certo gênero ou diretor esteve em alta. Mas nem sempre foi assim, e mais uma vez eu volto a falar sobre você.

Eu ainda tinha 17 anos (e você 32) quando nos encontramos pela primeira vez naquele verão de 1988. Estávamos em uma daquelas festas regadas a álcool que diretores costumavam financiar sob o pretexto de “encontrar novos talentos”, e, ingênua como era, confirmei presença após a insistência de uma amiga.

Como havia se passado apenas um mês desde a minha mudança para cá, ainda não estava familiarizada ao ritmo de uma cidade grande. Eu não sabia como as coisas funcionavam, mas estava ansiosa para aprender. Então, mesmo que tenha comparecido à festa com certa relutância, confesso que, num primeiro momento, me vi satisfeita por estar ali, rodeada de tantas pessoas do nosso meio.

Os convidados conversavam animados e os primeiros 40 minutos desde minha chegada me pareceram normais. Apesar de me sentir um pouco deslocada, não estava tão insegura como as demais meninas que se sentavam em volta da piscina, agoniadas para chamar a atenção de algum produtor curioso. O que eu não soube, naquele instante, é que pelo menos a metade de nós voltaria para casa desejando nunca ter estado ali.

De repente, como se um presságio ruim percorresse o ambiente, senti um calafrio na espinha que me deixou arrepiada dos pés à cabeça. Sendo pega de surpresa, fui puxada para um canto por dois homens grosseiros que não paravam de me tocar inapropriadamente. Após minutos tentando me esquivar, precisei disfarçar meu desespero quando um deles prometeu me escalar para um slasher medíocre caso os seguisse para um dos quartos da casa.

Compreendi que o perigo era iminente e, por instinto, olhei ao redor, à procura de ajuda. Como se minhas preces fossem atendidas, notei um homem de sorriso amigável aproximando-se de forma discreta, cauteloso como um gato. Você pareceu perceber o quão aflita eu estava para me desvencilhar daquela armadilha e, sem nem ao menos se apresentar, apenas anunciou, em voz alta, que um táxi me aguardava para partir. Quase aos prantos eu lhe agradeci, e você, talvez percebendo que não era o momento mais adequado para iniciar uma conversa, se despediu com um aceno de cabeça.

Em menos de 30 minutos eu já estava em meu apartamento, sozinha e amedrontada o suficiente para evitar festas por um bom tempo. Apesar de admirar seu gesto, eu imaginei que você, um dos maiores empresários artísticos do país, jamais se lembraria da pobre garota que quase teve a carreira encerrada antes mesmo de começar.

***

É claro que, nas semanas seguintes, me mantive mais alerta que o habitual, e aos poucos o sonho de ser atriz foi definhando graças a uma das piores experiências da minha vida. Remoer aquela noite, dia após dia, não foi fácil, e sem que me desse conta aceitei que jamais me realizaria profissionalmente.

Eu já havia perdido as esperanças quando acordei numa manhã qualquer e encontrei uma carta de seu escritório junto às demais correspondências. Abri o envelope, quase rasgando o conteúdo, e precisei abafar um grito de euforia ao perceber que se tratava de um convite para uma audição. O papel oferecido não era extraordinário, mas esta era a oportunidade mais almejada de todas: minha primeira audição!

Após comparecer ao estúdio por dias e chegar à seleção final, recebi com pesar a notícia de que outra garota com mais experiência acabou selecionada. Meu desapontamento, porém, não durou muito, já que naquela mesma semana fui convidada para um outro projeto ainda melhor. Eu estava nas nuvens, e a cada novo convite recebido me sentia mais perto de realizar meu maior objetivo. Finalmente as coisas começavam a se alinhar e a fazer algum sentido.

Três meses mais tarde, as filmagens de meu primeiro longa-metragem ainda estavam no início quando recebi um telefonema de sua secretária me convidando para almoçar. Apesar de ter hesitado antes de responder, concordei em me encontrar com você. Afinal, o mínimo que eu poderia fazer era demonstrar um pouco de gratidão.

Lembro-me de ter passado a maior parte daquele almoço em silêncio, admirando seu conhecimento sobre cinema, mas admito que três encontros depois foram suficientes para que me visse deslumbrada e perdidamente apaixonada. Havia algo em suas palavras que me trouxe uma segurança gigantesca, e, sem que eu pudesse evitar, tudo começou muito precipitadamente. Eu mergulhei de cabeça sem medo algum de me afogar.

Hoje, aos 46 anos, percebo o quão problemática foi a nossa relação, a começar do fato de que eu ainda era uma adolescente (e você já tinha passado dos 30) quando começamos a namorar. Uma adolescente que, assim como qualquer outra, se submeteria a qualquer situação para viver uma história de amor hollywoodiana.

Não que eu seja ingrata. Muito pelo contrário, pois jamais me esquecerei de todo seu apoio quando mais precisei. Eu provavelmente teria vivido uma outra vida se você não tivesse me colocado sob os holofotes, e consequentemente outra garota estaria em meu lugar agora. Mas sejamos francos: você deixou feridas que eu acreditei que jamais se cicatrizariam.

Durante o período em que estivemos juntos tudo teve de ser feito da sua maneira, seja na vida profissional ou pessoal. Eu não pude opinar nos filmes em que atuei e muito menos nas roupas que vesti. Você me moldou para ser uma estrela, e nada do que eu dissesse interferiria em seus planos. Tive que ser perfeita aos olhos do público, um padrão a ser invejado pelos milhares de seguidores que acompanhavam minha carreira desejando calçar os meus sapatos.

Recordo-me bem que os últimos anos que antecederam aquela fatídica noite de 1997 foram os piores possíveis. Sempre que você não pode estar perto, de olhos em mim, eu estive cercada de seguranças que me acompanhavam para todos os lugares, atentos para onde eu ia e com quem eu conversava. Até mesmo o telefone de casa você chegou a grampear após uma crise de ciúmes. Era como viver em um inferno que ficava cada vez pior.

No começo, é claro, tentei cumprir suas ordens à risca, pois acreditava que era meu dever incondicional retribuir toda sua generosidade. Por muito tempo eu me senti obrigada a te agradar, a fazer você notar o quão dedicada eu era. Esta doentia busca por aprovação me fez abrir mão de tudo que não te incluísse como meu empresário ou meu marido. Papéis que pareciam escritos para mim e colegas de trabalho que eu evitava nos bastidores foram apenas a ponta do iceberg. Eu me privei tanto por sua causa que constantemente me via planejando formas de pôr um fim a este tormento.

Hoje, felizmente, consigo ver nossa separação como o primeiro passo dado em direção à minha independência, seja como atriz, seja como mulher. Eu não só deixei para trás o homem que fez questão de me presentear com o céu, mas me proibiu de decorá-lo com as estrelas. Eu abandonei o responsável por me moldar como o exemplo de profissional que jamais quis (ou pedi para) ser.

Nunca fui perfeita, mas foi devido ao seu esforço para me fazer parecer ser que me vi presa a uma imagem irreal que inspirava tantos a buscarem o que eu representava. O glamour, a fama, os excessos. É uma pena que a cada noite, ao me deitar, nada disso compensasse o medo constante e a certeza de que eu não passava de uma mera propriedade.

Porque no fim era isso que eu representava para você: a sua galinha dos ovos de ouro. Foi graças ao meu desempenho em uma série interminável de romances clichês que a sua fortuna duplicou e os estúdios enlouqueceram para me escalar em suas próximas produções. Diretores travavam batalhas entre si para me convencer a protagonizar seus filmes, e você adorava vê-los se rebaixando para ganhar o seu aval.

Eu costumava admirar sua frieza para os negócios e acreditava equivocadamente que você estava apenas resguardando meus interesses. Mas nada do que você fazia era para mim ou para o bem da minha carreira. Tudo sempre foi sobre você se sentir poderoso para comandar o mundo e as pessoas ao seu redor. Todos sabiam que nada derrubaria as muralhas que protegiam o seu império, e a sua tarefa era deixar esta mensagem em alerta constante.

Talvez você não entenda, mas eu precisei encontrar uma saída. Eu só não soube que seria necessário sentir o peso de sua mão em meu rosto para finalmente deixar de viver a nossa vida e começar a viver a minha.