Força misteriosa
4 Capítulo 3 - Dúvidas
Notas iniciais
A brisa do mar que batia em meu rosto fazia com que eu me sentisse viva e eu bebia meu terceiro copo de caipirinha, saboreando cada gota de algo que realmente deixaria saudades quando eu deixasse meu último destino brasileiro. Eu não estou bêbada, é claro. Mas sei que quando levantar ou me arrepender de beber tanto.
Quando termino de beber o líquido do copo ainda fico sacudindo ele, como se isso fosse fazer surgir mais bebida. Fico desapontada, mas não quero levantar para pegar mais. O desapontamento provavelmente ficou estampado no meu rosto, porque um homem se sentou ao meu lado na areia, me entregando mais um copo. O peguei sem pensar duas vezes e logo o líquido já descia pela minha garganta. Fechei os olhos para degustar do sabor do limão. Eu gostaria de congelar esse momento
“Nunca te vi por aqui” disse o homem, sem desviar os olhos do mar.
“Eu venho aqui à quase um mês todos os dias nesse horário” avisei. Se essa era a cantada dele, tinha sido péssima. Depois disso, um silêncio confortante se instalou enquanto eu ingeria, devagar, a bebida que o estranho me trouxe. Era bom finalmente ter companhia, mesmo que fosse para não dizer nada. Passava-me uma sensação estranha de segurança.
Aguentei o homem me encarando por alguns minutos antes de encará-lo de volta.
“Não por aqui, nesse exato lugar. Por aqui... sabe?” ele me disse, revirando os olhos com um sorriso torto no rosto. Olhando para ele, observando cada detalhe dele, eu podia ver que ele era um cara atraente. Mas não atraente para mim, eu não sentia nada enquanto olhava para ele.
“Não sei não, o que você está dizendo?” depois de receber sua resposta, ele riu. Eu não sei por que, mas isso me irritou mais do que deveria. “Dá para me explicar qual é a graça?”
“Você é uma daquelas então... desculpe, eu não posso te explicar, você precisa ver, você precisa se lembrar” eu reviro os olhos com o que ele diz.
“Olha, eu não sei que tipo de jogo é esse, mas eu não estou afim, muito obrigada” eu disse de forma seca, me levantando e recolhendo minha toalha que estava estirada no chão. Quando terminei de limpar a areia do corpo e levantei a cabeça, uma tontura me acertou em cheio, me fazendo cambalear e fazendo-o rir. Mostro meu dedo médio para ele e volto para a pousada onde estou hospedada.
Guarapari é um lugar muito agradável e consideravelmente mais barato que Búzios. A banheira desta pousada tem hidromassagem funcional, por exemplo. Sorrio com o pensamento. Se uma hidromassagem funcional é indicação de qualidade ainda na minha segunda viagem, o que será que eu vou encontrar pela frente?
Depois de alguns minutos de pensamentos vazios durante o banho, me pego pensando no homem que falou comigo na praia. Não que eu tenha levado à sério o que ele me falou (provavelmente era só um babaca tentando me assustar ou me fazer ficar interessada nele), mas algo nele gritava para mim que eu estava deixando algo passar. Algo muito importante. Balancei minha cabeça institivamente, tentando afastar esse tipo de pensamento da minha cabeça, e saí do banho.
...
Quando a noite chegou, me troquei e decidi ir ao centro da cidade, procurar algum movimento, pessoas para olhar, coisas diferentes para comer... procurar alguma normalidade que eu ainda não havia encontrado. Era a segunda cidade turística litorânea que eu visitava nesse verão, e a segunda onde não havia movimento excessivo. Era a segunda cidade na qual todos pareciam mortos por dentro, onde ninguém interagia com ninguém e os poucos felizes apenas conversavam entre si.
O centro da cidade era típico de cidades litorâneas, tinha barracas de comida, um parque de diversões pequeno... mas nenhum movimento normal. Isso meio que me decepcionou, e eu parei para comprar uma caipirinha em uma das barracas.
“Você nunca para de beber?”. Ao ouvir aquela voz estremeço. Não sei por que, mas eu odiava aquele cara. Ele revivia um sentimento que há muito eu não sentia. Eu não sei explicar porque, mas eu estava com inveja dele. Era uma inveja instintiva, sem razão alguma. Bufei e me virei para ele.
“Só quando pessoas irritantes não param de me perseguir” ele riu.
“Eu não estou te perseguindo, eu moro aqui”
“Na minha cola?”
“Na cidade, bobinha” ele riu com a própria resposta, seu ego provavelmente muito inflado, e pediu uma caipirinha também.
“Você vai sair de perto de mim ou eu vou ter que sair andando?”
“Nem um, nem outro. Você pode ir embora agora, mas posso te garantir que vou te encontrar de novo”. Bufei e acabei por ceder.
“Sendo assim...”
“É muito fácil te convencer”
“Você pode me explicar onde está todo mundo? Tipo, eu ainda não me sinto no verão. Não era para isso aqui estar tudo lotado? E qual é o problema do pessoal dessa cidade? Por acaso os pais de todo mundo morreram? Porque parece que está todo mundo de luto! E olha que EU estou de luto!” eu desabafei tudo de uma vez, ignorando o que ele havia dito. Claro que eu havia feito papel de babaca, mas esse era o primeiro contato humano real que eu tinha depois de quase dois meses, eu nem sequer me lembrava de como interagir normalmente com uma pessoa. Mas é lógico que eu não havia me esquecido que desaforo a gente não aceita com facilidade, então saí andando quando ele começou a rir da minha cara aparentemente sem motivo algum.
Eu estava pronta para dizer coisas horríveis para ele, mas ele não me seguiu.
Fale com o autor