Fomaríamos um Maravilhoso Nós

24 Como se pudesse ser diferente


POV Maxon

Sabe quando você respira fundo, mas aquela ansiedade gostosa não passa? Você apenas sente um frio na barriga a cada suspiro?

É essa a sensação que estou tendo no momento.

Acabo de conversar por horas com a America. Falar com ela me tira da realidade. É como se eu entrasse em um mundo apenas nosso, e absolutamente nada mais importa além dela.

A sensação de estar apaixonado e ser correspondido é mágico. Eu pareço um idiota sorrindo pelos cantos. As lembranças do que vivemos, vagam pela minha mente o tempo todo, não permitindo que eu pense em qualquer outra coisa.

A America entrou na minha vida e eu simplesmente entreguei meu coração a ela. Sem nem mesmo perceber.

Admirar a vista do meu apartamento, virou um costume desde o dia que a America me ensinou a ver a beleza que eu tenho diante dos meus olhos, sem dúvidas, ela instigou um lado meu, que me torna sensível aos pequenos detalhes. Meus amigos com certeza me chamariam de gay, no entanto, eu chamo de estar apaixonado.

— Caralho Maxon! — Exclamo sorrindo para mim mesmo enquanto olho o movimento da cidade — que merda de romântico você virou.

Se eu tenho vergonha?

Nem um pouco. Sou feliz por amar aquela garota, e não consigo imaginar meu futuro sem ela.

No entanto, independente de toda essa felicidade, eu ainda tenho os meus temores. Em um segundo, meu sorriso se fecha, pois só de pensar que amanhã terei de encontrar o meu pai, sinto meu corpo arrepiar.

Ontem eu tinha dormido em casa, e no café da manhã, meu pai e eu tivemos uma puta discussão, que resultou em minha mãe desmaiada e minha irmã em prantos. Me sinto imensamente culpado. Me afastei de casa justamente para evitar esses momentos, mas quem disse que Clarkson Schreave se importa com alguém além dele mesmo.

Estou farto de suas humilhações, de ele me ver apenas como um objeto para seguir com o legado de grandes empresários da família Schreave. Meu pai faz questão de esfregar na minha cara que não tenho potencial e nem competência. Como eu ainda me mantenho firme diante desse abuso? Eu não faço a menor ideia.

Mamãe apareceu hoje de manhã implorando para que eu voltasse para casa. Obviamente me neguei, mas tive que prometer aparecer para almoçar e passar um tempo com Brice, além de estar presente para a droga do jantar de investidores. Clarkson Schreave gosta de manter a reputação de uma bela família unida.

Não julgo minha mãe por ficar feliz com esses jantares, mesmo que sejam apenas um palco para pessoas que buscam dinheiro e poder, onde cada sorriso e conversa é uma jogada calculada em um jogo de interesse e influência. Ela se ilude pensando que a família dela está ali, unida por uma causa.

Decido parar de pensar em toda essa merda e parto pra um banho. Devo admitir que lamento muito por não poder sair com a America, mas entendo que não deve estar sendo fácil lidar com os pais. Na verdade, com a mãe.

O pouco que conheci Dona Magda, percebi que ela é uma mulher de opinião forte, foi muito simpática, mas deixou claro o que faria comigo se eu fizesse qualquer coisa com a filha dela. Shalom é mais pacifico, sei que ele deve ser um grande apoio para a America.

Não faço a menor ideia do que fazer no resto da minha noite. Talvez ver um filme, pedir uma pizza e aguardar pela tortura de amanhã. Mas nada como uma boa distração antes de uma batalha. Então, decido mandar uma mensagem aos meus amigos, para fazermos algo aqui no meu apartamento.

Carter logo responde que está com a Marlee, é a terceira vez que o convido para fazer algo, e ele está com ela, sei que já perdi um amigo. Então mando para o Aspen, mas ele não visualiza, então decido ligar, ele não atende, decido ligar de novo e então ele recusa minha ligação.

— A seu cachorrão, deve estar comendo alguém… — falo sozinho dando risada.

Eu deveria parar de insistir e deixar ele aproveitar a noite dele? Sim.

Mas com certeza, é exatamente isso que não vou fazer. Vou ligar só mais algumas vezes para irritar.

Ligo, e a chamada é recusada. Faço mais uma tentativa, e a recusa imediatamente. Sei que ele deve estar puto, mas isso só me faz insistir ainda mais. Até que para a minha surpresa, ele atende.

— Maxon, seu filho da puta! — Franzi o cenho surpreso.

— Celeste? — Pergunto mesmo reconhecendo sua voz.

— O Aspen está muito ocupado com a cara enfiada no meio das minha pernas agora, então não enche a porra do saco! — E ela desliga.

Tiro meu celular da orelha e levo ele lentamente a minha frente, na tela indicava ligação encerrada. Estou boquiaberto, por essa eu realmente não esperava.

— Então tá… — começo a rir.

Aspen e Celeste, eu até já sabia, mas não fazia a menor ideia que iria rolar algo tão já.

Depois dessa surpresa, acho melhor parar de aborrecer meus amigos. E como não há nada melhor para fazer, sentei no meu sofá e parti para o plano A: pizza e filme.

Que decadência em Maxon Schreave. Seus amigos transando e você pedindo uma pizza para comer sozinho.

Sacrifícios por uma garota que vale a pena.

[...]

Quando se é criança e faz algo errado, até se entende a insegurança de ir para casa e levar uma bronca. Agora com dezoito anos, quase um adulto, sentir medo de passar pela porta e receber uma bronca do seu pai, apenas por não ser o filho que ele quer, não deveria ser certo.

Posso considerar hoje um dia de sorte, chegar em casa e não encontrar meu pai me esperando na ponta da escada, realmente me surpreendeu. Já estava preparando meu psicológico e controlando a respiração para evitar a raiva e uma provável discussão. Mas ao invés disso, fui surpreendido com um abraço apertado de uma das pessoas mais importantes da minha vida.

— Max! — Brice exclama.

— Oi minha princesa! — Pego minha irmã no colo e lhe dou um abraço apertado.

— Estou tão feliz que você está aqui Max. — Brice me aperta com toda a força que seus bracinhos conseguem.

— Eu também estou muito feliz em ver você pequena. — A coloco no chão.

— Filho! — Minha mãe vem me recepcionar.

— Bom dia mãe, como está?

— Muito melhor agora que você chegou. — Ela está muito contente para o meu gosto.

— E o meu pai? — Senti um frio na espinha ao perguntar, antes saber logo do que saber depois.

Mas falando no diabo…

— Maxon… — Sr. Clarkson surge de terno com toda sua imponência. Respiro fundo quando ele se aproxima. — Bom dia filho.

Meu pai dá algumas batidinhas no meu ombro. Só percebi que estava apertando meus olhos e segurando a respiração tenso, depois que o alívio chegou.

É impressão minha ou ele estava sendo… legal?

Olho para minha mãe espantado com a atitude pacífica do meu pai. Ela apenas sorria radiante, algo me diz que ela tem alguma coisa a ver com essa mudança de comportamento.

Analisei por alguns segundos a expressão dele, buscava qualquer sinal de falsidade, mas a verdade é que é inútil. Ele é muito bom em esconder o que sente. Visto isso, não encontrei sinal de desconforto, mas também não havia sinal de satisfação. Ele apenas parecia ter cumprido sua parte.

— Bom dia pai! — Respondo com firmeza.

Ele sorri fraco e se dirige a minha mãe.

— Querida, eu tenho que ir para o escritório mas volto para o almoço. — Beija sua testa. — Certifique-se que estará tudo em ordem para hoje a noite, sim?

— Claro querido, até logo… — mamãe lhe dá um beijo.

— Tchau papai… — Brice se despede e ele a responde com um aceno.

— Maxon. — Diz firme me encarando.

— Pai… — Assinto com a cabeça e ele sai em direção a porta.

Analiso o que acabou de acontecer desconcertado. Não esperava por esse encontro calmo sem desavenças. Suspiro completamente aliviado e desacreditado. Não estou brincando quando digo que o prazer de Clarkson Schreave, é me atormentar sempre que pode.

— Já tomou café filho? — Mamãe interrompe meus pensamentos, perguntando calmamente, como se a cena passada fosse algo comum do nosso dia a dia.

— Na verdade não — sorrio — o que tem de bom para o café em Brice?

— Você não vai acreditar! — Diz ela animada.

— Hmm — finjo pensar — deixa eu adivinhar… — coço o queixo — torta de morango?

— Siiim! — Brice me arrasta até a mesa com o café posto. — Olha quanta coisa gostosa, as empregadas fizeram vários doces hoje.

Desde que me lembro, Brice é uma como uma formiguinha, adora doces. Seus olhinhos brilhavam diante de tantas opções. Claro que minha mãe não permitiu ela se esbanjar com todo aquele açúcar, mas ela era esperta, sempre que mamãe desviava o olhar ela atacava rapidamente o que desejava. Eu lhe dava cobertura, óbvio.

Ainda quero descobrir a razão da serenidade da minha mãe e o bom humor do meu pai. Não quero perguntar já de cara com medo de praguejar a paz que nos rodeia. Acho que eu não deveria estar tão surpreso com isso tudo, mas estou. É inevitável.

— Sua carinha não esconde suas dúvidas filho… — Mamãe diz tomando seu chá. Brice ataca um morango da torta.

— Como assim mãe. — A olho confuso.

— Sei que está incomodado com o comportamento do seu pai. — Ela não consegue esconder que teve algo a ver com isso.

— Realmente estou mãe, a senhora sabe que é só ele me ver para começar a jogar indiretas, receber apenas um bom dia e um… gesto amistoso da parte dele… é estranho.

— Conversei com ele ontem a noite. — minha feição dizia a ela que isso eu já sabia. — Estou cansada dessas brigas Maxon, isso não faz bem a nossa família.

Noto Brice com os bracinhos durinhos ao lado do corpo, observando atentamente nossa mãe que está sentada na ponta da mesa à sua esquerda. Ela está séria, agora revezando seu olhar entre uma trufa de chocolate e o rosto de mamãe, esperando a hora certa de dar o bote. Tento não sorrir com sua astúcia e prestar atenção no que mamãe tanto fala.

— Você praticamente está morando naquele apartamento, sua irmã e eu sentimos sua falta — mamãe apoia sua mão nas costas de Brice, quase na hora do seu ataque. Ela suspirou decepcionada — e claro que seu pai também. Não quero que se afaste de sua família filho.

— Mãe você já disse isso e eu já expliquei minhas razões.

— Eu entendo que seu pai é um homem difícil mas tudo pode melhorar.

— Mãe… — respiro fundo — eu admiro sua esperança nele, apesar de não saber de onde você a tira, e sinto muito lhe dizer isso. Mas não é uma manhã calma que prova que tudo daqui para frente pode ser diferente. Só você não vê que ele é um manipulador.

— Não fale assim do seu pai. — Ela bate na mesa, e Brice se recolhe tensa novamente, fitando aquela trufa como se fosse sua vida. — Você deve respeito a ele.

Bufo começando a me irritar com esse assunto.

— E ele? — Pergunto revoltado — Ele não me deve respeito?

— Maxon…

— Não mãe! — Digo indignado. — A senhora não pode defendê-lo assim… sua memória não pode ser tão curta. — Ela finge não se impactar com meu tom de voz. — Quantas vezes nessa mesa ele nos tratou como lixo? Como quer que eu acredite e respeite alguém que não tem um pingo de consideração por nós? Sua família!

— Eu só quero que sejamos felizes — sua voz embargou — não sei em que momento tudo se perdeu Maxon — ela leva as mãos ao peito como se sentisse dor — éramos uma família unida, exemplar, respeitada. Hoje vivemos de aparência. Eu não quero isso. Quero minha família de volta, e se você se afastar — mamãe deixa uma lágrima escapar — tudo será perdido de vez filho.

— Mãe, eu não vou me afastar — pego sua mão — pela última vez, eu só quero evitar brigas, mal entendidos, acha que fico feliz com essa situação? — Ela abaixa a cabeça — Não mãe, eu não fico. Estou tentando deixar as coisas mais fáceis.

— Mas você não pode ceder um pouco? — Ela diz com cautela, eu juro que tento ser paciente. — Você não precisa discutir com ele toda vez, aceita o que ele quer dizer e pronto.

— Você percebe o que está dizendo? — Seus olhos nadando nas lágrimas — Mãe, se fosse apenas sermões por eu chegar tarde, por uma nota ruim no colégio, mas não, ele nem procura um problema, me ridiculariza sem mais nem menos.

— Ele só quer que você se preocupe com os negócios da família Maxon.

— E eu não me preocupei? Eu já tentei, várias vezes e a senhora sabe. — Respiro fundo — Mas toda vez é a mesma merda, discursos de como sou um inútil, um burro, a decepção da família! — Meu tom de voz se altera.

— Mas se ele mudar, for mais maleável, você não daria uma chance? Não daria uma chance ao seu pai? A sua família?

Eu entendo o desespero dela, ela sofre mais que todos com tudo que vem acontecendo. Luta com todos os recursos que encontra para nos tornar mais próximos, mas ela não percebe que todos precisam estar com a mesma vontade para algo funcionar.

Não procuro por isso, não me sinto bem com essa frieza do meu pai, e claro que gostaria que tudo fosse diferente. Mas nos adaptamos a melhor forma de conviver em um habitat. A minha adaptação, é a distância, quanto mais longe, melhor nosso relacionamento. Mas minha mãe não quer entender isso. No entanto, eu quero vê-la feliz, e apenas por isso, posso fazer certos sacrifícios.

— Tudo bem mãe. — Me dou por vencido. — Eu prometo tentar, ok?

Mamãe sorri satisfeita, e Brice ataca sua trufa a pegando finalmente.

— Nem pensar mocinha. — Mamãe pega o doce de sua mão — Já deu açúcar por hoje. — Brice se aborrece cruzando os braços.

— Eu nunca posso comer nada.

— Você acha que não vi você atacando os doces enquanto conversava com seu irmão? — Ela se encolhe na cadeira.

— É irmã… — me levanto e vou ao seu lado — você precisa melhorar seus reflexos.

Pego Brice e a coloco no meu ombro com agilidade, lhe fazendo cócegas na barriga. Ela ria descompassadamente, e se remexia tentando se esquivar dos meus dedos que cutucam seus pontos sensíveis.

— Max! Para! — Ela exige entre gargalhadas.

— Só se você me der um beijo. — A seguro no colo, e ela me dá um beijo longo na bochecha. — Mais um — peço fazendo cara de coitado, ela beija me apertando mais ainda — agora o último — Brice revira os olhos e dá um beijo rápido. — Esse foi o melhor beijo da minha vida princesa.

— Eu também quero um. — Ela diz sorridente.

— Só um? — Pergunto me fazendo de desentendido.

— Não! Vários!

A deitei no sofá e rolou “o maior ataque de beijos do mundo”. Palavras de Brice.

Minha maior alegria do dia foi ver o sorriso da minha pequena, e a felicidade estampada nos olhos da minha mãe.

Fazia tempo que não me sentia em “em casa”. Apesar do vai e vem de pessoas trazendo arranjo de flores, toalhas de mesa e reorganizando a mobília para o jantar que ocorrerá.

Meu pai já havia me informado na sexta desse glorioso jantar, onde vários empresários estarão presentes, a fim de rolar uma “confraternização”. Mas todos sabemos que isso é a mais pura mentira.

Papai está interessado em novos investimentos, os quais ele vê lucro. E os que estarão presentes essa noite, vê essa mesma oportunidade.

Então pode-se dizer que o que vai rolar, é uma reunião exclusiva de empresários milionários, onde o verdadeiro cardápio consiste em ganância, interesses mesquinhos e dinheiro. Cada convidado irá trazer consigo um desejo insaciável de poder, e as conversas serão repletas de segundas intenções. Onde as máscaras de cordialidade mal esconderão a avidez que emana de cada palavra proferida.

Já estávamos na mesa quando meu pai chegou, observando atentamente tudo ao seu redor, se certificando que todos os detalhes estavam em andamento.

— Está fazendo um ótimo trabalho, querida. — Papai beija minha mãe antes de se sentar.

— Obrigada querido. — Mamãe sorri — Gostaria que mais tarde você aprovasse a cartela de vinhos e whiskys que serão servidos.

— Maxon pode fazer isso por mim, estarei fora essa tarde.

Não sei o que mais me intriga. Se é onde ele vai em uma tarde de domingo, ou ele ter me dado uma missão sem se preocupar com os resultados.

— Claro… onde vai? — Disse desapontada. Sei o que mamãe está pensando: tarde de domingo devia ser em família.

— Acertar os últimos detalhes de um documento com meus advogados. Hoje pretendo fechar algumas parcerias, e se ocorrer tudo bem, já quero esses documentos assinados.

— Chegue a tempo do jantar então. — Mamãe diz tentando disfarçar seu incômodo.

— Chegarei, não se preocupe.

O clima é tão pesado, que até para levar o talher à boca se tem dificuldade. Todos estão tão calados, presos em seus pensamentos e evidentemente, em suas frustrações. Mesmo tentando evitar, acabo desviando algumas vezes para o meu pai, é estranho vê-lo tão calado, pode ser besteira da minha parte, mas é torturante não saber o que passa naquela mente perversa.

Por azar, quando o olhei novamente, ele me fitava. Já disse que papai tem a habilidade de não deixar transparecer nenhuma emoção ou pensamento. Ele é mestre na arte da manipulação. Faz com que os outros vejam o que ele quer que vejam. É estupido tentar arrancar qualquer coisa dele. Mas algo eu percebi. Sua boca cheia de insinuações e insultos destinados a mim.

Balanço a cabeça, me negando a acreditar que um dia as coisas possam ser diferentes. Observo minha mãe discretamente, sentindo pena dela. Como uma pessoa tão doce, pode sentir compaixão por um crápula como Clarkson Schreave?

[...]

— Max… — Brice aparece em minha porta entreaberta.

— Diga princesa. — Fazia tempo que não dava um nó em uma gravata, como pode ser tão difícil?

— Os convidados já estão chegando, nossos pais o querem lá embaixo.

Bufo irritado com essa merda banquete e com essa merda de gravata que não se ajeita. Tento ajustá-la insistentemente por mais alguns minutos, com minha irmã em pé ao meu lado rindo do meu desastre.

— Foda-se! — Tiro a gravata com raiva e a jogo longe.

— Está tudo bem Max? — Brice pareceu se assustar com minha atitude.

— Está sim, desculpa princesa, eu só estou um pouco nervoso. — Visto o blazer sem a gravata mesmo e abro alguns botões da camisa. — Isso vai ter que servir. — Digo me ajeitando por fim, de frente para o espelho.

— Está lindíssimo! — Ela tenta envolver minhas pernas com seus bracinhos pequenos.

— Olha só quem fala… — a pego no colo — a garota mais linda do mundo!

Desço as escadas de mãos dadas com minha irmã. A casa já estava cheia de homens vestidos com ternos pretos, conversando animadamente ao lado de suas esposas, cobertas por vestidos deslumbrantes. Exagerados demais na minha opinião.

— Será que o Harold está? — Pergunta minha irmã baixinho.

— Quem é Harold?

— Meu namorado. — A olho abismado.

— Desde quando você tem um namorado?

— Desde que ele me pediu em namoro oras. — Ela joga os braços para cima como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Você não tem idade para namorar. — Digo com toda a convicção. Alguns podem até achar fofo. Mas eu com certeza não acho.

— E você para estar solteiro! Está com inveja por eu ter um namorado e você não ter nada.

— Como é!? — Agora eu tive que rir. Ela só tem sete anos, como pensa nessas coisas.

— O que você ouviu! — Diz convencida.

— Tudo bem, tudo bem! — Me rendo ao assunto — Tenho que falar com esse tal de Harold.

— Não seja ciumento Max, eu também amo você.

— Acho bom mesmo! — Acabamos rindo.

Nós dois sentamos em uma mesa, ela me contava do tal namoradinho que eu pretendo assustar para terminar com ela.

Onde já se viu ela com namorado. Não no mesmo universo que eu.

Me divertia com minha irmã, ela é a melhor companhia comparado a todos que estão presentes nesta noite. Uma pena o tal de Harold aparecer, ela nem pensou duas vezes em me abandonar sozinho para ficar com aquele projeto de menino.

Me pergunto se seria muito rude da minha parte me distrair com o celular. Fiquei o dia todo sem falar com a America. E que merda, foi só lembrar dela que comecei a sorrir como um imbecil, sem falar na saudade que deu as caras.

— Maxon! — A voz do diabo me chama. Meu sorriso se perde. — Que merda está fazendo aí sentado?

— Pai, não tenho nada melhor a fazer. — Respondo tentando evitar o desdém, pela minha mãe.

— Como não tem nada melhor a fazer? — Seu olhar frio me mede com indignação. — Nossa casa está cheia de pessoas importantes! — Diz com os dentes cerrados. — Anda, quero te apresentar uma pessoa.

Reviro os olhos e me levanto. Não vou ir contra a vontade dele, a saída disso seria ou um escândalo ou dona Amberly magoada. Nenhuma das opções me agradam.

Andei ao lado do meu pai, cumprimentando muitas pessoas. Parávamos para conversar o tempo todo e admito, gostei das conversas quando o assunto era economia, mas assim que notava a jogada de interesses daqueles sanguessugas eu revirava os olhos. Admirei muitas vezes a forma como meu pai se desvencilhou das pessoas e dos assuntos dos quais ele não tinha interesse.

Não posso negar, ele é inteligente. Penso que pelo menos uma coisa boa ele é capaz de nos oferecer.

— Aquele é o senhor Whisks, embaixador da Nova Ásia e sua família. — Meu pai me apresenta de longe. — A filha deles tem uma beleza exótica, não acha?

— Era só o que me faltava! — Exclamo de uma forma que apenas eu pude ouvir.

Claro que havia segundas intenções nessa família que ele queria tanto me apresentar. Melhor dizendo, a garota que ele queria que eu me aproximasse. E para ajudar, é exatamente isso que estamos fazendo agora, se aproximando da família de olhos puxados.

Conforme fomos chegando perto, a atenção da família voltou-se para nós. A garota logo me analisou e percebi seu sorriso de quem queria me dar. Não é a primeira vez que alguém sorri daquela forma pra mim.

— Parece que ela gostou de você. — Meu pai sussurra no meu ouvido transbordando de satisfação. — Não me decepcione, filho.

— O que espera que eu faça? — Como se eu realmente não soubesse.

— Sei que você entendeu. — Franzi o cenho. Ele nos para antes de chegar ao destino e me encara. — Não entendeu ainda? Pois bem… vou lhe explicar. Vai agradar aquela putinha asiática, seja como for, para facilitar a negociação com o pai dela, entendeu?

— Você é repugnante, não acredito que esteja me pedindo isso.

— Ah, por favor Maxon! — Diz com desdém — Não acho que seja tão difícil para você comer aquela garota. — Bufo pasmo com o atrevimento.

— Não conte com isso Sr. Schreave. — Tento dar as costas mas ele segura meu braço.

— Você vai fazer isso sim! Já chega de zona de conforto seu garoto presunçoso. — Seu cinismo é insuportável.

Nossa troca de olhares é desafiadora. Não havia ali um pai e um filho, e sim dois inimigos lutando por causas distintas.

— Quero ver você me… — ia dizer até ser interrompido.

— Senhores… — O homem de características orientais se põe à nossa frente.

— Senhor Whisks! — Reviro os olhos diante da falsidade. — Que bom vê-lo novamente.

O homem é serio, visivelmente difícil de lidar.

— Deixe-me apresentar meu filho, Maxon Schreave. — Papai se coloca ao meu lado e apoia a mão nas minhas costas, deixando claro que o filho prodígio sou eu.

— Muito prazer senhor Schreave. — O homem estende a mão.

— O prazer é todo meu. — Respondo forçadamente.

— Já conhece minha filha? — Ele olha para trás e a garota que parecia estar à espera de ser chamada, começa a se aproximar.

— Não tive o prazer senhor… — finjo um sorriso. Não a conheço e nem quero a conhecer.

— Essa é Elise, minha filha mais nova. — Apresenta a garota. — Ela está se sentindo meio deslocada desde que chegamos à Angeles.

— Tenho certeza que meu filho vai adorar ajudá-la a se sentir à vontade em nossa cidade, não é Maxon?

Só consigo xingar internamente esse filho da puta. Ele sempre consegue o que quer. Me sinto encurralado, tem forma de negar isso sem passar a ser odiado por um embaixador?

— Claro… — saiu com tão pouco entusiasmo que até eu me odiei.

— Fico feliz — o pai da menina diz, ela ficava como uma idiota escondida atrás dele — fiz questão de colocá-la no mesmo colégio que você. Angeles High vem sido um colégio de grande prestígio.

— É um ótimo colégio mesmo. — Meu pai diz antes que eu pudesse abrir a minha boca. — Maxon, porque não apresenta a casa a senhorita Whisks? — Seu olhar cínico me enjoa.

Raiva. Raiva me consome, mas graças ao meu amado pai. Aprendi a esconder o que sinto muito bem.

— Por que não? — Tento soar tão cínico quanto ele. — Me acompanha senhorita? — Estendi o braço para ela.

Elise só tem cara de sonsa. Se vê de longe que ela se faz perto dos pais. Deixou bem claro suas intenções quando apertava meu braço. Eu fico imaginando como a America surtiria vendo o descaramento dela.

— Você é bem forte não é? — que voz de meretriz. Apenas lhe dou um sorriso forçado. — Gosto de homens fortes. — Respirei fundo quando ela desceu sua mão pelo meu braço o apertando.

Se eu não tivesse a garota mais maravilhosa do mundo, não me importaria em transar com ela. Afinal ela é muito bonita, exótica, mas muito bonita. Sendo assim, tenho que me livrar dela o quanto antes, e foda-se Clarkson Schreave e a merda de seus acordos.

— Você não parece o tipo que dispensa uma garota… — seu descaramento está me deixando nervoso. — O gato comeu sua língua, senhor Schreave?

O que ela queria que eu dissesse? Será que não está claro que estou desconfortável com a proximidade dela?

— Seu pai sabe que você se atira para cima dos outros dessa forma? — Seu olhar contém malícia.

— Eu não vou contar se você não contar. — Ela passa seu dedo pelo meu paletó. Acabo rindo sem sentir graça.

— Não será necessário, porque não terá o que contar.

— Vai resistir a mim Maxon. — Fiquei chocado quando ela deixou as alças do vestido cair revelando seus peitos.

— Elise! Por Deus! — Levei as mãos à cabeça olhando para todos os lados, verificando se não havia alguém ali para ver essa barbaridade. Estamos no jardim de inverno, longe do local da reunião. — Ajeita isso agora e vamos sair daqui!

— Vai mesmo resistir? — Ela coloca os braços no entorno do meu pescoço. — Estamos sozinhos, mas se preferir podemos ir para o seu quarto.

Deus! Que provas são essas que o Senhor me coloca?

— Elise! Chega! Se afaste! — A empurrei e fui em direção a porta. — Espero que saiba encontrar o caminho de volta, ou se não venha logo! — Saí quase correndo.

Céus! Na minha própria casa! Se fosse em outra época, tudo bem. Mas agora eu tenho o que perder e a quem magoar.

Pra mim já deu dessa brincadeira. Vou para o meu quarto e permanecerei lá até o fim dessa merda de jantar.

— Maxon! — A cara de sonsa que não é sonsa me chama. — Espera!

— Elise caí fora, não vai conseguir nada comigo. — Aperto o passo, mas ela me alcança.

— Ok, eu já entendi, pelo menos me leve até lá da mesma forma que me tirou. — Ela agarra meu braço. — Aparências... — Diz convencida.

E ela tem razão. O que menos quero é ela aparecendo sozinha naquele meio e meu pai vindo logo me perturbar.

Chegando lá a soltei e fui decidido em direção as escadas, mas então, de uma forma surpreendente, uma cabeleira ruiva chama minha atenção.

— Não acredito… — falo e sorrio para mim mesmo.

Será ela mesmo? Mas o que ela faz aqui?

Meu coração acelera quando ela vira o rosto ficando de perfil, e eu comprovo que sim, é ela. Minha America.

Aquele sorriso de idiota está escancarado na minha cara outra vez, e quem diz que consigo tirá-lo? É totalmente involuntário.

Caminho até ela, sentindo de longe seu doce perfume. Meus instintos ficando a flor da pele. A vontade que estou de agarrá-la e beijá-la sem pensar no fim, é imensa. E não garanto que vou me segurar.

Ela parece perdida e procurando algo ou alguem. E como está linda… muito linda.

Me aproximo dela, sem me importar com as pessoas ao redor, chego perto do seu ouvido, me inebriando com cheiro gostoso do seu cabelo. Desde que esse evento foi anunciado, eu imaginava o tédio que seria, mas agora, faço questão de dizer apenas para nós dois.

— Esse jantar acaba de se tornar muito interessante.

Sorrio ao ver sua pele se arrepiar e seu corpo estremecer. Amo causar isso nela.

America se vira para mim com um olhar surpreso, como se não me esperasse. Mas logo seu rosto é tomado por um largo sorriso igual ao meu. Mas ainda com um “que” de dúvida.

— Maxon! — Exclamou maravilhada — O que faz aqui?