Fomaríamos um Maravilhoso Nós
39 Mar revolto - Part III
Minha boca estava quase no vivo, eu mordiscava meu lábio inferior nervosa enquanto seguia Maxon até o meio do gramado em direção as espreguiçadeiras alocadas lá. Certamente não iríamos conversar dentro de uma cozinha, e a ideia de se trancar em um quarto me sufocava. No fim, ali era perfeito. Ninguém nos ouviria e estava livre para me expressar ou correr se fosse necessário.
A brisa do mar soprava em minhas pernas e braços desnudos, ao longe, avistava as ondas fazendo seu trabalho escondidas atrás de alguns guarda-sois perdidos pelo mar de areia. O dia estava quente, perfeito para aproveitar uma praia, porém meu propósito agora, era outro.
O jardim da casa de Carter pode ser considerado grande, no perímetro, árvores sombreiam boa parte do gramado, assim como outras situadas em pontos aleatórios. Nossos acentos das revelações estavam em uma vasta sombra, protegidos dos raios quentes do sol. E quanto mais nos aproximávamos, mais eu sentia meu coração pulsar.
Era hora de Maxon e eu conversarmos. Não paro de pensar o quanto é triste precisarmos estar nessa situação, estávamos tão bem a semanas atrás. Lamento tanto pelo que já perdemos, por pensar que nosso tempo aqui está sendo desperdiçado, o quanto poderíamos estar felizes agora.
Maxon caminhava sabendo nosso destino, mas nunca o vi tão perdido e desorientado. Eu o observava caminhar de cabeça baixa, levantando poucas vezes para saber se estava na direção certa, e ao conferir, retornava aos seus notáveis sórdidos pensamentos. Vê-lo, me fez imaginar se ele estava repassando seu discurso decorado ou se estava buscando as justificativas. Não dava para saber.
Eu como já disse e repito, estou nervosa. E nossa caminhada lenta ao mesmo tempo que me estressava, me tranquilizava. Eu queria acabar logo com isso, mas o medo do que irá suceder me faz querer dar dez mil passos para trás.
Decidindo não me atormentar com isso, volto a Maxon e os porquês…
Porque ele sumiu? Porque me deixou? Porque não deu notícias? Porque foi atrás de Daphne? Porque só voltou agora?
Antes fossem só os porquês. Perguntas, além dessas, e ainda sem respostas brigavam por vez na minha cabeça, e não podia deixar de trincar a mandíbula sentindo uma raiva e tristeza imensa de Maxon enquanto tudo repassava na minha mente.
Ele ama Daphne? Me deixou por ela? Ele foi atrás dela? O que tanto essa garota significa? Seus dias matando a saudade foram o suficientes para voltar correndo pra mim? Eu sou uma segunda opção? É isso que irá tentar me explicar?
O pior, é que essas perguntas soavam mais como afirmações da minha consciência paranoica.
— Você está bem? — Fui despertada de meus devaneios por Maxon, nem tinha percebido que havíamos chegado.
— Você se importa? — Eu vi em seus olhos que ele queria responder que sim, que ele se importava muito, porém, ele entendeu que minhas perguntas e provavelmente minhas próximas respostas soariam como um ataque.
— Eu quero conversar America, não brigar, por favor — suplicou cansado.
Maxon tinha de fato uma aparência de quem não dormia a dias, mas seu físico se demonstrava forte, talvez mais forte do que nunca. Corridas matinais sem dúvidas lhe fizeram muito bem.
Eu não queria bancar a chata raivosa, mas as sensações plantavam-se em mim, não conseguia encarar Maxon sem lembrar do pouco que sabia sobre o assunto e não ficar enfurecida. Eu fui drasticamente afetada com suas atitudes, minha mágoa não permite que eu leve isso sem no mínimo fazê-lo sentir um pingo de dor também.
— Não haja como se apenas você estivesse sofrendo com tudo — o encarei desacreditada, soltando um riso sem humor.
— O que esperava Maxon? Que eu chegasse até você e te recebesse de braços abertos? Espera que eu seja amorosa com você quando você foi um babaca comigo? Acha que tem alguma razão nisso? — Ele não parecia ter coragem de olhar na minha cara.
— America, eu só quero ter uma conversa tranquila, não cheia de ataques e ofensas, como já vi que você está disposta a tornar tudo. Eu sei, eu mereço isso e muito mais, não nego. Mas não vamos conseguir nada se levarmos a esse rumo, por favor — ele fez menção de se aproximar, como tinha costume, mas percebeu que seria uma péssima ideia — vamos conversar com calma, ao menos tentar, por favor, eu imploro America, por favor…
Era notável seu desespero pelo tanto de vezes que implorou em uma só frase. No entanto, Maxon tinha razão. Meu temperamento não ajudaria, eu percebi que não estava ali disposta a ouvir, e sim, a mais uma vez descontar minha fúria e minha tristeza. Suspirei fundo e me sentei na espreguiçadeira rendida.
Aquele acento foi feito para se deitar e aproveitar o sol. Porém sua função foi completamente descartada por mim visto que, estamos na sombra e estou sentada em sua lateral, ignorando todo o seu conforto. Maxon não se demorou a fazer o mesmo, ficando de frente para mim, mas em uma distância respeitável.
— Eu queria primeiro… é… — Maxon pigarreou, meio sem jeito, coçando atrás do pescoço e… nossa!
Arregalei os meus olhos ao notar uma senhora marca roxa um pouco abaixo de sua orelha. Um belíssimo chupão. Seria isso obra minha? Oras, de quem mais poderia ser? Bom, vai saber… mas… talvez eu lembre de ter abocanhado sua pele com tanta saudade sem sequer pensar nas consequências essa madrugada.
— Queria pedir desculpas por entrar no seu quarto aquelas horas, ter te acordado e ainda… — ele suspirou pesadamente, porém eu vi, por mais imperceptível que fosse, vi um mini sorriso de quem definitivamente não se arrepende — eu não devia ter feito aquilo, me desculpa, eu juro que não sei o que deu em mim. Foi… foi uma necessidade que falou mais alto e eu saí me sentindo o maior infeliz do mundo. Eu juro que não fui lá com a intenção de te beijar ou querer algo a mais, isso não era certo… fui um filho da puta por não me controlar e deixar aquilo ir mais longe do que devia.
Escutava com atenção, porém, já concluí para mim mesma que nosso momento nessa madrugada não foi um problema, afinal, seria hipócrita em dizer que não queria, assim como ele também é um se negar isso. E por mais que me odeia em dizer, eu o entendo, pois ele descreve exatamente da mesma forma que eu o que aconteceu. Foi uma necessidade maior.
— Sei que você deve estar me achando ainda mais babaca, mas só queria que soubesse que…
— Eu sei Maxon — o interrompi num tom sério — não precisamos discutir nem explicar algo que nós dois queríamos — ele não esperava por essa. — Sim, eu quis aquilo tanto quanto você, portanto, a culpa também é minha. E mesmo que tivéssemos ido mais longe, sei que não me arrependeria, assim como você — não me orgulhava, e Maxon aparentemente também não. Mas essa era a verdade.
— Fico um pouco mais tranquilo — deu para notar.
Um silêncio se estendeu entre nós. Foi fácil falar sobre o que aconteceu a umas horas atrás, mas está sendo imensamente difícil abordar o que realmente nos trouxe aqui. Maxon torcia os dedos, passava a mão no cabelo e mirava a grama como se aquele pontinho verde pudesse lhe atribuir a coragem necessária.
Eu não estava muito diferente, cutucava minhas cutículas com a unha, tentando abafar a dor familiar que voltava a crescer dentro de mim. Eu tinha na minha frente, o amor da minha vida, a pessoa que mais me fez feliz em todos esses anos, que me fez conhecer o que é estar verdadeiramente apaixonada, viver o mais lindo que essa fase da vida pode proporcionar. Eu pensava nisso com veemência, encarando seu rosto derrotado em direção ao chão.
Porém, pensava também que essa mesma pessoa, me fez conhecer a dor do abandono, da traição e da saudade. Coisas pelas quais, não pensei que um dia seria submetida, principalmente depois de todos os desafios que enfrentamos. Eu ainda sentia raiva dele, mas era muito pouca comparada a tristeza que senti durante os últimos dias, sensação essa, que domina dentro de mim no momento, e essa, é a dor que ansiava por respostas, e que sem consideração nenhuma, me fazia derramar lágrimas, como agora.
— Porque Maxon? — Perguntei embargada.
Ele me encarou logo em seguida, seu olhar se entristecendo assim que viu meu estado. Algo me dizia que ele preferia ver minha fúria e receber minhas patadas, do que me ver dessa forma indefesa, triste e magoada. Porém, mal sabe ele, e mal eu sabia, que aquela America enfurecida era apenas uma máscara que coloquei, na tentativa de ocultar a falta de vida dentro de mim, apenas por orgulho.
Mas agora essa fachada já era, de algum modo Maxon me desarmou. Eu ouviria o que ele tem a dizer, me envergonhando por querer pagar de corajosa e sarcástica, quando na verdade, eu era apenas uma alma fraca.
— Meu amor — ele disse de uma forma sofrida, enxugando com o polegar, a lágrima que escorreu. Mas lhe dei mais trabalho ao fechar os olhos, apenas para sentir seu toque suave em minha pele outra vez, fazendo mais lágrimas escorrerem.
Eu sentia tanta falta do seu carinho, e mesmo com a bomba prestes a explodir ele se dedicava em deslizar como uma pluma seus dedos pelo meu rosto, e eu sem armadura nenhuma, adorava sentir seu cuidado, afinal, eu estava arrebentada.
— Não quero que chore — voltou a enxugar meu rosto. — Você não merece derramar uma lágrima sequer.
— Meio difícil Maxon — comentei chateada, tomando o lugar de sua mão secando meu rosto. Chega de carinhos. — É, e tem sido difícil não chorar.
— Eu sei… e não sabe como lamento, o quanto me odeio por ter feito você passar por isso.
— Então porque fez? — Perguntei na lata. — Porque fez isso?
Era notável seu medo, talvez da verdade, ou da minha reação, mas sabíamos que ele teria que se abrir uma hora ou outra. Tomando consciência, Maxon respira fundo e começa.
— Antes de mais nada — me endireitei, um frio na espinha me fez estremecer — você tem que saber que eu te amo America — eu não queria chorar mais, então com muito esforço, prendi a água que banhava meus olhos — você não pode duvidar disso em hipótese alguma — seu olhar era profundo, ele queria que eu realmente acreditasse — o que aconteceu não tem nenhuma relação com você, nem com o que sinto, onde eu juro por Deus, é o que tenho de mais verdadeiro no universo — disse aflito. — Eu sempre fui sincero com você, e nem pelo que fiz, você pode duvidar. Juro que se você duvidar do que tenho e sinto, tudo perde sentido na minha vida America, tudo. Eu posso viver com o seu rancor, mas nunca com sua dúvida.
Meu olhar estava estalado em Maxon. Se eu piscasse uma cachoeira jorraria em minha cara. Maxon já demonstrou sua sinceridade de muitas maneiras para mim, mas nunca como agora.
Talvez fosse pela sua voz tremida de desespero, ou por sua postura enrijecida, ou seus olhos pedintes, que eu acabei acenando com a cabeça, atendendo seu pedido de não duvidar do seu amor.
Mas eu estava sendo sincera? Ou só estava abalada com suas palavras e concordei por impulso? Não sei. Não sei dizer.
— Não pensei direito quando saí do colégio naquele dia. Fui egoísta o suficiente para deixar de lado quem realmente importava para mim — me encarou, entendi que esse alguém era eu. — eu só… só precisava ficar sozinho. Nicholas me fez votar para algo que não pensava a tempos, melhor dizendo, fez a lembrança… dela… retornar de uma forma dolorosa, e… e como disse, não pensei direito, só pensei nela… em Daphne.
Uma sensação terrível passou pelo meu corpo ao ouvir Maxon declarar o nome dessa garota pela primeira vez. Soou horrível, eu odiei, odiei de todas as formas e com todas as minhas forças como o nome dela saiu em sua voz.
Fiquei calada enquanto o silêncio predominava. Eu não era capaz de olhar nos olhos de Maxon, eu o mataria se o encarasse. Não era surpresa nenhuma que ele pensava nela, porém, o que eu mais temia durante todos esses dias estava acontecendo, estava prestes a ouvir de sua própria boca o que ela significou.
— Eu já a amei muito — uma pausa, se ele esperava uma reação, não teve, qualquer mínimo sinal meu agora seria como uma explosão. — E não vou mentir pra você America — odeio quando ele diz isso — ainda a amo… ela significa muito pra mim.
E tome este belo soco no estômago America.
Eu não sabia o que eu estava expressando por fora, visto que por dentro, estou um caos. Raiva, tristeza e mágoa. Essas três sensações me definem e brigam por vez dentro da minha mente. Eu temia ouvir de sua própria boca que ele a amava, todos os dias eu me perguntava isso e agora tive minha resposta. Mas não achei que ela seria tão clara e que principalmente, doeria tanto.
Era como se eu não precisasse de mais nenhuma explicação. Tudo já estava mais claro que água.
Ela foi embora, segundo Amberly, para outro país. Maxon teve que aprender a conviver com isso, guardando ou escondendo esse sentimento em uma profundeza, até ser despertado novamente com as palavras de Nicholas. E com um antigo amor revivido, surge a necessidade da busca.
Um nó apertado se formou em minha garganta enquanto observava as pessoas andando ao longe na praia. Elas olhavam em nossa direção, mas não imaginam a névoa densa que percorre entre nós. Minha cabeça parecia ter um disco arranhado dentro dela. A voz de Maxon passava e repassava no exato momento que ele disse que a ama. Me martirizando e me lembrando que ele poderia sim me amar, mas nunca foi meu por completo.
O mundo à minha volta podia explodir e eu não ligaria. A mistura de sentimentos não me deixavam decidir entre levantar e ir embora, continuar ouvindo o que ele tem para dizer, ou socar sua cara para descontar a raiva imensa que crescia dentro de mim, ao constatar que sim, ele provavelmente esteve com ela todo esse tempo. E bastou um dia sem que eu, a trouxa, lhe mandasse recados desesperados, para esse imbecil se tocar de que foi longe demais.
Eu não conseguia olhar na sua cara, mas Maxon fazia questão de se manter firme em mim, buscando sinais de se poderia continuar ou se deveria se proteger. Eu estava imensamente magoada, ignorando a ardência em meus olhos por evitar piscar por muito tempo.
É uma merda ter que aceitar que todo esse tempo você foi trocada, que o amor da sua vida, a razão da sua felicidade, te deixou por amar outra.
— Não me olhe assim, por favor — Maxon me pediu desesperadamente quando tomei coragem de encará-lo.
Agora eu precisei olhar em sua cara para saber o que faria com meu coração partido em milhões de pedaços. Não sabia como estava minha expressão, mas aposto que é uma mistura de decepção com tristeza.
— Como quer que eu te olhe? — Perguntei com a voz embargada. — O que espera de mim após ter a certeza que você me deixou por ela? — Ele queria negar essa afirmação, mas não podia.
— Me perdoa — Implorou com os olhos banhados.
— Você me largou sem notícias, ignorando minhas mensagens e ligações por estar com ela — me condenava por chorar, mas o que eu podia fazer?
— O que? — Soou confuso. Mas não me importei.
— E depois de tudo, ainda tem coragem de dizer que me ama…
— America… por favor, não faça isso… — o medo o fez reagir me interrompendo e segurando minhas mãos com força. Eu me sentia tão fraca e destruída, que me mantive ali.
— Não faça o que? Duvide de você? — questionei. Não sei em que momento ficamos tão próximos um do outro fisicamente. — Espera que eu acredite em um amor dividido, um amor que buscou por outro me deixando para trás?
— Buscou? — Juntou as sobrancelhas. — Vo-você acha que eu fui atrás dela? — Hipócrita, mentiroso, infeliz! — Eu não fiz isso… eu…
— Então fez o que?! — Indaguei querendo arrancar seus olhos. — Acha mesmo que vou acreditar que passou todo esse tempo sem dar notícias e nem sinal de vida por aí? — Maxon tinha os olhos arregalados, ouvindo minhas palavras cheias de ressentimento. — Principalmente depois de esfregar na minha cara que ama essa tal Daphne? Acredita mesmo que sou tão ingênua?
— Por Deus! Você entendeu tudo errado…
— Eu passei dias Maxon! — Continuei com os dentes cerrados, inclinando meu corpo em sua direção para ele sentir o peso do que diria. — Dias esperando por você. Preocupada. Chorando. Desesperada. Triste e desamparada. Pra você… — uma raiva tremenda passou a circular pelas minhas veias — PRA VOCÊ ESTAR COM ELA! TALVEZ ATÉ RINDO DA MINHA CARA!
Levantei em sobressalto, Maxon fez o mesmo, porém um pouco desequilibrado. Ele parecia espantado com minhas insinuações, gaguejava mas nada saía concretamente de sua boca.
— E-eu, nã-não fiz isso!
— PARA DE MENTIR PRA MIM! — Gritei assim que ele tentou se defender. Não entendia o porque ele queria me esconder isso. Ele não percebia que era pior?
— Por Deus America! — Esbravejou nervoso. — Eu não estou mentindo… eu não poderia….
— Você podia ao menos ter terminado comigo — disse soluçando, cutucando seu peito com meu indicador. — Ter me mandado pro inferno ou a merda — sentia minhas pernas fracas querendo ceder ao chão. — Devia ter tido um pouco de consideração já que diz me amar tanto, ao ter me abandonado por ela Maxon.
— Pela última vez, eu não…
— CHEGA! — Me esquivei para trás assim que ele veio na minha direção. Não queria ser tocada. — Chega de mentiras, chega! Chega! Chega!
Eu estava em um estado deplorável, chorando como uma condenada. Maxon deixava lágrimas perdidas escorrer, uma atrás da outra. Eu via a derrota expressa entre nós dois. De manhã temi o que sucederia dessa conversa, e nesse momento, com muita tristeza, determino que o que sucede é o nosso fim.
Maxon pode não ter dito com todas as palavras, mas estava estampado na sua cara a saudade que ele sentia daquela garota. Estava escondida atrás do desespero que minhas palavras causavam nele. Mas ele não conseguia esconder que nesse tempo, o que ele mais queria era ela, e não a dúvidas de que ele a teve.
Não posso suportar isso. Foram semanas sofrendo para simplesmente chegar aqui, constatar que todas minhas suspeitas eram reais e apenas perdoá-lo, ignorando tudo o que passei por sua causa. Talvez no fundo, eu sempre soubesse que não teria jeito e não seria capaz de perdoar, mas eu o amo demais para só descartar essa possibilidade. No entanto, Maxon conseguiu acabar com a ideia de um perdão.
— O que está fazendo?! — Aflito e atento, ele perguntou ao me ver tirar nossa aliança do dedo.
— Talvez sirva melhor no dedo dela — joguei aquela minúscula circunferência contra seu corpo, que levava junto, toda uma vida que já tinha planejado ao seu lado.
Maxon ficou estático e boquiaberto, observando aquele anel tão delicado, repleto de significados e amor, bater em si e cair como nada em meio a grama, se perdendo entre suas folhinhas verdes.
— Você não pode fazer isso — disse com dificuldade, seu peito arfando, subindo e descendo aceleradamente com os olhos cravados nos meus, suplicando para que eu voltasse atrás em minha decisão.
— Já fiz! — Isso doeu, e pelo soluço que ele soltou, deve ter doído nele também.
— Não! — Falou determinado, caminhando até mim disposto a tudo — não vai terminar comigo por achar que fui…
— EU NÃO ACHO MAXON! — Gritei sem paciência por ele decidir manter essa mentira. — EU SEI! EU! SEI!
— COMO AMERICA!? — Maxon berrou nervoso. — ME DIGA COMO PUDE ESTAR COM ELA TODO ESSE TEMPO SE ELA ESTÁ MORTA?!!!
Todas as palavras que eu já tinha formulado para jogar em sua cara congelaram assim como o ar que enchi meus pulmões. Morta? Eu ouvi direito?
— ME RESPONDA?! — Berrou, seu rosto levando uma cor vermelha pelo choro — ME RESPONDA COMO CARALHOS EU ESTARIA COM ELA SE ELA ESTÁ MORTA! — Ele chutou a espreguiçadeira a fazendo tombar, descontando o ódio que eu não sabia que tinha dentro dele.
Segundos depois, sua postura contraída foi cedendo, seus ombros caíram assim que seu olhar encontrou o meu, profundamente assustado e desacreditado.
— Morta! — Soltou derrotado, chorando de soluçar levando os joelhos ao chão. — Morta… — repetiu embargado, como se precisasse ainda se convencer desse fato.
Eu estava em pé a uma curta distância de Maxon, vendo-o se sentar esfregando o rosto com as mãos, e lá deixando elas apoiadas para se sustentar, pois evidentemente, ele também não tinha mais forças.
Meu corpo travou, paralisei com os braços caídos ao meu lado. Os únicos elementos que ousavam se mexer que me envolviam, eram minhas lágrimas que corriam pelas minhas bochechas coradas, e o meu cabelo pela brisa suave que o chacoalhava sutilmente.
A informação ainda estava sendo processada. Sentia como se ela estivesse me amassando, me apertando contra uma prensa de revelações que pesava toneladas.
Morta? Perguntava a mim mesma. Era até como se eu não quisesse acreditar. Durante essas semanas ela estava obstinada a invadir minha cabeça. Eu imaginei tudo em relação a ela, o que ela poderia ter de tão especial para Maxon decidir sumir por ela. Eu a odiei.
Céus! Eu a odiei por nada!
Tudo que pensei ao seu respeito não passa de suposições. Tudo que pensei a respeito dela e de Maxon!
Desviei meu olhar para ele, não sabendo ao certo o que deveria fazer com essa bomba que estourou. Ele brincava arrancando as folhas da grama, com uma perna esticada e outra dobrada, dando apoio ao seu cotovelo e a mão em sua testa. A ideia de me aproximar repassava em minha cabeça, afinal, essa revelação dá espaço a novas explicações.
No entanto, me sentia envergonhada em exigir isso dele. Não que Maxon seja inocente, mas claramente ele está abalado. Me pergunto se deveria ajudar, ou só deixa-lo sozinho. Realmente não sei o que fazer nem o que pensar. Meus sentimentos estão confusos, penso se ainda sinto raiva ou se me compadeci com sua dor aparente, pois nunca o vi dessa forma, nunca ele levantou a voz para mim daquele jeito.
— Foi por isso que sumi — Maxon falou num tom calmo, ainda dando atenção a grama. — Nicholas não tem muitos escrúpulos, até tira sarro do que ouve com ela, por isso ele me confrontou na cara de pau, além de querer criar uma briga entre nós dois, claro.
Involuntariamente, me aproximei de Maxon e sentei na grama a uma certa distância. Ele estava de costas para a casa, e eu de costas para a praia. Ainda estava abalada por ter todos os meus argumentos destruídos, mas Maxon resolveu continuar, e eu ouviria, porém dessa vez, quieta, porque definitivamente, eu não sei de nada.
— Como eu comecei a dizer — senti a acusação — eu a amei e ainda a amo. Daphne foi muito especial. Entrou na minha vida em um momento delicado, quando meu pai decidiu começar a impor responsabilidades e pesos que eu não tinha como responder ainda.
Não vou mentir, por mais que essa garota não esteja mais entre nós, é extremamente desconfortável saber sobre ela e o que significou na vida dele.
— Contudo, nós não daríamos certo — Maxon se arriscou em um olhar para mim, mas logo voltou a grama — eu sabia depois de um tempo de relacionamento. Nós brigávamos o tempo todo, discutíamos até na frente dos nossos amigos. O que rolava entre nós era algo extremamente tóxico mas que eu deixei levar, mas só por estar dependente dela — fez uma pausa. — Apesar das brigas, Daphne era doce, gentil — seu último elogio saiu engasgado — uma boa pessoa, e eu gostava disso — outra pausa para enxugar o rosto. — Só que não foi o suficiente para não nos desgastar mesmo que tentássemos ao máximo nos dar bem.
Lembro-me de Amberly contar que eles eram um casal imaturo, e nisso me questiono o porque dela não me dizer que Daphne havia morrido. Porque meus amigos não me disseram?
— Um dia antes de uma viagem que faríamos com meu pai, nós brigamos feio por eu decidir fazer um intercâmbio. Ficamos sem nos falar direito durante aqueles três meses. Já tinha percebido uma mudança no seu jeito de falar, mesmo que por mensagem de texto, e quando voltei, a surpresa — Maxon sorriu sem humor. — Encontrar ela quase sem roupas no sofá de sua casa, sendo metralhada pelos beijos de Nicholas, não foi muito interessante.
Maxon arrancou um graminha para depois socar a terra, ele estava frustrado, porém, não parecia tão abalado quanto deve ter ficado no dia. Dobrando a outra perna, ele apoiou seus antebraços sobre cada joelho e lá ficou brincando com o mato em suas mãos quando voltou a falar.
— Aquela foi minha primeira briga a socos com outro garoto, saí arrebentado mas ele saiu pior, como sempre — uma nota de orgulho. — Mas antes fosse arrebentado apenas fisicamente — suspirou cansado. — Aquele dia eu sofri a maior traição e desilusão da minha vida, eu voltei por ela, e a encontrei com outro… fiquei péssimo, sentia que havia perdido tudo que mais me importava na vida. Ela insistiu em pedir perdão muitas vezes, mas a mandei a merda em todas. Não suportava olhar em sua cara.
Eu tentava enxergar diante do que ele me falava a tal Daphne doce, gentil e gente boa. Todavia, para mim Maxon estava descrevendo um ser desprezível e egoísta.
— Os dias passaram e conforme fui absorvendo eu fui sentindo a falta dela — o olhei indignada. — Eu disse que estava dependente e meu pai um pé no saco. Eu pensei muito antes de ir atrás dela, e custou muito perdoar também, talvez eu tenha sido um imbecil em me deixar levar quando ela disse que nosso relacionamento estava em uma fase ruim, e o que ela teve foi um momento de fraqueza, sem importância.
Eu ia julgá-la, mas então, lembrei de mim e de Aspen. De repente minha boca ficou amarga lembrando do que fizemos. Olhei desesperada para Maxon perguntando se ele já sabia ou se um dia iria saber que tínhamos feito praticamente o mesmo!
Céus! Ele me perdoaria?
— Mas… — Maxon engasgou, tentando engolir o choro — quando… quando fui até sua casa… a empregada me avisou que ela e a família haviam partido. Eu tentei ligar, falar com ela mas Daphne sequer recebia as ligações… horas mais tarde — Maxon ainda tinha o matinho verde nas mãos, e mexia nele freneticamente, concentrando sua ansiedade ali — o baque veio com um noticiário na Tv, sua foto em um canto da tela e uma imagem aérea dos destroços do avião que a levava para a França.
Nessa hora ele desabou. Eu fiquei imóvel, querendo amparar sua dor mas não conseguia me mexer. Estava minimamente incomodada ao ter a prova do afeto que ele tem por ela, condeno esse ciume idiota que não me deixa confortá-lo. Eu não devia ser egoísta assim, é um caso totalmente diferente.
— Eu sinto muito… — foi o máximo que consegui fazer.
— Ela não merecia — disse entre soluços — não merecia… — largou o matinho e abraçou os próprios joelhos, chorando em silêncio. — Ela foi uma das melhores pessoas que eu já conheci, podia não dar certo entre nós, podíamos brigar e ela até me trair, mas ela era especial, cheia de energia, de boas intenções, uma pessoa alegre e contagiante. Ela não devia ter morrido, ela não tinha que estar naquele avião — Maxon tentava engolir o choro, mas tinha dificuldade com isso. — A última coisa que fiz foi brigar com ela, dizer que a odiava, que a desprezava.
Foi então que percebi. Maxon não estava mais tentando me explicar nada, ele estava desabafando. Estava descarregando um peso enorme que ele carregava sem nem mesmo perceber. Nós temos nossos problemas, mas por um mísero instante eu resolvi esquece-los, não podia ser uma filha da puta insensível agora.
Me arrastei na grama chegando mais perto, acariciei seu braço que abraçava sua perna. Sua pele estava quente e seu músculo tensionado, não conseguia ver seu rosto por estar abaixado, mas notei que sua respiração se acalmou com meu toque sutil. Me senti minimamente feliz em lhe proporcionar um pouco de tranquilidade diante das circunstâncias.
Saber o que houve com Daphne foi um golpe para mim também, uma morte trágica para alguem tão jovem, e ao que parece, cheia de qualidades. Eu entendia a dor de Maxon, não seria uma sem coração e deixa-lo sem amparo, por mais que ainda estivesse chateada com o que ele fez comigo.
— Tenho certeza que ela sabia dos seus sentimentos — é mais difícil do que pensei. Consolar meu namorado pelos sentimentos que ele tem por outra. — Não se martirize por algo que você não tem controle, tenho certeza que não é isso que ela gostaria se realmente ela era como você me disse… — afaguei seu cabelo. Com o gesto Maxon me encarou.
— Obrigado — ele sorriu fraco, retribui da melhor forma que conseguia, que não foi muito. — Bem…
—Não precisa continuar a explicar — o cortei — você não está bem…
— Não — agora ele me cortou — eu não posso deixar você ir sem que me ouça.
— Tudo bem — me dei por vencida.
Ele ajeitou seu cabelo e suspirou antes de voltar a falar. Não pude deixar de notar como estávamos próximos agora, meu braço encostava no seu me lembrando como é magnífica a sensação de ter minha pele na sua, sem falar em sentir o seu cheiro, tão familiar e perfeito pra mim.
— Todas essas lembranças caíram de paraquedas assim que Nicholas perguntou se ainda era apaixonado por ela. Mas no momento eu não pensava na resposta em si. Como eu disse, eu pensava nela, no que aconteceu, no que ela significou e como tudo foi muito injusto. Saí indo direto para o meu apartamento e para a minha má sorte encontrei meu pai lá — quem gemeu frustrada foi eu. — Não vou entrar em detalhes da discussão que tivemos, não foi muito agradável como de costume. No fim das contas, ele não ia embora nunca, então quem decidiu ir fui eu. A noite cheguei na casa de Carter e pedi as chaves daqui.
— Passou todo esse tempo aqui? — Perguntei desacreditada.
— Passei — me olhou profundamente, seus olhos brilhando por ainda estarem cheios d’água. — Cheguei abalado pra caralho, pensava nela, na forma que morreu, nas minhas últimas palavras, na última vez que a vi… fiquei uma semana trancado no quarto até decidir ver o celular.
Essa era a parte que me tocava, e a qual ele se envergonha pelo que notei em sua postura.
— Muitas mensagens e ligações suas — as lágrimas brotavam devagar no meu olhar — só então eu me toquei na merda que fiz — me encarou tenso. — Li e escutei todas as suas mensagens e senti um enorme desespero, eu sabia que você devia estar puta comigo e eu queria pensar na melhor forma de explicar sem você me odiar mais ainda. Não tinha coragem de atender e nem de responder. Você estava e está tão magoada, e um medo sem tamanho de te perder me fez adiar cada vez mais esse encontro. Não sabia como você receberia minhas explicações.
Quem brincava com a grama agora era eu. Descontando o que queria estar descontando em sua cara. É sério que ele passou duas semanas me ignorando de propósito? Onde ele achou que deixar o tempo passar seria melhor?
— Naquele dia que não recebi nenhum envio seu, fiquei desesperado. Carter não me atendia e a única que sentia confiança para me falar de você era Celeste. Que me deu um banho de água fria depois de me xingar com todos os insultos existentes. Por fim contei a ela, e marcamos sem mais enrolação a vinda de vocês pra cá.
— Você não devia ter se escondido — foi o que disse assim que consegui. — Devia ter falado comigo desde o primeiro momento Maxon — sua expressão se contorceu — eu fiquei tão preocupada, pensei o pior em todos os sentidos. Achei que estava me traindo com ela… percebe o que tudo isso causou?
— Eu me arrependo tanto America — respondeu prontamente. — Fui um fraco, me deixei levar pelas emoções te deixando de lado, sendo um desgraçado não só com você mas com todos. Uma pena eu ter percebido isso tão tarde.
Olhei adiante, estamos um pouco afastados da casa, pelas janelas podia ver todos os meus amigos sentados no sofá, aguardando o nosso retorno. Via-se de longe o quanto eles estavam ansiosos por nós, pelo que irá acontecer, e novamente, um aperto se dá dentro de mim.
O que eu faço?
Todas as cartas estão na mesa. Eu entendi as razões de Maxon, sei que ele sofre com a morte de sua ex, e agora entendo o impacto dela em sua vida. Mas e eu. Eu nessa história importou tão pouco assim?
— Eu amo você — disse ele, parecendo adivinhar meus questionamentos — você é a minha vida America, e se quer saber… — nossos olhares se encontraram — o que eu senti por Daphne não chega nem perto do que sinto por você — soltou um riso levando uma mexa do meu cabelo para trás da minha orelha. Tal gesto fez meu corpo tremelicar — não dá nem para comparar. Sei que disse que amo Daphne, e não é mentira, só é um amor totalmente diferente, algo mais singelo e protetor.
Maxon talvez não percebesse, mas saber disso é extremamente significativo para mim.
— Já o meu amor por você — ele sorri — transcende esse mundo, esse universo! É uma certeza que tenho convicta, como se eu nascesse pra isso, para amar você e viver centenas de vidas ao seu lado — nós não percebemos, mas quando percebi, nossos rostos estavam a centímetros. — Você é a minha garota, e sonho com o dia que será minha mulher, por que é sobre isso o meu amor, um futuro, um sonho, uma realidade que tenho como meta. É algo maior e inexplicável, que desejo do fundo do coração demonstrar a cada dia.
Filho da mãe é muito bom as palavras. Estou hipnotizada com sua declaração e com seu castanho tão intenso expressando essa verdade. O calor da sua respiração misturando-se com a minha é com certeza algo que desejo para a vida toda. Completamente perdida pelo amor que sinto por Maxon, eu torno nossa proximidade ainda menor, esquecendo qualquer desavença ou mágoa. Eu apenas queria um beijo. Um beijo para selar essa paixão.
Um beijo que não veio, por ele se esquivar.
— Mas eu falhei com você — seu tom era triste, o que me fez acordar do transe que estava — fiz você sofrer, sem você merecer. Se nem mesmo eu me perdoo por isso, como posso querer que você me perdoe.
— Maxon…
— Vou entender se realmente quiser terminar comigo, se decidir deixar que aquela aliança se enterre nesse jardim.
Uma angústia enorme cresceu em mim ao lembrar que havia terminado com ele a pouco tempo atrás. Contudo, foi antes de saber a verdadeira verdade. E a pergunta é: o que eu faria com isso? Realmente era aquilo o que eu queria? Terminar? Acabar com o que temos? Eu queria isso?
Certamente essa não é a hora para tomar decisões.
— Eu também amo você Maxon — seu rosto se acendeu em esperança. — Eu jamais poderia negar isso. Mas, eu… eu preciso de tempo…
— Quer dizer que quer terminar por um tempo? — Perguntou apavorado.
— Não, não terminar — ele voltou a respirar. — Só um tempo para absorver tudo. Foi muita coisa e eu estou perdida, não sei o que pensar, nem o que fazer. Foi uma decisão precipitada jogar a aliança em você.
— Que bom que você também acha — sorrimos pelo pequeno humor presente na sua fala. — Mas… estamos namorando ainda? — Franzi o cenho com sua pergunta. — Eu só quero ter a certeza para…
— Para? — Instiguei ele a dizer assim que ficou receoso em continuar.
— Para… — meu coração acelerou quando o vi aproximar, seu nariz roçando no meu de uma forma inesperada, murmurando num tom quase inaudível — para poder fazer isso…
Com um aviso prévio, porém sem dar tempo de processar, Maxon segurou meu rosto e juntou nossos lábios. A surpresa me fez ter vontade de sorrir. Mas a necessidade fez com que eu me controlasse para retribuir. Eu estava em um gramado, mas seus beijos me levavam ao céu, principalmente quando se trata de um beijo digno de matar saudades, onde línguas se enroscam e lábios saem mordidos.
— Desculpe — falou Maxon ao se afastar ofegante, um sorriso idiota perdido em sua boca — eu tenho que aprender a me controlar.
Eu diria a ele que não me importo com seu descontrole, mas se eu quisesse saber como proceder daqui pra frente, teríamos que cuidar para que não volte a acontecer.
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