Fora da Gaiola
2 Prólogo
Notas iniciais
Sempre que começo a escrever algo, seja história ou poesia, eu começo pelo título. Para mim o título de um texto é a primeira impressão de um leitor com o restante de uma obra. Deve ser algo impactante, que abra a imaginação e dê uma pequena sugestão do que se espera a partir dalí. No entanto, se fosse descrever minha vida com algum título não saberia achar palavras que poderiam introduzir meu leitor a tudo que ele poderia ler nas linhas seguintes que escrevo com a mão frouxa entre pensamentos e risadas.
Pensando nisso vejo que também não teria um título, muito menos uma palavra, para descrever toda pessoa que eu sou. O que poderia descrever tão bem alguém? Incluindo seus defeitos e qualidades? Junto dos talentos e manias; desejos e segredos mais profundos?
Mesmo passando horas afim procurando pelo dicionário não me encontro em nenhuma delas, contudo eu certamente posso encontrar palavras para descrever cada momento de minha vida, para ser exata cada ano, como se fossem capítulos de um grande livro. Que juntos possam descrever não só a mim como pessoa, mas também minhas decisões e percepção.
Pensando um pouco a palavra "liberdade" seria perfeita para descrever todo o sentimento que me move para cada ação e decisão que fiz durante toda a minha existência. A liberdade em poder traçar seu destino do jeito que quiser e poder deixar seus pés te guiarem para onde tiver vontade de ir.
Portanto a liberdade define toda a historia que estou prestes a contar com cada frase sendo escrita com cuidado da forma mais detalhada possível para que entendam e vivam emoções tão intensas quanto as que viví.
A minha historia não precisa de um final para ser contada, ao contrário dos contos onde se tem um final a vida continua e o único fim é a morte. Portanto encerro minha historia no ponto em que acho digno de um grande final, e a início da onde me veio o estranho pensamento de querer ser feliz e o desejo da formosa liberdade.
Para mim tudo se teve início há dois anos atrás…
Quando minha mãe, sendo a costureira mais famosa do lugar onde moro, me chamou para acompanhá-la até a casa de uma chique senhora para que eu lhe ajudasse a tirar às medidas de sua filha mais nova.
A mãe da garota estava organizando uma grande festa para comemorar seu recente noivado arranjado com um nobre da região. A jovem senhora estava toda feliz com o futuro glorioso da filha na nobreza, sendo difícil de se conseguir alcançar e cobiçado por famílias que buscam subir de nível na hierarquia em que vivemos.
A garota porém estava com medo de não ser uma boa esposa para o marido, um belo e educado homem, muito respeitado por todos em Sascatia, nosso Vilarejo. Ela queria ser a esposa perfeita, e passou horas falando alegre de seus atributos. Sobre como era boa na cozinha, uma costureira impecável, cantava com a voz de um anjo e sabia falar várias línguas.
E foi enquanto minha mãe tirava às medidas da menina e sua mãe tagarelava sobre as cores que ficariam bem em seu vestido que meus ouvidos se focaram na doce melodia que vinha da entrada da casa.
Com uma desculpa qualquer saí daquela sala abafada e me ví parada na porta do grande casarão vermelhl, observando o pequeno passarinho azulado preso pelas finas grades da gaiola dourada murmurando um canto envolvente. Não pude deixar de me perder entre às notas suaves pensando em quão cruel e injusto era prender um pobre pássaro apenas para ouvir seu canto. Isso me trás à pergunta: Se nem mesmo os pássaros podem ser livres como eu espero ser?
Minha vida era em sua grande maioria dividida entre o estudo — que fazia em casa lendo e relendo os livros antigos e velhos de meu avô, e ajudando minha mãe com os pedidos recorrentes de vestidos e ternos que recebia de nobres e camponeses. Sendo a única mulher da família Labelle, me foi determinado que deveria seguir os passos de minha mãe, enquanto meu irmão, Pierre, ajudava no estábulo em que nosso pai trabalhava.
Esse pensamento passou a ser cada vez mais recorrente. Como eu poderia ser livre? Se já haviam decidido meu trabalho, minha rotina, e em breve deveriam escolher com quem me casaria?
Às finas grades da minha gaiola imaginária estavam ficando nítidas em minha mente e me fez perceber que não era apenas aquilo que queria para mim. Eu estava ficando sufocada e decidi que daria um jeito de escapar da gaiola da minha vida e finalmente alcançar a liberdade.
Mas como? Pegando um cavalo e fugindo de Sascatia para explorar vilarejos e explorando novos lugares?
Não. Isso seria burrice. Eu decidí que iria juntar dinheiro o suficiente para sobreviver e só então pegaria um cavalo do estábulo de Sascatia e viajaria para um lugar bem longe dalí.
Um lugar onde eu poderia ser livre de verdade, sem ninguém para me dizer o que fazer ou para onde ir. Escrever meu própio destino e viver aventuras assim como os contos de fadas que me contavam.
Por isso, durante quase dois anos passei a cantar e a me apresentar em uma taverna perto de casa junto de Pierre, que me acompanhava tocando sua tão amada flauta.
Formamos uma dupla excepcional, o que nos rendeu alguns trocados que colocava em um pote de porcelana e esperava ansiosa o dia que estaria livre de verdade.
As pessoas não eram livres de verdade aqui. A culpa não era de meus pais, e doeria deixar tudo o que conheço, desaparecendo entre as ruas de Sascatia. Talvez eu esteja apenas fugindo dos meus problemas, mas eu não quero me casar com um estranho, não quero passar a vida fazendo vestidos para duquesas e nem criando meu filhos para que repitam o destino que estaria seguindo se ficasse lá.
Meu nome é Elizabeth Labelle e essa é a historia de quando toda a minha existência pareceu um teatro montado e eu resolvi desafiar o roteiro, passando a escrever com minhas própias palavras meu destino, minhas decisões, e minha vida.
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